sábado, 24 de outubro de 2015

Natália Correia - Ode à Paz

* Natália Correia


Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, 
Pelas aves que voam no olhar de uma criança, 
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza, 
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança, 
Pela branda melodia do rumor dos regatos, 

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia, 
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos, 
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria, 
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes, 
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos, 
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes, 
Pelos aromas maduros de suaves outonos, 
Pela futura manhã dos grandes transparentes, 
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra, 
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas 
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra, 
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna, 
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz. 
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira, 
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz, 
Abre as portas da História, 
                               deixa passar a Vida! 

Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)" 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Ninguém pensou fora do paradigma

30 abril, 2011


Ninguém pensou fora do paradigma e o desastre ou foi eminente ou até mesmo aconteceu...

.


Partiu a embarcação presidencial como era sua rotina, mas em manhã de grande nevoeiro. A bordo, acompanhando o poder, seguiam as forças da nação e uma representação das classes apoiantes. Assim, todos os que contam, seguiam na embarcação rasgando o cada vez mais denso nevoeiro. As gaivotas só se viam quando seu voar se aproximava da torre de comando, cruzando olhares com o comandante do navio, parecendo que do céu nasciam para vir saudar os navegantes. Tudo corria normalmente, quando ao longe, muito ainda, uma luzinha pequenina e intermitente anunciava uma presença ainda distante. Pesqueiro? Carregueiro? Navio estrangeiro? Só podia ser estrangeiro, pois todos os de suas outras frotas tinham conhecimento da proibição de se fazerem ao mar em dias de o presidente e sua gente por lá andar. Mandou o capitão reduzir a marcha e fazer soar sonoramente a sua presença. À luz inicial e intermitente, agora mais próxima, outra mais pequena, fixa e de cor vermelha se juntou, mas sempre naquela rota, sem qualquer indicação de se estar a desviar. "Que impertinência", pensava o comandante perante a adversa posição. Nem sequer a ansiedade se espalhou, pouco crente em qualquer desobediência. Mas as luzes, cresciam, cresciam à aproximação. Da estupefacção passou o capitão à procura do que fazer, junto do alto poder. "Acabará por se desviar", responde o eleito. Mas nada do que esperava ia acontecendo. "Só pode ser estrangeiro e mal informado" pensava a entidade patriarcal. "Só pode ser alguém mal intencionado" dizia alguma oposição, também ela embarcada. Ninguém opinou contra a corrente, esses ficaram em terra. A luz estava à distancia da voz e gritou o clero em latim claro. "Afastai-vos por amor do Senhor, pois o poder tem um rumo". E nada, a luz estava parada. "Afastai-vos, é uma ordem senão serão confrontados com o poder da artilharia", disse um ministro já um pouco aflito. E nada, a luz continuava parada. Todos os ministros falaram, em bom inglês que já era, na altura, uma boa língua para um entendimento universal. E a luz nada. Até que a parte do povo que ia a bordo, gritou em coro: "Retirai-vos, deixai a barca seguir o destino". Foi então que do outro lado a resposta, angustiada se fez ouvir, por dentro do ainda mais denso nevoeiro: "Daqui fala o faroleiro, ou a barca desvia o rumo ou vai tudo para o galheiro"....

Escolha o leitor o destino da barca. Se teve, ou não, tempo para o desvio. Se o homem do leme reagiu mais rápido que a contra ordem do poder e se o inevitável rumo era viável à barca e se, durante a leitura pensou, uma vez que fosse, fora do paradigma daquele navegar...

Texto que recupera, da memória oral, uma definição possível para o que seja um paradigma


http://conversavinagrada.blogspot.pt/2011/04/ninguem-pensou-fora-do-paradigma-e-o.html

 06 maio, 2011
  


Que luz vem do farol? Que nos dizem os faroleiros?

Num post de há poucos dias atrás, falava do paradigma do rumo "inevitável" e da "certeza" dessa inevitabilidade por parte de todos os que iam na barca - representação figurada daquela parte do país condicionada à opinião única e ao pensamento dominante. Escrevia aí, que poucos ficaram em terra, auto-excluindo-se da barca, pelo que (reconheço agora) a figura da barca deixava uma ambiguidade grave: a barca significava o país ou apenas o paradigma em que uma parte dele vive, com a definição (também já feita) do que entendo ser essa coisa de paradigma, palavra tão pouco frequente entre muito douta gente. Escrevo agora a desfazer equívocos fazendo-o num botequim canarinho, rodeado de gente amiga e quase me cruzando com Mia Couto, que acabado de sair daquele lugar deixava palavras no ar: "O Brasil vai ser a nossa estrela guia", era o que dizia, deixando-me a angústia de o não poder repetir, preso ao lado do paradigma que me deixa amarrado a esta Europa lorpa e a braços com um outro lado que é o resultado das agências de rating já traduzido num plano de resgate que nos evita, por uns tempos, a bancarrota. O terceiro lado da paradigma, enfabulando (lembra-se do video?)o que se passava na terra dos ratitos que só elegem gatos para os governar, degladiam-se os partidos credíveis (os gatarrões) sobre as estratégias eleitorais e outras coisas mais daquelas que são usadas para obter votos dos ratos e de caneta aprontada para assinar o resgate e o fazer aprovar na Assembleia. Os fazedores de opinião (o quarto lado do quadrado) mostram-nos diariamente com uma insistência frequente, não vão os ratitos pensar fora do que a inevitabilidade forjada possa ser contestada... Deixemos as imagens e as metáforas por momentos (a custo o faço) e falemos um pouco mais directamente: 

QUEM SÃO E QUE DIZEM OS FAROLEIROS SOBRE O PROCESSO DE SALVAÇÃO ?


Eram de inicio poucos ou poucos eram os que acendia luzes de alerta no nevoeiro. Traduzindo a imagem pelo significado. Só os partidos da esquerda (que chamam de radical) se opunham à chamada de estrangeiros para a "ajuda" externa. Até que a imprensa estrangeira acende faróis. Ao farol New York Times, segue-se o Daily Telegraphe agora o Le Monde Diplomatique. Dizem estes faroleiros o que os fazedores de opinião calam, limitando-se os jornais portugueses a dar pequeno espaço aos alertas dados pela esquerda: o processo é antidemocrático e o pacto, assinado por um governo demitido (eventualmente aprovado por uma Assembleia já dissolvida) é um embuste. Certamente que o povo irá participar nas eleições menos democráticas da história da nossa recente democracia...


QUEM SÃO E O QUE DIZEM OS FAROLEIROS SOBRE O RUMO QUE A BARCA LEVA?


No nevoeiro espalhado pela imprensa, televisão, fazedores de opinião ditos credíveis, encartados economistas e outros colunistas eram poucos os que acendiam a luz de alerta quanto a alternativas. A pressão da banca para o resgate urgênte da dívida aparecia como a única saída. A bancarrota o medo das prateleiras vazias e da falta de dinheiro para pagar salários era a toada para vergar a resistência onde ela ainda havia. Eram poucos. Os mesmos da dita esquerda radical. Em 6 de Abril, em Conferência de imprensa, o Partido Comunista, acende a luz da alternativa, com a proposta: "A renegociação imediata da actual dívida pública portuguesa – com a reavaliação dos prazos, das taxas de juro e dos montantes a pagar – no sentido de aliviar o Estado do peso e do esforço do actual serviço da dívida, canalizando recursos para a promoção do investimento produtivo, a criação de emprego e outras necessidades do país. A intervenção junto de outros países que enfrentam problemas similares da dívida pública" . O nevoeiro esconde a proposta por impossível e torna a voz deste faroleiro inaudível. Sobre ele recaem as maiores e terríveisacusações perante a renúncia em negociar o resgate. Tiro no pé, há quem diga. Gente oportunista, outros acusam. Mas os dias passam e surgem outros faroleiros dando o mesmo alerta:


"Portugal deve também reestruturar a sua dívida? - Claro que sim. Não existe alternativa quando a dívida deixa de ser suportável. Portugal tem uma boa razão para entrar emincumprimento. Ao contrário dos gregos e dos irlandeses, não se pode censurar os portugueses por terem cometido infracções estatísticas ou criado um sistema bancário com uma dimensão inadequada para o tamanho do país. A Grécia é um caso de falência criminosa e manipulação estatística. O verdadeiro problema de Portugal é a competitividade. E uma reestruturação seria viável." Markus Kerber, in Jornal i, 14 de Abril


"O governo português pode usar como arma negocial a reestruturação da dívida se considerar que o programa de ajustamento exigido ao país é demasiado severo", avisa o economista Álvaro Almeida. O português trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI) entre 1997 e 2000 e participou na negociação dos programas de México, Arménia e Venezuela". In Jornal i, 14 de Abril

concluímos que, na ausência de uma reforma institucional da UEM, sair da Zona Euro constitui uma opção política séria para Portugal.” Pedro Leão e Alfonso Palacio-Vera, disponível como documento de trabalho no Levy Economics Institute, um dos principais centros de investigação keynesianos nos EUA. In Ladrões de Bicicletas, 26 de Abril

"Questionado sobre a posição defendida por economistas como Paul Krugman no sentido de que Portugal terá que reestruturar dívida, o presidente do banco sublinha: "Por deformação profissional tenho mais respeito pela opinião das pessoas que fazem e não das que comentam. Não atribuo às palavras do s. Krugman a mesma importância que vocês. Ele ganha dinheiro a vender livros e fazer conferências. Dou mais importância ao que diz Merkcel, Sarkosy e Durão Barroso… in Jornal i, 28 de Abril


"Saída do euro ou resgate? Economistas discutem opções. - Jens Bastian, de Atenas,Marc Coleman, de Dublin, Niño Becerra, de Barcelona, e Ricardo Cabral, do Funchal, trocam argumentos sobre as opções que se colocam aos quatro países da zona euro em situação de crise de dívida, ainda que em graus distintos." In Semanário Expresso, 30 de Abril


"Por isso, entendemos que Portugal deve propor à Espanha, Grécia e Irlanda a criação de uma frente diplomática comum tendo em vista renegociar as respectivas dívidas e obter da UE derrogações ao Tratado que permitam a estes países adoptar políticas económicas favoráveis ao seu desenvolvimento, com destaque para uma forte política industrial e medidas de discriminação positiva para o sector exportador." in Manifesto «Convergência e Alternativa»


QUE VAI ACONTECER EM 5 JUNHO?


Saio do botequim com este texto denso e extenso para editar e a pensar: "Irá o nevoeiro esconder as alternativas e o povo votar um timoneiro que conduzirá a barca contra os rochedos? Ou será que o povo obriga a um outro homem do leme e a novo comandante? Talvez que o mais certo seja o dizer adeus à soberania..."


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Brecht - O Vosso tanque General, é um carro forte

 * Bertold Brecht


O Vosso tanque General, é um carro forte

Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
- Precisa de um motorista 

O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
- Precisa de um piloto. 

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
- Sabe pensar

http://pensador.uol.com.br/frase/MTQ5MDgz/

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

de Porfírio Silva a Luis Miguel Cintra, um poema

(para o Luis Miguel Cintra, com Lorca ao fundo)


não é o dono, Federico, que complica:
que as cheias devastem as habitações
enquanto corpos secos povoam as terras,
que os animais do campo escrevam os contos edificantes
esquecidos pelos bichos das repúblicas,
que deve isso ao dono ou à sua ausência?
quem viu, Federico, que a ferida estava no brinquedo,
no próprio brincar sem folguedo, foi o Luis Miguel,
com peças várias da tua herança,
esquecendo por momentos a teologia do dono,
arriscando mesmo um certo panteísmo
para mostrar a diversidade dos jeitos, 
a pluralidade dos modos em que somos
brinquedos quebrados, sim,
mas tão-somente das mãos e juízos uns dos outros.

é terrível a vida simples:
o mundo é um brinquedo sem o conforto do dono,
mas contigo nós atravessámos a cidade como navios do deserto
transportando a água que calou por momentos os calvários dentro de nós.



(9 de Março de 2014, dia das últimas representações de “Ilusão”, no Teatro da 

http://maquinaespeculativa.blogspot.pt/2015/10/ainda-bem-que-nao-fui-cornucopia-este.htmlCornucópia

sábado, 17 de outubro de 2015

Manuel Cruz -- a fúria dos papagaios




Sócrates libertado quase ao fim de um ano, sem acusação mas com muitos, muitos indícios e, definitivamente, condenado pela populaça ao pelourinho, a arraia miúda e graúda que acorreu ao chamado do deus PAF e lá foi, cantando e rindo, levados, levados sim, entregar-lhes o voto porque o PS tem um ex-primeiro ministro preso e, de cada vez que governa, leva o País à falência para vir, depois, o PSD salvar a situação e livrar os portugueses, a ordem que se segue é puramente arbitrária, da fome, do desemprego, dos salários de merda e da merda de vida. Esse mesmo PS que sempre foi um partido altamente responsável mas que, dizem os endireitadores virando o bico ao prego com a cabeça ou com os cornos, mais uma vez a ordem é arbitrária, está desta feita a colocar o País na mão dos comunistas. Dos comunistas, vejam lá!, essas criaturas que nunca quiseram governar nem deixar governar, imobilistas e dogmáticos, estão a delapidar a sua longa tradição de partido de protesto para vir negociar com o PS. Que descaramento! Já não há honra! Já não há palavra! Já não há nada nem ninguém que se aproveite à esquerda do PSD, canhotos, trafulhas, trapaceiros esses do PS e mais quem os apoiar, que ora agora dizem uma coisa ora logo juram outra, matreiros, mentirosos, pulhas que o que querem é governar para repor os salários dos portugueses, atenuar a austeridade, tornar Portugal num país onde apeteça de novo viver, onde é que já se viu o despautério, a aleivosia, o atrevimento desta gente em vir escangalhar o trabalho de quatro anos de Passos e dos seus comparsas na reconstrução do País salazarento de outros tempos sem contratempos nem contras, que esses estavam no bom resguardo de calabouços e frigideiras. 

E os jornalistas, senhores? E os comentadores? Cheios de justa raiva, falam, falam, falam, atiram-se ao Costa como gato à posta, invocam o cherne e as xaputas e as prostitutas e os chulecos da Nação, os anjos e arcanjos da direita beata, purificada com incensos e águas-bentas, purificadora de pátrias, consolação de cabrões, e de poltrões e de aldrabões e de banqueiros em aflição. Entrevistam Costa como se lhe fossem bater, peroram horas sem contraditório, asfixiam, envenenam, rebuscam argumentos que repetem, repetem, repetem sempre com palavrotas astutamente pensadas pelos think tank e marketeers dos partidos que eles, senhores jornaleiros e doutos opineiros, apoiam e aprovam, a direita direitona, a direita endireitada, a direita putíssima, a direita dos endireitas de Portugal e das províncias ultramarinas, que o terror por comunistas, rebeliões e revoluções faz evocar as glórias de outros tempos no linguajar dos escrevinhadores da situação, fachos empoleirados, intelectuais encadernados e a santa padralhada que agora está com Francisco, o Papa, mas que dantes estava com Francisco, o Franco. Mais o António e o Benito, que tudo isto é muito bonito mas dantes é que era lindo, de negro se vestiam os padres e se cobria o País. 

Vivemos tempos de espanto. E de horror. Nunca tantos desceram tão baixo, tirando a máscara e mostrando as verdadeiras fuças, de assalariados contratados para papaguear o dono e incitar as massas à revolta, à ida à Alameda em salto alto e Chanel vociferar contra Costa, esse Cunhal disfarçado, esse esquerdista desalmado, esse "qué frô" despeitado.

Sempre que Portugal estiver em perigo, chamem os papagaios.

Resulta.

Jean Christophe, de Romain Rolland





SEXTA-FEIRA, 3 DE JULHO DE 2009


O BELÍSSIMO JEAN-CHRISTOPHE DE ROMAIN ROLLAND EM FRAGMENTOS ESCOLHIDOS


QUEM?

Romain Rolland (1866/1944). Talentoso novelista, biógrafo e músico francês. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura no ano de 1915. Sua sensível obra concilia o idealismo patriótico com um internacionalismo humanista, além de demonstrar profunda compreensão sobre a alma humana. Escreveu peças de teatro, biografias como a Vida de Beethoven e Mahatma Gandhi, e o espetacular romance Jean-Christophe. Em 1923, fundou a revistaEuropeRomain Rolland fez uma importante observação sobre o livroO Futuro de uma Ilusão de Freud. Esta observação foi a premissa usada por Freud para escrever o seguinte livro: O Mal-estar na Civilização. Quando o filósofo político italiano Antonio Gramsciescreveu, na prisão, que o "pessimismo da inteligência" não deveria abalar o "otimismo da vontade", estava citando Romain Rolland.

*
COMENTÁRIO

Só lê Jean-Christophe, o romance do francês Romain Rolland, quem tem fôlego de alpinista e ama de fato as Letras. Ou então, é viciado em literatura e livros clássicos imortais. E, especialmente, quem dispõe de tempo, artigo de luxo nos dias corridos que vivemos hoje. Sim, porque a obra é bela, indubitavelmente, mas muito extensa. São, nada mais nada menos, que cinco volumes de quatrocentos e tantas páginas cada um. Em peso, deve dar uns cinco quilos ou mais de literatura fina e fluida, embotada de sentimentos humanistas e filosóficos interessantíssimos que, realmente, validam sua dilatada estatura e extensão, e com certeza encantará os leitores mais sensíveis que se aventurarem a lê-lo. Sem dúvida, vale a pena. No romance existem centenas de belas passagens, que dariam, com certeza, para encher todo um Blog com seu conteúdo de inegável relevância literata. Na impossibilidade de citar tudo que é notável na referida obra, seguem aqui algumas poucas citações, pequenas pérolas, das muitas que abundam na obra deste brilhante autor francês do tão recente século XX.

*

CITAÇÕES
Sobre a riqueza:
"Todo rico é um ser anormal... Estás rindo? Zombas de mim? Ora essa! Sabe lá o rico o que é a vida? Fica ele acaso em comunhão com a rude realidade? Sente ele no rosto o sopro feroz da miséria, o cheiro do pão por ganhar, da terra a revolver? Pode lá compreender, pode ver sequer os seres e as coisas?..." (pág223/vol.IV)



Sobre a arte de escrever:

"Olivier não era bastante forte para lutar. Também ele mudara. Deixara o magistério, não tinha mais tarefa obrigatória. Escrevia somente, e o equilíbrio de sua vida se modificara. Até então, sofrera por não poder entregar-se inteiramente à arte. Agora, era todo da arte e sentia-se perdido no mundo das nuvens. A arte que não tem por contrapeso um ofício e por base uma forte vida prática, a arte que não sente na carne o aguilhão da tarefa cotidiana, a arte que não tem necessidade de ganhar o pão, perde o melhor de sua força e da sua realidade. É a flor do luxo. Não é mais (o que é nos maiores artistas) o fruto sagrado do esforço humano... Olivier conhecia o ócio: Para que? Nada mais o apressava: deixava a pena devanear, flanava, sem rumo." (pág253/vol.IV) 


Sobre os gênios e o público:

"O público não suporta os gênios, senão em doses infinitesimais, raspado, limado, depilado, untado com os unguentos em moda..." (pág286/vol.IV)


Sobre o instinto e as tentações:

"Quando se cala a vontade, o instinto fala; na ausência da alma, o corpo segue o seu caminho." (pág293/vol.IV)


Sobre valores:

"- Sim, eu sei, isto lhe parece uma barbárie pré-histórica: matar! É preciso ouvir essa linda sociedade parisiense protestar contra os instintos brutais que levam o macho a matar a fêmea que o engana, e preconizar a indulgente razão! Que bons apóstolos! É uma beleza ver essa matilha de cães de má cruza indignar-se contra a volta à animalidade. Depois de terem ultrajado a vida, depois de a terem desvalorizado por completo, cercam-na de um culto religioso... O quê! Essa vida sem coração e sem honra, essa matéria, esse pulsar de sangue num pedaço de carne, eis o que lhes parece digno de respeito! Toda a consideração é pouca para essa carne de açougue; é um crime tocar nela. Matem a alma, se quiserem, mas o corpo é sagrado..." (pág333/vol.IV)


Sobre a amizade:

"É uma coisa tão rara dois seres que se compreendem, que se estimam, que sabem que estão seguros um do outro, não por uma simples crença de amor muitas vezes ilusória, mas pela experiência dos anos passados juntos, anos sombrios, medíocres, mesmo com - sobretudo com a recordação dos perigos que vencemos. À medida que se envelhece, tudo se torna melhor." (pág335/volIV)


Ainda sobre o gênio e seu meio:

"Agora que todos estavam bem convencidos de que tinham um gênio no meio deles, esforçavam-se, segundo o costume, por abafá-lo. Essa gente só tem uma ideia; ao ver uma flor: pô-la num vaso; ao ver um pássaro: engaiolá-lo; ao ver um homem livre: fazer dele um lacaio."


Sobre a juventude:

"Toda geração nova precisa de uma boa loucura. Mesmo nos mais egoístas dentre os moços há um excesso de vida, um capital de energia que não quer permanecer improdutivo; procuram gastá-lo numa ação, ou (mais prudentemente) numa teoria. Aviação ou Revolução. Esporte dos músculos das ideias. O moço precisa ter a ilusão de que participa de um grande movimento da humanidade, de que renova o mundo. Nessa idade, os sentidos vibram com todos os sopros do universo. Somos tão livres e tão leves!"
"E além disso é bom amar e odiar, e crer possível transformar a terra com sonhos e gritos! Os jovens são como cães de um alcatéia: fremem e ladram ao vento. Uma injustiça cometida no outro extremo do planeta os fazia delirar..." (pág13 e 14/volV)
*
Brilhantemente, sobre a confecção e uso das ideias:
"Para que tantas explicações? Quando já se achou uma coisa, não há necessidade de dizer como foi achada, e sim apenas o que se achou. A análise dos pensamentos é um luxo burguês. O que é preciso às almas do povo é a síntese, ideias já feitas, bem ou malfeitas, e antes mal do que bem, mas que conduzam à ação, realidades prenhes de vida e carregadas de eletricidade." (pág54/volV)
*
Sobre os instintos: 
"Porque há uma alma secreta, potências cegas, demônios, que cada homem traz aprisionado em si. Todo o esforço humano, desde que o homem existe, consiste em opor a esse mar interior os diques da razão e das religiões. Mas, que se desencadeie uma tempestade (e as almas mais ricas são as mais sujeitas às tempestades), que os diques cedam, que os demônios tenham campo livre e possam ir de encontro a outras almas levantadas pelos mesmo demônios... Atiram-se umas sobre as outras e se enlaçam. Ódio? Amor? Furor de mútua destruição?... A paixão é alma de rapina." (pág150/volV)



Sobre as cidades pequenas:

"Por mais fechada que fosse a casa de Braun, por mais secreta que permanecesse a tragédia burguesa que nela se desenrolava, algo transpirava no exterior. Naquela cidade, ninguém podia gabar-se de esconder a própria vida. É estranho. Nas ruas ninguém nos olha; as portas das casas e as persianas estão fechadas. Há, entretanto, espelhos pendurados nos cantos das janelas; e ouve-se, ao passar, o ruído seco das persianas que se entreabrem e se fecham. Ninguém se preocupa conosco, parece que nos ignoram; mas nos apercebemos de que nenhuma das nossas palavras, nenhum dos dos nossos gestos foram perdidos; sabem o que fazemos, o que dissemos, o que vimos, o que comemos; sabem mesmo, julgar saber, o que pensamos. Uma vigilância oculta, universal, nos cerca a todos. Criados, fornecedores, parentes, amigos, indiferentes, transeuntes desconhecidos, todos colaboram por tácito consentimento nesta espionagem instintiva cujos elementos dispersos se centralizam, não se sabe como. Não se observam unicamente os astros, escrutam-se os corações." (pág155/volV)


Sobre a conduta do artista:

"Um artista deve captar o próprio gênio; não lhe permite dispersar-se ao léu. Canaliza tua força. Constrange-te a hábitos, a uma higiene de trabalho cotidiano, a horas fixas. São esses tão necessários ao artista quanto o hábito dos gestos e dos passos militares ao homem que deve bater-se. Venham momentos de crise - e eles sempre vêm - e essa armadura de ferro impede a alma de cair." (pág179/volV)


Sobre a robusta compleição física de Jean-Christophe, o personagem principal que dá nome à obra, e sua sensível alma combalida:

"Correram os dias. Christophe saiu dali esvaziado de vida. Continuava, entretanto, a manter-se de pé, saía, caminhava. Felizes daqueles a quem uma raça forte sustém nos eclipses da vida! As pernas do pai e do avô carregavam o corpo do filho prestes a esboroar-se; o impulso dos robustos antepassados conduzia a alma despedaçada, como é levado pelo cavalo o cavaleiro morto." (pág186/volV)


Belissimamente, sobre esta força maior que tudo gera, rege e transcende: 

"Estava sereno. Agora compreendia. Compreendia a vaidade de seu orgulho, a vaidade do orgulho humano, sob o punho temível da Força que move os mundos. Ninguém é senhor de si, com segurança. É preciso vigilar. Porque, se adormecemos, a Força precipita-se sobre nós e nos arrasta... para que abismos? Ou a torrente se retira e nos deixa em seu leito seco. Não basta mesmo querer lutar. É preciso humilhar-se ante o Deus desconhecido, que flat ubi vult, que sopra quando quer, onde quer, o amor, a morte, ou a vida. A vontade do homem nada pode sem a sua. Um segundo lhe basta para aniquilar anos de labor e de esforços. E, se lhe apraz, pode fazer surgir da lama o eterno. Ninguém, tanto como o artista criador, se sente a sua mercê: porque se é verdadeiramente grande, nada mais diz além daquilo que o espírito lhe dita. E Christophe compreendeu a sabedoria do velho Haydn, pondo-se de joelhos, cada manhã, antes de tomar a pena... Vigila et Ora. Rogai a Deus, a fim de que esteja convosco. Ficai em comunhão amorosa e pia com o espírito da vida." (pág198/volV)
LIVRO: Jean-Christophe // AUTOR: Romain Rolland // VOLUME: IV // EDITORA: Globo // São Paulo // 1941

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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Nâzım Hikmet. - Hás-de saber morrer pelos homens

* Nâzım Hikmet. 

Hás-de saber morrer pelos homens
E além disso por homens que se calhar nunca viste
E além disso sem que ninguém te obrigue a fazê-lo
E além disso sabendo que a coisa mais real e bela é
Viver

Nazim Hikmet - Eles são inimigos da esperança, meu amor

* Nazim Hikmet 

Eles são inimigos da esperança, meu amor,
são inimigos da água corrente,
da árvore que está frutificando,
da vida que está se desenvolvendo.
Porque a morte carimbou a testa deles:
– dentes apodrecendo, carne se deteriorando –,
vão ser destruídos e nunca mais voltarão.
E sem dúvida, meu amor, sem dúvida,
a liberdade caminhará livremente neste país lindo
com a sua melhor roupa:
o uniforme de operário...


 
Onlar ümidin dümanıdır, sevgilim,
akar suyun,
 meyve çaında aacın,
 serpilip gelien hayatın dümanı.
Çünkü ölüm vurdu damgasını alınlarına :
 — çürüyen di, dökülen et —,
 bir daha geri dönmemek üzre yıkılıp gidecekler.
Ve elbette ki, sevgilim, elbet,
dolaacaktır elini kolunu sallaya sallaya,
dolaacaktır en anlı elbisesiyle : içi tulumuyla
 bu güzelim memlekette hürriyet...
6 Aralık 1945
Onlar ümidin düşmanıdır, sevgilim,
akar suyun,
 meyve çağında ağacın,
 serpilip gelişen hayatın düşmanı.
Çünkü ölüm vurdu damgasını alınlarına :
 — çürüyen diş, dökülen et —,
 bir daha geri dönmemek üzre yıkılıp gidecekler.
Ve elbette ki, sevgilim, elbet,
dolaşacaktır elini kolunu sallaya sallaya,
dolaşacaktır en şanlı elbisesiyle : işçi tulumuyla
 bu güzelim memlekette hürriyet...


Marco Syrayama de Pinto e John Milton. Poemas a Piraye, de Nazim Hikmet Nazım
7

Nazim Hikmet - Não tem descrição, – eles dizem, – a pobreza de Istambul,

* Nazim Hikmet

Não tem descrição, – eles dizem, – a pobreza de Istambul,
a fome, – eles dizem, – fez o povo sofrer,
a tuberculose, – eles dizem, – está em toda parte.
Garotinhas estão sendo... – eles dizem,
Em terrenos baldios e nos assentos dos cinemas...
. . . . .
. . . . . . . . .
Notícias terríveis estão chegando de minha cidade distante:
A cidade das pessoas honestas, trabalhadoras, pobres –
minha Istambul verdadeira,
Esta é a cidade que é o seu habitat, meu amor
e para onde quer que seja exilado, em qualquer prisão em que
eu estiver
eu a levo em minha sacola nas costas
como a dor da perda de um filho no meu coração
como sua imagem que levo nos meus olhos...


Tarif kabul etmez, — diyorlar, — İstanbulun sefaleti,
milleti, — diyorlar, — kırıp geçirdi açlık,
verem illeti, — diyorlar, — diz boyu.
u kadarcık kız çocuklarını, — diyorlar, —
 yangın yerlerinde, sinema localarında...
. . . . .
. . . . . . . . .
Kara haberler geliyor uzaktaki ehrimden :
namuslu, çalıkan, fakir insanların ehri —
 sahici İstanbulum,
sevgilim, senin mekânın olan
ve nereye sürülsem, hangi hapiste yatsam
 sırtımda, torbamın içinde götürdüüm
 ve evlât acısı gibi yüreimde,
 senin hayalin gibi gözlerimde taşıdıım ehir...
13 Kasım 1945
Tarif kabul etmez, — diyorlar, — İstanbul


Cadernos de Literatura em Tradução, n. 9, p. 143-192
13 Kasım 1945

Nazim Hikmet -a menina

A meninaSou eu que bato às portas,
às portas, umas após outras.
Sou invisível aos vossos olhos.
Os mortos são invisíveis.

* Nazim Hikmet, 

Morta em Hiroxima
há mais de dez anos,
sou uma menina de sete anos.
As crianças mortas não crescem.

Primeiro arderam os meus cabelos,
também os olhos arderam, ficaram calcinados.
Num instante fiquei reduzida a um punhado de cinzas
que se espalharam ao vento.

No que diz respeito a mim,
nada vos imploro:
não podia comer, nem sequer bombons,
a criança que ardeu como papel.

Bato à vossa porta, tio, tia:
uma assinatura. Não matem as crianças
e deixem-nas também comer bombons.


(Tradução. de Rui Caeiro)

António Gedeão - Poema da Morte na Estrada

* António Gedeão


Na berma da estrada, nuns quinhentos metros, 
estão quinhentos mortos com os olhos abertos. 

A morte, num sopro, colheu-os aos molhos. 
Nem tiveram tempo para fechar os olhos. 

Eles bem sabiam dos bancos da escola 
como os homens dignos sucumbem na guerra. 
Lá saber, sabiam. 
A mão firme empunhando a espada ou a pistola, 
morrendo sem ceder nem um palmo de terra. 

Pois é. 
Mas veio de lá a bomba, fulgurante como mil sóis, 
não lhes deu tempo para serem heróis. 

Eles bem sabiam que o último pensamento 
devia estar reservado para a pátria amada. 
Lá saber, sabiam. 
Mas veio de lá a bomba e destruiu tudo num só momento. 
Não lhes deu tempo para pensar em nada. 

Agora, 
na berma da estrada, nuns quinhentos metros, 
são quinhentos mortos com os olhos abertos. 

António Gedeão, in 'Linhas de Força' 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Filinto Elísio - Tem a Virtude o Prémio

* Filinto Elísio


Tardio às vezes, sempre merecido, 
    Tem a Virtude o prémio aparelhado 
    Ao profícuo talento, ao peito honrado, 
    Que do dever o stádio tem corrido. 

O Sábio, que dos louros esquecido 
    Só no obrar bem os olhos tem cravado 
    Inópino também se acha c'roado 
    Por mãos sob'ranas c'o laurel devido 

Útil à Pátria seja, as paixões dome, 
    Seja piedoso, honesto, afável, justo; 
    Que no futuro o espera ínclito nome.» 

Assim falou Minerva ao Coro augusto, 
    Pondo no Templo do imortal Renome, 
    De glória ornado, o teu prezado Busto. 

Filinto Elísio, in "Sonetos" 

Filinto Elísio - Ode ao Senhor Doutor António Ribeiro Sanches




* Filinto Elísio

Que importa, oh Sanches, que hajas escrutado
Do Numen de Epidauro altos segredos
Se has-de toccar (um pouco mais tardîo)
A meta inevitável?

Em vão, co'a luz do Hypocrates moderno
No sanctuario entraste da Natura;
A segadoura foice não se embota
Com morredoras hervas.


Sobre Ribeiro Sanches ver http://www.estudosjudaicos.ubi.pt/rs_biografia.html