sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Tom Waits - POSTAL DE NATAL DE UMA PUTA EM MINNEAPOLIS

* Tom Waits

Olá Charley, estou grávida
E a viver na rua 9
Mesmo por cima de uma livraria nojenta
à beira de Euclid Avenue
Deixei de meter droga
E parei de beber whiskey
O meu homem toca trombone
E trabalha no caminho de ferro

Ele diz que gosta de mim
Ainda que o bebé não seja dele
Diz que o vai criar como a um verdadeiro filho
Ofereceu-me um anel que a mãe costumava usar
E sai comigo pra dançar
Todos os sábados à noite

E Charley, penso sempre em ti
Todas as vezes que passo numa bomba de gasolina
Por causa da brilhantina que usavas o cabelo
E ainda tenho aquele disco de Little Anthony e os Imperials
Mas roubaram-me o gira-disco
O que é que se há-de fazer?...

Olha Charley, quase dei em doida
Quando o Mário foi de cana
Por isso voltei para Omaha
Para viver com os meus velhos
Mas toda a gente que conhecia
Ou morreu ou estava presa
Então voltei para Minneapolis
E desta vez penso que vou ficar por cá

Sabes Charley, pela primeira vez desde o acidente
Parece-me que sou feliz
Só queria ter agora todo o dinheiro
Que costumávamos gastar em droga
Comprava um parque de carros usados
E não vendia nenhum
Para usar um diferente em cada dia
A condizer com a maneira como me sentiste

Oh Charley, por amor de Deus,
Queres saber toda a verdade?
Não tenho nenhum marido
Ele não toca trombone
E preciso de dinheiro emprestado
para pagar ao advogado
E olha Charley, devo sair com pena suspensa
No dia de S. Valentim.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Eduardo Luciano - CONTOS DE NATAL

* Eduardo Luciano 

24 de Dezembro de 2015 · por INFOAbril · in Opinião

Nos contos de Natal está frio lá fora e quente dentro das casas e os pobrezinhos são muito felizes em torno da ausência de bens materiais.

Nos contos de Natal não há diferenças de classe porque cada um é feliz à sua maneira e quem conta os contos de Natal valora sempre a bondade e o desejo de partilha de forma diferente, para que os pobres sejam muito mais felizes que os ricos, nesse singelo dia.

Não há conto de Natal onde os ricos sejam heróis, excepto naqueles em que o rico, num rasgo de profunda bondade, acende a lareira da casa do pobre de estimação ou dá o presente sonhado pela criança andrajosa com que se cruzou nesse dia de paz e harmonia.

Os contos de Natal são o único lugar onde os pobres continuam a ser pobres e não passam a “carenciados”. Fazia lá sentido um conto em que se valorizasse a virtude da “carência” em vez da virtude da pobreza.

Sim, porque nos contos de Natal a pobreza é a virtude suprema que permite aspirar a um estado de felicidade que só os despojados podem perceber e que só por absoluta falta de jeito não percebem nos restantes dias do ano.

A minha prima Zulmira acha que os contos de Natal são encomendados pelos ricos para que haja um dia do ano em que os pobres tenham pena dos seus corações empedernidos.

Deve ser por isso que os tempos vão mudando, as formas de viver se alteram, os brinquedos sofisticam-se e os hábitos alimentares se alteram, mas o guião do conto de Natal é sempre o mesmo e o infeliz Ebenezer Scrooge tem sempre o mesmo pesadelo nessa noite, para compensar os sonhos das outras noites.

Neste Natal o conto manteve a mesma estrutura narrativa, mas talvez tenha ido um pouco mais longe. Acho que é a primeira vez que a malta que costuma ser feliz na noite de Natal se junta para fazer com que o infeliz Ebenezer possa sentir o calor da solidariedade, da fraternidade, da compaixão, do desapego aos bens materiais, contribuindo modestamente com mais de três mil milhões de euros para o seu santo Natal.

Ficaremos todos mais pobres afirmam uns mal dizentes furiosos com a solidariedade forçada, sem perceberem que se trata de um contributo para sermos mais felizes nos próximos natais, que passaremos cheios de compreensão para com a tristeza e infelicidade daqueles que têm de viver com os bolsos cheios dos recursos que foram desviados da saúde, da educação, da cultura, da protecção social e de outras coisas que só servem para que não percebamos as virtudes do Natal dos pobres.

“O gajo está azedo”, dirão alguns que ainda estão a ouvir ou a ler estes disparates. Nada disso, acreditem. Estou só um bocadinho farto do Conto de Natal. Ou melhor, das consequências do Conto de Natal.

Tenham uma óptima noite, mas não se esqueçam que o Scrooge não mudou de essência e no dia 26 já lhe passou o efeito do espírito de Natal.

Até para a semana.

Eduardo Luciano | Crónica DIANAFM

https://abrildenovomagazine.wordpress.com/2015/12/24/contos-de-natal/

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Pedro Tamen - Não Digo do Natal

* Pedro Tamen 

Não digo do Natal – digo da nata 
do tempo que se coalha com o frio 
e nos fica branquíssima e exacta 
nas mãos que não sabem de que cio

nasceu esta semente; mas que invade 
esses tempos relíquidos e pardos 
e faz assim que o coração se agrade 
de terrenos de pedras e de cardos 

por dezembros cobertos. Só então 
é que descobre dias de brancura
esta nova pupila, outra visão, 

e as cores da terra são feroz loucura 
moídas numa só, e feitas pão 
com que a vida resiste, e anda, e dura. 

Pedro Tamen, in Antologia Poética 

sábado, 19 de dezembro de 2015

Rosa Redondo - A Poesia

* Rosa Redondo

“A Poesia”

“Podes não saber escrever
Um poema com rigor
Mas aconselho-te a ler
A poesia é amor.

Vê como as flores do jardim
Ostentam tanta beleza
As silvestres são pra mim
Obras da mãe natureza.

Olha as nuvens d’algodão
O crepúsculo e o Sol-pôr
Tardes amenas de verão
Com tal encanto e esplendor.

A primavera… que encanto!
A dança dos passarinhos
Gosto de os ver, sempre tanto
Na construção dos seus ninhos.

As cegonhas na planura
Do meu Alentejo amado
A nascente de água pura
Na vastidão do montado.

Numa noite de luar
No raiar de cada dia
Na criança o doce olhar
Tudo isto é poesia.”


Rosa Redondo (Arronches)
XIII Antologia de Poesia do C. N. A. P.



http://aquem-tejo.blogs.sapo.pt/xiii-antologia-de-poesia-do-c-n-a-p-71212

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Francisco Louçã - Um senhor de meia idade nos estremecimentos do mundo

18 de Dezembro de 2015, 11:20

Por Francisco Louçã  
Um senhor de meia idade nos estremecimentos do mundo

Há um senhor que há anos que faz a rádio mais enérgica e mais culta, a mais inventiva e não raro a mais brincalhona. Chama-se Fernando Alves e ocupa a TSF com os seus “Sinais”. Atrevido, leva agora a um teatro, o D. Maria II em Lisboa, um flash destas suas crónicas que todos os dias percorrem “os mapas do estremecimento do mundo”. Acompanhado ao piano e às imagens, ele conta-nos as suas prosas, só para nós (e termina amanhã). É arte efémera e suponho que ele não quereria nem diferente nem mais.

Uma vez, ele chamou-me “senhor de meia idade”, ao apresentar um livro sobre aventuras e desventuras em que participei. Confesso que então me surpreendeu o termo, não por não ser obviamente verdade, mas porque ignorei sempre o assunto e me disfarço para mim próprio, porventura como tantos, fingindo que o passar dos dias só promete somar mais dias. Matreiramente, suspeito que o Fernando será igualmente um fintador dos anos, sempre desejando beneficiar deles com mais leituras, mais gente, mais momentos ternos, mesmo aceitando o cortejo de mais desilusões.

Mas, com o passar do tempo, fui percebendo o carinho e a indefinição que esse “senhor de meia idade” queria chamar, e só lhe posso retribuir agora. Muitas crónicas, muitos dias, muitas madrugadas, muitos jornais em cima da mesa, muita mineração de “palavras tácteis”, muito gosto pelas frases angulosas, muitas surpresas nos contos, nas personagens, muito tempo depois, esta “meia idade” é um atrevimento. Para o Fernando, é mesmo um atrevimento.

As suas crónicas são luzinhas nas manhãs, tão poluídos que andam os dias com guerras na Síria e metralhadoras no Bataclan, mas também anónimos nevoeiros, trânsito compacto, publicidades estrepitosas, tristezas avulsas, as barcas do amor a naufragarem sem destino na praia. Os Sinais, essas luzinhas, descobrem o imprevisto porque sabem que o previsto não devia existir. Descobrem uma nota manuscrita na montra de uma livraria fechada para férias, descobrem um namoro em Garcia Márquez, uma figura de Virgílio Ferreira, uma frase de Clarice Lispector, um ouvido montanheiro de quem suspeita de um insulto vulgar, rejeitam a pilhagem das palavras, lembram-se de Agostinho da Silva, rei da ambiguidade mágica, notam a “verdade” ou o “compromisso” esvaídos na boca da banalização, detestam a “implementação” e os políticos e treinadores de futebol “focados” na sua missão. Afirmar um gosto e um gosto crítico, irredutível, é, em tempos de superficialidade, um acto simplesmente revolucionário.

Só um senhor de meia idade nos havia de mostrar estes cromos de colecção privada, este défice de significados a que nos acostumamos, esta língua assaltada, esta galeria de livros, estes sons que gostavam de ser artesanais e vindos da manufactura do gosto.

A rádio, porque é a palavra dita, é o melhor lugar para dizer estes sinais. E a voz deste senhor de meia idade, que todos os dias inventa o seu dia nestas prosas, é o lugar para a rádio se sentar e se fazer ouvir.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2015/12/18/um-senhor-de-meia-idade-nos-estremecimentos-do-mundo/

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Joel Neto - Poesia

* Joel Neto

Naturalmente, se me pedissem para corporizar um mote para estas crónicas, eu teria de referir Caeiro. Já percebi que, de há uns tempos a esta parte, a tribo intelectual de Lisboa se proibiu de citar Pessoa. Quem cita Pessoa são os bibliotecários, a malta do Facebook e os garotos do liceu.

Eu ainda cito Pessoa:

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

Mas esse, como dizia Dumas, é sobretudo o prego onde penduro o meu quadro. Para falar daquilo sobre que estas crónicas verdadeiramente procuram ser, então tenho de lançar mão de Borges: {Os Justos}

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.

O que agradece que na terra haja música.

O que descobre com prazer uma etimologia.

Dois empregados que, num café do sul, jogam um silencioso xadrez.

O ceramista que premedita uma cor e uma forma.

O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez nem lhe agrade.

Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de um certo canto.

O que acarinha um animal adormecido.

O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.

O que agradece que na terra haja Stevenson.

O que prefere que os outros tenham razão.

Estas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

As minhas crónicas são sobre gente, mais do que sobre uma geografia. Mesmo se às vezes tenho de me forçar a lembrá-lo.


17 DE DEZEMBRO DE 2015
00:00http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/joel-neto/interior/poesia-4940315.html

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Mário Dionísio - Balada dos Amigos Separados

* Mário Dionísio


Onde estais vós Alberto Henrique 
João Maria Pedro Ana? 
Onde anda agora a vossa voz? 
Que ruas escutam vossos passos? 
Ao norte? ao sul? aonde? aonde? 
José António Branca Rui 
E tu Joana de olhos claros 
E tu Francisco E tu Carlota 
E tu Joaquim? 
Que estradas colhem vosso olhar? 
Onde anda agora a vossa vida repartida? 
A oeste? A leste? Aonde? aonde? 
Olho prà frente prà cidade 
e pràs outras cidades por trás dela 
onde se agitam outras gentes 
que nunca ouviram vosso nome 
e vejo em tudo a vossa cara 
e oiço em tudo o som amigo 
a voz de um a voz de outro 
e aquele fio de sol que se agitava 
sempre 
em todos nós 
Dançam as casas nesta noite 
ébrias de sombra nesta noite 
que se prolonga em plena angústia 
aos solavancos do destino 
e não consegue estrangularmos 
Sigo e pergunto ao vento à rua 
e a esta ânsia inviolável 
que embebe o ar de calafrios 
Onde estais vós? onde estais vós? 
E por detrás de cada esquina 
e por detrás de cada vulto 
o vento traz-me a vossa voz 
a rua traz-me a vossa voz 
a voz de um a voz de outro 
toada amiga que me banha 
tão confiante tão serena 
Aqui aqui em toda a parte 
Aqui aqui E tu? aonde? 

Mário Dionísio, in 'As Solicitações e Emboscadas' 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Mário Dionísio - Estamos Agora em Paz

* Mário Dionísio


Estamos agora em paz 
sabendo simular o esquecimento 

sentados 

com os olhos no vento 
lá de fora atirado para antes 
de nós as mãos caídas 
nos joelhos mas nada suplicantes 
só esvaídas 

conformados 
com não nos conformarmos 

resignados 
a esperando não esperarmos 

como se tudo fosse um imenso tanto faz 

Mário Dionísio, in 'Terceira Idade' 

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A Morte e a morte de Quincas Berro D'água

14 de Dezembro de 2015 - 11h35

A Morte e a morte de Quincas Berro D'água
Jeosafá Fernandez *

Lançado em 1961 com amplo acolhimento de leitores e críticos, a novela A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água tornou-se uma das obras de Jorge Amado mais festejadas, editadas e adaptadas para o cinema e a televisão. Em artigo escrito para o jornal Última Hora, do Rio de Janeiro, em 1959, que passou acompanhar a título de prefácio as seguidas reedições, Vinicius de Moraes considera-a uma obra prima do autor: “Em dois tentos simples, Jorge Amado acaba de escrever o que para mim é o melhor romance e a melhor novela da literatura brasileira: Gabriela, cravo e canela e A morte e a morte de Quincas Berro D’água”.

 Nessa novela curta, o autor articula a natureza popular das personagens com um enredo à beira do fantástico e uma linguagem enxuta, porém ambígua, agradável e leve. Nela, o previsível funcionário público Joaquim Soares da Cunha, marido, pai e cidadão cumpridor de seu papel social de burocrata estabilizado na sociedade, aos cinquenta anos joga tudo para alto, se entrega à boêmia e passa à perambulação, ébrio e em andrajos, pelas ruas da Bahia. Numa das bebedeiras, ganha o apelido que o acompanhará além da morte: Quincas Berro D’água. A novela se inicia com seu cadáver em farrapos já estendido em um quarto insalubre de um beco baiano.

Na morte de Quincas, os parentes enxergam a oportunidade de resgatar no meio social o nome da família, maculado por suas orgias e por sua vida escandalosa. Para tanto, organizam um funeral à altura de um verdadeiro e honrado um ex-funcionário público.

No entanto, visitado em seu velório por antigos amigos de fuzarca (Curió, Negro Pastinha, Cabo Martim e Pé de Vento), que veem no ricto estampado no rosto do cadáver um sorriso folia, Quincas termina sequestrado por eles e arrastado pelas ruas da Bahia em uma espécie de despedida gloriosa, hilária e pândega do mundo dos vivos.

A confusão se instaura, pois enquanto uns o juram morto, outros o veem passeando de braços dados com os companheiros de boêmia, entre gargalhadas e cusparadas de cachaça. A esbórnia se encerra no barco de Mestre Manuel, onde os amigos cumprem a suposta vontade do morto, levando-o festa em pleno mar, ocasião em que um violento temporal se abate sobre o barco e encapela as águas, para onde o debochado Quincas resvala para sempre, enterrando no mar, consigo, a chance de a família ajustar contas com o falso verniz da sociedade.

Nesse destino de Quincas Berro D’água há uma certa metáfora do projeto literário do próprio Jorge Amado, que, à literatura enfatiotada e blasé, que sempre combateu, preferiu os personagens populares, os enredos apoiados na realidade dos trabalhadores e a crítica social – em que o humor se foi insinuando progressivamente ao longo da carreira do autor.


* Jeosafá é Doutor em Letras pela USP. Tem, entre seus mais de 50 títulos, O jovem Mandela, O jovem Malcolm X e o ciclo de romances paulistanos Era uma vez no meu bairro (Zonas Norte, Sul, Leste e Oeste).

http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=7410&id_coluna=150

Ele enviou postais de Natal à rainha durante 50 anos. Ela escreveu a agradecer



Ele enviou postais de Natal à rainha durante 50 anos. Ela escreveu a agradecer

ANDREW SIMES

O avô de Andrew Simes enviou um postal de Natal à rainha Isabel II todos os anos durante meio século. A rainha agradeceu com uma carta

O avô de Andrew Simes enviou postais de Natal à rainha de Inglaterra durante 50 anos. Em 2012, já depois de o avô ter morrido, Simes recebeu uma carta de agradecimento da própria Isabel II.

O caso foi divulgado apenas na semana passada, através do Facebook, e teve eco nos meios de comunicação social por toda a Europa. Foi Andrew quem contou a história, numa longa publicação na rede social, realçando como a rainha lhe escreveu depois de ter conhecimento que o seu avô, correspondente de tantos Natais, tinha morrido, expressando as suas condolências e manifestando o seu agradecimento.

O ritual do avô de Simes começara há muitas décadas: anualmente, enviava um cartão a desejar boas festas ao rei e à rainha. A partir de 1952, quando Isabel II subiu ao trono, passou a ser ela a destinatária das missivas.

O envio de palavras cordiais continuou e em 1972, na Turquia, cruzaram-se os caminhos da rainha e do fiel remetente. Quando se cumprimentaram, Isabel II sorriu-lhe: "então é o senhor quem me envia aqueles postais de Natal adoráveis", disse a rainha. A própria chegou a desejar um feliz aniversário ao avô de Simes quando este completou 100 anos.

Em 2011, o avô de Simes morreu, com 102 anos. Nesse ano, o jovem decidiu dar continuidade ao ritual do ancião, como "neto leal e admirador" do seu trabalho, e escreveu à rainha no Natal. Um mês depois, recebeu uma carta do Palácio de Buckingham. "Quando recebi uma carta de um Simes diferente este Natal, mandei que procurassem o paradeiro do seu avô", escreveu Isabel II, "Com muita tristeza soube da sua morte e por isso endereço as minhas condolências, a si e à sua família", continuou a rainha.

"Não consegui conter as lágrimas naquela altura nem agora, de cada vez que me lembro desta história de duas pessoas que deixaram uma marca permanente na vida um do outro", escreveu Andrew Simes, que terminou o seu texto no Facebook a desejar "a todos um Natal tão mágico quanto esta história"

.http://www.dn.pt/mundo/interior/rainha-agradece-a-homem-que-enviou-postais-de-natal-durante-50-anosa-4928809.html

2011 - Carta aberta ao Sr. Primeiro Ministro | Por Myriam Zaluar e comentário de Armando Cerqueira

Carta aberta ao Sr. Primeiro Ministro | Por Myriam Zaluar

Exmo Senhor Primeiro Ministro

Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome “de guerra”. Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.

Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.

Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.

Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. “És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro.” – disseram-me – “Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção”. Fiquei.

Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. “Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante”. Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira ‘congelada’. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como “nativa”. Tinha como ordenado ‘fixo’ 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas…

Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci – felizmente! – também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.

Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.

Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar…

Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores – e cada vez mais raros – valores: um ser humano em formação.

Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.

Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro 

e como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus
Myriam Zaluar, 19/12/2011
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Resposta à carta aberta ao Sr. Primeiro Ministro | por Armando Cerqueira

carta aberta a Passos Coelho da Myriam Zaluar tem provocado inúmeras reacções e comentários e já chegou aos jornais (no i é a notícia mais lida). Dos comentários que recebemos no 5dias, destaco o comentário/resposta do Armando Cerqueira, a quem pedi autorização para o publicar como post. Aqui está, revisto e ampliado.
Olhe Myriam,


acabei de ler o seu ‘post’ e as lágrimas escorrem-me. Sim Myriam, sou homem e choro, de pena, de comiseração e de raiva, aqui em Paris, onde vim passar uns dias com o meu filho e nora, Paris onde estive por um curto tempo exilado em 1965 pa ra não fazer a guerra colonial, mas que acabei por fazer desgostado com as intrigas e a desunião já nesse tempo entre os outros jovens meus compatriotas e exilados.



Tenho muita pena que o País que quisemos melhor, por que lutámos, sofremos e sonhámos seja esta merda, que este Povo afinal – na sua esmagadora maioria – não preste, seja aquilo que penso e não nomeio. Lutámos, muitos de nós, Myriam, por um País mais justo, solidário e tolerante, sem exploração de uns pelos outros (sempre muitíssimo menos os exploradores do que os explorados…), sem opressão, ‘mobbying’ e outras coisas (que também o conheci em certas instâncias da Europa ditas democráticas). Conheci, com muitos companheiros de luta (optámos ou divergimos nos caminhos, mas éramos/somos companheiros de luta contra a PIDE e a DGS (quero dizer, a PIDE reciclada), a guerra colonial e suas injustiças, os crimes e a opressão de cuja participação as Forças Armadas portuguesas se recusam ainda hoje a fazer a sua autocrítica – para os seus porta-vozes é sempre a defesa da Pátria… -, conhecemos o PREC e a sua esperança, as suas traições e desuniões. Porque alguém, vários traíram

Tudo isso, Myriam, conhecemos, sofremos, ansiámos por uma sociedade melhor, supondo que, no fim, os sofrimentos teriam sido o preço por uma vida mais feliz, não para mim, não apenas para a minha família e amigos e companheiros, mas para todos. Juro-lhe que nas celas de Caxias, no exílio e na depressão da minha participação na guerra de opressão em Angola, era nesse futuro melhor para todos que eu pensava. Tudo teria merecido a pena.

Por isso lhe digo Myriam, enquanto escrevo directamente no ‘post’, sinceramente com as lágrimas a escorrerem-me pela cara, triste, com amargura, após ‘exílios’ sucessivos em África e na Europa nos anos 80, 90 e 2000, que a sua carta aberta desperta em mim um urgente sentido de solidariedade e, ao mesmo tempo, a muita pena por sermos afinal impotentes para pôr fim à injustiça e canalhice que campeiam e governam o País que julguei ser o nosso – seu e meu.

Tenho quase 68 anos, o meu filho não terá qualquer futuro risonho em Portugal – dei-lhe em 4 de Dezembro de 1975 um nome que reflectia ainda a aliança entre o Povo e o MFA -, e a minha filha, que apesar das suas múltiplas qualificações, não terá talvez grandes oportunidades no rectângulo europeu extremo-ocidental.

Um abraço fraterno, Myriam, e os votos de que finalmente encontre com os seus filhos as oportunidades e a justiça que bem merecem. Sinceramente.


Armando Cerqueira
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domingo, 13 de dezembro de 2015

Do pião que assobiava ao pónei azul. - Memórias de Natal


DN pediu a quase quatro dezenas de figuras públicas que revelassem qual a prenda que mais gostaram de receber no Natal e que estivesse associada a algum momento especial.

As memórias voaram quase sempre até à infância e à adolescência, onde deixaram marcas a caixa de lego, a bicicleta, o piano, o carrinho Fórmula 1, a casa de bonecas. Mas o 25 de dezembro também está emocionalmente ligado ao nascimento de um filho ou neto, ou simplesmente a uma carta recebida

Gisela João, fadista
"O melhor presente que já recebi foi um pónei azul-bebé e que cheirava muito bem! Eu era menininha e delirava com a bonecada (ainda deliro!) e aquele pónei era o que eu mais queria e nem sonhava que ia ter."

Dulce Félix, maratonista
"Todos os anos, o que mais quero é que possamos estar juntos com a família. Quando era miúda, o brinquedo que mais me marcou foi um piano que os meus pais me ofereceram. É uma relíquia que ainda tenho. Recordo o dia em que o recebi e a emoção de abrir as prendas na infância."

Ana Jorge, ex-ministra da Saúde
"Teria 4 ou 5 anos e lembro-me de ter recebido uma boneca numa caixa enorme e com rebuçados e chocolates. Na altura não havia muitas possibilidades, não tinha muitas bonecas. Lembro-me da alegria que senti a mostrá-la às outras crianças na rua."

José Manuel Anes, professor universitário
"Teria uns 6 ou 7 anos quando o meu pai me ofereceu uma miniatura de uma casa, feita por um seu colega e amigo, ao mesmo tempo hábil artesão - o senhor Procópio, se bem me lembro -, miniatura com cerca de meio metro por meio metro, cuja casa, em jeito de mansão de um filme, tinha dois andares com uma imponente entrada com degraus e muitas janelas das quais se podia enxergar o interior. A casa ficava no meio de um jardim com flores e muitas árvores frondosas que tinha candeeiros e bancos."

Maria do Céu Guerra, atriz e encenadora
"Em 1979, A Barraca foi a Moçambique e fez uma enorme digressão de dois meses. No fim estávamos muito cansados. Então, eu tive um convite para passar umas pequenas férias em Pemba, que tem uma praia de Wimbe que é a praia mais linda que já vi na minha vida. Passei ali oito dias, incluindo o Natal, com um calor extraordinário e um mar maravilhoso."

José Magalhães, ex-deputado do PS
"Ganhei a vida! Escapei por um triz de ser morto no Brasil e pude viver com gente honesta o Natal de 2012. Existe uma versão softcore desta história no meu livro Homem de Leis Perdido nos Trópicos Procura Senhora Honesta.

Marcelo Rebelo de Sousa, candidato presidencial
"O nascimento do meu primeiro neto. Tenho um fraquinho por ele, é o único rapaz, um analista político nato com 12 anos... Foi sobretudo porque se seguiu de muito perto ao grande desgosto da morte do meu pai e da minha mãe e serviu para atenuar [a dor]."

J. Tablada de la Torre, embaixadora de Cuba
"Os olhos belos e curiosos do nosso primeiro filho, Carlos Eugénio, recém-nascido no Natal de 2001. Desejava muito ser mãe mas não sabia quão grandiosa seria a sua chegada."

Bryan Ruiz, jogador do Sporting
"Quando era mais novo sempre gostei muito de carros, mas recebia sempre bolas de futebol. Uma vez, já não me lembro se foram os meus pais ou outros familiares, deram-me um carro de Fórmula 1, uma das prendas de que mais gostei quando era criança."

Graça Freitas, subdiretora-geral da Saúde
"Recebi um presente que me deixou muito satisfeita aos 6 anos. Tinha pedido um fogão e recebi uma cozinha completa. Tinha fogão, frigorífico, louça de plástico. E lembro-me de ter um franguinho assado, um bolo e mais alguns moldes. Sei que brinquei muito com ela até voltar a cozinhar, já muitos anos mais tarde, por necessidade.

Mário Cordeiro, pediatra
"Dar um presente é estar presente na vida do outro. Um dia, uma amiga ofereceu-me um cabaz de Natal - nada de mais. Só que, para lá do costume, estavam pequenos objetos personalizados - um livro, um CD, brinquedos para as crianças. Na altura não dei o devido valor, mas depois percebi o que era estar presente na vida do outro. Essa pessoa é agora a minha mulher..."

Duarte Nuno Vieira, diretor da Faculdade de medicina de Coimbra
"Houve uma "prenda" que me tocou e sensibilizou particularmente. Um singelo cartão que recebi no primeiro Natal após a então ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, ter cessado as minhas funções como presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, em 2013, assinado por muitos dos médicos, especialistas superiores, administrativos, técnicos, que nele trabalhavam. Nele assinalavam o seu apoio incondicional, o seu profundo lamento pela opção ministerial e o seu agradecimento por tudo o que tinha feito pela medicina legal e pelas ciências forenses."

Rui Bragança, lutador de taekwondo
"Em pequeno, a preferida foi uma bicicleta. Mas a melhor, a que dei mais uso nos últimos anos, foi um iPod. Passo o tempo a ouvir música, nas competições ou nas viagens."

João Duque, economista
"A primeira caixa de Lego, do ponto de vista material. Preparou-me para muitas coisas que a vida me exigiu: imaginação, criatividade, planeamento, cálculo mental, superação das dificuldades com restrições, análise, experimentação e erro, repetição de exercício."

Sandra Correia, CEO da Pelcor
"Recebi há alguns anos um cão-d"água, na altura com 9 meses. A Corky é a minha melhor amiga e companheira no trabalho e foi-me oferecida por uma criadora. Obriga-me a levantar às sete da manhã. É muito dócil e já deu mesmo origem a uma marca, a Corky by Pelcor, que faz pulseiras e colares para cães."

Ribeiro e Castro, ex-líder do CDS
"Há anos começámos o "amigo secreto" pelo Natal. Família grande, cada um compra só um presente. Teto: 15 euros. Mais caro, não. A seguir ao almoço, cada um cria uma adivinha em rima, para se descobrir o seu amigo secreto. De avós a netos, e já bisnetos, de 30 a 40, a ronda dura hora e meia. Todos os anos, é o melhor presente de Natal."

Filipa Neto, fundadora da Chic by Choice
"Sem dúvida estar com a família. Não existe nada que me dê mais alegria, força e energia do que estar com quem para mim é mais especial."

Margarida Rebelo Pinto, escritora
"É sempre o mesmo todos os anos: a 24 de dezembro a minha mãe e os netos escrevem uma peça de Natal e representam-na após o jantar. Tudo improvisado e os temas têm que ver com o que se passou nesse ano. Quando uma personagem é muito boa, reaparece no ano seguinte, fora de contexto, tipo Monty Phyton. É um delírio. Não há melhor presente."

Ascenso Simões, deputado do PS
"A melhor prenda foi em 1980 um computador ZX80. Por ter sido um dos primeiros "catraios" vila-realenses a ter um pré-computador doméstico e por ter sido pago pelos meus pais com imenso sacrifício (custou 110 libras, cerca de 150 euros), o que impediu que nesse ano tivessem tido férias e obrigou a fazer muitas horas extraordinárias."

M. Ribeiro Ferreira, chairman do grupo Fonte Viva
"Ver o espetáculo de nós, sete irmãos, cada um com o seu sapatinho, a abrir os presentes na manhã do dia 25. Um autêntico mar de presentes, com cada um à procura do seu sapatinho."

Tanaka, futebolista Sporting
"A prenda mais original que recebi foram umas luvas de boxe. Foi algo fora do normal. Normal eram carros, bolas, livros, roupa, e nesse ano deram-me umas luvas de boxe. Uma prenda diferente, não digo se foi a de que mais gostei, mas foi uma das que ficaram na memória."

Duarte Marques, deputado do PSD
"As prendas que mais gostava de receber eram carros e aviões da Mecano e da Lego Technic para montar. Mas a melhor foi mesmo a primeira pista de carros elétricos."~

Fernando Pimenta, canoísta
"Uma das melhores prendas foi a camisola dos Jogos Olímpicos de 2012. Para mim é algo com muito significado. Em pequeno era diferente, recebia carrinhos e essas coisas: recordo a expectativa de querer saber o que ia sair dos embrulhos."

Nuno Melo, eurodeputado do CDS-PP
"Gostei muito de uma mesa de mistura [música] há seis ou sete anos..."

Graça Morais, pintora
"Nunca esquecerei a minha primeira caixinha de aguarelas que recebi quando tinha 9 anos. Também não esqueço a curiosidade que eu e os meus cinco irmãos sentíamos quando, ainda de madrugada, acordávamos e íamos a correr à lareira, no dia 25 de dezembro, para vermos o que o Menino Jesus nos deixava nas botinhas. "

Miguel Araújo, músico
"O presente de Natal da minha vida foi, sem dúvida, no Natal de 1990, quando tinha 12 anos, quando os meus pais me ofereceram uma guitarra, um violão acústico, que era uma Fender redonda, feita na Coreia, de imitação, mas foi a guitarra em que eu aprendi a tocar."

Maria de Belém, candidata presidencial
"Por proposta da minha filha, a decisão familiar vai este ano no sentido de não se gastar qualquer verba na compra de presentes e na troca, canalizando a totalidade dessa verba para donativos à Cáritas."

Eugénio Fonseca, presidente das Cáritas Portuguesa
"O melhor presente foi há nove anos ter recuperado de uma doença grave de que fui acometido e que poderia ter sido fatal. Graças à medicina e, porque sou um homem crente, à intervenção divina, superei essa dificuldade. Passei esse Natal no hospital. Em miúdo, a melhor prenda era ter roupa nova para vestir no Natal porque era de uma família modesta."

Almeida Rodrigues, diretor nacional da PJ
"Um boneco de corda, que rodopiava sobre si mesmo, curvava-se e levantava o chapéu. Tinha 6 anos, os tempos eram difíceis para as famílias e aquele foi o meu primeiro brinquedo a sério."

Sónia Morais Santos, blogue Cocó na Fralda
"O melhor foi a noite de Natal do ano passado, em que, além da família que há muitos anos se junta, consegui reunir o meu pai, a minha madrasta, a minha irmã, cunhado e sobrinho. Durante muitos anos eu e o meu pai estivemos de relações cortadas, de modo que ter todos à mesma mesa foi realmente emocionante e bonito. Éramos 25, nessa noite."

Ana Borges, jogadora do Chelsea
"Quando tinha uns 11 ou 12 anos recebi o equipamento do Sporting e fiquei doidinha, porque é o meu clube e, claro, sendo uma criança mais valor lhe dava. Nem o queria despir e muito menos pô-lo a lavar."

Michael Seufert, ex-deputado do CDS-PP
"A melhor prenda que recebi foi, provavelmente, em 1995, um canivete suíço. Não era um canivete qualquer, era um canivete igual ao do MacGyver. Não sei se o pedi ao Pai Natal ou se foi o pai Seufert que percebeu sozinho o meu fascínio."

Isabel Alçada, escritora
"O melhor presente foi a minha filha que nasceu a 26 de dezembro. Da minha infância lembro-me de que os meus pais mandaram fazer uma mobília de quarto para mim e para as minhas irmãs. Devia ter 7 ou 8 anos e nunca mais me esqueço de que chegámos à chaminé e estava lá a mobília com tudo e dentro das gavetinhas da cómoda e pendurado no roupeiro estava roupa igual às nossas para as bonecas. Foi inesquecível."

F. Carvalho Rodrigues, engenheiro e cientista
"Um pião que me deram quando eu era um garoto, tinha uns 6 ou 7 anos. Quando se atirava, ele ficava a rodar e assobiava uma música. A segunda melhor foi um Mecano, mais tarde, já tinha uns 10 anos."

Susana C. Gaspar, presidente da Amnistia Internacional Portugal
"O nosso melhor presente é quando as pessoas dedicam um minuto do seu dia a assinar uma carta ou petição para proteger os direitos de outros."

Rui Horta, coreógrafo e bailarino
"Lembro-me de num dos meus natais de criança ter recebido um maravilhoso avião de plástico, com uma hélice movida por um elástico, e que se elevava no ar durante longos voos. Tinha-o cobiçado durante meses e os meus pais guardaram a surpresa para a tão ansiada manhã do dia 25. Passei as férias a brincar com ele e acabei por destruí-lo antes do recomeço das aulas. Foi uma perda enorme que acentuou ainda mais a chatice do recomeço escolar. Mais tarde comprei vários assim, os quais lançava com os meus filhos e essa emoção repetia-se, talvez mais ainda a minha do que a deles... Passados uns anos fiz um solo de dança para um magnífico bailarino canadiano ao qual chamei The boy with the airplane.

Kirsty Hayes, Embaixadora Britânica
"O melhor presente de Natal deu-mo o meu marido nos primeiros anos de casados: Nínive e as Suas Ruínas, escrito por um antepassado meu. Perante a profanação de lugares únicos como Nínive e Nimrud (Iraque) ou Palmira (Síria) pelo Estado Islâmico, este precioso fragmento de história torna-se ainda mais valioso. Viverei este Natal com um sentimento de gratidão pelos feitos dos nossos antepassados e confiante de que a esperança e o espírito de humanidade se vão sobrepor às forças de má índole e destruidoras."

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