segunda-feira, 11 de julho de 2016

Hugo Pratt - o desejo de ser inútil




SOB O SIGNO DO GATO

1. - Uma infância veneziana (1927-1937)


- Qual das suas vidas nos vai contar?

- Conheço treze maneiras de contar a minha vida. Hoje, escolho a sétima, por amor ao número sete, que é também o do gato: o gato tem sete vidas, e para conhecer a sétima tem pois que morrer seis vezes. Há quem diga que os gatos têm nove vidas, mas a versão segundo a qual eles têm sete parece-me superior, porque se trata de um número cabalístico: o das sete portas, das sete chaves, cuja última abre o paraíso terrestre. E se abordarmos a história da minha vida pela via do esoterismo, deverei começar por precisar que sou do signo dos Gémeos. Cinco mil anos decorreram desde o baptismo das constelações zodiacais, e a configuração do céu mudou, mas parece-me preferível falar como se estivéssemos ainda no tempo dos caldeus. Tenho 13 maneiras de contar a minha vida e não sei se há uma verdadeira, ou sequer se alguma é mais verdadeira do que outra. Pessoa dizia que «temos todos duas vidas: a verdadeira, que é a que sonhamos na infância; e a falsa, que é a que vivemos em convivência com os outros»; e essa que sonhamos é a vida onde queremos viver, e talvez a mais autêntica. Como para Calderón, para mim, a verdadeira vida é um sonho, embora se possa também dizer que nasci em Itália, em Rimini, a 15 de Junho de 1927.


(…)

7. - Et in Helvetia, Hugo (1984-1991)

(…)

- Entre os seus antepassados e os seus descendentes, um ponto comum: cosmopolitismo.

- É verdade, o destino dos Pratt parece situar-se para lá das fronteiras, das raças, das religiões, das línguas. Foi sempre assim. Uma anedota, a propósito. O actor Boris Karloff, o intérprete no cinema de Frankenstein e do doctor Fu-Manchu, chamava-se na realidade Pratt. Recentemente, um dos seus descendentes encontra em Buenos Aires o meu filho Lucas e diz-lhe: «Parece que temos um primo italiano que é desenhador!»... Desde o falecimento de minha mãe e, pouco depois, da minha tia Irma, já não tenho família em Veneza, e agora sou o mais velho. Nenhum dos meus descendentes tem a minha nacionalidade, nenhum sequer é de cultura italiana. Quanto às mães dos meus filhos, uma é servo-croata, outra belga da Argentina, e as outras duas são brasileiras, sendo que, para uma delas, essa nacionalidade não significa nada; duas são de raça branca, uma é afro-americana, outra é ameríndia; nenhuma tem a mesma língua materna. Tenho quatro netos, dois de Lucas e dois de Tebocua: nenhum entende o italiano. Os filhos de Lucas falam o espanhol e o inglês americano - a língua da mãe - e os filhos de Tebocua um dialecto gé.

Entre os meus antepassados havia também uma grande diversidade linguística. O meu pai falava fluentemente o francês, que aprendera com o pai dele. Dirigia-se muitas vezes a mim em francês ou em inglês. A minha tia Eglantina exprimia-se também em francês. Quando eu era criança, falava-se em Veneza uma variedade de italiano bastante diferente do italiano oficial, e essa língua - na qual o meu avô escrevia os seus poemas - é a primeira que falei. Ainda hoje, se encontro um veneziano da minha idade, utilizamos espontaneamente o dialecto veneziano, e mesmo quando surge alguém de outra província, custa-nos abandoná-lo. Como a minha família, os meus amigos estão muito dispersos, e pelo mundo tenho antigos companheiros que gosto de reencontrar. Claro, desde a época em que estávamos juntos, cada um seguiu o seu próprio itinerário, e depois. com a idade, tomámo-nos maníacos, fala-se demasiado dos problemas pessoais, da saúde, dos filhos. Do que eu gosto, é de beber o meu whisky tranquilo, na companhia de um velho amigo que, também ele aprecie o whisky. Observamo-nos, vamos bebendo em silêncio, cada um sabendo que o outro se vai perdendo nas suas recordações.


- Qual é a visão que tem da história da sua vida?

- Eu sou testemunha de uma época ultrapassada, que conta histórias povoando-as com as suas experiências, as suas recordações, as fábulas que lhe foram transmitidas na infância. A minha vida está cada vez mais desligada do presente. Em Córdova, desde 1989, na sequência de uma exposição e do portfolio Corto en Cordoba, editado pelos meus amigos italianos da libraria parisiense Tour de Babel, o município cede-me uma residência muito antiga da Juderia, o velho bairro judeu. Lá organizo festas, reunindo todo o tipo de amigos, desde os santos ébrios às putas moralizantes: gosto de reunir gente diversa, e de provocar assim situações originais. Convido os ciganos, que dançam e tocam uma música que remonta à Idade Média. Em Córdova, não há como os ciganos para poder dar um espectáculo de romanças sefarditas.

Algumas das pessoas que convido são consideradas importantes: homens de negócios apressados, editores sempre entre dois aviões, entre dois contratos. Observam e escutam esse espectáculo, e dizem-me que aquela é que é a verdadeira vida. Eles começam a interrogar-se sobre o seu modo de vida, sobre o interesse real do que fazem, e já não querem saber do trabalho. Essas festas são uma viagem ao passado, uma viagem estética em busca da beleza perdida. E graças a essas festas, a beleza do passado faz-se de novo presente. Nessa música sefardita, no olhar dessa bela judia renasce a Juderia de Córdoba. Nessas ciganas de sangue judaico, é Rebeca que está de regresso a Córdova, e Rebeca é sempre bela.

Convoco também as descendentes dos Almorávidas berberes, elas vestem-se como outrora, elas dançam, elas cantam, e através delas Fátima é sempre bela. Lá fora, está muito calor, mas aqui o pátio cheio de sombra está florido todo o ano. Ouve-se o repuxo de água, um cigano toca guitarra, uma nuvem passageira confere uma nova tonalidade aos azulejos. As rolas levantam voo das laranjeiras que rodeiam a mesquita. Essa maravilha de pedra é trabalhada como um bordado, cujos motivos fossem fechaduras: falta apenas a chave para abrir a porta do paraíso muçulmano. No pavimento do pátio - um tapete mineral - as jovens dançam, e Rebeca e Fátima são sempre belas.  

(...)

7 PORTAS PARA UM UNIVERSO



1.      - 1ª porta ou a viagem do peregrino

(…)

- Utilizou por várias vezes a palavra «peregrinação»: as suas viagens não são, como se poderia crer, as de um aventureiro, mas as de um peregrino.

- Há efectivamente em todas as minhas viagens esse aspecto «pilgrim's progress», para retomar o título do livro de Bunyan ... Assim como um muçulmano, por exemplo, sente a necessidade de durante a sua vida visitar diversos lugares importantes para ele, como Meca ou Kairouan, eu senti a necessidade de ir aos lugares que estão associados ao meu mundo interior. Porquê essa necessidade? Sem dúvida pelo desejo de confirmar, de prestar homenagem, e pela minha educação romântica.

Se viajei muito, foi porque os meus pais, os livros, os filmes, me iniciaram nisso desde a infância. Tenho horror, evidentemente, às viagens organizadas, às visitas colectivas em rebanho turístico. Preciso de estar só. Não suporto sequer as visitas guiadas e pagas antecipadamente ao Crazy Horse ou ao Folies-Bergêre, por exemplo ... A maior parte das minhas viagens não deviam nada ao acaso, visavam objectivos precisos. A minha geografia está sempre ligada a um mundo literário e fantástico. Para mim, uma viagem é uma busca desencadeada por uma leitura. Se eu for à nascente do Nilo. será com os romances de Rider Haggard ou os relatos das explorações de Speke e Burton. Serão eles os meus guias turísticos. A minha definição da viagem ideal, é Schliemann indo a Hissarlik para aí encontrar Tróia. As minhas viagens foram para mim ocasião de ir a um lugar que já existia na minha imaginação. Sempre andei' procura das origens. Quando aos dez anos partia para África, a minha esperança era de aí encontrar os lugares da banda desenhada Tim Tyler's Luck. E hoje, não poderia ir a qualquer lado, aqui, em Grandvaux, sem procurar onhecer o passado desse lugar, sem me perguntar o que terá havido no local onde agora é a minha casa. Talvez no futuro, alguém, ao ver essa casa, diga que era a de um conhecido desenhador de finais do século vinte ...

Eu vejo-me como um elo de diferentes cadeias que percorrem tempo, estabelecendo uma continuidade desde as origens até agora. A minha relação com Stevenson - ou com outros -, é isso. Oumais belo, mais poético do que o elo de uma cadeia, sou um ponto da circunferência de uma roda. Gosto do círculo, essa forma perfeita. Em criança, brincava de bom grado com o arco. Uma linda menina que faz correr um arco com uma haste é um espectáculo interessante. Uma das minhas mais antigas recordações é de uma menina, mais velha do que eu - eu teria talvez quatro anos - que empurrava assim um arco. Que bela visão ...

- Dizia você que a sua família o tinha iniciado nas viagens?

- Eu aludia à decisão do meu pai de me levar para a Etiópia e a diversas pequenas viagens efectuadas com ele durante a minha estadia por lá. Por exemplo, quando eu tinha onze anos, levou-me a Dirédaoua, e encontrámos Henry de Monfreid, que ele conhecia bem. Lembro-me de um homem grande e esguio, afável, que tinha uma loja de material eléctrico. Na época eu não sabia que ele fizera contrabando e que era conhecido como escritor. Hoje, com vários estudos publicados sobre ele, Henry de Monfreid é alguém de muito controverso, mas já na minha infância assim era: eu apercebera-me que muitas pessoas o detestavam. Quanto aos seus livros, acho-os interessantes, pois tratam temas muito pouco conhecidos, se bem que, em La Voile carrée, Vladimir Pozner lhe tenha mostrado essa via. Quanto à relação entre Henry de Monfreid e Pierre Teilhard de Chardin, ela deixa-me perplexo: porque se interessaria esse paleontólogo e teólogo católico por tal aventureiro? Dá que pensar, o que versariam as suas discussões quando se encontravam ambos em Djibouti, em 1928-1929 ... Ideologicamente, não me sinto próximo de Henry de Monfreid: ele era o cronista cúmplice do marechal Graziani, era contra Hailé Sélassié, foi recebido por Mussolini. Mas o aventureiro intriga-me, e por ocasião de um dos meus regressos ao Corno de África, fui pois visitar os lugares onde ele viveu: Dirédaoua, Djibouti e Obock, onde a sua grande casa é agora ocupada por religiosas: no final da minha peregrinação encontrei freiras.

(...)

7. – Sétima porta ou o desejo de ser inútil

(…)

- No entanto, desde Goethe, que gostava das «histórias com gravuras» de Tõpffer, fundador do género, a Michel Serres, que termina seu novo livro Le Tiers-Instruit com um retrato de Hergé, houve grandes intelectuais que se interessaram pela banda desenhada.

- Sim, mas entre os intelectuais, como em toda a parte, o que lornina é o conformismo. E se certos intelectuais de renome, como Umberto Eco ou Jean Markale, escreveram prefácios para os meus álbuns, é porque têm bastantes pontos em comum comigo. Nós somos mais ou menos da mesma geração, temos uma mentalidade de investigador, lemos bandas desenhadas de aventuras na nossa juventude - ao passo que a geração de 1968 privilegiou as bandas desenhadas humorísticas e satíricas. E como eu, Markale e Eco gostam de explorar mundos bastante alheios ao que se chama o mundo da realidade. Jean Markale vive num sonho céltico, entre o mágico Merlin e a fada Morgana, e por isso não é muito estranho que ele se tenha interessado por As Célticas. Umberto Eco também se passeia por mundos esotéricos, em busca de mitos. Gostei evidentemente dos seus romances, O Nome da Rosa e O Pêndulo de Foucault, mas também das suas apostilas [Postille al Nome de la Rosa/Porquê «O nome da rosa?»], em que nos dá uma ideia do trabalho que efectuou. O Pêndulo de Foucault, mais ainda que O Nome da Rosa, foi criticado porque nele se apresenta um mundo que nem sempre é directamente abordável pelos leitores, mas a meu ver caberia aos leitores documentarem-se: Umberto Eco convida os leitores para o seu mundo, não tem nada que o mu- dar para o tornar mais acessível. Tenho relações cordiais com Markale e Eco, que também não gostam de viver apenas no presente das modas e dos seus preconceitos, e gosto do que eles fazem, mas não me parecem representativos dos intelectuais em geral, nem do que os intelectuais pensam da banda desenhada.

- A sua casa não está mobilada como uma verdadeira casa, é uma biblioteca onde instalou algumas camas, algumas mesas e algumas cadeiras ...

- É exactamente isso. Neste momento encontramo-nos na sala dos livros sobre a América do Norte. Eu moro numa biblioteca, é a realização de um dos sonhos de Borges. Mas não precisei para isso de me tomar bibliotecário: cheguei ao mesmo resultado fazendo o inverso, criando uma biblioteca à minha volta. Não li integralmente todos os meus livros, mas folheei-os a todos, e se me falta uma informação, posso ir directamente ao livro que ma prestará. A minha experiência com os livros permite-me ir directamente ao essencial. A minha documentação, nomeadamente iconográfica, é tal que já não tenho necessidade de fazer pesquisas nas grandes bibliotecas do mundo. Recentemente, escrevi para o meu amigo desenhador Manara uma história sobre um gaúcho na Argentina aquando da invasão inglesa de 1806: tinha comprado há um ano todas as obras que tratam dessa questão. Só me faltam umas férias para poder ler os meus livros tranquilamente: antigamente, consagrava o meu tempo livre à pesquisa de livros, agora tenho os livros, mas falta-me tempo livre. Posso deixar um livro dormir anos numa prateleira, mas um belo dia preciso dele; reencontro-o, e até me parece que me censura por tê-lo abandonado durante tanto tempo. Eu sou o nómada da minha biblioteca. Por vezes, num velho livro, descubro um papel que alguém deixou, uma flor seca. Não me desagradaria acabar assim, seco e espalmado entre as páginas de um livro. Claro, eu não pareceria uma malva-rosa, talvez até fosse assustador, mas gostaria de acabar assim.   

O que o guiou na sua vida?


- A curiosidade intelectual. Eu tenho curiosidade de conhecer o amanhã. A minha vida está cheia de surpresas e de prazeres. As minhas pesquisas em diversos domínios abriram-me mundo e a mim mesmo. Quando passeio por Aigues- Mortes e vejo uma ruela que se chama rue de l' Amour-Aveugle [Rua Amor Cego], sinto a necessidade de saber porquê ... e acabo descobrir que outrora havia ali um bordeI onde trabalhavam raparigas cegas. Dediquei assim uma grande parte da minha vida a ir de procura em procura, de viagem em viagem e de livro em livro. Alguns passaram assim toda a sua vida, e eu compreendo-os. E depois um dia depara-se com uma falha, o documento: por exemplo, queimado na Idade Média, e é então que alguém como eu pode ocupar esse vazio criando uma história: a sós comigo mesmo, dou a minha interpretação, e graças à imaginação saio do círculo em que todos esses livros me tinham encerrado.






domingo, 10 de julho de 2016

Linhares Barbosa - FADO DAS SARDINHEIRAS

* Linhares Barbosa

Um dia ele seguiu-me
Na rua onde eu morava
Cumprimentou-me e fugiu-me
E ao outro dia lá estava

Atirei-lhe da trapeira 
Da minha água furtada
Uma rubra sardinheira 
Que se tornou mais corada

Depois, nunca mais o vi 
Nem do seu olhar a chama
Passou tempo e descobri 
Que ele morava na Alfama

Uma noite, sem pensar 
Pus o meu xaile, o meu lenço
E fui atrás desse olhar 
Que deixara o meu suspenso

Hoje moro onde ele mora 
Hoje durmo onde ele dorme
E há sol por dentro e por fora 
Da minha alegria enorme


http://www.portaldofado.net/component/option,com_jmovies/Itemid,335/task,detail/id,2716/

sábado, 2 de julho de 2016

maria teresa horta - Morrer de amor

maria teresa horta,

Morrer de amor 
ao pé da tua boca

desfalecer
à pele
do sorriso

sufocar
de prazer
com o teu corpo

trocar tudo por ti
se for preciso



maria teresa horta, in “destino”

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Àlex Susanna - Amigos

* Àlex Susanna 

Depois de alguns anos de pastagem 
sabes finalmente quais são
os teus companheiros de encerro,
quero dizer, de geração:
são poucos, cada vez menos
mas são mais próximos
aqueles que restam.

Tranquilizem-se, no entanto, 
não vos citarei, meus amigos:
receio que nomeados se volatilizem
- como acontece com certas bruxarias -
e tal coisa far-me-ia muita pena.
Sei quem vocês são, vocês também
- isso me basta.

trad. Egito Gonçalves
http://amata.anaroque.com/arquivo/2016/03/amigos

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Rudyard Kipling - Recessional

* Rudyard Kipling

Main article: Lest we forget (phrase)
The phrase "lest we forget" forms the refrain of "Recessional." It introduces the reason for the entreaty expressed in the poem: that God might spare the British Empire from oblivion or profanity, "lest we forget" the sacrifice of Christ ("Thine ancient sacrifice").
The phrase later passed into common usage after World War I across the British Commonwealth, especially becoming linked withRemembrance Day observations; it became a plea not to forget past sacrifices, and was often found as the only wording on war memorials,[7] or used as an epitaph.

 Recessional


God of our fathers, known of old,
  Lord of our far-flung battle line,
Beneath whose awful hand we hold
  Dominion over palm and pine—
Lord God of Hosts, be with us yet,
Lest we forget—lest we forget!



The tumult and the shouting dies;

  The Captains and the Kings depart:
Still stands Thine ancient sacrifice,
  An humble and a contrite heart.
Lord God of Hosts, be with us yet,
Lest we forget—lest we forget!




Far-called our navies melt away;

  On dune and headland sinks the fire:
Lo, all our pomp of yesterday
  Is one with Nineveh and Tyre!
Judge of the Nations, spare us yet,
Lest we forget—lest we forget!




If, drunk with sight of power, we loose

  Wild tongues that have not Thee in awe,
Such boastings as the Gentiles use,
  Or lesser breeds without the Law—
Lord God of Hosts, be with us yet,
Lest we forget—lest we forget!




For heathen heart that puts her trust

  In reeking tube and iron shard,
All valiant dust that builds on dust,
  And guarding calls not Thee to guard,
For frantic boast and foolish word-
Thy Mercy on Thy People, Lord![8]


  1.  For example, the War memorial clock in the post office at Bangalow, New South Wales, the Memorial Clock Tower at Goomeri, Queensland, and the memorial clock tower at Pinnaroo, South Australia all have the twelve letters of "Lest We Forget" on the clock face, with L-E-S-T-W-E at 10, 11, 12, 1, 2, and 3 o'clock, in forward sequence, starting with the "F", and the letters F-O-R-G-E-T, in reverse sequence, at 9, 8, 7, 6, 5, and 4 o'clock—meaning that the top half of the clock immediately displays "Lest we", and the bottom half "Forget", to all viewers.
  2. Jump up
***

RECESSIONAL

    Deus dos nossos dias supremos,    
Dos nossos pais e hostes guerreiras,    
De cuja mão sublime temos    
Domínio em gelos e palmeiras — 
Senhor, teu espírito não nos faleça, 
Não nos esqueça! não nos esqueça!

    Cessa o tumulto, cessa o bulício,    
Reis, chefes vão-se; ainda perdura    
O teu antigo sacrifício,    
Uma alma humana humilde e pura. — 
Senhor, teu espírito não nos faleça, 
Não nos esqueça, não nos esqueça!

    A nossa esquadra ao longe, esvai-se;   
Já pelas praias não se ouve o tiro:   
 O esplendor de ontem, ei-lo que vai-se    
Como o de Nínive, como o de Tiro! — 
Teu espírito ainda se compadeça, 
Não nos esqueça, não nos esqueça!

    Se a nossa alma, ébria de ambição,    
E olvidando que és tu seu rei,    
Soltar vanglórias de pagão    
Próprias de raças que não têm lei, — 
Senhor, teu espírito não nos faleça, 
Não nos esqueça, não nos esqueça!

    De alma pagã cuja fé fica  
 Em cano de arma e ferro nu, —    
Pó que sobre pó edifica    
E guarda, sem guardares Tu, —    
De glória oca, de oco valor,    
Sempre o teu povo livra, Senhor!

         
(tradução de Fernando Pessoa)
http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/pi/pi200257.htm

Rudyard Kipling - O Fardo do Homem Branco

*   Rudyard Kipling


Tomai o fardo do Homem Branco - 

     Envia teus melhores filhos 
Vão, condenem seus filhos ao exílio 
     Para servirem aos seus cativos; 
Para esperar, com arreios 
     Com agitadores e selváticos 
Seus cativos, servos obstinados, 
     Metade demônio, metade criança. 

Tomai o fardo do Homem Branco - 

     Continua pacientemente 
Encubra-se o terror ameaçador 
     E veja o espetáculo do orgulho; 
Pela fala suave e simples 
     Explicando centenas de vezes 
Procura outro lucro
     E outro ganho do trabalho. 

Tomai o fardo do Homem Branco - 

     As guerras selvagens pela paz - 
Encha a boca dos Famintos, 
     E proclama, das doenças, o cessar; 
E quando seu objetivo estiver perto 
     (O fim que todos procuram) 
Olha a indolência e loucura pagã 
     Levando sua esperança ao chão. 

Tomai o fardo do Homem Branco - 

     Sem a mão-de-ferro dos reis, 
Mas, sim, servir e limpar - 
     A história dos comuns. 
As portas que não deves entrar 
     As estradas que não deves passar 
Vá, construa-as com a sua vida 
     E marque-as com a sua morte. 

Tomai o fardo do homem branco - 

     E colha sua antiga recompensa - 
A culpa de que farias melhor 
     O ódio daqueles que você guarda 
O grito dos reféns que você ouve 
     (Ah, devagar!) em direção à luz: 
"Porque nos trouxeste da servidão 
      Nossa amada noite no Egito?" 

Tomai o fardo do homem branco - 

     Vós, não tenteis impedir - 
Não clamem alto pela Liberdade 
     Para esconderem sua fadiga 
Porque tudo que desejem ou sussurrem, 
     Porque serão levados ou farão, 
Os povos silenciosos e calados 
     Seu Deus e tu, medirão. 

Tomai o fardo do Homem Branco! 

     Acabaram-se seus dias de criança 
O louro suave e ofertado 
     O louvor fácil e glorioso 
Venha agora, procura sua virilidade 
     Através de todos os anos ingratos, 
Frios, afiados com a sabedoria amada 
     O julgamento de sua nobreza.

       

_________


Fonte: http://pt.wikisource.org/wiki/O_fardo_do_Homem_Branco (s/ nome do tradutor)


The White Man’s Burden: The United States and The Philippine Islands (1899)


Take up the White Man's burden, Send forth the best ye breed

  Go bind your sons to exile, to serve your captives' need;

To wait in heavy harness, On fluttered folk and wild—

  Your new-caught, sullen peoples, Half-devil and half-child.


Take up the White Man's burden, In patience to abide,

  To veil the threat of terror And check the show of pride;

By open speech and simple, An hundred times made plain

  To seek another's profit, And work another's gain.


Take up the White Man's burden, The savage wars of peace—

  Fill full the mouth of Famine And bid the sickness cease;

And when your goal is nearest The end for others sought,

  Watch sloth and heathen Folly Bring all your hopes to nought.


Take up the White Man's burden, No tawdry rule of kings,

  But toil of serf and sweeper, The tale of common things.

The ports ye shall not enter, The roads ye shall not tread,

  Go make them with your living, And mark them with your dead.


Take up the White Man's burden And reap his old reward:

  The blame of those ye better, The hate of those ye guard—

The cry of hosts ye humour (Ah, slowly!) toward the light:—

  "Why brought he us from bondage, Our loved Egyptian night?"


Take up the White Man's burden, Ye dare not stoop to less—

  Nor call too loud on Freedom To cloak your weariness;

By all ye cry or whisper, By all ye leave or do,

  The silent, sullen peoples Shall weigh your gods and you.


Take up the White Man's burden, Have done with childish days—

  The lightly proferred laurel, The easy, ungrudged praise.

Comes now, to search your manhood, through all the thankless years

  Cold, edged with dear-bought wisdom, The judgment of your peers!


Source: Rudyard Kipling, “The White Man’s Burden: The United States & The Philippine Islands, 1899.” Rudyard Kipling’s Verse: Definitive Edition (Garden City, New York: Doubleday, 1929).


http://historymatters.gmu.edu/d/5478/


Kipling, o 'Fardo do Homem Branco' e o imperialismo americano

Kipling, o 'Fardo do Homem Branco' 
e o imperialismo americano

pelos Editores da Monthly Review

Capa do nº de Nov/2003.Estamos a viver um período em que a retórica do império conhece poucas limitações. Numa matéria especial sobre "A América e o império", o número de Agosto da revista londrina Economistperguntou se os Estados Unidos estariam, na eventualidade de "mudanças de regime...efectuadas pacificamente" no Irão e na Síria, "realmente preparados para arcar com o fardo do homem branco em todo o Médio Oriente". A resposta dada foi que isto era "improvável" — o compromisso americano para com o império não ia tão longe. O que é significativo, entretanto, é que a questão tenha chegado a ser perguntada.

As actuais guerras americanas no Afeganistão e no Iraque levaram observadores a perguntarem-se se não haverá semelhanças e ligações históricas entre o "novo" imperialismo do século XXI e o imperialismo dos séculos XIX e XX. Jonathan Marcus, o correspondente sobre defesa da BBC, comentou há uns poucos meses:
Deveria ser lembrado que, há mais de uma centena de anos, o poeta britânico Rudyard Kipling escreveu o seu famoso poema intitulado "o fardo do homem branco" — uma advertência acerca das responsabilidades do império que era destinado não a Londres mas a Washington e às suas novas responsabilidades imperiais na Filipinas. Não está claro que o presidente George W. Bush seja leitor de poesia ou de Kipling. Mas os sentimentos de Kipling são tão relevantes hoje quanto foram quanto o foram na altura em que o poema foi escrito, pouco após a Guerra Hispano-Americana. (17/Julho/2003)
Alguns outros proponentes do imperialismo nos dias modernos também extraíram ilações do poema de Kipling, os quais principiam pelas linhas:
Aguentem o fardo do Homem Branco—
—Enviem para a frente o melhor que tenham gerado—
(Take up the White Man's burden—
—Send forth the best ye breed—)
Antes de discutir as razões para este súbito interesse renovado no "Fardo do Homem Branco" de Kipling, é necessário apresentar alguma informação prévia acerca da história do imperialismo americano a fim de situar o poema no seu contexto.

DA GUERRA HISPANO-AMERICANA
À GUERRA FILIPINO-AMERICANA 


Na Guerra Hispano-Americana de 1898 os Estados Unidos tomaram as colónias espanholas no Caribe e no Pacífico, emergindo pela primeira vez como uma potência mundial. [1] Tal como em Cuba, o domínio colonial espanhol nas Filipinas provocou uma luta de libertação nacional. Imediatamente após o bombardeamento naval de Manilha, em 1 de Maio de 1898, no qual a frota espanhola foi destruída, o almirante Dewey enviou uma canhoneira a Hong Kong para buscar o líder revolucionário filipino Emilio Aguinaldo. Os Estados Unidos queriam que Aguinaldo liderasse uma nova revolta contra a Espanha para continuar a guerra antes que chegassem as tropas americanas. Os filipinos tiveram tanto êxito que em menos de dois meses derrotaram os espanhóis na ilha principal de Luzon, sitiando as tropas espanholas remanescentes na cidade capital de Manilha, ao mesmo tempo que quase todo o arquipélago caía em mãos filipinas. Em Junho os líderes filipinos emitiram a sua própria Declaração de Independência baseada no modelo americano. Quando as forças americanas finalmente chegaram, no fim de Junho, os 15 mil soldados espanhóis escondidos em Manilha estavam cercados pelo exército filipino entrincheirado em torno da cidade — de modo que as forças americanas tiveram de pedir permissão para atravessar as linhas filipinas a fim de enfrentar estas tropas espanholas remanescentes. O exército espanhol rendeu-se às forças americanas em Manilha em 13 de Agosto de 1898, depois de apenas umas poucas horas de combate. Num acordo entre os Estados Unidos e a Espanha, as forças filipinas foram mantidas fora da cidade e foram postas de parte na rendição. Esta foi a batalha final daquela guerra. John Hay, embaixador americano na Grã-Bretanha, apreendeu o espírito imperialista daquele tempo quando escreveu que a Guerra Hispano-Americana como um todo fora "uma esplêndida pequena guerra".

Contudo, uma vez ultrapassado o combate com a Espanha, os Estados Unidos recusaram-se a reconhecer a existência da nova República Filipina. Em Outubro de 1898 a administração McKinley revelou publicamente pela primeira vez que pretendia anexar todas as Filipinas. Dizem que ao chegar a esta decisão o presidente McKinley teria dito que "Deus Poderoso" ordenara-lhe que fizesse das Filipinas uma colónia americana. Poucos dias após este anúncio foi estabelecida em Boston a Liga Anti-Imperialista da Nova Inglaterra. Dentre os seus membros incluíam-se pessoas célebres como Mark Twain, William James, Charles Francis Adams e Andrew Carnegie. No entanto, a administração avançou e em Dezembro concluiu o Tratado de Paris, pelo qual a Espanha concordava em ceder as Filipinas à nova potência imperial, bem como suas outras possessões capturadas pelos Estados Unidos durante a guerra.

A isto seguiu-se um violento debate no Senado acerca da ratificação do tratado, centrando-se sobre os estatutos da Filipinas, os quais, excepto para a cidade de Manilha, estavam sob o controle da nascente República Filipina. Em 4 de Fevereiro de 1899, tropas americanas com ordens para provocar um conflito com as forças filipinas que cercavam Manilha foram deslocadas para o terreno contestado que se situava entre as linhas americanas e filipinas, nos subúrbios da cidade. Quando se depararam com soldados filipinos os soldados americanos gritaram "Alto" e a seguir abriram fogo, matando três deles. As forças americanas começaram imediatamente uma ofensiva geral, com todo o seu poder de fogo, que equivaleu a um ataque surpresa (os principais oficiais filipinos estavam longe na altura, a participar de um esplêndido baile celebratório), infligindo enormes baixas às tropas filipinas. O San Francisco Callrelatou em 5 de Fevereiro que no momento em que as notícias chegaram a Washington McKinley disse a "um amigo íntimo...que na sua opinião o enfrentamento de Manilha asseguraria a ratificação do tratado no dia seguinte".

Estes cálculos demonstraram-se correctos e no dia seguinte o Senado ratificou oficialmente o Tratado de Paris, pondo fim à Guerra Hispano-Americana — cedendo Guam, Porto Rico e Filipinas aos Estados Unidos, e pondo Cuba sob controle americano. Ele estipulava que os Estados Unidos pagariam à Espanha 20 milhões de dólares pelos territórios que haviam ganho por meio da guerra. Mas isto pouco disfarçava o facto de que a Guerra Hispano-Americana foi uma captura aberta e sem rodeios de um império colonial ultramarino pelos Estados Unidos, em resposta à necessidade percebida pelos meios de negócio americanos, que se recuperavam de uma retracção económica, de novos mercados globais.

Os Estados Unidos imediatamente impulsionaram a Guerra Filipino-Americana, que principiara dois dias antes — e que demonstrou-se como uma das mais bárbaras guerras de conquista imperial da história. O objectivo dos EUA neste período era expandir-se não só no Caribe como também no Pacífico — e através da colonização das ilhas filipinas ganhar uma entrada no enorme mercado chinês. (Em 1900, a partir das Filipinas, os Estados Unidos enviaram tropas à China para se juntarem a outras potências imperiais no esmagamento da Rebelião Boxer).

"O Fardo do Homem Branco" de Kipling, com o subtítulo "Os Estados Unidos e o Arquipélago Filipino", foi publicado no número de Fevereiro de 1899 do McClure's Magazine [2] Fora escrito quando ainda decorria o debate acerca da ratificação do Tratado de Paris, e enquanto o movimento anti-imperialista nos Estados Unidos condenava ruidosamente o plano para anexar as Filipinas. Kipling instava os Estados Unidos, com referência especial às Filipinas, a juntar-se à Grã-Bretanha na tomada das responsabilidades raciais do império: 
Seus recém-capturados tristes povos, 
—Semi-diabos e semi-crianças. 
(Your new-caught sullen peoples, 
—Half devil and half child.)
Muitos nos Estados Unidos, incluindo o presidente McKinley e Theodore Roosevelt, saudaram o apelo violento de Kipling para que os Estados Unidos se engajassem em "guerras selvagens", principiando pelas Filipinas. O senador Albert J. Beveridge, de Indiana, declarou: "Deus não andou a preparar os povos de língua inglesa e teutónicos durante um milhar de anos para nada senão a vã e ociosa auto-contemplação e auto-admiração... Ele fez-nos peritos em governação para que possamos administrar governo entre povos selvagens e senis". No fim, mais de 126 mil oficiais e soldados foram enviados para as Filipinas a fim de deitar abaixo a resistência durante uma guerra que perdurou oficialmente desde 1899 até 1902 mas que realmente continuou durante muito mais tempo, com resistência esporádica ao longo de mais de uma década. As tropas americanas travaram 2800 confrontos com a resistência filipina. Pelo menos 250 mil filipinos, a maior parte deles civis, foram mortos, juntamente com 4200 soldados americanos (mais de dez vezes do que o número de baixas fatais na Guerra Hispano-Americana). [3]

Modelo Krag de 1892.Desde o princípio ficou claro que as forças filipinas não eram capazes de rivalizar com os Estados Unidos em termos de guerra convencional. Elas portanto passaram rapidamente à guerra de guerrilha. As tropas americanas em guerra com os filipinos jactavam-se, numa popular canção de marcha, de que "civilizariam com o Krag" (referindo-se à arma concebida por noruegueses com as quais as forças americanas eram equipadas). Mesmo assim acabaram por enfrentar intermináveis pequenos ataques e emboscadas de filipinos, os quais costumavam usar facas longas conhecidas como bolos. Destes ataques guerrilheiros resultavam mortes em combate de soldados americanos em pequenos números mas com regularidade. Tal como em todas as guerras de guerrilha prolongadas, a força da resistência filipina devia-se ao facto de ter o apoio da generalidade da população. Tal como o general Arthur MacArthur (o pai de Douglas MacArthur), que em 1900 tornou-se governador militar das Filipinas, confidenciou a um repórter em 1899:
Quando comecei a actuar contra estes rebeldes, acreditava que as tropas de Aguinaldo representavam apenas uma facção. Eu não queria acreditar que toda a população de Luzon — isto é, a população nativa — opunha-se a nós e às nossas ofertas de ajuda e bom governo. Mas depois de ter avançado mais com isto, depois de ter ocupado várias cidades e povoados seguidos... fui relutantemente obrigado a acreditar que as massas filipinas são leais a Aguinaldo e ao governo que ele encabeça.
Confrontados com uma guerra de guerrilha apoiada pela vasta maioria da população, os militares americanos responderam a isto através do reagrupamento das populações em campos de concentração, incendiando aldeias (os filipinos por vezes eram forçados a carregarem a gasolina utilizada para incendiar as suas próprias casas), enforcamentos em massa, seccionamentos a baioneta de suspeitos, violação sistemática de mulheres e crianças e tortura. A mais infame técnica de tortura, usada reiteradamente nesta guerra, era a chamada "cura de água". Grandes quantidades de água eram despejadas à força nas gargantas dos prisioneiros. Os seus estômagos ficavam então salientes de modo que a água era expelida a três pés de altura "como num poço artesiano". A maior parte das vítimas morria não muito tempo depois disso. O general Frederick Funston não hesitou em anunciar que havia pessoalmente enforcado um grupo de 35 civis suspeitos de apoiarem os revolucionários filipinos. O major Edwin Glenn não viu qualquer razão para negar a acusação de que ele fizera um grupo de 47 prisioneiros filipinos ajoelhar-se e "arrepender-se dos seus pecados" antes de cortá-los a baioneta e levá-los à morte. O general Jacob Smith ordenou às suas tropas que "matassem e queimassem", a alvejarem "todos os grupos superiores a dez" e a transformarem a ilha de Samar "num imenso deserto". O general William Shafter, na California, declarou que poderia ser necessário matar a metade da população filipina a fim de proporcionar a "perfeita justiça" à outra metade. Durante a Guerra Filipina os Estados Unidos inverteram as estatísticas de baixas de guerra normais — habitualmente há muito mais feridos do que mortos. Segundo estatísticas oficiais (discutidas em audiências no Congresso sobre a guerra) as tropas americanas mataram 15 vezes mais filipinos do que os feriram. Isto confirma frequentes relatos de soldados americanos de que combatentes combatentes filipinos feridos e capturados eram executados sumariamente no local.

A guerra continuou mesmo após a captura de Aguinaldo, em Março de 1901, mas foi declarada oficialmente concluída pelo presidente Theodoro Roosevelt em 3 de Julho de 1902 — numa tentativa de suprimir a crítica às atrocidades americanas. Naquele momento, a maior parte das ilhas do norte fora "pacificada" mas a conquista das ilhas a sul ainda estava em andamento e a luta perdurou durante anos — embora nos Estados Unidos de então os rebeldes fossem caracterizado como meros bandidos.

Massacre Moro, em que a tropa ianque assassinou 900 filipinos, mulheres e crianças inclusive, refugiados numa cratera de vulcão.Nas Filipinas do sul o exército colonial americano estava em guerra com filipinos muçulmanos, conhecidos como Moros. Em 1906 foi executado aquilo que veio a ser conhecido como oMassacre Moro , quando pelo menos nove centenas de filipinos, incluindo mulheres e crianças, foram encurralados numa cratera vulcânica na ilha de Jolo e metralhados e bombardeados durante dias. Todos os filipinos foram mortos, ao passo que as tropas americanas sofreram apenas um punhado de baixas. Mark Twain respondeu aos relatos iniciais (os quais indicavam que aquele massacre totalizava seiscentos ao invés de novecentos homens, mulheres e crianças como se verificou depois) com uma sátira amarga: "Com seiscentos engajados de cada lado, perdermos quinze homens e tivemos trinta e dois feridos — contando aquele nariz e aquele cotovelo. O inimigo chegava a seiscentos — incluindo mulheres e crianças — e nós os liquidámos completamente, não deixando sequer um bebé vivo para chorar por sua mãe morta. Esta é incomparavelmente a maior vitória já alcançada desde sempre pelos soldados cristãos dos Estados Unidos ". Ao ver uma foto amplamente divulgada que mostrava soldados americanos a olharem para pilhas de filipinos mortos na cratera, W. E. B. Du Bois declarou numa carta a Moorfield Storey, presidente a Liga Anti-Imperialista (e posteriormente o primeiro presidente da NAACP - National Association for the Advancement of Colored People), que ela constituía "a coisa mais esclarecedora que já vi desde sempre. Quero especialmente tê-la emoldurada e pendurada na parede da minha sala de conferências para fixar nos estudantes o que realmente significam as guerra e especialmente a Guerra de Conquista". [4]

O presidente Theodore Roosevelt imediatamente cumprimentou o seu bom amigo general Leonard Wood, o que executou o Massacre Moro, escrevendo: "Congratulo a si e aos oficiais e homens sob o seu comando pelo brilhante feito de armas e que o senhor e eles sustentaram tão bem a honra da bandeira americana". Tal como Kipling, Roosevelt raramente hesitava em promover a causa imperialista ou promover doutrinas de superioridade racial. Mas nas novelas de Kipling, as estórias e os versos distinguiam-se pelo facto de que pareciam, para muitas pessoas no mundo branco, evocar uma causa transcendente e nobre. Ao mesmo tempo elas não deixavam de estender a mão e reconhecer o ódio que o colonizado tem pelo colonizador. Ao conceder a Kipling o Prémio Nobel de Literatura, em 1907, o Comité Nobel proclamou: "o seu imperialismo não é do tipo intransigente que não repara nos sentimentos dos outros". [5] Era precisamente isto que fazia "O fardo do homem branco" de Kipling, e outros escritos da sua lavra, tão efectivos como véus ideológicos para a realidade bárbara.

O ano em que o poema de Kipling apareceu, 1899, marcou não só o fim da Guerra Hispano-Americana (com a ratificação do Tratado de Paris) e o princípio da Guerra Filipino-Americana como também o princípio da Guerra Boer na África do Sul. Elas foram guerras imperialistas clássicas e geraram movimentos anti-imperialistas e críticas radicais como resposta. Foi a Guerra Boer que motivou o Imperialismo, um estudo (1902), de John A. Hobson, que argumentou: "Em parte alguma sob tais condições" — referindo-se especificamente ao imperialismo britânico na África do Sul — "a teoria do governo branco como uma garantia de civilização verificou-se válida". A sentença de abertura doImperialismo, etapa superior do capitalismo , de Lenin, escrito em 1915, declarava que "especialmente a partir da Guerra Hispano-Americana (1898), e da Guerra Anglo-Boer (1899-1902), a literatura económica e também a política dos dois hemisférios tem, cada vez mais, adoptado o termo 'imperialismo' a fim de definir a era actual".

A MENSAGEM DE KIPLING AOS IMPERIALISTAS
APÓS UMA CENTENA DE ANOS 


Embora o imperialismo tenha permanecido uma realidade ao longo do último século, durante a maior parte do século XX o próprio termo foi considerado como além do permitido dentro dos círculos polidos do establishment — tão grande foi o ultraje anti-imperialista levantado pela Guerra Filipino-Americana e pela Guerra Boer, e tão efectiva foi a teoria marxista do imperialismo em arrancar o véu das relações capitalistas globais. Nestes últimos poucos anos, entretanto, "imperialismo" tornou-se outra vez um brado de apêlo para neoconservadores e neoliberais afins. Tal como reconheceu recentemente Alan Murray, Chefe do Bureau de Washington da CNBC numa declaração dirigida principalmente às elites: "Todos nós, parece, somos agora imperialistas" ( Wall Street Journal , 15/Jul/ 2003).

Se alguém duvidasse por um instante de que a actual expansão do império americano não é senão a continuação de uma história de um século do imperialismo americano além mar, Michael Ignatieff (Professor de Política dos Direitos Humanos na Kennedy School of Government, de Harvard) torna isto claro como o dia:
A operação Iraque assemelha-se mais à conquista das Filipinas entre 1898 e 1902. Ambas foram guerras de conquista, ambas foram pressionadas por uma elite ideológica sobre um país dividido e ambas custaram muito mais do que o orçamentado. Tal como no Iraque, vencer a guerra foi a parte fácil... Mais de 120 mil soldados americanos foram enviados para as Filipinas a fim de deitar abaixo a resistência guerrilheira, e 4000 nunca voltaram. Ainda está para ser visto se o Iraque custará milhares de vidas americanas — e se o público americano aceitará um preço tão pesado para o êxito no Iraque. ( New York Times Magazine , 07/Set/2003).
Com representantes do establishment a sustentarem abertamente ambições imperialistas, não deveríamos surpreender-nos com as repetidas tentativas de trazer de volta o argumento do "fardo do homem branco" de uma forma ou de outra. Nas páginas de encerramento do seu livro premiado, The Savage Wars of Peace , Max Boot cita o poema de Kipling: 
Assuma o fardo do Homem Branco— 
—E obtenha a sua recompensa de sempre: 
A censura daqueles que você melhora, 
—O ódio daqueles que você guarda— 
(Take up the White Man's burden— 
—And reap his old reward: 
The blame of those ye better, 
—The hate of those ye guard—)
Boot insiste em que Kipling estava certo, que "os colonialistas, por toda a parte, habitualmente recebem poucos agradecimentos no fim". No entanto, deveríamos ser encorajados, diz-nos ele, pelo facto de que "a maior parte do povo não resistiu à ocupação americana, como certamente teria feito se ela tivesse sido desagradável e brutal. Muitos cubanos, haitianos, dominicanos e outros podem secretamente ter saudado o domínio americano". A implicação principal de Boot parece bastante clara — os Estados Unidos deveriam outra vez "Assumir o fardo do Homem Branco". O seu livro, publicado em 2002, termina argumentando que os Estados Unidos deveriam ter deposto Saddam Hussein e ocupado o Iraque na altura da Guerra do Golfo de 1991. Aquela tarefa, indicou ele, ficou por cumprir.

Boot é o antigo editor de peças editoriais de The Wall Street Journal , e agora Investigador Senior em Estudos de Segurança Nacional do Council on Foreign Relations. O título de The Savage Wars of Peace foi retirado directamente de uma linha no "Fardo do Homem Branco" de Kipling. As 428 páginas de Boot com a glorificação das guerras imperialistas dos EUA receberam o Prémio Best Book de 2002 do Washington Post, Christian Science Monitor , e doLos Angeles Times e ganharam o Prémio General Wallace M. Greene Jr. 2003 pelo melhor livro de não ficção relativo à história do Marine Corps. Boot sustenta que a Guerra Filipina foi "uma das mais bem sucedidas contra-insurreições travadas por um exército ocidental nos tempos modernos" e declara que, "pelos padrões da época, a conduta dos soldados americanos foi melhor do que a média em guerras coloniais". O papel imperial americano nas Filipinas, o assunto do "Fardo do Homem Branco" de Kipling, está portanto a ser apresentado como um modelo para a espécie de papel imperial que Boot e outros neoconservadores estão agora a encorajar nos Estados Unidos. Mesmo antes da guerra no Iraque, Ignatieff observava: "o imperialismo costumava ser o fardo do homem branco. Isto deu-lhe uma má reputação. Mas o imperialismo não deixou de ser necessário porque ser politicamente incorrecto" — um ponto que pode muito bem ser lido como estendendo-se ao próprio "fardo do homem branco". ( New York Times Magazine , 28/Jul/2002).

A Guerra Filipino-Americana está agora a ser redescoberta como a mais estreita aproximação da história americana aos problemas que os Estados Unidos estão a encontrar no Iraque. Além disso, os Estados Unidos aproveitaram-se dos ataques do 11 de Setembro de 2001 para intervir militarmente não só no Médio Oriente como também em todo o globo — incluindo as Filipinas onde instalou milhares de soldados para ajudar o exército filipino a combater os insurrectos Moro nas ilhas do sul. Neste novo clima imperialista, Niall Ferguson, Professor de História na Stern School of Business, Universidade de Nova York, e um dos principais advogados do novo imperialismo, focou o poema de Kipling "O Fardo do Homem Branco" no seu livro Empire(2002). "Ninguém", diz-nos Ferguson,
ousaria utilizar uma linguagem tão politicamente incorrecta hoje em dia. A realidade no entanto é que os Estados Unidos — quer se admita quer não — assumiram uma espécie de fardo global, tal como instava Kipling. Consideram-se responsáveis não só por travar uma guerra contra o terrorismo e Estados vilões, mas também por difundir os benefícios do capitalismo e da democracia além mar. E tal como o Império Britânico antes, o Império Americano actua para sempre em nome da liberdade, mesmo quando o seu próprio auto-interesse está em primeiro lugar.
Apesar da alegação de Ferguson de que "ninguém ousaria" chamar a isto hoje em dia "o fardo do homem branco" por ser "politicamente incorrecto", referências simpáticas a esta expressão continuam a aflorar — e a maior parte delas nos círculos privilegiados. Boot — que não pode ser considerado um marginal uma vez que está associado ao influente Council on Foreign Relations — é um bom exemplo. Tal como o próprio Ferguson, ele tenta incorporar o "fardo do homem branco" dentro de uma longa história de intervenção idealista, subestimando as realidades do racismo e do imperialismo. "Nos princípio do século XX", escreve ele no capítulo final do seu livro (intitulado "In Defense of the Pax Americana"), "os americanos falavam da difusão da civilização anglo-saxonica e assumiam o 'fardo do homem branco', hoje falam de difundir a democracia e defender direitos humanos. Seja o que for que se chame, isto representa um impulso idealista que sempre foi uma parte importante do ímpeto americano para ir à guerra".

Os imperialistas de hoje vêm o poema de Kipling principalmente como uma tentativa de endurecer a espinha dorsal da classe dirigente americana dos seus dias como preparação para o que ele chamou "as selvagens guerras da paz". E é precisamente deste modo que eles agora aludem aos "fardo do homem branco" em relação ao século XXI. Assim, para a revista Economist a questão é simplesmente se os Estados Unidos estão "preparados para suportar o fardo do homem branco por todo o Médio Oriente".

Como analista e como porta-voz do imperialismo, Kipling estava muito acima disto no sentido de que percebia perfeitamente o assomar das contradições do seu próprio tempo. Ele sabia que o Império Britânico estava demasiado estendido e condenado — mesmo que ele lutasse para salvá-lo e para inspirar os Estados Unidos em ascensão a entrarem na etapa imperial ao lado dele. Apenas dois anos antes de escrever "O Fardo do Homem Branco" escreveu os seus celebrados versos, "Recessional":
Chamados para longe, nossos navios fundem-se,
—Sobre dunas e cabos mergulha o fogo;
Olhe, todo o nosso esplendor de ontem
—Está-se junto a Nínive e Tiro!
Juiz das Nações, poupe-nos por enquanto,
Para que não esqueçamos—para que não esqueçamos!
(Far-called, our navies melt away;
—On dune and headland sinks the fire;
Lo, all our pomp of yesterday
—Is one with Nineveh and Tyre!
Judge of Nations, spare us yet,
Lest we forget—lest we forget!)
Os Estados Unidos estão agora a abrir caminho para uma nova fase do imperialismo. Isto será marcado não só por aumentos de conflitos entre centro e periferia — racionalizado no Ocidente pelo racismo velado e não tão velado — mas também pela crescente rivalidade intercapitalista. Isto provavelmente acelerará o declínio a longo prazo do Império Americano, ao invés de reverte-lo. E nesta situação um apelo para um cerrar fileiras entre aqueles de extracção europeia (o "choque de civilizações" de Samuel Huntington ou algum substituto) provavelmente vai tornar-se mais atraente entre as elites americanas e britânicas. Deveria ser recordado que o "Fardo do Homem Branco" de Kipling era uma apelo à exploração conjunta do globo por aqueles a que Du Bois posteriormente chamou "os mestres brancos do mundo" em face da decadência das fortunas britânicas. [6] Assim, em momento algum deveríamos subestimar a tríplice ameaça do militarismo, imperialismo e racismo — ou esquecer que as sociedades capitalistas historicamente foram identificadas com todas as três.


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1- O breve tratamento histórico que se segue da Guerra Filipino-Americana foi retirado principalmente destas obras: Henry F. Graff, ed., American Imperialism and the Philippine Insurrection: Testimony Taken from Hearings on Affairs in the Philippine Islands before the Senate Committee on the Philippines— 1902 (Boston: Little, Brown, 1969); Angel Velasco Shaw and Luis H. Francia, Vestiges of War: The Philippine-American War and the Aftermath of an Imperial Dream, 1899–1999 (New York: New York University Press, 2002); Daniel B. Schirmer, Republic or Empire: American Resistance to the Philippine War (Cambridge, Mass.: Schenkman, 1972) and “How the Philippine-U.S. War Began,” Monthly Review , September 1999; Stuart Creighton Miller , “Benevolent Assimilation”: The American Conquest of the Philippines, 1899–1903 (New Haven: Yale University Press, 1990) ; and Daniel B. Schirmer and Stephen Rosskamm Shalom, The Philippines Reader (Boston: South End Press, 1987). 

2- O poema é muitas vezes reproduzido sem o subtítulo. Para uma versão correcta ver Kipling's Verse: Definitive Edition (New York: Doubleday, 1940). 

3- Embora um quarto de milhão seja o número "consensual" dos historiadores, estimativas de mortes filipinas nesta guerra ascendem a números tão altos como um milhão, o que teria significado o despovoamento das ilhas em cerca de um sexto. 

4- Jim Zwick, ed., Mark Twain's Weapons of Satire (Syracuse, New York: Syracuse University Press, 1992), p. 172. Para informação sobre o massacre Moro e a citação de W. E. B. Du Bois ver www.boondocksnet.com/ai/ail/moro.html . O sítio web boondoscksnet de Jim Zwick é uma fonte crucial para materiais sobre a Guerra Filipino-Americana, respostas contemporâneas ao "Fardo do Homem Branco" de Kipling, e escritos anti-imperialistas de Mark Twain. 

5- O Comité Nobel estava, entretanto, impressionado sobretudo pela simpatia de Kipling para com os Boers da África do Sul — uma outra população de colonizadores brancos. 

6- Este apelo às elites brancas para dividir o mundo evocou uma resposta para além da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos. A admiração por Kipling entre as classes dirigentes no centro do mundo capitalista era mais geral. Como nos diz Hobsbawm: "Quando se acreditava que o escritor Rudyard Kipling, o bardo do Império Britânico, estava a morrer de pneumonia em 1899, não só os britânicos e os americanos sentiram pesar — Kipling acabara de destinar um poema sobre "O Fardo Mundo Branco" aos EUA acerca das suas responsabilidades na Filipinas — mas o Imperador da Alemanha enviou um telegrama". Eric Hobsbawm, The Age of Empire (New York: Vintage, 1987), p. 82. 

O original encontra-se em http://www.monthlyreview.org/1103editors.htm . 
Tradução de JF. 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .