quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O Natal dos consumidos (e um pedido)

***



14 de Dezembro de 2016, 22:21

Por


E
stamos a breves dias do Natal. O que sobra em consumismo desenfreado (seja-se crente, agnóstico, ateu ou de um sincretismo de tudo e nada), falta em espiritualidade adventista. É assim cada vez mais, perante a primazia do (de)ter, do comprar, do usar, do trocar. Uma correria sem nexo, acorrentada pela obrigação, mais do que alimentada pelo coração. Uma permuta instrumental que transforma o prazer de dar em desprazer de despachar. Pessoas sujeitas à pressa, à quantidade, à turbulência cheia de vazio, num vaivém freneticamente estúpido.  Atafulham-se com listas e preçários, numa contabilidade que releva o presenteado em euros e compara as prendas natalícias com o custo do recíproco. Agora, até o Natal é antecedido por uma nova mercearia com nome inglês, pois claro: “Black Friday”. Nisso somos imparáveis, importamos tudo o que seja consumismo. É aproveitar a ilusão (e, às vezes, a trafulhice) dos preços em regime ioió, quer dizer subindo para depois descer e descendo para depois subir.
No fim, a exaustão do corpo, a carência do espírito, a inutilidade do gasto, a velocidade uniformemente acelerada da compra precipitada, o excesso das trocas e baldrocas, o vácuo depois da apoplexia. E lá se foi o Natal. Mais um. Com inutilidades de prendas (perdão, presentes, segundo os cânones socialmente correctos) condenadas ao esquecimento ou – quem sabe – a girar no próximo Natal.
Agora que vivemos no tempo dos smartphones e das redes sociais, outro martírio se nos depara. A enxurrada de “Boas Festas” e outras expressões do momento cai, em inusitada abundância, nas nossas maquinetas mais ou menos “smart”. Confesso que tenho saudades do tempo em que, por esta época festiva, se falava com a família e amigos. Agora é sempre a andar em jeito de poluição de afectos: centenas de SMS (e mails) de conhecidos, desconhecidos, ignotos, chatos e insinuantes. Sem selecção, sem critério, ao dispor de um dedilhar de um botãozinho. Abomino, sobretudo, os que logo percebo que foram enviados para um vasto conjunto de “amigos”, com “beijos ou abraços” ou, na linguagem cifrada e com correcção de género por via de um @, “abreijos” para todos “car@s amig@s”. E, também, os que, na obsessiva preocupação de não cair nas palavras simples e mais usadas, escrevem bizantinices florentinas, em prosa ou falso verso, que, de tão kitsch, me fazem perder o apetite mesmo diante de um bolo-rei.
Que saudades tenho do dia 24 de Dezembro sem esta parafernália de termos e desenhos tontos que, de tanta inflação de uso e de abuso, nada significam. Por isso, procuro preservar o Natal de família e de amizade. Das pessoas que me estão próximas no coração, não naquele dia, mas sempre.
Gosto do gosto de um Natal com a magia que advém (e não desaparece) do imaginário infantil. De um Natal que seja capaz de, por uns instantes, tornar os adultos mais crianças e as crianças mais meninos e meninas.  De um Natal em que o melhor não é tanto a data, mas a atmosfera dos dias que o antecedem, porque o melhor não é o chegar, mas o ir ao encontro de, não é o possuir, mas o viver.
Aproveito este “tudo menos economia” de hoje para clamar por uns dias natalícios de “tudo menos um tsunami de SMS e quejandos”. Depois de falar com quem quero, o meu telemóvel vai tirar uns dias de férias de e no Natal e transformar-se numa parede inexpugnável. Por favor, poupem os euros de mensagens que as operadoras vos facturam com tanto zelo! Assim, terei tempo para parar, contemplar, falar, pensar diante do aniversário do nascimento d’Aquele em que acredito. Com esperança e alegria.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/12/14/o-natal-dos-consumidos-e-um-pedido/

Fausto - A guerra é a guerra



* Fausto

Salto no escuro; Entre dentes trago a faca
E nos meus olhos coloridos; Juro
Vem ver o fogo no mar; Os peixes a arder
Ó Ana vem ver; Ó Ana vem ver; Ó Ana vem ver

Voando em arco; Esgueiro o corpo num balanço
Como um piloto do inferno; Assalto
Nas asas guerreiras de um anjo; Seja louvado
Atacamos mui baralhados; Como um bando endiabrado
Por Jesus na sua cruz; Chora por mim ó minha infanta
Escorre sangue o céu e a terra; Ah pois por mais que seja santa
A guerra é a guerra

Coro:
Malaca Malaca; A guerra é a guerra
No céu e na terra; Nos dentes a faca
Avanço avanço; A guerra é a guerra
No céu e na terra; Balanço balanço
Cruzado cruzado; A guerra é a guerra
No céu e na terra; O mais enfeitado
Largar largar; O fogo no mar

Seja bendito; De todos o mais enfeitado
Olha p’ra mim o mais guerreiro; Ao vivo
Olha p’ra mim o teu amado; E o céu a arder
Ó Ana vem ver; Ó Ana vem ver; Ó Ana vem ver
Barcos em chamas; Erguidas
Parecia coisa sonhada; Queimados
Os gritos horrendos da besta; Ferida
E lá dentro ardiam homens; Encurralados
E cá fora à cutilada; Decepados
P’la calada; Pelos peitos já desfeitos
Chora por mim ó minha infanta; Escorre sangue o céu e a terra
Ah pois por mais que seja santa; A guerra é a guerra

(coro)

Foge saloio; Eh parolo
Aguenta António de Faria; E a fidalguia
Todo o massacre; E todo o desconsolo
Que já lá vem o Coja Acém; E o mar a arder
Ó Ana vem ver; Ó Ana vem ver; Ó Ana vem ver
Diz-nos adeus o pirata; O labrego
De cima daquele mastro; Trocista e airoso
Mostrando o traseiro cafre; Preto escuro de um negro
Levando-nos coiro e tesouro; Rindo de gozo
Perdeu-se o resto na molhada; Pelo estrondo
Na quebrada; No edema da gangrena
Chora por mim ó minha infanta; Escorre sangue o céu e a terra
Ah pois por mais que seja santa; A guerra é a guerra

É o sexto álbum de Fausto e o primeiro da trilogia "Lusitana Diáspora"
Música e letra de Fausto
Arranjo de Eduardo Paes Mamede e Fausto
Orquestração, direcção musical e produção de Eduardo Paes Mamede


Fausto Bordalo Dias, - (1948 - …) compositor e músico.
Autor de “Por Este Rio Acima”, editado pela primeira vez em 1982, remasterizado e re-editado em 1990, que se baseia nas viagens de Fernão Mendes Pinto, relatadas no seu livro “Peregrinação”.

Nota: Diário da viagem, Fernão Mendes Pinto
“De Diu embarquei para o estreito de Meca, daqui fomos a Maçuá e daí, por terra, ao Reino do Preste João. Passei ao Reino dos Batas e de fugida pelo Reino de Quedá como adiante darei parte. Em Patane conheci António de Faria, capitão a quem servi na venda da mercadoria. Fomos atacados e roubados pelo perro do Coja Acém, temido pirata depois que Heitor da Silveira lhe matara seu pai e dois irmãos. Por isso, Coja Acém havia prometido a Mafamede matar todos da geração de Malaca. Em pequenas fustas, enfrentei também a grande armada do turco que bordejava na nossa esteira com as velas quarteadas de cores e muitas bandeiras de seda.”

http://abeiralethes.blogspot.pt/2009/10/fausto.html


"O Actor" de Herberto Hélder:

* Herberto Hélder

O actor acende a boca. Depois os cabelos.
Finge as suas caras nas poças interiores.
O actor pôe e tira a cabeça
de búfalo.
De veado.
De rinoceronte.
Põe flores nos cornos.
Ninguém ama tão desalmadamente
como o actor.
O actor acende os pés e as mãos.
Fala devagar.
Parece que se difunde aos bocados.
Bocado estrela.
Bocado janela para fora.
Outro bocado gruta para dentro.
O actor toma as coisas para deitar fogo
ao pequeno talento humano.
O actor estala como sal queimado.

O que rutila, o que arde destacadamente
na noite, é o actor, com
uma voz pura monotonamente batida
pela solidão universal.
O espantoso actor que tira e coloca
e retira
o adjectivo da coisa, a subtileza
da forma,
e precipita a verdade.
De um lado extrai a maçã com sua
divagação de maçã.
Fabrica peixes mergulhados na própria
labareda de peixes.
Porque o actor está como a maçã.
O actor é um peixe.

Sorri assim o actor contra a face de Deus.
Ornamenta Deus com simplicidades silvestres.
O actor que subtrai Deus de Deus, e
dá velocidade aos lugares aéreos.
Porque o actor é uma astronave que atravessa
a distância de Deus.
Embrulha. Desvela.
O actor diz uma palavra inaudível.
Reduz a humidade e o calor da terra
à confusão dessa palavra.
Recita o livro. Amplifica o livro.
O actor acende o livro.
Levita pelos campos como a dura água do dia.
O actor é tremendo.
Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor.
Como a unidade do actor.

O actor é um advérbio que ramificou
de um substantivo.
E o substantivo retorna e gira,
e o actor é um adjectivo.
É um nome que provém ultimamente
do Nome.
Nome que se murmura em si, e agita,
e enlouquece.
O actor é o grande Nome cheio de holofotes.
O nome que cega.
Que sangra.
Que é o sangue.
Assim o actor levanta o corpo,
enche o corpo com melodia.
Corpo que treme de melodia.
Ninguém ama tão corporalmente como o actor.
Como o corpo do actor.

Porque o talento é transformação.
O actor transforma a própria acção
da transformação.
Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se.
O actor cresce no seu acto.
Faz crescer o acto.
O actor actifica-se.
É enorme o actor com sua ossada de base,
com suas tantas janelas,
as ruas -
o actor com a emotiva publicidade.
Ninguém ama tão publicamente como o actor.
Como o secreto actor.

Em estado de graça. Em compacto
estado de pureza.
O actor ama em acção de estrela.
Acção de mímica.
O actor é um tenebroso recolhimento
de onde brota a pantomina.
O actor vê aparecer a manhã sobre a cama.
Vê a cobra entre as pernas.
O actor vê fulminantemente
como é puro.
Ninguém ama o teatro essencial como o actor.
Como a essência do amor do actor.
O teatro geral.

O actor em estado geral de graça.




 http://dererummundi.blogspot.pt/2011/03/o-actor-de-herberto-helder.html

Ricardo Araújo Pereira - Mariquice linguística


CLICAR NA IMAGEM PARA AMPLIAR

 http://entreostextosdamemoria.blogspot.pt/2016/12/visao-15122016-p114.html

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Fernando Pessoa - Hora absurda

* Fernando Pessoa
O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...
Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...
Abre todas as portas e que o vento varra a ideia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida pela maré cheia,
E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões...
Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim... Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...
Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia... a Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!... Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...
Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...
Os feixes dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas...
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...
Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
De Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...
O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-Outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...
A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros...
E que querem ao lado aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?...
Porque me aflijo e me enfermo?... Deitam-se nuas ao luar
Todas as ninfas... Veio o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a ideia de naufragar,
E a ideia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...
Já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora...
As próprias sombras estão mais tristes... Ainda
Há rastos de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alameda que eis finda...
Todos os ocasos fundiram-se na minha alma...
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a ideia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um porto sem navios...
Ergueram-se a um tempo todos os remos... Pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar.. Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...
Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
Todas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...
Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Porque não há-de ser o Norte o Sul?... O que está descoberto?...
E eu deliro... De repente pauso no que penso... Fito-te
E o teu silêncio é uma cegueira minha... Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho...
Para que não ter por ti desprezo? Porque não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore... O teu silêncio é um leque —
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...
Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos...
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...
Alguém vai entrar pela porta... Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há-de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...
É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...
Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã — como nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...
Suave. como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir uma flor murcha a meu peito...
Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia baptismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema — Vitória!
O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...
4-7-1913
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). 
 - 21.
1ª publ. in Exílio , nº 1. Lisboa: Abr. 1916.


"Lídia" na poesia de Ricardo Reis

* Victor Nogueira

De Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, conhecia o poema "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio". Resolvi passar pela "Obra édita" do poeta, em  http://arquivopessoa.net/ e descobri que para lá de Ofélia, Lídia fora a musa real ou inventada que é referida em 27 outros poemas.
Eis a listagem completa

Pesquisa por conteúdo ‘Lídia’, autor ‘Ricardo Reis’:



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

O lápis já não é o que era

***


2 de Dezembro de 2016, 08:26

Por


O lápis já não é o que era

homem empurra lápis pbV
olto ao excelente filme “Eu, Daniel Blake”. A propósito de um pormenor (será?) na cena final da despedida do carpinteiro. Lá estavam os fiéis amigos, os jovens vizinhos que representavam a nova geração com novos sonhos e novos pesadelos, a funcionária da Segurança Social que, ali, simbolizava a coragem e o afecto de ter coração e de se ser solidário, desafiando as normas e os regulamentos (e, por isso, é repreendida pela chefe). E a mãe solteira – com os seus dois filhos tão iguais e tão diferentes no modo de serem crianças – que acompanhara Daniel na sua última tentativa para ver o seu processo de invalidez deferido. É ela que abre um papel amarrotado escrito por Blake e no qual exprimiu a sua paradoxalmente serena e inconformada revolta diante do júri de reavaliação. O essencial está no que lá escreveu, o pormenor no modo como o manuscreveu. Com um singelo lápis.

O lápis, o velho companheiro de vida de tantas pessoas é o lado antigo e oposto da face superlativamente nova de vidas subordinadas à miríade de instrumentos tecnológicos. Não se trata aqui de uma visão reaccionária ou conservadora face ao progresso material e comunicacional. Haverá, por certo, alguma nostalgia no detalhe do lápis. Mas o que representa, essencialmente, é um dualismo funcional e geracional que pode conduzir uma insuportável exclusão de uns e a uma pretensa superioridade de outros, que, não raro, não sabem o que é um lápis ou essa “união de facto” do lápis encimado por uma borracha, nunca escreveram com uma caneta de tinta permanente, ignoram o que seja um compasso e quase erradicaram a prática (física e intelectual) de manuscrever.
Evidentemente que o progresso técnico é uma importante condição necessária para o desenvolvimento, mas nunca será, só por si, uma condição suficiente se, às tecnologias, não estiverem associados o bem comum, a justiça social e geracional, o respeito pelo outro.
Na era da “cidadania electrónica”, os “netizens” são, hoje, uma expressão eloquente do saber mais democratizado (embora, neste contexto, sempre me lembre do que escreveu Jean Guitton: “se o livro tivesse sido inventado depois do computador teria sido uma grande invenção”). Mas quantas vezes, ao lado desse progresso, vamos deparando com uma acrescida aridez relacional, em alguns casos mesmo com uma diferente expressão da solidão, senão mesmo de isolamento e abandono. Nas situações mais extremadas, de um lado um novo cárcere, do outro uma velha exclusão.
Com toda a tecnologia à nossa volta, acentuou-se a divisão entre os cidadãos “funcionalmente significantes” e os “funcionalmente supérfluos”. Ou, de outro modo, os que só têm passado, os que só têm presente e os que só têm futuro.
Escreveu Bento XVI na Caritas in Veritate: “Absolutizar ideologicamente o progresso técnico ou então afagar a utopia duma humanidade reconduzida ao estado originário da natureza são dois modos opostos de separar o progresso da sua apreciação moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade”.
A técnica, em si mesma, é ambivalente. A tecnologia não tem rosto. É impessoal. Pode ser usada para o bem ou para o mal. A técnica existe para o homem, não o homem para a técnica. É um recurso indispensável, mas não se pode transformar num fim que domina ou aparta pessoas. Porque o fim somos nós mesmos, sujeitos do desenvolvimento (não é por acaso que o adjectivo que o acompanha é “humano”). Peter Ustinov dizia que “costumávamos fazer muitas perguntas para as quais não havia respostas. Agora, com os computadores, há muitas respostas para as quais ainda não encontrámos perguntas”.
E as respostas do lápis, agora fora do sistema, são desprezadas…

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/12/12/o-lapis-ja-nao-e-o-que-era/

domingo, 11 de dezembro de 2016

Mário Cesariny - Visto a esta luz és um porto de mar

* Mário Cesariny

Visto a esta luz és um porto de mar
como reverberos de ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura dos braços

Constroem-te um ponte
que deverá cingir-te os rins para sempre

O que há horrível no teu corpo diurno
é a sua avareza de palavras
és tu inutilmente iluminado e quente
como um resto saído de outras eras
que te fizeram carne e se foram embora
porque verdade sem erro certo verdadeiro
nada era noite bastante para tocarmos melhor
as nossas mãos de nautas navegando o espaço
os corpos um e dois do navio de espelhos
filhos e filhas do imponderável
de cabeça para baixo a ver a terra girar

Quero-te sempre como nã querer-te?
mas esta luz de sinopla nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de eternidade

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar - João Boa Morte Cabra Marcado para Morrer

* Ferreira Gullar

Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho, 
só mata cabra da peste, 
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.
Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.
João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa, 
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais, 
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro."
Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram, 
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer, 
vai tomar chá de sumiço".

http://www.casadobruxo.com.br/poesia/f/joao.htm

Ferreira Gullar . Dois e dois: quatro

* Victor Nogueira


Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
E a tua pele, morena
como é azul o oceano
E a lagoa, serena

Como um tempo de alegria
Por trás do terror me acena
E a noite carrega o dia
No seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade pequena.

Ferreira Gullar - Subversiva

* Ferreira Gullar


A poesia
quando chega
não respeita nada.
Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
de qualquer de seus abismos
desconhece o Estado e a Sociedade Civil
infringe o Código de Águas
relincha
como puta
nova
em frente ao Palácio da Alvorada.
E só depois
reconsidera: beija
nos olhos os que ganham mal
embala no colo
os que têm sede de felicidade
e de justiça
E promete incendiar o país