terça-feira, 12 de junho de 2018

Sophia de Mello Breyner - A Forma Justa

  * Sophia de Mello Breyner

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo


Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas" 

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Paula Coelho Pais - Eu, professora, me confesso

* Paula Coelho Pais

11/06/2018 by Autor Convidado 

Venho para a escola como num transe. Dormi mal pela enésima vez desde há meses. Estou a passar um - a fase menos positiva em termos de saúde, com muitos altos e baixos, mais baixos do que altos. E não consigo alhear-me do que se passa à minha volta.

Já não tenho vinte anos. Com efeito os sessenta aproximam-se a passos largos e portanto, como se diz habitualmente, “já não vou para nova”.

No meu local de trabalho, esta é uma realidade que se avoluma. Muitos, tantos dos professores que conheço e que conhecem quem eu conheço, também andam por estas idades. Há mesmo escolas em que a média etária está acima dos sessenta. O desgaste é notório e agrava-se, de modo galopante, a cada novo ano.

Estamos naquele tempo da vida em que seria justo beneficiarmos de alguma serenidade, de algum reconhecimento até, de respeito e consideração. Aliás, a todos, todos sem exceção, de qualquer faixa etária e de qualquer profissão é devido este conjunto de atenções. Diria apenas que, com o passar do tempo, eles se avolumam na necessidade e na premência.

Mas essa não é a realidade. Existe no ar uma ameaça velada, um ataque permanente contra os professores. Como um monstro que vive num lodo, do qual se alimenta e que, a espaços, ressurge em toda a força, ávido de presas, esganado de fomes e de raivas.

E ninguém percebe bem de onde vem ou porque nasceu. Também poucos serão os que entendem de que se alimenta nas fases de semiadormecimento em que se esconde, aguardando novas vítimas. Mas está lá. Atento. Aguardando o momento certo para atacar de novo.

Fala pela boca de políticos perversos, de comentadores insanos, da opinião pública desinformada que incorpora mediunicamente e repete, como que hipnotizada, os impropérios e as agressões que escutou algures a alguém. Ataca em bloco determinadas classes profissionais porque tem de exorcizar o seu mal-estar, a sua dor e a sua infelicidade. E os verdadeiros responsáveis sabem bem disso. Conhecem-lhes bem as fraquezas. Estudam-nos de há muito e riem-se na sombra perante o sucesso da manipulação. Neste caso a onda recai novamente sobre os professores, acusados de ser os mais vis seres que há na Terra, incompetentes, incapazes, impreparados, negligentes, sem vocação, preguiçosos, maus, impacientes…

É como se uma lava surgisse da boca de mil vulcões contra nós. E, como num pesadelo incompreensível e caótico, se multiplicassem as chaminés vulcânicas até ao infinito.

Os professores passaram a ter as culpas dos males do Mundo. E o Mundo que não pára para pensar, aplaude e adere à hedionda causa formando turbas assustadoras.

Por isso, entre outros fatores que não ajudam, tenho dormido mal. Muito mal. E não porque me pese a consciência. Apenas porque a tenho apurada e sei da injustiça profunda de que estamos a ser alvo por esse mundo fora. Aliás, foi também por estes dias que um pequeno vídeo intitulado “Alternative Math” se tornou viral. Quem não está dentro da profissão poderá até achar alguma “graça” ao caricato de certas cenas. Mas quem sente na pele, nos ossos e na alma o verdadeiro alcance da metáfora, treme e fica com profundas dores de estômago perante a profundidade da caricatura e o terror que ela representa.

É, com efeito assim, que a sociedade está a ser desenhada para encarar os professores e, aliás, de um modo geral as clássicas figuras de autoridade. Como os antigos servos da Grécia, explorados pelos senhores do poder, sem poder fazer seja o que for a não ser quase pedir desculpa por existir.

“Eu, professora, me confesso”, foi o título que dei a esta breve mas profundamente sentida intervenção, porque considero que chegou o tempo dos professores confessarem abertamente as suas tremendas dores, sem receio do que se possa dizer. Porque falar contra nós, há de haver sempre quem fale, mesmo que não saiba do que está a falar.

Falo da vontade de chorar quando somos insultados pelos alunos. Falo do barulho ensurdecedor nos pátios, corredores e até nas próprias aulas. Falo da falta de apoio de alguns pais na sua missão educativa. Falo da necessidade de descanso quando varamos madrugadas fora a trabalhar em projetos sem qualquer visibilidade ou recompensa curricular. Falto das despedidas de filhos, maridos, mulheres, pais, família para trabalhar a quilómetros de casa sem qualquer compensação ou ajuda de custo. Falo da falta de reconhecimento, da falta de apoio, da falta de recursos, da falta de compreensão, da falta de respeito. Falo das acusações odiosas. Falo da falta de empatia. Falo da falta de delicadeza.

Mas falo também das agendas ocultas que se preparam, desde há décadas, para estourar com a Escola Pública, mesmo de parte de alguns que se arvoram em seus defensores. Falo da vontade de lançar o caos e o desrespeito para depois os cobrar aos professores. Falo da desautorização constante do nosso estatuto denunciando, logo após, que não somos capazes de manter a autoridade.

Falo ainda dos equívocos no que respeita à participação das famílias na escola, quando a melhor participação que podem ter é nas suas casas, conversando e educando os filhos. Falo de algumas famílias que esperam efetivamente que a escola desempenhe o papel educativo que lhes competiria a elas, sem dar contudo à escola autorização ou competências para que o faça. Falo da ideia de que temos de suportar tudo porque “estudámos para isso”. Falo das intromissões de quem nada sabe. Da falácia das “estratégias”, palavra a que se recorre como sendo milagrosa mas que, tantas vezes, é falha de verdadeiro conteúdo. Da falta de tempo das famílias para os filhos. Do depósito de crianças, adolescentes e jovens em que um tipo desvairado de política quis tornar forçosamente a escola sob a designação pomposa de “escola a tempo inteiro”, procurando assim agradar a famílias desesperadamente sem tempo e algumas sem vontade ou capacidade para lidar com os seus mais novos e que chegou a certos delírios como os que previam quase 24H sobre 24h dos alunos na escola, defendido como se tal fosse apanágio de uma verdadeira modernidade social.

Falo sobretudo da falta de conhecimento de quem critica. Da falta de informação profunda e abalizada. Da desinformação dolosa. Da agressão gratuita. Da raiva incontida. Do ódio peregrino. Da militância obscura.

Falo de tudo isto e do mais que já não consigo depois de mais de 30 anos de serviço e de exaustão total. Física, para aguentar tantas horas na escola e também emocional, para suportar tanta injustiça.

Por isso, eu, professora, me confesso. Me confesso do meu cansaço e do meu desgosto. Do meu desespero em perceber para onde caminhamos neste deserto de sentimentos e de empatia social. De perceber que dentro de pouco anos o sistema irá necessariamente colapsar para dar lugar à “nova ordem” que os poderosos delinearam há muito para os seus delfins, guetizando todos os outros sob a capa de uma pretensa inclusão, mas numa escola esfarrapada de recursos, desqualificada de apoios e necessariamente abandonada pelos seus melhores profissionais.

Do barulho constante a quem chamam alegria. Da confusão a que chamam dinamismo. Do caos a que chamam participação espontânea. Da sobrecarga horária a que chamam oferta de escola. Da falta de liberdade de tempo – para alunos e professores – a que chamam apoios. Da necessidade dos apoios que advém da falta de clima de sala de aula. Da falta de valorização da escola, da falta de entendimento do que é efetivamente um espaço de ensino, do que é o papel de um professor e do que é a obrigação de um aluno em termos de estudo, participação e respeito. De qual é, no fundo, a natureza das suas respetivas missões.

Poderei ensinar mil vezes a um aluno onde fica Portugal no Mapa do Mundo. Poderei servir-me das mais variadas estratégias, recursos, invenções, materiais pedagógicos, formas de ensinar ou motivar que, se o aluno não quiser estudar ou não sentir qualquer tipo de interesse em reter essa informação, nada haverá a fazer. E acreditem que existem muitos casos assim, como outros em que se passa totalmente o oposto, apenas devido a uma postura correta em sala de aula. Como num médico, se o doente se recusar a tomar o medicamento prescrito, não será de estranhar a ausência de cura. E é isso que muitos não aceitam – alunos, pais, famílias, opinião pública, políticos e até muitos de nós, docentes, com receio do que possam dizer, cansados que estamos da crítica constante.

E é isto em que muitos se recusam a acreditar, achando sempre que a culpa é do professor que não se esforçou o suficiente. Porque é mais fácil assim, empurrando o verdadeiro problema para debaixo do tapete, escondendo-o dos olhos e da própria inteligência. E lá vêm os resultados das Provas de Aferição e o espanto de muitos como se acordassem de repente para a realidade dos factos, dando ao “monstro” novas razões para se levantar do lodo e atacar a presa.

Por isso, é chegada a hora de dizer que a sociedade está doente e a escola está enferma. Mas não por culpa dos professores, verdadeiros enfermeiros de uma realidade que os ultrapassa e sufoca e a quem tentam constantemente remendar com o que têm à mão. Sim por culpa de décadas e décadas de caça ao voto, em que sucessivas tutelas, para agradar às famílias, levaram os professores ao altar do sacrifício, lavando depois daí as mãos como Pôncio Pilatos. E, como na cena decisiva em que a turba escolheu Barrabás em vez do Cristo, também a nós nos lançaram aos ódios da multidão para se libertarem a eles da culpa e da responsabilidade dos factos.

Maus profissionais – é um clássico – existem em todas as profissões. Mas tomar uma classe inteira por atacado e atacá-la deste modo ignóbil é algo de incompreensível e que tem de ter a montante objetivos perversos que importaria descobrir e denunciar. Até porque quem fala mal dos professores deste modo abrangente, assume um papel destruidor e desagregador do tecido educativo e, portanto, é o interesse académico dos alunos que verdadeiramente põe em causa. Isto deveria ser entendido urgentemente pela opinião pública. Até porque naturalmente a quem interessará que os alunos estejam bem e tenham sucesso senão, desde logo, aos professores?

Permitam-me um desabafo e uma memória feliz. Eu ainda sou do tempo em que, depois das passagens de ano, os alunos e as famílias nos traziam flores. Era tão bonito. Tenho saudades desse tempo. Não me envergonho de o dizer. Não configuraria qualquer tipo de interesse na possibilidade de uma avaliação mais positiva, já que o ano findara e a classificação tinha sido já atribuída. Era sim uma delicadeza, um carinho, uma atenção que humanizava a relação entre professores, alunos e famílias. Um reconhecimento que tinha também um papel pedagógico de deferência perante os docentes e de sensibilização dos alunos perante este facto. E maior era a comoção quando as flores nos chegavam das mãos de alunos que não tinham conseguido passar de ano mas a cujos professores, ainda assim, as famílias faziam questão de mostrar gratidão pelo esforço, empenho e dedicação demonstradas ao longo do ano para com as suas crianças e jovens.

Sim, isto acontecia. E a educação processava-se de um modo fluido e conseguido. Sereno e com resultados. Mas depois tudo se tornou técnico, impessoal e desumanizado, convencidas as tutelas que assim é que era moderno e desejável. E começou a sanha contra os professores, desconsiderando-os e acusando-os perante a opinião pública como os grandes culpados dos males da sociedade. Aliás quem o fez, sabe bem o que fez, atacando o elo mais sensível e que era o garante da estabilidade das escolas: os professores. Professores até então vistos como alguém a quem se devia considerar e respeitar e, sobretudo alguém com quem se poderia aprender e olhar como um exemplo a seguir. Aliás era essa a mensagem que os pais transmitiam aos filhos e que resultava num processo harmonioso entre todos. Destruir isto que era o cerne da estabilidade educativa foi e continua a ser a agenda perversa e mais ou menos oculta de muitos decisores e elementos de poder colocados em lugares chave da nossa sociedade, nacional e internacionalmente falando.

Por isso afirmo aqui que não interessa realmente aos que ocupam certos lugares de topo na hierarquia das decisões do Mundo que a situação melhore. Se quisessem verdadeiramente uma solução para a reabilitação da escola escutariam realmente os professores, procurando entender-lhes o que lhes vai na alma e, honrando a sua formação e experiência profissionais, reforçariam sem equívocos a sua autoridade na escola e na sala de aula. Reequipariam escolas e bibliotecas escolares com mais recursos, materiais e humanos. Restabeleceriam o valor do silêncio nas salas de aula e a vantagem da concentração. Sem desprimor de propostas alternativas, acabariam com o receio infundado das aulas expositivas e voltariam a promover junto das crianças o saber escutar com atenção, o pensar criticamente, o ponderar antes de se pronunciar e o saber participar de modo ordenado e organizado. Promoveriam a filosofia para crianças, os momentos de reflexão e de meditação em ambiente escolar já com provas dadas em tantas escolas. Dariam tempo aos pais para estar com os filhos e promoveriam o valor da educação, do estudo e do respeito por si e pelos outros. Permitiram aos professores e educadores ter mais tempo para pensar, preparar e corrigir atividades, serenamente, nas suas casas, de modo a dispor de uma distância crítica necessária ao desempenho específico da sua missão, longe da agitação das escolas e reconheceriam, de uma vez por todas, sem preconceitos, que o trabalho docente tem características e necessidades específicas que o tornam diferente de todos os outros. Como outros terão as suas. Diminuiriam também – mas de modo significativo (12 alunos seria o ideal) – o número de alunos por turma se realmente quisessem apostar num ensino personalizado. Dotariam verdadeiramente as escolas com técnicos em número suficiente para apoiar os alunos com Necessidades Educativas Especiais. E dignificar-se-iam, sem pestanejar carreiras e percursos profissionais.

Responsabilizar-se-iam de um modo concreto as famílias pelo saber estar dos seus filhos e educandos, enaltecendo aquelas – e são muitas felizmente – que tanto esforço fazem para que os seus filhos consigam vencer academicamente. Valorizar-se-ia uma cultura de cordialidade e de boa educação. E, finalmente, cobrar-se-ia à sociedade, de um modo mais abrangente, a sua quota-parte de responsabilidade na educação das novas gerações, exigindo-lhe que fosse mais cuidadosa e criteriosa no que respeita às mensagens, imagens e textos que exponham situações de violência, agressividade ou grosseria, completamente impróprias para os mais novos, incapazes naturalmente de as descodificar e interpretar de um modo adequado e maduro.

Seria também essencial que a sociedade rejeitasse, recriminasse e repudiasse profundamente esta verdadeira campanha de ódio – totalmente gratuita e generalista – para com os professores – ou para com qualquer outra classe profissional – como rejeita, recrimina e repudia – e bem – tantas outras campanhas de ódio que ameaçam a nossa sociedade e que são provenientes da má-fé, do dolo, da maldade, do preconceito, dos interesses particulares e da ignorância de alguns.
……………
Paula Coelho Pais
Lisboa, 6 de Junho de 2018


https://aventar.eu/2018/06/11/eu-professora-me-confesso/#more-1290769

Ramon Llull



OPINIÃO
O doido da família
O que se pede hoje aos discípulos de Jesus é que tenham suficiente loucura para não se acomodarem à lógica dos donos deste mundo.
10 de Junho de 2018, 6:24

1. A Catalunha continua a ser notícia por vários motivos, sobretudo por razões de ordem política. Os meios de comunicação portugueses não foram excepção, mas esqueceram a grande homenagem à figura marcante da cultura catalã actual e de significação universal.

A Generalitat de Catalunya i l'Ajuntament de Barcelona estão a celebrar, em 2018, o Ano de Raimon Panikkar (1918-2010), centenário de um sábio do nosso tempo [1]. Filho de pai indiano e hindu e de mãe catalã católica romana, nasceu em Barcelona, viveu na Índia e morreu rodeado da beleza em Tavertet.

Era padre, cientista, filósofo, teólogo e místico. Sem deixar de ser católico integrou, na sua identidade, vários elementos de outras crenças religiosas. Como diz Ignasi Moreta, editor das suas Obras Completas, das quais já saíram dez volumes, "era uma ponte entre o Oriente e o Ocidente, entre as Letras e as Ciências, entre as expressões do Cristianismo, do Induísmo, do Budismo e do Pensamento Secular".

Esta forma de viver, pensar e escrever evoca Ramon Llull (1232-1315), o escritor, filósofo, poeta, missionário, teólogo, o símbolo cultural da Catalunha. Nascido em Palma de Maiorca, na encruzilhada de três culturas – cristã, islâmica e judia –, foi o criador da língua catalã literária, mas também se exprimia, com elegância, em castelhano, latim, árabe e Langue d’oc.

Acerca de R. Panikkar surge sempre a pergunta: mas ele era católico ou hindu? Não se pode dizer que fosse católico pela mãe e hindu pelo pai. A religião não é uma herança de ordem genética. O sincretismo religioso foi sempre mal visto, pois não parece exprimir uma identidade, mas uma confusão. Talvez sim, talvez não. Não se exigiu aos primeiros discípulos de Jesus a renúncia à condição judaica. Começaram por ser todos judeus de várias tendências. O problema nasceu quando as portas e janelas, que a prática de Jesus abriu, passaram a ser fechadas às outras tradições religiosas. Paulo de Tarso, judeu de pura cepa, não aceitou que se fizesse depender a graça de Deus, manifestada em Jesus de Nazaré, da condição judaica. A salvação não estava ligada a uma condição étnica nem religiosa. Era universal como a graça de Deus, que não faz acepção de pessoas e povos.

2. Quem abriu todos os horizontes foi Jesus de Nazaré que viajou pouco, mas sabia muito. No texto do Evangelho de hoje [2], existe uma polémica duríssima sobre esta questão. Começa com um desentendimento familiar tão profundo que até julgavam que ele estava doido. É dito textualmente: "ao verificarem o seu comportamento, os parentes saíram para o deter, pois diziam, está fora de si." Qual era a estranheza? A casa de família estava invadida por quem não era da família. A família estava sem casa.

Mais adiante, voltaremos às razões desta confusão toda. No mesmo texto, é dito que ele estava pior que doido, estava possesso de Belzebu. Era este que lhe dava poder para expulsar os demónios.

Jesus observa aos escribas que estão a ser completamente parvos, pois, se é Satanás a expulsar Satanás, é o império do diabo que se autodestrói.

Neste ponto, não é capaz de passar adiante: "tudo será perdoado aos filhos dos homens, os pecados e blasfémias que tiverem proferido, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão, será réu de pecado para sempre." Os senhores da inteligência da vontade e da acção de Deus estavam a negar a evidência em nome da sua cegueira. Não há pior cego do que aquele que não quer ver, como mostrará mais tarde [3].

S. Marcos vai radicalizar a questão central do universalismo cristão. Jesus perturba a família que se quer fechar sobre si mesma. Os filhos de Deus não são apenas os da própria família.

Maria e os familiares vão tentar encontrar-se com Jesus para esclarecer esta situação. Diz o texto: "entretanto, chegaram a sua mãe e os seus irmãos, que ficaram fora e mandaram-no chamar. A multidão estava sentada à sua volta quando lhe disseram, a tua mãe e os teus irmãos estão lá fora à tua procura e, olhando para aqueles que estavam à sua roda, declarou: eis a minha Mãe e os meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe."

Estava mesmo doido. Os limites do cristianismo não são as outras religiões ou os ateísmos, etc.. São os que não reconhecem que ser irmão é a vocação de todo o ser humano. Assim se responde aos que criticam Raimon Panikkar. O cristianismo só tem um limite: a exclusão do outro, religioso ou não.

3. Em nome do cristianismo, em nome da sua exclusiva posse da verdade, foram muitas vezes condenadas as outras religiões, pois a verdade e o erro não merecem o mesmo respeito.

Do anátema passou-se à tolerância. Não eram igualmente verdadeiras mas, para superar as guerras de religião, o melhor era suportá-las. Mal menor.

O pluralismo humano e cultural apontava para algo mais positivo. Nasceu a teologia sobre as outras religiões, baseada na pergunta: qual a significação que a diversidade religiosa pode ter no plano de Deus?

Quando as religiões eram atacadas pelos mestres da suspeita, alguns teólogos insistiram em mostrar que o cristianismo estava imune a esse negativismo, pois não era uma religião. Nesta astúcia há algum fundamento. Por fim, surge o diálogo inter-religioso como uma bênção. Se a forma de viver como humanos é o diálogo, e fora do diálogo não há salvação, as religiões devem dar o exemplo que lhes tem faltado.

Por vezes, as mesas-redondas que o devem favorecer, com a preocupação de vender o seu peixe e mostrar as virtudes da própria religião, esquecem o próprio diálogo. Este, para ser frutuoso, deve implicar em todos a respectiva autocrítica e a vontade de conversão, de reforma. Um diálogo autêntico altera os que nele intervêm. Não pode ceder à lógica dos debates partidários, preocupados em vencer o adversário. Se a lógica do diálogo inter-religioso é a escuta e a busca, é normal que os participantes possam dizer no fim: estamos melhores, podemos continuar e alargar o caminho da unidade na diferença.

O que se pede hoje aos discípulos de Jesus de Nazaré, o doido da família, é que tenham suficiente loucura para não se acomodarem à lógica dos donos deste mundo, à do carreirismo eclesiástico, à do poder das religiões e que não atraiçoem o Pai Nosso que rezam de mãos dadas na Missa. Ou será que Deus fora da Missa deixa de ter família?

[1] Raimon Panikkar. Centenari d’un savi del nostre temps, FocNou, 2018, n.º 483. Ano XLV
[2] Mc 3, 20-35
[3] Jo 9
Colunista


Jorge de Sena . discurso em 10 Junho 1977

* Jorge de Sena

É para mim uma honra insigne o ter sido oficialmente convidado pela comissão organizadora das comemorações de Camões em 1975, e do dedicar-se do Dia de Camões à recordação das comunidades portuguesas ou de origem portuguesa dispersas pelo mundo, para aqui falar na minha dupla qualidade de estudioso de Camões, e de residente no estrangeiro, que eu sou. Com efeito, em 1978, cumprem-se trinta anos sobre a primeira vez que, de público me ocupei de Camões, iniciando o que, sem vaidade me permito dizê-lo, tem sido uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência. Esse meu Camões foi longamente o riso dos eruditos e dos doutos, de qualquer cor ou feitio; foi a indignação do nacionalismo fascista, dentro e fora das universidades, dentro e fora de Portugal; foi a aflição inquieta do catolicismo estreito e tradicional, dentro e fora de Portugal; e foi a desconfiança suspeitosa de muita gente de esquerda, a quem eu oferecia um Camões que deveria ser o deles, quando eles preferiam atacar ou desculpar o Camões dos outros. Foi e ainda é, e será. Porque, sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo. São essa pedra de toque e esse escândalo o que, neste momento solene, a três anos de distância do 4o. centenário da morte do maior português de todos os tempos, vos trago aqui, certo e seguro de que ele mesmo assim o desejaria. E, antes de mais, peço que, nas minhas palavras anteriores ou nas minhas palavras seguintes, ninguém veja ataques ou referências pessoais que não há; tenhamos todos, tenham todos a humildade de reconhecer que, quando se fala de Camões e de Portugal, não podemos pensar em mais ninguém.

Quanto a ser um residente no estrangeiro, vai para dezoito anos que o sou, o que, curiosamente, é mais ou menos o tempo que o próprio Camões viveu fora de Portugal, desde que dele partiu para as Índias [em 1553, até que regressou,]* em 1570, tão pobre como partira, mas com Os Lusíadas no bolso ou na bagagem, para publicá-los. Eu nem estou a regressar, nem tenho Lusíadas nenhuns. Mas não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, ainda que neste viva, e com os emigrantes me possa identificar – aqueles emigrantes que vi e tenho visto de perto, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos, e também pelo mais largo mundo que tenho percorrido, e que, com a sua laboriosidade, a sua dignidade, a sua humanidade convivente, são em toda a parte, míseros e mesquinhos, ou ascendidos e triunfantes, muitas vezes, os embaixadores que Portugal não envia, ou os representantes da cultura que Portugal não exporta. Por dezassete anos, recordemos, Camões foi apenas um deles, quando ninguém sabia ou podia ainda saber o génio que ele era. Reatando: eu não sou exactamente um emigrante no estrangeiro, porque, quando saí de Portugal, tinha vinte anos de escritor publicado, e desde então a maior parte da minha obra, ou grande parte dela, foi escrita para Portugal ou em Portugal publicada. Seja o que seja, continuo a ser o que era, quando me exilei muito a tempo naqueles idos negros e tristes de 1959: um escritor português que vive no estrangeiro e que mantém um permanente contacto com Portugal, até por obrigação profissional: catedrático de Literatura Portuguesa, que é um dos meus títulos e deveres, não tenho outro remédio senão estar a par do que se publica. Por outro lado, a minha fidelidade a Portugal – e fidelidade é uma das palavras-chave da minha pessoa e da minha obra, como liberdade é outra – nunca me permitiu livrar-me de partilhar (acrescentadas da dor da distância) as dores e as alegrias, os desalentos e as esperanças de Portugal. Permitam-me ainda um esclarecimento. Na melhor das intenções, vária imprensa anunciou ou referiu que eu falaria aqui como representante dos luso-americanos. Se alguém pensou que eu tal faria, mais que num plano meramente simbólico de partilhar com eles o viver nos Estados Unidos, enganou-se redondamente. Primeiro que tudo, eu não sou um luso-americano: esta palavra significa não o português que vive na América, mas ou o que adquiriu a cidadania americana, ou o que descende de portugueses e já nasceu americano: luso-americanas são duas filhas minhas, por naturalização, e um neto meu que o é nato, como brasileiro por naturalização eu sou, e dois filhos meus o são natos, enquanto minha mulher e outros cinco filhos mantiveram a nacionalidade portuguesa. E, em segundo lugar, que é o primeiro de todos, eu não recebi dos luso-americanos nenhum mandato eleitoral para falar em nome deles, embora esteja certo de que mo teriam dado, se a eles o tivesse pedido, por saberem que os respeito e estimo, sem distinção de credo ou cor (porque há luso-americanos de cor, idos de Cabo Verde para lá, por exemplo). Democrata como sou, eu não falo em nome de ninguém, sem ter recebido um expresso mandato para tal. Eu fui convidado por Lisboa e de Lisboa, o que é uma honra, mas Lisboa não tem o direito de nomear representantes de nada ou de ninguém. Esse vício centralista da nossa tradição administrativa – um dos vícios que Camões denunciou e castigou nos seus Lusíadas – deve ser eliminado e banido dos costumes portugueses, sem perda da autoridade central que deve manter unido um dos povos mais anárquicos do mundo e menos realistas quando de política se trata. Porque os portugueses são de um individualismo mórbido e infantil de meninos que nunca se libertaram do peso da mãezinha; e por isso disfarçam a sua insegurança adulta com a máscara da paixão cega, da obediência partidária não menos cega, ou do cinismo mais oportunista, quando se vêem confrontados, como é o caso desde Abril de 1974, com a experiência da liberdade. Isto não sucedeu só agora, e não é senão repetição de outros momentos da nossa história sempre repartida entre o anseio de uma liberdade que ultrapassa os limites da liberdade possível (ou sejam as liberdades dos outros, tão respeitáveis como a de cada um) e o desejo de ter-se um pai transcendente que nos livre de tomar decisões ou de assumir responsabilidades, seja ele um homem, um partido, ou D. Sebastião. Também dos limites da ordem social e dos deveres do homem para consigo mesmo e a sociedade de que faz parte foi Camões um mestre. Assim, aqui, no âmbito de celebrações que são camoneanas e do Portugal disperso pelo mundo desde que o país existe e desde que, no estrangeiro, comunidades portuguesas ou de lusa origem se formaram ou mantiveram, eu não represento luso-americanos, e não falo em nome deles ou de ninguém no largo mundo. Aceito falar, como eu mesmo, da importância e do significado de Camões hoje, e da necessidade de ter presente ao espírito esta ideia tão simples: um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive nela e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou. E poucos países do mundo, ao longo dos tempos, terão exportado, proporcionalmente, tanta gente como este.

Sejamos francos e brutais. Há neste momento, milhões de portugueses dispersos pelo mundo em mais de um continente, e não só na Europa de que são mão-de-obra. O país pensa neles, e deseja recordar-se deles. Mas o país, pura e simplesmente, na situação económica que herdou e em que se encontra e toda a gente sabe desastrosa, não pode prescindir do dinheiro deles, ou do dinheiro que eles costumam enviar para a santa terrinha, ao contrário do que faziam e fazem portugueses do território nacional, que mandavam o seu dinheiro para o anonimato dos bancos da Suíça. Deste modo, celebrar as Comunidades Portuguesas no dia do santo nacional que celebrou a expansão imperial do país é, ao mesmo tempo, um belo ideal e um cálculo muito prático. Há quem diga e quem pense que celebrações como esta – de Camões ou das comunidades – são uma compensação para a perda ou derrocada do Império oferecida ao sentimento popular, e que isso das comunidades é mesmo ainda pior: uma ideia do fascismo. Antes de mais, neste país há que pôr um basta não só ao fascismo ele mesmo, mas à mania de atribuir tudo ao fascismo, até as ideias. Porque, por esse caminho, ficamos todos sem ideias de que precisamos muito, e os fascistas ou os saudosistas deles acabam convencidos de que tinham ideias, quando ter ideias e ser fascista é uma absoluta impossibilidade intelectual e moral. O celebrar-se no presente e no passado em sua gente, o homenagear essa gente e recordá-la aonde quer que viva ou tenha vivido é um imperativo imarcescível da dignidade humana, num dos aspectos que a representa: o pertencer-se directa ou indirectamente a um povo, uma história, uma cultura, que como no caso de Portugal, foi, é e será capaz de diversificar-se em outras. Nenhum internacionalismo que se preze de ter os pés na realidade e na matéria de que somos feitos, pode negar ou ignorar essas realidades tremendas que são uma língua ou muitas, uma raça ou várias, uma cultura por mais adaptável ou capaz de absorção que ela seja, que se identificam com um nome secular – Portugal no nosso caso, aqui e agora.

Pensarão alguns, acreditando no que se fez do pobre Camões durante séculos, que celebrá-lo, ou meditá-lo e lê-lo, é prestar homenagem a um reaccionário horrível, um cantor de imperialismos nefandos, a um espírito preso à estreiteza mais tradicionalista da religião católica. Camões não tem culpa de ter vivido quando a Inquisição e a censura se instituíam todas poderosas: se o condenamos por isso, condenamo-nos nós todos a que, escrevendo ou não-escrevendo, e ainda vivos ou já mortos, resistimos durante décadas a uma censura opressiva, e a uma repressão implacável e insidiosa, escrevendo nas entrelinhas como ele escreveu. Isto é, condenamos a vera ideia de “Resistência” que, modernamente, fomos dos primeiros povos da Europa a tristemente conhecer e corajosamente praticar. E sejam quais forem as nossas ideias e as nossas situações políticas, nenhum de vós que me escutais ou não, pode viver sem uma ideia que, genericamente, é inerente à própria condição humana: o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos. Camões não tem também culpa de ter sido transformado em símbolo dos orgulhos nacionais, em diversos momentos da nossa história em que esse orgulho se viu deprimido e abatido. Claro que esse aproveitamento não teria sido possível se ele não tivesse escrito Os Lusíadas. Mas o restituir a quem o podia ler e o podia sentir mais fundamente um pouco de confiança em horas difíceis, é um acto de caridade, essa virtude que não é só cristã porque é, desde antes do cristianismo, a própria essência da civilização: a solidariedade humana quando a dor nos fere. E o ter sido usado, manipulado e treslido como Camões o foi, ou denegrido como também foi desde a publicação do seu poema, é um dos preços que a grandeza paga neste mundo. Camões e a sua obra têm pago esse preço como todos os outros. Deixem-me todavia recordar-vos que o grande aproveitacionismo de Camões para oportunismos de politicagem moderna não foi iniciado pela reacção. Esta, na verdade, e desde sempre, mesmo quando brandindo Camões, sentia que as mãos lhe ardiam. Aqueles oportunismos foram iniciados com o liberalismo romântico e com o positivismo republicano. E se o Estado Novo tentou apoderar-se de Camões, devemos reconhecer que ele era o herdeiro do nacionalismo político e burguês, inventado e desenvolvido por aquele liberalismo e aquele positivismo naquelas confusões ideológicas que os caracterizavam e de que Camões não tem culpa: tê-la-iam por exemplo dois homens que merecem o nosso respeito: Almeida Garrett e Teófilo Braga. E quanto à reacção mais recente em face de Camões, eu lembro apenas dois pequenos exemplos em que a censura o proibiu, se não estou em erro: o caso do jornal de Vila do Conde, em que um tio de José Régio usava publicar os clássicos, citando-os convenientemente, e o da revista Vértice, de Coimbra, que fazia o mesmo. E isto para não falarmos de crimes literários e socio-morais de mais largo alcance, de que Camões era vítima nas escolas, parecendo até que nós éramos as vítimas dele. Porque, para além de encher-se a boca com a Fé e o Império, que nem uma nem outro eram para Camões o que eram para o Dr. Salazar, o poeta não servia para mais nada senão para exercícios de gramática estúpida: o que, tudo junto, chega para gerações lhe terem ganho alguma raiva e perdido o gosto de o ler. E há mais e pior: quando, no liceu, líamos Os Lusíadas, éramos proibidos de ler (e não estudávamos) as passagens consideradas mais chocantes pela pudicícia hipócrita desta nossa sociedade de sujeitos felizmente desavergonhados que fingem lamentavelmente possuir a virtude que não têm, e vivem a perseguir ou reprimir os pecados alheios. Claro que nós todos íamos logo ler as passagens “proibidas” e lendo-as assim, com olhos libidinosos, perdíamos a grandeza delas: a majestade do sexo e do amor, a magnitude da liberdade e da tolerância, a inocência magnífica do prazer físico e da paixão erótica, que, acima de tudo, Camões cantava e celebrava nessas passagens com uma abertura de espírito e uma audácia espantosas. Será possível que os frades o tenham feito alterar algumas coisas antes de publicar Os Lusíadas. Mas, em face de algumas daquelas que lá ficaram, temos de reconhecer que, mais do que aquilo, só um poema francamente pornográfico, incompatível com a dignidade e o decoro da grande epopeia que Camões desejou escrever e escreveu.

Tem-se dito que o grande protagonista da epopeia é o povo português, e na verdade o povo aparece, segundo as tradições clássicas, representado apenas pelos seus heróis, aqueles que Camões seleccionou para o efeito, à excepção dos marinheiros anónimos que acompanhavam Vasco da Gama ou os seus guerreiros anónimos sem os quais não haveria a magnificente descrição da batalha de Aljubarrota ou análogos momentos. Aqueles marinheiros, como o próprio Vasco, são deificados, ou transfigurados epicamente na Ilha dos Amores, em condições sem dúvida moralmente impróprias de quem deixara família em Portugal, mas altamente consentâneas, se me permitem a rudeza, com a promiscuidade sexual notória do povo português, ao mesmo tempo que de acordo com as convenções épicas e mitológicas pelas quais os heróis se dignificavam no conhecimento (que aqui uso no sentido intelectualmente neo-platónico e no sentido obscenamente público) das entidades divinas. Já se disse que as personagens mais vivas e activas de Os Lusíadas são os deuses pagãos, e não as criaturas históricas, mais pálidas e incaracterísticas do que elas. Até certo ponto, isto é verdade. E é-o por algumas razões camonianamente importantes. Antes de mais, na filosofia que Camões assume e torna extremamente pessoal, os deuses pagãos possuem, como atributos do Deus supremo, invisível e silencioso, e como seus intermediários agentes, uma realidade autêntica que a criação artística faria necessariamente mais palpável e concreta. E é assim que nós vemos tão nitidamente Vénus, a Afrodite originária e primeva, um dos deuses anteriores a tudo, e também a deusa do amor que este sim, é todo poderoso – como a não veríamos? Ela é a amante, a esposa, a mãe, tudo o que o princípio feminino significa dentro e fora da nossa humanidade, naquelas complexidades psico-sexuais a que Camões se compraz em aludir, servindo-se de alusões mitológicas que parecem meros ornamentos ao longo da epopeia inteira. E como não veríamos Baco ou Diónisos, receoso de ser castrado da sua lendária glória de conquistador da Índia? Se, como descendentes de Luso, descendemos dele, e ele é o nosso pai receoso do triunfo e da liberdade dos filhos? Como não veríamos Júpiter, se ele é de certa maneira a providência divina, sempre disposta a sucumbir, mesmo incestuosamente, às atracções do amor? Estes deuses, na dialéctica camoniana, sem a qual Camões se não entende, são ao mesmo tempo as emanações do princípio divino que desce à terra, e são a nossa humanidade ascendida e divinizada. E é neste mesmo sentido que as referências a Cristo devem ser entendidas nos contextos camoneanos: ele é, supremamente, para Camões, o princípio divino que, como um fogo de vida, desce a encarnar-se humanamente, mas é também o homem, o herói humano que, pelo seu sacrifício, ascende ou regressa ao divino. E é este heroísmo do apostolado e do sacrifício o que, em toda a sua epopeia, Camões propõe continuamente pela referência ou pela narrativa. Até Inês de Castro, a grande matriarca do poema, ascende à glória épica pelo seu sacrifício de amor. Porque para o amor, para todas as formas de amor, Camões arranja sempre uma desculpa, um louvor, ou a suprema divindade, porque esse amor é, para ele, a todos os níveis, a realidade última, e a realidade sempre presente. Sem amor, não há heróis, nem há homens dignos desse nome. E amor, mesmo numa epopeia que transborda de feitos bélicos e de acções guerreiras, não existe sem uma infinita e total tolerância, um respeito pelos outros povos, as outras raças, as outras culturas, as outras religiões, ao ponto de, como já tenho chamado a atenção, o conceito de santidade ou a palavra santo se aplicar a todos, sem distinção alguma, cristãos, muçulmanos, brâmanes, etc., e até – não o esqueçamos – a uma ninfa que se deixa possuir, por bem requestada, na Ilha dos Amores. Este Camões de amor e tolerância permeia Os Lusíadas. Mas já se disse que, além e acima de tudo e todos, a principal personagem da epopeia é Camões ele-mesmo, não só como o autor, não só como o narrador, não só como o crítico severo e implacável de toda a corrupção e de toda a maldade, como o denunciador angustiado de uma decadência moral e cívica que ele via e sentia à sua volta, e o qual constantemente interrompe a narrativa para invectivar com o maior desassombro (lembremo-nos de que as ordens daquele D. Sebastião a quem o poema é dedicado, dirigidas aos seus imperiais governadores, chamando-os à virtude e à dignidade, não tinham de tom diverso senão a diferença que vai de uma carta oficial a uma poesia de génio). E há nisso de Camões ser central uma enorme e profunda verdade que é o Camões-homem e o Camões-poeta. Não só ele se colocou, nos seus cálculos arquitectónicos do poema, nessa posição, e assim se colocando, se apresenta como a culminação da aventura portuguesa que ele conta, como o herói que o é por ser quem transforma Portugal numa obra de arte, acima das contingências históricas e da mesquinhês humanas. O Camões que na epopeia espreita ou se mostra a cada momento, roubando mesmo alguma realidade estética a tudo e todos, nós conhecêmo-lo e entendêmo-lo de outro volante do políptico que é a sua obra: o grande poeta lírico que é também um grande pensador, e que, na obra lírica como na épica, se apresenta como resumo e epítome da humanidade mesma, e não só do povo português. Ele é o homem em si, aquele ser que se busca continuamente e ao amor que o projecta para dentro e para fora de si mesmo, e é, como Luís de Camões, o predestinado para ser, ao mesmo tempo, o poeta-herói supremo que realiza, isto é, torna real para a eternidade da poesia, a história de Portugal, e a embarca nos navios de Vasco da Gama para unir o Ocidente ao Oriente. Ao mesmo tempo, este poeta-herói-épico, e o poeta-homem, exemplo de ser-se português, em exílios e trabalhos, em sofrer incompreensões e injustiças , e – ao contrário do que sucede ou sucedeu a alguns – regressar com as mãos vazias, apenas rico de desilusões, de amarguras e do génio que havia posto numa das mais prodigiosas construções jamais criadas, desde que o mundo é mundo. E essa construção ele trazia, reunindo o Portugal disperso, para o que ele deixara a vida, como disse, pelo mundo em pedaços repartida. Ninguém como Camões nos representa a todos, repito, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros. Ele, o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo. Ninguém, como ele desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exactamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares. Ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa. É o exilado físico de muitos anos mas é, como todos nós, e nisso tanto ou mais o somos que outros povos, o exilado moral, clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal, lá onde via que o homem é, como ele disse mais que uma vez, o “bicho da terra tão pequeno” contra o qual se encarniçam os poderes do mal.

Haverá ainda quem diga que esse homem cantou a expansão imperial, apesar de tudo, as conquistas imperiais do Oriente, e está portanto fora do nosso tempo e do nosso espaço históricos, e a sua epopeia ofende a consciência das Ásias e das Áfricas. Mas ele cantou a expansão portuguesa, na medida em que considerava que esta expansão era ou deveria ser a civilização ocidental levada a toda a parte, no que tinha de moralmente digno e de socialmente responsável. Ao escolher para assunto central da sua epopeia a viagem de Vasco da Gama, ele sabia perfeitamente que escolhia um momento decisivo da história universal; o encontro, para todo o sempre, para bem e para mal, da Europa com a Ásia, passando-se pela África. Momento decisivo dessa história do mundo, como eminentes historiadores insuspeitos de simpatias portuguesas ou imperialistas o têm proclamado e reconhecido. E, na verdade, esse encontro (e esse Império que, no tempo de Camões, com todos os erros e crimes, não era os impérios coloniais inventados pela Europa do século XIX, nem socio-moralmente inferior à desordem política existente então, como hoje, em toda a parte) simboliza aquilo mesmo que, mais tarde, nos nossos dias, veio a verificar-se. Porque as ideias de independência política e de justiça social pelas quais lutaram e ainda lutam os povos da Ásia e da África, e às quais se renderam os povos das Américas ao separar-se da velha Europa, não são as tradições tribais originárias por respeitáveis que sejam: são aquelas mesmas ideias que, geradas na Europa, da Europa se difundiram, tal como as naus do Gama partiram de Lisboa para uma das mais gloriosas viagens de todos os tempos. Isso Camões cantou: e vendo-o no seu tempo, e na visão do mundo que ele teve, sabemos que devemos relê-lo atentamente para saber, que ele, tão orgulhosamente português, entenderia todas as independências, se fosse em vida nosso contemporâneo como ele o é na obra que nos legou, para glória máxima de uma língua falada e escrita ou recordada em todos os continentes. O orgulho de ser-se alguma coisa, o inabalável sentimento de independência e de liberdade, disso ele falou, e sentiu como ninguém. É disso um mestre. Tudo existe na sua obra: o orgulho e a indignação, a tristeza e a alegria prodigiosa, a amargura e o gosto de brincar, e desejo de ser-se um puro espírito de tudo isento e a sensualidade mais desbragada, uma fé inteiramente pessoal, pensada e meditada como ele a queria e não como uma instituição, e a dúvida do predestinado que se sente todavia só e abandonado a si mesmo. Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida.

Paris, 3 de Junho de 1977

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Discurso proferido na cidade da Guarda, durante as comemorações do “Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas”, no dia 10 de junho de 1977 — o primeiro depois da “Revolução dos Cravos”. Além de Jorge de Sena, foi orador Vergílio Ferreira, na presença do Presidente Ramalho Eanes, de altas autoridades e de enorme platéia. ~

http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/antologias/declaracoes-publicas/discurso-da-guarda/

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Carlos de Oliveira - Águia

* Carlos de Oliveira

As águias não deviam ser aves
mas corações aduncos e com asas:

se olhares à flor dos campos e das casas
sentes o peito maior do que a amplidão:

se alguma coisa nasceu para voar
foi o teu coração.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Jorge de Sena - Panfleto

* Jorge de Sena

Fere-me esta idolatria mais do que todos os crimes:
Tanto fervor desviado e perdido!
Tanta gente ajoelhando à passagem do tempo
e tão poucos lutando para lhe abrir caminho!
Há uma vida inteira a jogar e gastar
no pano verde imenso das campinas do mundo.
Há desertos cativos de uma ausência dos povos.
Há uma guerra devastando a vida,
enquanto a supuserem redimida!
E em nós a redenção quase perdida!…
Vamos rasgar, ó poetas, esta mentira da alma,
vamos gritar aos homens que os enganam,
que não é a força, que não é a glória,
que não é o sol nem a lua nem as estrelas,
nem os lares nem os filhos, nem os mares floridos,
nem o prazer nem a dor nem a amizade,
nem o indivíduo só compreendendo as causas,
nem os livros nem os poemas, nem as audácias heróicas,
— a redenção sou eu, se formos nós sem forma,
sem liberdade ou corpo, sem programas ou escolas!
Aqui está a redenção. Tomai-a toda.
E se é verdade a fome,
se  é verdade o abismo,
se é verdade o pensamento húmido
que pestaneja ansioso nos cortejos públicos,
se são verdade as redenções que mentem:
Matem essa gente para salvar a Vida!
E matem-me com elas para que as queime ainda!

domingo, 3 de junho de 2018

Mário-Henrique Leiria - A MINHA QUERIDA PÁTRIA

* Mário-Henrique Leiria 

a pátria -
os camões
os aviões
e os gagos-coutinhos
coitadinhos

a pátria
e os mesmos
aldrabões
recém-chegados
à democracia social
era fatal

a pátria
novos camões
na governança
liderando
as mesmas
confusões
continuando
mesmo assim
as velhas tradições
de mau latim
da Eneida

enfim
sabem que mais?
pois
vou da peida

()

sábado, 2 de junho de 2018

Federico García Lorca - Confusão

* Federico García Lorca


Meu coração
é teu coração?
Quem me reflexa pensamentos?
Quem me presta
esta paixão
sem raízes?
Por que muda meu traje
de cores?
Tudo é encruzilhada!
Por que vês no céu
tanta estrela?
Irmão, és tu
ou sou eu?
E estas mãos tão frias
são daquele?
Vejo-me pelos ocasos,
e um formigueiro de gente
anda por meu coração.


Alberto Gonçalves - O Grupo de Lesados do “eng.” Sócrates

* Alberto Gonçalves

CASO JOSÉ SÓCRATES
O Grupo de Lesados do “eng.” Sócrates 
11/5/2018, 23:08 

O argumento central do Grupo de Lesados do “eng.” Sócrates passava por invocar, com voz firme, a presunção de inocência devida ao “animal feroz”. Agora exigem que se presuma a inocência deles próprios

Nos últimos dias, os socialistas oficiais e os socialistas oficiosos que enchem os “media” e os partidos adjacentes ao PS descobriram o que o cidadão médio sabe desde o início dos tempos: José Sócrates não é um modelo de honestidade. Assim à primeira vista, é uma redundância tão grande quanto descobrir o Brasil em 1900 (ou descobrir em 2075 que o brasileiro Lula possui inclinações criminosas). E é uma coincidência espantosa que toda essa gente o fizesse em simultâneo, sobretudo tendo em conta que, além da divulgação televisiva dos interrogatórios, não houve nenhum facto jurídico que de súbito transformasse a vítima de conspirações malignas num exemplo de delinquência a expelir da sociedade. Sucedeu apenas que, uma bela manhã (ou duas), essa gente acordou com uma luz intensa, teve uma epifania e concluiu que o “eng.” Sócrates está mesmo metido em trafulhices sem fim.

Essa gente é dada a coincidências e misticismos. Durante anos, as exactas personalidades que querem exilar o “eng.” Sócrates em Timbuktu ou na cadeia também afirmaram em uníssono a sua indignação pelo martírio do ex-governante. À época, leia-se até há duas semanas, o “eng.” Sócrates era o maior estadista português depois de Viriato, um portento cuja competência e cuja “dinâmica” (?) inspiravam o ódio de “neoliberais”, a luxúria da imprensa sem escrúpulos e a perseguição a cargo de magistrados com “agenda”. Cada sólido indício de que o nível de vida do homem fugia um bocadinho ao nível dos seus rendimentos merecia discursos épicos acerca do carácter sagrado do segredo de justiça. Os “empréstimos”, os apartamentos, os amigos, as escutas, as férias, os familiares, os contactos, os compadres, os tráficos, as mulheres, as contas, as roupas, os levantamentos, os motoristas e os carros não suscitavam qualquer suspeita, só a certeza da má-fé dos inimigos do “eng.” Sócrates.

Hoje, os antigos devotos garantem que foram enganados e reclamam medalhas pela franqueza ligeiramente tardia, com que confessam o logro em que caíram. Criaturas que beneficiaram directa ou indirectamente, em géneros ou numerário, da rede de influências em que o “eng.” Sócrates se movia desataram a jurar pelos santinhos que nem sonhavam a geral ilicitude daquilo. É para levar a sério?

Podemos tentar. A argumentação central do Grupo de Lesados do “eng.” Sócrates passava por invocar, com voz firme, a presunção de inocência, então devida ao “animal feroz”. Agora, exigem que se presuma a inocência deles próprios. Eles, que acreditaram de alma lavada nas patranhas que o “eng.” Sócrates lhes contava sobre a origem dos seus proventos, ignoravam o óbvio, logo são inocentes. E ingénuos. E estúpidos que nem portas.

É uma possibilidade a considerar. Afinal, falamos de espécimes propensos a acreditar no que calha. Se Fulana acredita que a militância em “causas” infantis se confunde com jornalismo, é possível acreditar que três ou quatro mil euros mensais permitem férias de 70 mil. Se Sicrano acredita que o PEC IV salvaria a nação, é possível acreditar na trivialidade de viver a expensas de um compincha a quem se entregou negócios públicos. Se Beltrano acredita que o socialismo se preocupa com as “pessoas reais” (por oposição às imaginárias?), é possível acreditar na honorabilidade das casas de Paris e Lisboa e dos fatinhos de Rodeo Drive e da fortuna de família e da amizade desinteressada. Crentes desta dimensão ficam impecavelmente em cultos religiosos, creches ou manicómios, mas não em jornais, sociedades de advogados, parlamentos ou governos. É de esperar que os inocentes presunçosos calculem as consequências da confissão inicial e confessem que, por volumoso excesso de idiotia, são inaptos para funções inadequadas a idades superiores a cinco anos – ou 25 em chimpanzés.

Por fim, há ainda a hipótese, meramente académica, de essa gente não acreditar em nada, excepto na disposição do eleitorado para acreditar em tudo – principalmente na inexistência de um sistema criminoso e profundamente corrupto que transcende o PS, embora prefira o PS no poder por facilidades logísticas e vocação. Ou que o linchamento brusco do “autor” de “A Tortura no Mundo” e de alguns dos respectivos ministros não é o típico sacrifício de uns comparsas a fim de salvar a quadrilha. Nas imortais palavras do dr. Marques Mendes, um símbolo justo dos bandos em questão, há o PS “mau” do “eng.” Sócrates, e o PS “bom” do dr. Costa. Ou de quem lá estiver no momento, a coordenar os arranjinhos e a “estabilidade”. Se o “eng.” Sócrates abrir a boca e perturbar ambos, prometo comprar-lhe a obra completa. Lê-la é outra história.


https://observador.pt/opiniao/o-grupo-de-lesados-do-eng-socrates/

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Subsídio para uma lógica social da Eutanásia

“Os avanços do conhecimento nas ciências naturais, sociais e humanas, não se limitou a dar-nos mais anos de vida. Deu-nos também a capacidade de os usufruir física, emocional e racionalmente. Mas, infelizmente, nem sempre estes anos adicionais de vida são acompanhados da qualidade desejada.
O que acontece quando alguém tem a consciência clara de que a perda de auto-estima, de dignidade e de independência, para além do sofrimento físico e psicológico que o esperam, se irão acentuar nas semanas ou meses de vida de que possa ainda vir a usufruir? Se, para uns, a resposta óbvia são os cuidados paliativos, para outros, o desejo e a possibilidade de pôr fim rapidamente a essa situação, é também muito clara. A Democracia permite formas diferentes de olhar e valorizar a vida.”
29-05-2018 – Debate Parlamentar | Morte medicamente assistida
Alexandre Quintanilha, deputado, Físico e antigo Professor do ICBAS.
***
Senhor Professor Alexandre Quintanilha, vou contar-lhe uma história que acabei de inventar.
O Antunes é empregado de mesa num das centenas de restaurantes que abriram recentemente no Porto, financiados com a mão limpa (de luva branca) de fundos de investimento que ninguém conhece, e onde gente fina vai provar iguarias gourmet descongeladas em micro-ondas. Por 50 ou 60 euros saem de lá a arrotar a crisântemos.

Esse Antunes – não o outro – tem um contrato de trabalho com uma empresa de negreiros e ganha 650 euros por mês. Mais gorjeta. Tem 3 filhos, todos em idade escolar. A senhora sua esposa está pelo fundo de desemprego e bebe vinho tinto de pacote.

Certo dia, chegado a casa pelas três da manhã, exausto das doze horas [o patrão só lhe paga oito] que passou a servir alemães, franceses e italianos, o Antunes deu por si deitado na cama, de barriga para o ar, observando cuidadosamente uma grande teia de aranha na parede do quarto, junto ao tecto. Começou, veja lá, a pensar no futuro dos filhos.
Pensou assim:
“Os avanços do conhecimento nas ciências naturais, sociais e humanas, não se limitou a dar-nos mais anos de vida. Deu-nos também a capacidade de os usufruir física, emocional e racionalmente. Mas, infelizmente, nem sempre estes anos adicionais de vida são acompanhados da qualidade desejada. E isto aplica-se, não apenas aos anos adicionais, mas aos outros, aos normais, aos que fazem parte da remuneração base paga em Tempo pelo grande arquitecto disto tudo. Tenho 35 anos, uma licenciatura, e sirvo à mesa. Não sou deputado nem professor universitário. Que qualidade de vida, que futuro, posso oferecer aos meus filhos? Ser criado de turistas estrangeiros? Trabalhar num call center ou numa caixa de supermercado do senhor Azevedo? Fazer inquéritos pelas portas? O que acontece quando alguém tem a consciência clara de que a perda de auto-estima, de dignidade e de independência, para além do sofrimento físico e psicológico que o esperam, se irão acentuar nas semanas, nos meses, ou nos anos de vida de que possa ainda vir a usufruir?”
Em vez de se levantar da cama e produzir uma tragédia, colocando um fim ilusoriamente definitivo à miséria e ao sofrimento que o esperam e que há várias gerações o perseguem – o seu pai foi coveiro e o seu avô paralítico desde os 15 anos, depois de um mergulho mal calculado no rio – o Antunes adormeceu.
Amanhã era outro dia.
https://aventar.eu/2018/05/31/subsidio-para-uma-logica-social-da-eutanasia/

Bruno Vieira Amaral - 50 anos de “O Delfim”:



  1. Primeiro esboço
  2. Primeiro romance, grande prémio
  3. A angústia do escritor no momento do penalty
  4. O nascimento de um livro
  5. O rigor dentro da vertigem
  6. Serafim, Pacheco e Saramago: o outro lado da crítica
  7. O Voo do Delfim
Primeiro esboço
Em Outubro de 1961, José Cardoso Pires, na altura a viver com a família numa pitoresca casa de campo em Belas, trabalhava há vários anos num romance sem chegar a uma versão definitiva que o satisfizesse. Título já existia, pelo menos desde 1959. Numa carta enviada ao intelectual angolano Mário Pinto de Andrade, na altura exilado em Paris, Cardoso Pires garantia-lhe que, assim que o acabasse de rever, lhe faria chegar um exemplar de O Hóspede de Job, o seu muito aguardado primeiro romance. Mas Pinto de Andrade e os restantes leitores ainda teriam de esperar mais quatro anos para que o livro visse a luz do dia.

O livro começara a ser escrito em Março de 1953, pouco antes da morte do irmão mais novo de José Cardoso Pires num acidente de aviação, e a sua publicação, com o título de “Hóspede da Mais Negra Providência”, chegou a ser anunciada para esse ano. Entretanto, oito anos tinham passado. É verdade que, nesse intervalo de tempo, o escritor não esteve inactivo. A novela O Anjo Ancorado tinha saído em 1958, aclamada pela crítica e pelo público. Cardoso Pires tinha dirigido a revista “Almanaque” e, em 1960, com a peça O Render dos Heróis, que seria levada à cena cinco anos depois pelo Teatro Moderno de Lisboa, estreara-se como dramaturgo.

Ainda em 1960, publicou um ensaio que ficaria na história da literatura portuguesa. Cartilha do Marialva, estudo sobre o machismo distintamente lusitano e, acima de tudo, sobre o provincianismo estrutural do país -– permitindo assim ao autor atacar de uma só vez o salazarismo e o provincianismo, que via como indissociáveis -– marcou uma geração, inscreveu o tipo social do marialva no imaginário colectivo e tornou a expressão de uso corrente. A obra recuperou Cavaleiro de Oliveira e D. Luís da Cunha, mas foi da obra do escritor francês Roger Vailland que bebeu a principal influência. Em 1958, Cardoso Pires tinha escrito o prefácio da edição portuguesa de Drôle de Jeu, com tradução de Hélder Macedo, e foi ele a sugerir o engenhoso título de Cabra Cega, sugestão aprovada “entusiasticamente” pelo tradutor. A longa introdução à obra de Vailland serviu de moldura para as teses posteriormente desenvolvidas na Cartilha, publicada, tal como o livro do escritor francês, pela Ulisseia, de Joaquim Figueiredo Magalhães, numa edição de luxo, limitada a 250 exemplares, que valeu ao autor a acusação de ser “um escritor para milionários”.

A recepção positiva ao ensaio e as suas ondas de choque no meio literário não foram suficientes para aliviar a pressão sobre o escritor. Pelo contrário, aumentaram a expectativa quanto ao romance. Era preciso um romance. “O” romance. Então, no mês de Outubro de  1961, ainda sem a versão definitiva d’O Hóspede, e na ressaca dessa aventura irrepetível que tinha sido a “Almanaque”, Cardoso Pires escreveu um esboço de 40 páginas de um outro livro: estava criado o embrião de O Delfim. Mas ainda faltavam sete anos para que o romance chegasse às mãos dos leitores. Cardoso Pires, para quem não ter pressa era a sua maior virtude, era escritor de partos prolongados e árduos.
Primeiro romance, grande prémio
Em Março de 1963, a imprensa anunciava que Cardoso Pires celebrara contrato com a editora Arcádia para publicação de um livro de contos e de um romance, O Hóspede de Job, que teria, em simultâneo, edição italiana. À terceira versão saiu finalmente o tão aguardado romance, livro com laivos neorrealistas e que, num certo sentido, parece menos moderno que O Anjo Ancorado. Mesmo assim, em 1964, foi galardoado com o mais importante prémio literário do país, o Camilo Castelo Branco, da Sociedade Portuguesa de Escritores, que nos anos anteriores havia distinguido autores como José Rodrigues Miguéis, Vergílio Ferreira e Maria Judite de Carvalho. O júri, do qual faziam parte Coimbra Martins, Jacinto Prado Coelho, Óscar Lopes e João Gaspar Simões, tomou a decisão por maioria.

Já com uma sólida reputação no meio literário e reconhecido pelo grande público, Cardoso Pires via consagrada a sua obra e reforçado o seu estatuto de grande estrela mediática daquela geração de escritores, exposição alimentada pelo génio comercial de Figueiredo de Magalhães e que desgostava alguns escritores, como o poeta José Gomes Ferreira, que registou no seu diário:

“Para celebrar a 2ª edição de A Cartilha do Marialva, o homem da publicidade da Ulisseia dependurou na barraca da Feira do Livro uma bela foto do Cardoso Pires a fazer festinhas pensativas no dorso dum gato curvo e familiar… Nostalgia de não haver forma de um tigre caber na fotografia de um escritor português!”

Cardoso Pires não saía das revistas. Em Junho de 1964, a jornalista Edite Soeiro entrevistou-o para a “Eva”, revista destinada ao público feminino e da qual ele tinha sido redactor no final da década de 40, tendo publicado aí um dos seus contos preferidos, “Uma Simples Flor nos Teus Cabelos Claros”. Segundo a jornalista, o escritor era “um homem afável, simpático, preciso, respirando coragem viril.” Acima de tudo, não criava barreiras, não falava do alto da sua torre de marfim, embora explicasse o porquê da atitude descontraída com um certo compliquês: “O facto da actividade do escritor exigir dele uma feição extremamente pessoal de interpretar a existência, não justifica certo aparato exótico de que se rodeiam alguns artistas de província. Andar fardado de escritor é tão ridículo como andar fardado de político ou de beatnik”, dizia Cardoso Pires, satisfeito com a sua informalidade.


.Cardoso Pires não era insensível, às críticas, pelo menos não a todas. Quando Histórias de Amor, o seu segundo livro, foi publicado em 1952, para logo depois ser apreendido pela PIDE, o crítico Mário Dionísio, o homem a quem ele levara em 1947 o manuscrito do seu primeiro livro, apontou aquela que era, a seu ver, a lacuna mais evidente na escrita de Cardoso Pires: “O que lhe falta é certamente, e apenas, um contacto mais estreito com os escritores da nossa Europa"

Falava também sobre o ecletismo das suas preferências musicais –- Ella Fitzgerald, Charlie Parker, Gerry Mulligan, Vivaldi, Mozart, Bartók, António Carlos Jobim, Baden Powell –- e sobre os seus hábitos de escrita –- escrevia em casa, com canetas que escrevessem fino por causa da letra miudinha, sempre com tabaco inglês à mão e garrafas de leite que, nas entrevistas, eram trocadas pelos copos de whisky.

Numa reportagem para a “Flama”, também após a atribuição do prémio, o jornalista Ricardo de Saavedra mostrava a intimidade do escritor, que entretanto regressara a Lisboa, para a casa na Rua São João de Brito que seria a sua morada até ao fim: falava da criada que o tinha recebido à porta, das obras de arte na sala, do retrato do escritor feito pelo grande amigo Júlio Pomar, dos desenhos de Portinari e Querubim Lapa, dos livros no escritório, incluindo uma valiosa edição de 1690 dos Sermões de Padre António Vieira e obras que iam desde clássicos como Gil Vicente, Fernão Mendes Pinto e Cavaleiro de Oliveira aos mestres como Raul Brandão e Aquilino, passando pelos contemporâneos, quer portugueses –- como Carlos de Oliveira e Manuel da Fonseca –- quer estrangeiros, como Durrell, Nabokov, Calvino e Günter Grass.
A angústia do escritor no momento do penalty
No geral, as críticas ao Hóspede de Job foram bastante positivas, embora houvesse alguns reparos mesmo de quem tinha elogiado a obra, como foi o caso de Álvaro Salema, que, numa crítica publicada no “Diário de Lisboa”, dizia não ser possível afirmar “que a expectativa tivesse sido satisfeita: nem esta narrativa vigorosamente realizada, de lances magistrais e desbravadores, é verdadeiramente um romance; nem se apresenta nela a experiência mais actualizada de José Cardoso Pires, na totalidade dos seus recursos de escritor, salvo na depurada e firme construção formal.”

O Hóspede de Job, apesar de todos os méritos, ainda não era o grande romance que o talento inequívoco de Cardoso Pires prometia. Já O Anjo Ancorado tinha sido recebido com uma espécie de euforia reticente, patente na crítica de João Gaspar Simões, um dos primeiros a chamar a atenção para o talento de Cardoso Pires logo em 1949, que continuava à espera da obra que o consagrasse definitivamente “como um dos maiores ficcionistas da sua geração.”

Cardoso Pires não era insensível, às críticas, pelo menos não a todas. Quando Histórias de Amor, o seu segundo livro, foi publicado em 1952, para logo depois ser apreendido pela PIDE, o crítico Mário Dionísio, o homem a quem ele levara em 1947 o manuscrito do seu primeiro livro, apontou aquela que era, a seu ver, a lacuna mais evidente na escrita de Cardoso Pires:

“O que lhe falta é certamente, e apenas, um contacto mais estreito com os escritores da nossa Europa, um convívio mais permanente com os nossos autores portugueses, a convicção de que o figurino americano –- por mais que justamente admiremos os seus escritores e que reconheçamos ter neles aprendido muito, como figurino não nos convém. […] Um escritor com as possibilidades reveladas por Cardoso Pires deve tomar este pedido [desenvolver um gosto tanto quanto possível português, desamericanizar-se], não como uma impertinência, mas como uma tarefa a cumprir, como um objectivo a alcançar, como um dever.”

O certo é que, a partir daí, Cardoso Pires explorou essa via, procurou uma forma de expressão portuguesa, mas que não se confundisse com a retórica do neorrealismo e o que considerava ser o “ruralismo” intrínseco à prosa da generalidade dos escritores de então.

A esse novo estilo, que haveria de desembocar n’O Delfim, Cardoso Pires não chegou sem dificuldades e angústia. A segurança formal patente nos seus livros era feita de persistência, de muito trabalho e rigor, mas também de dúvidas, de hesitações e de insegurança. As personagens, resultado de muitas colagens, de múltiplas fontes, eram construídas ao pormenor. Os lugares físicos tinham direito a uma atenção semelhante, dos nomes aos mapas que ele próprio fazia questão de desenhar.

Vítor Silva Tavares, com quem dirigiu o suplemento & etc. do “Jornal do Fundão” e depois o suplemento literário do “Diário de Lisboa”, contou que raramente falavam sobre os seus livros, mas que, certa vez, ao visitá-lo, reparou numa espécie de organigrama com cores pendurado na parede do escritório. Era o esquema para O Delfim: “O esquema marcava os vários tempos que se vão entrecruzar, os vários personagens, os pontos de não sei quê. Estivemos a falar ao fim e ao cabo de geometria.” Geometria, matemática, jogos de certezas para exorcizar o grande temor de Cardoso Pires, o de publicar um livro fraco.

Após anos de dolorosa gestação, o romance de Cardoso Pires foi apresentado numa cerimónia mundana e espaventosa, em tudo oposta ao regime monástico, de silêncio, solidão e sofrimento, em que o livro tinha sido composto.

Em Agosto de 1967, José Gomes Ferreira encontrou-o no café Bocage. O poeta de cabeleira épica disse-lhe que estava toda a gente à espera d’O Delfim. A beber um conhaque, um Cardoso Pires acabrunhado confessou-lhe que não queria “reaparecer com um livro fraco.” Já tinha feito quatro versões, mas ainda sentia que era preciso reescrevê-lo. Até as mudanças físicas eram notórias, e não só por causa da barba que Cardoso Pires entretanto deixara crescer. A escritora e amiga Maria Teresa Horta, numa entrevista que lhe fez para o jornal “A Capital”, semanas antes da publicação d’O Delfim, falava na “cicatriz do cansaço”, num “certo desencanto, uma certa tristeza que não lhe conhecia antes.” Era a factura física do talento, do perfeccionismo e da insegurança.
O nascimento de um livro
“Na madrugada de 12 de Maio de 1966, Tomás Manuel da Palma Bravo, engenheiro sivicultor [sic], ao regressar a casa encontra a mulher afogada na lagoa da sua propriedade… O fulcro do novo romance de José Cardoso Pires é este. Ele põe-nos em presença de um tema inesperado e de um novo herói que, entregue aos seus demónios interiores, procura fugir ao tempo cavalgando um potente “Jaguar”. Romance há anos aguardado, O Delfim ultrapassa os convencionais limites da narração e surpreende pelas propostas da nova lógica narrativa que contém”, rezava o anúncio da Moraes Editores publicado em vários órgãos de imprensa, num esforço para transformar o livro num sucesso editorial e que passou também por um lançamento de grande escala, um verdadeiro happening para os padrões da Lisboa de então.

Após anos de dolorosa gestação, o romance de Cardoso Pires foi apresentado numa cerimónia mundana e espaventosa, em tudo oposta ao regime monástico, de silêncio, solidão e sofrimento, em que o livro tinha sido composto. Publicado agora pela editora de Alçada Baptista e Pedro Tamen, e onde também tinha responsabilidades editoriais, Cardoso Pires continuava com a lição de Figueiredo de Magalhães bem presente: os livros são para se vender. Eram obras de arte durante o processo de escrita e, a partir daí, produtos comerciais.

Nas notícias sobre a festa de lançamento não havia nenhuma sugestão do caminho árduo percorrido pelo autor para chegar até ali. Era tudo glamour. Convidados, foram mais de uma centena, entre os quais os companheiros de escrita Alexandre O’Neill, Carlos de Oliveira, Maria Teresa Horta e Alves Redol (sem a icónica boina), os jornalistas Afonso Praça, Edite Soeiro, Baptista-Bastos e Maria João Avillez, os pintores João Abel Manta e Sá Nogueira, os homens da rádio Luís Filipe Costa e João Mendes Martins, o banqueiro Cupertino de Miranda, o grande cronista brasileiro Otto Lara Resende, na altura adido cultural da Embaixada do Brasil em Lisboa, o músico José Cid e os actores Raul Solnado, Fernando Gusmão, Carmen Dolores e Rui (ainda não era Ruy) de Carvalho, estes três últimos que tinham levado à cena a peça O Render Dos Heróis três anos antes.

Houve vinho tinto e pastéis de bacalhau para todos. Alçada Baptista saudou os convidados e anunciou a publicação exclusiva das obras de Cardoso Pires que se iniciava com O Delfim. Só que a Moraes, onde o director enterrou uma fortuna, não teria uma vida longa. Fernando Gusmão e Rui de Carvalho leram trechos do romance. Este confessou que não o tinha lido todo e que, por isso, não conseguira “integrar-se no espírito da obra.” A leitura angustiou o actor e, também, o autor, que, ainda assim, conseguiu retirar daí algo positivo. Afinal, a dificuldade na leitura significava uma ruptura com o estilo anterior, o anúncio de uma nova fase, a reinvenção da sua prosa: “Fiquei com a convicção de que é uma prosa estritamente literária e que quando os críticos dizem que tenho uma prosa com muita oratoridade [sic] se verifica neste livro não ser assim. Repare que é muito difícil ler isto. Há toques de humor muito subtis que estão mais no clima da prosa do que propriamente na sua expressão oral”, disse ao “Diário de Lisboa”.

O processo de desamericanização da sua escrita, nos temas e no estilo, estava completo. Os diálogos ágeis e as pinceladas bruscas que davam uma impressão de urgência e vivacidade aos contos dos seus dois primeiros livros e, em certa medida, ao Anjo Ancorado e ao Hóspede, eram aqui substituídos pelas descrições atmosféricas, divagações eruditas, jogos meta-literários e, pela primeira vez, pela narração na primeira pessoa. Maria Teresa Horta questionou o autor sobre as possíveis consequências de uma mudança tão evidente. Não tinha ele medo de chocar os leitores com “um estilo tão inesperado”? Foi a oportunidade para expressar uma ideia antiga e que haveria de repetir muitas vezes, em várias entrevistas –- quem corre atrás dos leitores acaba a levar pedradas:

“A verdade é que quem corre atrás do público nunca se encontra com ele. Não sei se estás de acordo, mas um livro é a trajectória de uma voz pessoal, uma trajectória que vem de outro lado qualquer que não é o do leitor mas que se choca com a dele. Para ser livro tem de contar com a experiência do leitor e com a capacidade que ele também tem de criar lendo. E isto só se consegue se houver personalidade de parte a parte, troca empenhada. Um debate, em certa medida.”

Os leitores aceitaram o repto para o debate: durante quinze semanas, O Delfim ocupou o top de vendas, tornando-se no maior sucesso editorial daquele ano.
O rigor dentro da vertigem
A resposta da crítica e do público não se deveu apenas à máquina de promoção editorial e à notoriedade do autor. O Delfim era o culminar dessa trajectória que se vinha a consolidar desde O Anjo Ancorado. Mário Dionísio, melhor do que ninguém, estava capacitado para a avaliar. A 3 de Julho de 1968, publicou uma extensa recensão n’”A Capital”, onde enumerou os aspectos de continuidade e de novidade do romance no contexto da obra de JCP: libertação total das influências que tinham ameaçado asfixiar os seus primeiros livros (“o ter-se libertado totalmente de certas influências estranhas, nomeadamente americanas, que inicialmente embaraçavam o encontro da sua voz autêntica”); a exploração das construções meta-literárias, que já vinham das notas de rodapé a O Anjo Ancorado (notas que tanto irritaram Gaspar Simões), mas que aqui assumiam uma dimensão completamente nova com a “simulação da realidade” nos livros tão bem inventados que dir-se-iam verdadeiros; a filiação definitiva numa tradição que vinha de Camilo, passava por Aquilino e também alcançava contemporâneos como Carlos de Oliveira (o lado lúdico das notas de rodapé era de Camilo que vinha.

As influências de Cardoso Pires não eram tanto as literárias, como as musicais e as cinematográficas. Numa entrevista vinte anos depois da publicação d’O Delfim, ao “Semanário”, Cardoso Pires diria que o que o interessava mais no cinema era a montagem.

Em Sobre o Lado Esquerdo, de Carlos de Oliveira, Cardoso Pires detectou uma “afinidade inesperada”. A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino, era um modelo para O Delfim e para a linhagem dos Palma Bravo, como notou Natália Nunes, num ensaio de Abril de 1970: “A obra de Aquilino que provavelmente mais teria influenciado Cardoso Pires, que teria sido para este como que uma ordinatrix, julgo ser A Casa Grande Romarigães. Desconfio até que o Abade Agostinho Saraiva, autor da ‘Monografia do Termo Gafeira’ pode corresponder a uma transposição da pessoa de escritor do próprio Aquilino Ribeiro, que este seria, na visão crítica de Cardoso Pires, o ‘zelador de antiquitates lusitanae, instalado na sua prosa cuidada’”); e os cortes no plano narrativo (“outra novidade há, e decisiva, que consiste na substituição do estilo sobretudo linear de narração pela adesão a modernos processos de corte, retrocesso, saltos no tempo e no espaço (transição do capítulo III para o IV) assimilados tão de dentro  que, em muitos casos, o leitor menos atento talvez não dê por eles.”)

Neste último aspecto, as influências de Cardoso Pires não eram tanto as literárias, como as musicais e as cinematográficas. Numa entrevista vinte anos depois da publicação d’O Delfim, ao “Semanário”, Cardoso Pires diria que o que o interessava mais no cinema era a montagem. Em várias ocasiões referiu a influência dos filmes de Antonioni, do “Chelsea Girls”, de Warhol, e do filme de Alain Resnais, “O Último Ano em Marienbad”, cujo argumento era do Papa do nouveau roman, Alain Robbe-Grillet, o que poderá explicar a associação de Cardoso Pires por alguns críticos a esse movimento, visto que nenhuma outra característica justifica.

Porém, a maior influência viria da música. Era com recurso à música que explicava a inflexão estílistica. A concepção do tempo impunha “o recorte da prosa, o andamento, como na música. Forma e ritmo, isto é, marcação de tempo, são duas condições determinantes inseparáveis. […] Ornette Coleman e o free jazz são um exemplo cimeiro, a lição de uma das maneiras de criar. Tocar ad libitum… Escrever ad libitum, ou seja, sem tempo marcado. Quando ouço isto penso na maravilha que é o rigor dentro da vertigem”, disse na entrevista a Maria Teresa Horta.

Quanto à continuidade, Mário Dionísio, como outros críticos da época, sublinhou que O Delfim era uma espécie de prolongamento da Cartilha por meios ficcionais, sob a égide de Roger Vailland: “A crítica do marialva e da sociedade que o produz e alimenta continua, agora de dentro, no plano da criação.”

Mas também encontrava indícios d’O Delfim em O Anjo Ancorado. Para ele, o narrador de O Delfim era o protagonista de O Anjo Ancorado, dez anos depois. Prova evidente da ligação entre os dois livros é a frase que surge logo no início do Anjo para caracterizar João, o protagonista: “Este ar de terra-a-terra é fácil de perceber-se nalguns infantes da lavoura que gastam a maior parte da vida nas grandes capitais. Nesses, as falas provincianas e o tom com que se dirigem aos criados são coisas cultivadas, uma espécie de marca de estirpe para os diferenciar do resto dos mortais que não têm terras nem passado para lá da cidade.” A descrição assentaria que nem uma luva ao engenheiro, o delfim, Tomás da Palma Bravo.

No “Jornal de Notícias”, Serafim Ferreira também notava que O Delfim era o regresso, “por outro caminho (ou talvez pelo mesmo)”, ao tema do Anjo Ancorado, o que nos parece ser apenas válido para aquela descrição visto que o tema da novela –- um olhar de relance sobre a chamada geração de 45, geração que, com o fim da guerra, esperava o fim da ditadura, mas que, perante o reforço da repressão e a manutenção do estado de coisas, se refugiou num diletantismo moral, se acomodou ao conforto permitido pela classe a que pertencia e, desde então, viveu umas tréguas amargas e inofensivas com o regime –- não é o mesmo de O Delfim, ainda que sobre ambos os livros pairem o odor pútrido de uma sociedade pantanosa e os miasmas da estagnação, numa fase incipiente em O Anjo Ancorado, com o seu quê de revolta e de impaciência, e numa fase já de podridão absoluta – a “agonia de um Portugal tradicionalista” –, n’O Delfim. Foi como se Cardoso Pires, após ter constatado o fracasso da geração de 45 (a sua geração, note-se) e de o ter examinado, tivesse preferido o estudo da sociedade, do mundo e do tempo que o produziram e que permaneciam em vigor, mas já não vigorosos. Houve quem dissesse que, nesse processo de aproximação, o próprio Cardoso Pires –- o escritor burguês malgré lui –- se enamorara do marialvismo.
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Serafim, Pacheco e Saramago: o outro lado da crítica
A recepção crítica ao Delfim foi bastante entusiástica. Óscar Lopes afirmou que nenhum ficcionista português contemporâneo escrevia melhor que Cardoso Pires. Ainda mais hiperbólico, Alexandre Pinheiro Torres disse que o livro talvez condensasse “tudo o que de positivo a nossa ficção inventou desde que existe”. O próprio Mário Dionísio, apesar de algumas cautelas, arriscou o veredicto após uma segunda leitura: obra-prima.

Para alguns, estes entusiasmos eram fruto de alguma turvação do raciocínio ou do mais cristalino amiguismo. Foi o caso de Serafim Ferreira que, no “Jornal de Notícias”, não criticou apenas os outros críticos, mas também lançou farpas à máquina que promovera o “lançamento editorial inteligente, bem comandado”. Para o crítico, que fazia parte de uma facção lusa de cultores do nouveau roman, não estava em causa a qualidade da escrita de Cardoso Pires, “que em muitos aspectos nos agrada e satisfaz”, mas o que lhe parecia ser um pastiche sofrível de autores, esses sim, verdadeiramente originais, como Laclos, Hemingway e o bom Vailland, “disfarçad[o] numa couraça de extracção nacional, portuguesa, pseudo-erudita, que se fundamenta numa falsa monografia da Gafeira”.

O Delfim ainda não era “o” romance e, para Serafim, nem se poderia esperar que Cardoso Pires o viesse a escrever algum dia: “Escritor fragmentado, que com dificuldade encadeia os capítulos uns nos outros, Cardoso Pires não conseguiu, quanto a nós, estruturar ainda um verdadeiro romance; existem páginas e páginas onde apenas se vislumbra um discorrer desnecessário à natural narração da história, enchem-se páginas e páginas com descrições que não importam, que somente perturbam o fio narrativo do livro, como se isso fosse mero propósito do autor.” Não havia recurso possível para a sentença: Cardoso Pires estava “longe de ser um “grande” escritor, mesmo à nossa escala portuguesa.”

Embora tivesse estabelecido uma certa reputação como crítico, o seu nome era absolutamente secundário no panorama literário em Portugal. Talvez por isso, José Saramago –- assim se chamava o crítico -– desferiu um violento ataque ao livro de Cardoso Pires e à posição deste enquanto intelectual comprometido, pondo em causa a sinceridade das suas propaladas convicções.

Serafim Ferreira não foi o único a embirrar com as lateralizações “desnecessárias” do Delfim. Gaspar Simões, como se disse, já tinha desgostado das notas de rodapé do Anjo por cortarem a magia da leitura de ficção, por atrapalharem a naturalidade narrativa a que aludia o crítico do JN. Também Fernando Namora, em carta datada de 4 de Julho de 1968 enviada a Cardoso Pires, louvava a depuração, a segurança, o rigor e a modernidade, mas apresentava uma objecção:


“Algumas vezes, senti (como explicar?) que o ritmo era prejudicado por certas especulações marginais, que, apesar de prenderem sempre pela sua agudeza e interesse, nos conduzem a um confronto com o escritor ágil de livros anteriores”.

Mas houve duas críticas em particular que, por razões diferentes, entraram para a história. Em Outubro de 1968, no número 1476 da “Seara Nova”, saiu uma recensão assinada por um crítico que publicara o seu único romance havia mais de vinte anos, trabalhava na Editora Estúdios Cor e fazia traduções. Naquela altura, destacava-se em Lisboa pela boina à Che Guevara, a bolsa à tiracolo e pela relação que mantinha com a escritora e colunista Isabel da Nóbrega, ex-mulher do crítico João Gaspar Simões. Embora tivesse estabelecido uma certa reputação como crítico, o seu nome era absolutamente secundário no panorama literário em Portugal. Talvez por isso, José Saramago –- assim se chamava o crítico -– desferiu um violento ataque ao livro de Cardoso Pires e à posição deste enquanto intelectual comprometido, pondo em causa a sinceridade das suas propaladas convicções.

Saramago acusava Cardoso Pires de uma certa ambiguidade moral, de não condenar abertamente o marialvismo, representado no livro pelo Engenheiro Tomás Palma Bravo: “Intromete-se constantemente (pelo menos assim nos parece) uma certa tinta de simpatia, um odor de saudade dos bons tempos antigos, como se em Cardoso Pires lutassem, qual de baixo, qual de cima, a sua opção de intelectual e a sua íntima natureza, numa complicada relação de amor-ódio, responsável pela ambiguidade patente na sua obra.”

Anos depois, quando já ocupava o trono da literatura portuguesa, o futuro Nobel penitenciou-se: “Apesar da minha inexperiência, e tanto quanto sou capaz de recordar, creio não haver cometido grossos erros de apreciação nem injustiças de maior tomo. Salvo o que escrevi sobre O Delfim do José Cardoso Pires: muitas vezes me tenho perguntado onde teria eu nesse momento a cabeça, e não encontro resposta…” Cherchez la femme, diriam alguns que acompanharam o caso de perto.

No entanto, ainda mais contundente que a crítica de Saramago foi a que Luiz Pacheco, amigo de Cardoso Pires dos tempos de liceu, no Camões, publicou no jornal “Notícias”, de Luanda, a 4 de Janeiro de 1969. Os dois tinham-se iniciado quase ao mesmo tempo nas lides literárias, em jornais e numa revista do Instituto Francês, a “Afinidades”, onde faziam crítica e onde Cardoso Pires publicou, em 1946, um dos seus primeiros contos, “A Esta Hora”, que não voltou a ser editado. Pacheco deu explicações aos irmãos mais novos de Cardoso Pires e, segundo contou muitos anos depois, até teria estado noivo da irmã do escritor, Maria de Lurdes. Com o tempo, afastaram-se. Pacheco tornou-se paulatinamente no maldito oficial enquanto Cardoso Pires, sempre profissional, ascendia ao cargo oficioso de “integrado marginal”, como o próprio se definia. Apesar disso, mantiveram algum contacto, geralmente quando Pacheco precisava de dinheiro. Por todas estas razões, Cardoso Pires terá ficado desgostoso, embora não propriamente surpreendido, ao ler a crítica.

Desde a primeira linha, Pacheco deu-lhe um tom chocarreiro e maldoso, condição de maldito oblige, mas não gratuito. Tal como Saramago e Serafim Ferreira, Luiz Pacheco censurava Cardoso Pires por poupar o protagonista ao seu látego moral. Se não havia chicotadas é porque havia enlevo:

“Com efeito, a figura do Engenheiro (o marialva típico) nunca resulta caricata. É aquela que mais se aproxima do leitor, que mais cuidados parece ter merecido a Cardoso Pires. Diríamos, aqui e ali, que o autor (sem bem a consciência disso) se identifica com ela… pelo menos no-la consegue transmitir com um sopro, um calor de humanidade que as outras (pobres títeres!) estão longe de possuir.” [trailer do filme “O Delfim”, de Fernando Lopes:]

E, ao contrário de outros críticos que sublinharam a continuidade e a coerência d’O Delfim no contexto da sua produção mais recente, na opinião do autor de Comunidade o facto de o livro ser a corporização romanesca das teses da Cartilha não merecia elogios. Pelo contrário, fazia daquele um romance programático porque dependia do quadro ideológico de uma referência exterior, neste caso, de um livro do mesmo autor. Além disso, Pacheco não tinha em grande conta, para usar um eufemismo, o Cardoso Pires ensaísta. Para justificar a sua opinião, aduzia como prova a Cartilha, as colaborações esporádicas com a revista “Vértice” e um malfadado prefácio a Histórias de Amor, omanimente criticado, unanimidade a que nem escapou o próprio autor que, mais tarde, confessou que as palavras não lhe tinham chegado para tantas ideias. De facto, o prefácio era extraordinariamente confuso e até retirava força aos contos do volume, alguns entre o que de melhor Cardoso Pires escreveu. Por essa razão o editor Nelson de Matos não o incluiu numa edição do livro publicada em 2008.
O Voo do Delfim
Algumas destas críticas foram rebatidas por Natália Nunes, quer numa recensão de Abril de 1969, intitulada “O Delfim: uma personagem marialva?”, quer no já referido ensaio de 1970, “Delfim e Serafim.” No entanto, o romance já voava sozinho, muito para lá do alcance das críticas paroquiais. Em Janeiro de 1970, o “Times Literary Supplement” dedicava um quarto de página ao livro, antes sequer de haver tradução inglesa. Era a primeira vez que a publicação destacava um autor português vivo, como noticiaram com orgulho pátrio alguns periódicos da época.

Nesse ano, o livro foi traduzido em Espanha, numa edição da Seix-Barral, e em França, na Gallimard, com tradução de Robert Quemserat, tendo sido considerado um dos livros do ano. Em 1971, foi lançado no Brasil, pela Editora Civilização Brasileira, e obteve um sucesso assinalável junto da crítica e do público, para o que contribuiu a presença do escritor nos lançamentos no Rio e em São Paulo, como se lia numa coluna social no “Correio da Manhã”:
“Há quem tenha ido ontem ao lançamento de O Delfim, porque estava interessado no livro, mas há quem tenha ido também porque estava muito interessado no charme de José Cardoso Pires, escritor.”

Nessa altura, o escritor também já tinha voado. Logo em 1969, tinha partido para Londres, para leccionar Literatura Portuguesa no King’s College. A 18 de Maio de 1971, deu uma conferência sobre o processo de escrita de O Delfim, que originou um ensaio posteriormente incluído no livro E Agora, José? Cardoso Pires também escreveu um guião para uma produção cinematográfica que não avançou. O Delfim só chegaria ao grande ecrã em 2002, já após a morte de Cardoso Pires, num filme do amigo Fernando Lopes, com argumento de Vasco Pulido Valente.

Hoje, cinquenta anos após a publicação, o livro, esse, continua a pairar sobre nós, menos  esquecido do que alguns pensam, como retrato lúcido do estertor de uma sociedade com sonhos apodrecidos de um lado e privilégios moribundos do outro.

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Bruno Vieira Amaral é crítico literário, tradutor e autor de “As Primeiras Coisas”, vencedor do prémio José Saramago em 2015, e de “Hoje estarás comigo no paraíso”