* Joaquim Namorado
Foi afixado
nos locais do costume
que É PROIBIDO MENDIGAR.
Logo mão que se descobre
escreveu a tinta por baixo
MAS NÃO É PROIBIDO SER POBRE.
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 11 de novembro de 2019
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Sophia de Mello Breyner - Exílio
* Sophia de Mello Breyner
Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades
Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'
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Sophia de Mello Breyner - Porque
* Sophia de Mello Breyner
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
"Porque" - Francisco Fanhais
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
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Sophia de Mello Breyner - Este é o tempo
* Sophia de Mello Breyner
Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.
Este é o tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam.
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Sophia de Mello Breyner - Mulheres à beira-mar
* Sophia de Mello Breyner
Confundido os seus cabelos com os cabelos do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e tão denso em plena liberdade.
Lançam os braços pela praia fora e a brancura dos seus pulsos penetra nas espumas.
Passam aves de asas agudas e a curva dos seus olhos prolonga o interminável rastro no céu branco.
Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente a virgindade de um mundo que nasceu.
O extremo dos seus dedos toca o cimo de delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.
E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de ser tão verde.
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Antologia", pág. 76 | Círculo de Poesia Moraes Editores, 2ª. edição, 1975
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Sophia de Mello Breyner - Homens à beira-mar
* Sophia de Mello Breyner
Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo,
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.
Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhjar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.
Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala para auscultar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.
É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua noite e asua fome.
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço,
Que deixam pela areia, paso a passo.
Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.
Nenhum jardim, nenhum olhar os prende,
Intactos nas paisagens onde chegam
Só encontram o longe que se afasta,
AS aves estrangeiras que os traspassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.
Nada trazem consigo. As imagens
Que encontram, vão-se delas despedindo,
Nada trazem consigo, pois partiram
Sós e nus, desde sempre, e os seus caminhos
Levam só ao espaço como o vento.
Embalados no próprio movimento,
Como se andar calasse algum tormento,
O seu olhjar fixou-se para sempre
Na aparição sem fim dos horizontes.
Como o animal que sente ao longe as fontes,
Tudo neles se cala para auscultar
O coração crescente da distância,
E longínqua lhes é a própria ânsia.
É-lhes longínquo o sol quando os consome,
É-lhes longínqua noite e asua fome.
É-lhes longínquo o próprio corpo e o traço,
Que deixam pela areia, paso a passo.
Porque o calor do sol não os consome,
Porque o frio da noite não os gela,
E nem sequer lhes dói a própria fome,
E é-lhes estranho até o próprio rasto.
Nenhum jardim, nenhum olhar os prende,
Intactos nas paisagens onde chegam
Só encontram o longe que se afasta,
AS aves estrangeiras que os traspassam,
E o seu corpo é só um nó de frio
Em busca de mais mar e mais vazio.
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Poesia", 1944
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Sophia de Mello Breyner - Quando eu morrer ...
* Sophia de Mello Breyner
Quando eu morrer, voltarei para buscar
Todos os instantes que não vivi junto ao mar.
----------------
Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta
Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.
Será o mesmo brilho a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.
Sophia de Mello Breyner Andresen | "Dia do Mar", pág. 84 | Edições Ática, 1974
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João Céu e Silva - Um jovem fugido da Dinamarca faz nascer Sophia no Porto
Para Sophia, primeiro era o Porto,
depois gostou de Lisboa, a seguir apaixonou-se pelas praias do Algarve, que lhe
faziam lembrar nos anos 1960 a Grécia mítica que tanto a inspirou.
João Céu e Silva
2019.11.06
A cidade do Porto além de insinuada em vários pemas de Sophia também suege num conto, intitulado "O Homem", no qual a autora coloca um indivíduo a passear pelas ruas da cidade - que nunca é reconhecido - como sendo Cristo a regressar. © Arquivo DN
A vivência da cidade do Porto
está muito presente na obra da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen e pode
até se dizer que está na génese dos seus primeiros trabalhos literários, além
de bastante reconhecível no livro inicial, Poesia (de 1944). Uma edição de trezentos exemplares custeada
pelo pai mas que irá pagar-se a si própria e na qual, principalmente, se
observa a influência da natureza daquela cidade nos seus tempos de criança e de
adolescente.
Essa inspiração não foi nunca
escondida e a própria poeta a exalta quando recorda o Porto e as memórias da
juventude, como é o caso do lugar muito importante que é o atual Jardim
Botânico do Porto, que ocupou parte da propriedade familiar da Quinta do Campo
Alegre até 1949 e que foi também parcialmente ocupada com a nova Ponte da
Arrábida. Seria este espaço, com extensos e belos jardins, que
inspiraria Sophia durante toda a vida e cujas sensações a poeta irá reproduzir
na escrita sob variadas formas, destacando-se a liberdade de movimentos para as
brincadeiras infantis que irão estar presentes nos livros infantojuvenis e nos
poemas em que a natureza domina.
O Porto está muito presente na
obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, aqui a escrever à janela. Sobre esse espaço mágico dirá
Sophia: "Não era propriamente a casa da minha avó a que eu ia, mas à
quinta que a rodeava - os maravilhosos jardins, os buxos, as rosas, as
glicínias, os muguets - os
altíssimos plátanos do parque e os seus troncos, onde estavam inscritas
iniciais e datas e, às vezes, desenhados os corações de todos os namorados da
família, as suas penumbras verdes na primavera e no verão, a luz doirada do
outono e o chão juncado de folhas, o desenho dos ramos nus no céu frio de
inverno, o cheiro intenso e húmido da terra, do lago e dos musgos - o pomar, o
ténis, as hortas, os tanques, o pinhal, os campos -, tudo isto era para mim um
mundo de inesgotável e contínua descoberta."
Trata-se de Jan Heinrich
Andresen, um jovem que foge da ilha dinamarquesa de Föhr e que dará origem à
família de Sophia. Tanto assim que um dos seus livros, Saga, narra a viagem de
Jan até ao Porto e conta a aventura do bisavô que decide instalar-se em
Portugal.
Não muito distante da magia do
Porto que a Quinta do Campo Alegre lhe proporcionava, Sophia escolhe uma das
praias que os portuenses frequentam, a da Granja, para registar em vários
textos futuros. Imagens de uma praia a norte que está implícita em poemas como
"Homens à beira-mar" e "Mulheres à beira-mar". Inspiração
que a poeta confirmaria mais tarde, numa entrevista - "esses poemas têm
que ver com as manhãs de praia da Granja" -, mesmo que nessa resposta
acrescente como a pintura de Picasso e a poesia de Lorca tinham sido
importantes para os escrever.
Além do que era palpável
fisicamente, havia outra memória que também teria a cidade do Porto como
suporte através de um antepassado. Trata-se de Jan Heinrich Andresen, um jovem
que foge da ilha dinamarquesa de Föhr e que dará origem à família de Sophia.
Tanto assim que um dos seus livros, Saga,
narra a viagem de Jan até ao Porto e conta a aventura do bisavô que decide
instalar-se em Portugal.
Numa das raras entrevistas dadas
ao longo da vida, Sophia explicou esse Porto que estava em Saga, apontando as frases com que identificara
a cidade, como a descrição da entrada do navio pelo rio Douro, onde o bisavô se
esconderia na fuga da terra natal: "Barra estreita de um rio esverdeado
e turvo", os " escuros granitos", ou os "carros de madeira,
que chiavam sob o peso de pipas, pedra e areias" ao passarem "à porta
das adegas" ou pelas "igrejas de azulejo e talha".
A cidade do Porto, além de
insinuada em vários poemas, também surge num conto, intitulado O Homem, no qual Sophia coloca um
indivíduo a passear pelas ruas da cidade - que nunca é reconhecido - como sendo
Cristo a regressar.
Num desabafo posterior, a poeta
confessará o amor pela geografia de jovem, que mudará com a vivência de outros
locais: "Quando eu era nova e vim para Lisboa senti-me longíssimo da praia
porque no Porto vivia mais perto do mar. Não gostava de Lisboa, tinha uma
grande nostalgia do norte. Depois isso foi passando. E hoje gosto de
Lisboa."
Se o Porto, a quinta e a praia da
Granja ocupam grande parte dos primeiros temas e dos poemas, será outra a
inspiração geográfica que vai modelar a descendente de Jan Heinrich Andresen:
as praias do Algarve, tão parecidas com as que também amava, as da Grécia. Com
estas, a água fria, os limos e as ondas a bater no litoral de forma violenta
seriam imagens perdidas para uma nova poesia, a da idade adulta.
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segunda-feira, 4 de novembro de 2019
Guilherme Duarte - Review à carta aberta do Manuel Bourbon Ribeiro
* Guilherme Duarte
4 novembro 2016
Estão todos a par do texto publicado no
Observador de um tal de Manuel Bourbon Ribeiro? Um rapaz de 17 anos que decidiu
fazer uma "Carta Aberta ao meu país" onde disserta sobre os grandes
problemas de Portugal que passo a comentar, de seguida. Relembro que é um miúdo
de 17 anos e que, por isso, vou ser meiguinho que o meu objectivo não é fazer
bullying a menores, mas é normal que perca o autocontrolo a meio e o ofenda de
alguma forma. Comecemos:
"Se esta carta fosse escrita há 500 anos
provavelmente estava com medo de te escrever. Provavelmente a tua grandeza
ter-me-ia me assustado e não teria coragem de te dirigir a palavra, mas, a
verdade é que não és tão grande como outrora."
Se a carta fosse escrita há 500 anos muito
dificilmente saberias escrever porque mais de 95% da população era analfabeta.
Bem sei que será difícil imaginares-te como parte da maioria e não de uma
minoria privilegiada que vive na sua bolha, mas ya, provavelmente até já tinhas
morrido de disenteria com 17 anos. Esse discurso é o mesmo que alguns russos
podem ter quando choram a queda do império soviético ou alguns alemães que
acham que a Alemanha já não é grande porque já não tem o controlo da Polónia e
da França e que o senhor de bigode até fez umas coisas boas. Curioso referires
o D. Sebastião porque encontro vários paralelismos entre ti e ele: ambos
loirinhos de olhos claros e ambos bastante novos e mal preparados para mandar
bitaites sobre o país. A tua sorte é que se fores a Marrocos é para passear e
não para combater os mouros, mas sim, antigamente é que era bom.
"Não tenho qualquer autoridade para te
criticar ou emitir juízos de valor acerca de ti, mas já que toda a gente o faz,
mesmo quem nada percebe, arrisquei fazê-lo."
Bom, ao menos admites, já não é mau. O
primeiro passo para a cura é sair da negação.
"Como é que eu posso fazer algo grande se
em vez de me ensinares os grandes feitos por ti alcançados no passado e de me
fazeres ter orgulho por fazer parte de ti, te preocupas em impingir-me coisas
sem sentido como seja a ausência de diferenças entre raparigas e rapazes numa
idade em que nem sei ler? Ensina-me a pensar, ensina-me Ciências ou
História porque de sexo não percebes nada."
Vamos por partes. Sim, acho que a história não
deve ser apagada só porque é "ofensiva" e que os acontecimentos
passados não podem ser interpretados à luz da consciência social actual.
Estamos de acordo, os Descobrimentos continuam a ser um grande feito apesar de
todas as atrocidades cometidas. Sim, a escravatura foi das marcas mais negras
(salvo seja) da história, mas aconteceu e todos nós usufruímos dela quando
vamos a um monumento admirar a sua imponência. Os Jerónimos foram
construídos com dinheiro roubado e com mão de obra escrava. É por isso que
não devemos admirar ou devemos demolir? Acho que não, mas falar sobre o assunto
só nos torna mais cultos e até podemos tirar boas ideias para depois fazer
obras em casa que com a escravatura, parecendo que não, as coisas ficavam mais
dentro do orçamento e não atrasavam tanto.
Sim, também acho que não reconhecer diferenças
biológicas entre homens e mulheres é palermice, mas não sei se é isso que se
ensina nas escolas. Nunca vi nenhum livro de ciências da natureza que dissesse
"Mesmo que tenhas vagina, podes urinar em pé", mas eu já saí da
escola há muitos anos, pode estar mudado. Não deixa de ser curioso achares
que o Estado de sexo não percebe nada quanto tu apoias a Igreja Católica,
instituição que mais dicas tenta dar sobre sexo a todo o mundo, sobre como, quando
e com quem fazer sexo e se há alguém que não tem experiência na matéria são os
padres, excepto aqueles 10% que praticam com modelos de escala menor.
"Mas, pensando melhor, como é que eu
posso escolher o meu futuro se nem sequer a escola onde estudo posso
escolher?"
Escolher a escola onde andas? Tu nem andaste
na escola, andaste no colégio, deixa de chorar como se não fizesses parte dos
privilegiados cujos pais podem pagar a educação toda que quiseres sem
nunca teres de trabalhar para sustentar os teus estudos. Os meus pais também me
pagaram as propinas e não me vês a queixar que eram muito caras até porque
andei lá 8 anos a gastar-lhes o dinheiro, mas pode ser que se se portarem bem
eu depois os meta num bom lar.
"Dá-me a liberdade para escolher!"
Acho importante retermos todos esta frase
porque aposto que vai dar jeito daqui a pouco.
"Como é que me dizes que sou livre se me
tiras mais rendimentos hoje do que alguma vez me tiraste?"
Tu não tens rendimentos. Tu tens mesada ou
semanada e que eu saiba isso não paga impostos porque duvido que passes recibo
ao teus pais. Há impostos a mais? Claro, mas não te preocupes que, por
norma, o pessoal que ganha bem e tem contactos na política, consegue fugir e
meter dinheiro em offshores.
"Portugal, tu estás diferente. Onde é que
estão os grandes governantes a que me habituaste? Antigamente os reis e
ministros iam parar ao panteão. Hoje quem governa, ou suborna ou vai parar à
prisão."
Grandes governantes tipo o Salazar, suponho.
Relembro que um dos líderes que tu gostas muito, suponho, o Paulo Portas,
também tem submarinos no armário, por isso esquerda ou direita acaba por ser
tudo um bocado a mesma coisa em termos de corrupção, nisso concordamos. Aliás,
a tua mãe foi deputada pelo CDS-PP e não me lembro de a ter visto fazer pressão
sobre esses assuntos. Ah e o teu tio foi chefe de gabinete enquanto ele era
ministro de Estado. Boas connections que tu tens e eu aqui todo contente porque
conheço bem o Kaló, dealer da Damaia.
"Como é que eu, com 17 anos, não posso
escolher o destino do meu país, mas posso mudar de sexo?"
Bom, então e o que escreveste há bocado
"Dá-me a liberdade para escolher!"? Como é que ficamos? A minha
pergunta é: como é que tu com 17 anos tens um artigo bastante fraco publicado
num jornal? Essa é que devia ser a pergunta. Andasses tu nas escolas onde eu
andei e levavas no focinho no intervalo grande depois de veres uma coisa destas
sem jeito nenhum publicada. Sorte que no teu meio não há bullying porque os
bullies só se juntam para atacar os mais fracos e desfavorecidos.
"Achas que me estás a ajudar se me
incentivas a ser outra pessoa que não aquela que veio ao mundo com o meu nome?
Achas que com 16 anos tenho capacidade de negar aquilo que sou?"
Bom, acho que não há incentivo a mudar de
sexo. Nunca vi um cabeleireiro a dizer a uma criança de 10 anos "Maria,
que acha de raparmos o cabelinho e trocar esse pipi por uma pichota cheia de
veias lindas?".
"Pareces mais parvo que eu quando decido
escolher o caminho mais fácil por imaturidade. Posso ainda nem ser maior de
idade, mas sei que a vida é tudo menos fácil."
O caminho mais fácil tipo ter um texto
publicado no Observador só porque se pode? Não sei se sabes bem isso de a vida
ser tudo menos fácil. Estou a ser preconceituoso, claro, podes ter nascido no
meio privilegiado à partida, mas não o seres. Conheço rapazes como tu que
foram obrigados a ir para medicina por estatuto e pressão familiar e ficaram
adultos profundamente infelizes. Mais privilegiado serei eu que tive a
liberdade para ser quem quis e os meus pais só iam sofrendo para dentro sem me
cortar as asas.
"Porque é que me ajudas a acabar com a
minha própria vida sem me tentares ajudar primeiro?"
E a liberdade para escolheres, Bourbon? Onde
anda ela? Esta gente pensa que a eutanásia é prescrita numa consulta do médico
de família porque um gajo tem dor ciática. Ninguém receita eutanásia sem
esgotar todos os recursos primeiro. Eutanásia não é alternativa ao Kompensan.
"Uma vida nunca é insignificante e até um
embrião é uma pessoa. Porque é que me incentivas a matá-lo e não me ajudas a
ser feliz com ele?"
Portanto, tu queres liberdade para escolher
menos se for na temática do aborto, da mudança de sexo, da eutanásia. Ou seja,
queres liberdade para escolher sobre a vida dos outros, é isso? Eu percebo, na
tua idade eu também pensava que sabia tudo da vida e que os outros é que
estavam mal. Ainda penso, na verdade. Não, um embrião não é uma pessoa e
tu que tanto que falas de ensinar ciência na escola, esqueceste-te de ir às
aulas de biologia. Estou a partir do princípio que estás no agrupamento de
ciências porque não tens pinta de artista e se foste para humanidades deixa-me
dizer-te que escreves mal e devias reconsiderar.
"Porque é que uma mãe sem condições
financeiras não tem uma creche gratuita para poder trabalhar enquanto cria o
seu filho? Isso faz com que as pessoas não tenham filhos. E, digo-te já, estás
a criar um problema gravíssimo. Os meus pais tiveram 6 filhos por terem
condições e são felicíssimos."
São felicíssimos é o que eles dizem, mas
garanto-te que em 6 há pelo menos um que é um otário e que eles se arrependem
de ter tido. Não estou a dizer que és tu, pode ser o Bernardo ou a Francisca ou
o José Maria, mas um de vocês deve ter saído estragado. Quanto a uma mãe
solteira sem condições ter creche gratuita, estamos de acordo, mas para isso é
preciso que quem ganha mais dinheiro esteja disposto a pagar mais impostos e
isso é coisa que resvala para o socialismo. Queres ver que és socialista e não
sabias?
"Neste momento estou a estudar Direito e,
apesar de terem passado poucos meses desde que comecei, aprendi muitas
coisas."
Ahhh estás a estudar Direito, ok. Felizmente
estás numa área mais fácil de ter iniciativa privada, porque basta abrires um
escritório para teres a tua empresa montada sem ser preciso grande
investimento. Depois o resto é feito com qualidade e com contactos e uma dessas
coisas tu já tens.
"Será que estás a dar o exemplo do que é
uma Democracia quando quem governou durante 4 anos nem sequer ganhou as
eleições? Que país é este que se diz democrático, mas que não faz a vontade ao
povo?"
Bom, com este ponto mostras que não sabes como
funciona a democracia. Vou explicar: nas eleições elegem-se deputados e não
partidos vencedores. A vontade do povo – que foi votar – foi expressa na
chamada geringonça porque era a que tinha a maioria dos deputados escolhidos
pela população. Percebeste? É muito comum em países ditos
desenvolvidos este tipo de dinâmicas de de acordos pós-eleitorais. Quanto
ao resto, não digo que foi por mérito, pode ter sido contexto
económico europeu e mundial, mas olhando para todos os índices estamos
melhor do que quando saiu de lá o Passos Coelho. Mas, já que falas em fazer a
vontade ao povo (curioso chamares povo e não plebe) então e a questão do
aborto? O povo votou e decidiu, que tal calares-te com esse assunto e respeitares
a decisão da maioria?
"Que país é este que ao ver a sua defesa
ameaçada e roubada, como aconteceu em Tancos, não sabe punir e responsabilizar
os intervenientes? Que país é este que perante quase metade da percentagem de
abstenção, resultante de uma colossal indiferença do seu povo perante a vida
política, fica de braços cruzados a lamentar-se, sem quaisquer medidas
concretas para o resolver?"
Estamos de acordo em relação à abstenção e a
Tancos, mas acho que toda a gente que leia isto estará de acordo o que
significa que estás apenas a dizer coisas do senso comum e nada de inovador. Eu
sou do tempo em que para publicar coisas num jornal era preciso ter alguma
coisa nova a dizer e que as pessoas ainda não soubessem.
"As pessoas que mandam estão há mais anos
no poder do que eu na vida. Temos um sistema político ultrapassado e as pessoas
estão fartas. Como é que não percebes isso, Portugal?"
Concordo Bourbon, queres ver que ainda
acabamos isto a formar um partido juntos? Eu faço os abortos enquanto tu reanimas
os fetos a rezar.
"Que país és tu que não garante, de modo
algum, a segurança dos seus cidadãos?"
Bourbon, somos o terceiro país mais seguro do
mundo e aposto que a tua zona deve ser das mais seguras de Portugal.
"Um país que está mais preocupado em
descobrir de quem é a culpa do que a resolver os problemas causados."
Tens de te decidir. Em Tancos dizes que
ninguém foi responsabilizado, aqui dizes que se preocupam demasiado em
descobrir de quem é a culpa. Assim não dá, Bourbon. Estás a estudar Direito,
não podes estar aqui a mudar de opinião e a ser incoerente.
"Como é que é possível que o trabalho dos
polícias não seja valorizado como devia?"
Concordo. Os polícias são mal pagos e mal
vistos na sociedade e fazem um trabalho importante, mas comprar pulseirinhas
para mostrar e ganhar votos não é solução.
"Daqui a cinco anos devo entrar no
mercado de trabalho e tenho de me fazer à vida."
Ah ah ah, ó Bourbon, arranjar uma cunha para
trabalhar não é bem fazer à vida. Repara, não digo isto por preconceito de
teres três nomes, ar de beto, e vires de boas famílias. Digo isto porque
publicaste um texto mal escrito e sem nada de novo num jornal de referência em
Portugal. Logo, se já tens essas cunhas com 17 anos, imagino que não tenhas de
te preocupar muito com o teu futuro no mercado de trabalho. Aposto que nem vais
ter de fazer um CV para ser chamado para entrevistas. Estranho, até, não
tires ido a nenhuma das rádios da Media Capital, seja à Comercial, Cidade FM ou
M80, dizer este teu texto. O teu pai é o CEO dessas rádios e podia ter-te dado
uma ajuda. Queres que tente meter uma cunha por ti? Deves tratá-lo por você e
se calhar têm uma relação distante e eu podia ajudar. É que acho estranho
tu seres filho de uma ex-deputada do CDS e do CEO das rádios da Media Capital e
o melhor que te arranjaram foi o Observador? Os teus pais não gostam muito de
ti, puto, lamento informar. E eu fui à Rádio Observador hoje de manhã dar uma
entrevista, mas convenhamos que não tive liberdade para escolher entre eles e a
Comercial.
A culpa não é tua. É normal que um adolescente que viveu numa bolha
pense como um adolescente que viveu numa bolha. É normal que a religião que te
foi enfiada pela goela desde criança te tolde a forma de ver o mundo e que
queiras liberdade para escolher quando não ta deram a ti, ao educarem-te assim.
Não és mau miúdo, se calhar até queres mudar o mundo e torna-lo melhor para
todos. Sai da tua bolha, lê, ouve os dois lados. Precisamos de miúdos como tu
que se preocupam e que têm iniciativa. Precisamos é que se preocupem com as
coisas certas. Percebo que queiras exigir muitas coisa do teu país, mas embora
a diferença entre "pais" e "país" seja apenas um acento,
mas não é por aí que ambos têm de te fazer as vontades todas e te dar tudo o
que queres.
***
Isabel Costa - (Des)carta aberta a Manuel Bourbon Ribeiro
* Isabel Costa
Mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
4 de Novembro de 2019, 13:22
Caro Manuel,
Tenho 28 anos e uma vida pela frente. Sinto e sei que posso fazer algo pelo meu país. Logo, vou pôr as mãos ao trabalho. Não vai ser fácil. Não é só o meu país que é difícil, é o mundo e a vida. Não é só a sua geração que sente dificuldade, são todas. Não há exclusividade, apenas a sua ilusão.
Se esta carta fosse escrita há 500 anos faria todo o sentido. O problema é esse. Os saudosismos e os queixumes só nos fazem andar atrás da nossa própria sombra.
É verdade que eu não frequentei um colégio de topo. Também é verdade que não o podia escolher. Mas, a julgar pela sua carta, ainda bem. A minha professora de História, aquela que tive numa escola pública, ensinou-me os grandes feitos de Portugal, assim como os seus custos e consequências. Também aprendi, com a minha professora de Português, que o “Quinto Império” simboliza um Portugal regenerado cultural e espiritualmente. Infelizmente, não temos como pedir algum esclarecimento a Fernando Pessoa, mas julgo que o autor não estava a pensar em investimentos privados. Entre a História e as Ciências, também houve espaço para educação sexual e formação cívica. Não se deve confundir sexo com identidade de género. São coisas muito diferentes, mas não se preocupe, há muita literatura sobre o assunto. Contudo, adquirir a sensibilidade necessária para perceber a diferença entre poder votar e mudar de género já é um processo mais complexo. São questões incomparáveis, dado que não apresentam as mesmas variáveis, o mesmo substrato, a mesma fórmula. Enfim, é confundir alhos com bugalhos.
“Não se deve confundir sexo com identidade de género. São coisas muito diferentes, mas não se preocupe, há muita literatura sobre o assunto. Contudo, adquirir a sensibilidade necessária para perceber a diferença entre poder votar e mudar de género já é um processo mais complexo.”
Talvez, nestes intensos dois meses de aulas de Direito, ainda não tenha aprendido que as eleições legislativas são para eleger os 230 deputados da Assembleia da República. O Governo é formado posteriormente, tendo em consideração a maioria parlamentar. E o Governo de que fala foi formado tão legitimamente como outras coligações passadas. A essência da Democracia representativa estava lá. Pode é não lhe ter agradado.
Também ainda não sabe que um dos indícios mais evidentes da demagogia e do populismo é confundir a “vontade do povo” com os interesses e opiniões do próprio. Maior liberdade implica maior escolha, mas não é apenas sobre aquilo que nos convém. A liberdade de escolha não se reduz a escolher um colégio em vez de uma escola pública, nem a políticas de incentivo ao investimento privado. A liberdade de escolha implica respeitar outros modos de vida, outras concepções de mundo e outros valores morais. A verdadeira liberdade nasce da tolerância que somos capazes de ter para com quem pensa de forma diferente. E o desafio da Democracia é saber construir um espaço público capaz de responder à diferença que existe entre nós. Entre mim e o Manuel. Entre o eu e o outro. Compreendo perfeitamente que o relativismo existencial assuste e preocupe, mas fingir que ele não existe não resolve problema nenhum.
Sem dúvida que há muito para melhorar, em todos os sectores da sociedade portuguesa: contudo, nem é tão fácil como pensa nem através das aparentes soluções que apresenta.
Sei que tem apenas 17 anos, mas dizer, através de um órgão de comunicação social, que o país “parece parvo” apenas porque não corresponde aos seus anseios, ultrapassa os limites da imaturidade.
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Lúcia Gomes - Carta aberta a um fascista de 17 anos
* LÚCIA GOMES
3.11.19
3.11.19
Tem 17 anos e já transpira colonialismo e saudosismo bafiento em cada palavra. A sua genealogia ditou que pudesse ser publicado num jornal de referência do mofo salazarista mas o seu artigo é, para além de decadente (porque o jovem com tanto para dar mais parece uma criatura mumificada acabada de encontrar num qualquer cenotáfio de um panteão com festas de uma startup), perigoso e sintomático de uma pretensa elitezinha que acha que o país precisa deles.
Vou dizer-te uma coisa, Manuel Bourbon Ribeiro: o país não precisa de ti. Nem precisa das tuas reflexões. O país teve décadas de gente como tu, ainda os tem, em lugares de poder. No teu caso, nem sequer se pode falar em meritocracia porque o que tu tens é a conta bancária dos papás e um família que enriqueceu à custa da apropriação da mais valia criada por outros e assim construiu a sua fortuna. Sabes, Manelinho, essa grandiosidade de que falas e que gabas ao longo da tua composição, foi feita à custa da escravização dos povos. Do nosso e dos povos africanos, dos povos indígenas da América Latina. À custa da espoliação das riquezas naturais que lhes pertenciam e que nós dissemos serem nossas, desbaratando-as nesse império de tão grandes feitos e deixando algumas remanescências naquilo que alguns chamam museus mas que eu gosto de chamar arquivos do imperialismo. É que - e tu estás a estudar Direito, Manelinho, já deves ter aprendido uma ou outra coisa - esses tesouros foram roubados (sim, roubados - com violência. Não chegaram sequer a ser furtados, sabes a diferença, não é, Manelinho?) - e com eles há muitas histórias que podem ser contadas.
Mas como eu não quero chatear-te com coisas do passado, embora claramente prefiras viver nele, posso aconselhar-te alguns filmes, para não perderes muito tempo, em que com algumas horas do teu tempo certamente preenchido com actividades que mais ninguém com 17 anos pode ter - porque não tem dinheiro, Manelinho - poderás apreender a violência, a brutalidade, a desumanidade da grandiosidade que apregoas. Olha: podes começar com o Silence, do Martin Scorsese. Sabes que mesmo para contar esses factos históricos houve quem fosse preso pela PIDE, em 1964, interrogado, ameaçado, por simplesmente escrever sobre eles? Podes ler as “Raízes da Expansão Portuguesa”, de António Borges Coelho, historiador, combatente antifascista, que esteve 6 anos encarcerado por um regime que seguramente gostarás - enquadra-se nas tuas palavras e no que tu pretendes recuperar e dar ao teu país - durante seis anos, parte dos quais no isolamento onde "só há a memória”, que vai “a horizontes completamente inconcebíveis”. “Esse isolamento é quebrado para interrogatório e para ir à tortura, mas a maior tortura é para muitos precisamente esse isolamento contínuo, contínuo, contínuo, sem haver nada”.
Podes mesmo viajar até outros países, porque o teu continua num negacionismo sem paralelo, e ver fotografias, relatos, provas de que a quimera e os sonhos que dizes ter e que são os que outrora Portugal teve, se materializaram no facto de o povo português ser o mais bárbaro na sua tortura colonizadora. Sim, o mais bárbaro. Mais do que os ingleses e os holandeses e não deve ser tarefa fácil! É que, Manelinho, para indicarem que o território onde tinham chegado agora era seu, os portugueses colocavam à entrada estacas com indígenas empalados para que toda a gente soubesse quem estava no comando. Ou enfiavam nativos que se recusassem à conversão católica em buracos subterrâneos, presos pelos pés, para que morressem lentamente. Presumo que seja a isto que te referes quando falas em grandiosidade. Porque, Manelinho, especiarias e tecidos podiam ter trazido sem estas práticas. Mapas, também os podiam desenhar sem subjugar e dizimar povos e natureza.
Mas vê por ti, vai ao Merseyside Maritime Museum em Liverpool (aproveitas para tirar umas fotos para o teu Instagram a dizer como és tão culto e conheces os Beatles, não precisas de dizer a ninguém que foste a este museu) e lê. Lê, Manelinho. Tu deves saber várias línguas. Até deves compreender isto:
"To most white people, slavery and colonialism are just part of a distant memory of nothing in particular. For whites, slavery did not last particularly long, its benefits accrued only to a tiny proportion of white people and the evils of slavery are overshadowed by the role played by British abolitionists. In any case, the rise of Western nations, Britain, and the United States in particular, as the industrial supremos of the world, is explicable to them simply in terms of English innate genius. Poverty and penury in Africa, and racial inequality in the West, is explained in terms of black inability, incompetence or laziness. To black people, though, slavery and colonialism reiterate themselves in our everyday lives, and evoke poignant and immediate memories of suffering, brutalisation and terror. For black people, Western nations achieved their industrial growth and economic prosperity on the backs of slaves, abolished slavery primarily for economic reasons, have discriminated against black people ever since, and are unrepentant about any of it. African under-development and racial inequality in the West is understood primarily in terms of racism and racist hostility of whites.”
Depois, Manelinho, não tentes - a sério, nem tentes - fingir que sabes o que é uma mãe não ter dinheiro para uma creche - até porque deves ser contra as famílias monoparentais, por exemplo, porque irão contra a tua noção patética de família. Não digas que não te deixam escolher hospitais: tu tens dinheiro para ir onde quiseres e nós, os que não temos, temos um Serviço Nacional de Saúde que é dos melhores do mundo. E sim, precisa de investimento, mas não para podermos ir a um privado. Porque no público temos os melhores profissionais, a melhor tecnologia, os melhores assistentes operacionais e enfermeiros e tu serás melhor tratado num hospital público do que num qualquer privado, ainda que não tenhas um quarto só para ti e wifi para navegares. Porque quando falas em liberdade de escolha o que queres dizer é desvio de recursos para financiamento dos grupos económicos que enchem os bolsos de famílias como a tua. Seja na saúde, seja na educação. Porque é a escola pública que garante a igualdade, o progresso, o desenvolvimento integral. Que permite que pessoas como tu, racistas, supremacistas, aprendam valores de solidariedade, tenham uma educação de excelência reconhecida mundialmente, progridam em todos os ciclos de ensino sem que o dinheiro dos papás seja condição para terem a educação até ao grau que pretendem ter.
Não pretendas saber, Manelinho, o que é não ter dinheiro para comprar livros, para ir até à escola porque não se tem carro, para ir comprar medicação, o que é o isolamento dos idosos, o que é estar endividado. Sabes porquê, Manelinho? Porque nós, os que estudámos com livros emprestados, os que tínhamos boleia de vizinhos ou íamos a pé quilómetros até à escola, os que vimos os nossos avós a morrerem sozinhos, os que vimos os nossos pais morrerem de cancro aos 54 anos, os que só comíamos sopa porque o salário das nossas mães não dava para mais do que pagar a casa, as roupas e a alimentação (e olha que roupa só era comprada duas vezes ao ano, de resto era dada), os que sempre passamos férias em casa, os que temos vários tios (porque os nossos avós tinham 8 filhos mas não eram como os teus seis irmãos, trabalhavam desde os 12 nesses tempos áureos que evocas), os que trabalhamos para pagar os nossos cursos, sabemos bem que os salários dos nossos pais são baixos porque os salários dos teus são altos (e são eles que detêm as empresas que exploram os nossos pais), porque as leis são feitas por e para os teus pais e os amigos dos teus pais, porque tu só escreves nos jornais porque os donos deles são os amigos dos teus pais e um dia serão os teus.
Não pretendas, Manelinho, jamais, achar que o teu curso de Direito valerá algum dia mais do que o meu, porque eu exerço-o do lado certo da barricada. Não julgues que os teus 17 anos algum dia darão a este país mais do que os meus 17 porque nessa idade já eu combatia, com tantos outros, racismos, xenofobias, classismos, opressão e exploração. E jamais penses que este país precisa de ti. Este país precisa de Serviço Nacional de Saúde público, gratuito, universal e de qualidade. Precisa da escola pública, gratuita e universal. Precisa de combater o preconceito - em função do sexo, da orientação sexual, da deficiência, da classe. Precisa de dar a conhecer em todo o lado - na escola, na rua, no parlamento - a Constituição, o combate ao fascismo, as histórias dos antifascistas, os relatos da tortura, a barbárie dos Descobrimentos, precisa de melhores salários para os trabalhadores, precisa de uma Administração Pública de qualidade que dignifique os seus trabalhadores e utentes, precisa de mais e mais serviços públicos, precisa de combater a violência policial.
Manelinho: nenhum fascista é necessário. Nem em Portugal nem em lado nenhum. E tu, com os teus 17 anos, deverias sentir uma profunda e enorme vergonha por estares do lado opressor da história. Porque não é a ti que ela dará razão.
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