terça-feira, 23 de novembro de 2021

Mário de Carvalho - «Interessa-me prosseguir este caminho de uma literatura que já tem oito séculos»

CULTURA|LITERATURA

AbrilAbril

21 DE NOVEMBRO DE 2021

  •  

Os primeiros contos ficaram na gaveta, porque os amigos o desencorajaram, mas, ao fim de 40 anos de carreira literária, Mário de Carvalho tornou-se uma voz maior da literatura portuguesa.

 

São assinalados 40 anos de carreira literária de Mário de Carvalho na próxima segunda-feira. Créditos/ Lusa

Desde que publicou os primeiros textos, Contos da sétima esfera (1981), nunca mais precisou de tomar a iniciativa de levar os textos a qualquer lado, porque passou a ser sempre solicitado, até hoje, 40 anos depois de iniciada uma carreira literária em que experimentou todos os géneros, menos a poesia, que considera «demasiado nobre para [o seu] alcance».

Para assinalar este percurso literário, Mário de Carvalho vai ser homenageado na segunda-feira, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Recuando quatro décadas nas suas memórias, o escritor recorda, em entrevista à agência Lusa, o início desta caminhada, fortemente alimentada pela banda desenhada, pela biblioteca do pai e pelos amigos, mas também por estes desencorajada.

«Fui escrevendo uns contos, já desde há algum tempo que escrevia, desde os anos [19]60/70. Escrevi algumas coisas que mostrei a amigos meus que me desencorajaram: ‘Os surrealistas já fizeram isto há muitos anos, deixa-te disto’. E eu deixei».

Mas a necessidade de escrever foi-se impondo, como um «impulso difícil de contrariar», o de lançar no papel as ideias, as situações, as personagens que lhe ocorriam.

Mário de Carvalho, hoje com 77 anos, acredita que isso teve que ver com o seu «mundo de leituras«, porque em jovem foi «um voraz leitor de toda a espécie de livros».

Assim, foram-se somando os contos até que os levou à editora Vega, na altura dirigida pelo escritor João de Melo, que gostou dos textos.

«A partir daí, foram editados e passei a ser solicitado, ou seja, tenho ideia de que nunca tomei a iniciativa de levar os meus textos a qualquer lado, porque houve sempre alguém que mos pediu até hoje, livro após livro, editora após editora», contou.

Na altura já exercia advocacia, a área em que se licenciou e para a qual tinha a vida orientada.

«Os contos foram surgindo a pouco e pouco e, na altura, de um advogado que escrevia livros, passei a ser um escritor que também era advogado», até que finalmente deixou a advocacia.

A escrita ficcional impôs-se-lhe por gosto e sente que a certa altura adquiriu facilidade em criar situações e personagens, confrontando-as sempre com o que já conhecia, quer da literatura, quer da Banda Desenhada.

«Fui um leitor fiel e constante de uma revista que se chamava Cavaleiro Andante e de outra que circulava muito entre miúdos que era o Mundo de Aventuras. Isto fornecia-me um manancial de personagens, de situações complicadas, de avanços e recuos», recorda.

Para o então jovem Mário de Carvalho, era «muito interessante essa consulta semanal do Cavaleiro Andante, a troca de impressões com os colegas que liam a mesma revista», e isso deu-lhe «alguma agilidade na conceção de personagens e de situações dramáticas».

Mas também havia as «leituras sérias», e cedo começou a ler Eça de Queiroz e Aquilino Ribeiro.

«O meu pai tinha uma biblioteca grande, boa, e deixava-me mexer nos livros à vontade, a não ser em alguns livros que depois percebi que tinham um caráter erótico, que estavam numa estante lá em cima, num ponto onde não conseguia chegar. De resto facultava-me os livros e eu andava com eles, levava-os para o liceu e para onde quisesse, e ia lendo sempre».

Mais tarde foi apresentado a Jorge Luis Borges, que o deixou «absolutamente fascinado», e a outros autores latino-americanos, mas sempre foi um leitor muito variado.

«Era capaz de ler Sob a bandeira da coragem, de Stephen Crane, ao mesmo tempo tentar ler O Malhadinhas, do Aquilino – e digo tentar porque não era nada fácil -, mas também ia avançando para o Eça e algum Camilo Castelo Branco».

Mário de Carvalho reconhece que havia um contexto que facilitava tudo, o facto de os seus amigos também serem bons leitores, o que proporcionava que trocassem e comentassem livros.

«Encontrávamo-nos todos os dias e, entre as muitas coisas sobre que se conversava, nomeadamente política, também se conversava sobre livros, e os livros circulavam».

Ao longo da sua vida literária, o escritor já passou por vários géneros, diz que tem «o gosto de borboletear», varia muito e muda de registo, o que, confessa, lhe dá algum prazer.

Tem andado pelo conto, pelo romance e por várias épocas, conforme o que se lhe apresenta, mas nunca escreveu poesia, nunca teve «esse atrevimento».

«Não sei quem foi que disse, que isto da poesia é mais da arte da magia do que outra coisa. Não é propriamente literatura, é magia e eu de mago não tenho nada, por isso não, nunca, a não ser, talvez, na adolescência tenha feito um poema ou outro, como os outros faziam, mas nunca me atrevi a ir para esse terreno, que me parece demasiado nobre para o meu alcance».

A escrita de Mário de Carvalho também é feita de obsessões, de certos temas que se impõem e que não o deixam descansar enquanto não estão prontos.

Foi o caso de um livro que o «obcecou durante anos» e que seria publicado mais tarde com o título O livro grande de Tebas, Navio e Mariana, e que teve que ver com uma reminiscência que tinha desde miúdo: estava a ver uma revista policial e havia uma referência à cidade de Tebas, e esse nome ficou-lhe «a ressoar durante anos».

A mudança de registo literário em Mário de Carvalho relaciona-se sempre com o tema que escolhe tratar, e o autor afirma ter muito cuidado em manter uma linguagem adequada ao assunto e à época, estudando previamente para isso, se for o caso: «Tenho cuidado na seleção de vocábulos, mas também o próprio ritmo das frases é diferente».

«Temos que ter cuidado com isso e procurar encontrar um tom, o ritmo, ler coisas de época e procurar cumprir o pacto com o leitor, o célebre pacto com o leitor, ou seja, se eu estou a escrever sobre o século XVIII, estamos no século XVIII e não há frases, nem realidades posteriores. Se estou a escrever sobre os anos 20, estamos no mundo dos anos 20 e penso que o leitor espera isso, que o autor se informe e não entre pela inverosimilhança».

Sobre uma apreciação que por vezes é feita às palavras que utiliza, como sendo difíceis, Mário de Carvalho considera não ser muito correta, pois limita-se a utilizar as palavras que lhe parecem adequadas à situação que está a ser tratada, para «acentuar mais matizes e procurar certos efeitos».

«Não tenho nenhuma pretensão de deslumbrar com palavras difíceis, de forma nenhuma. As palavras que utilizo não são difíceis para mim nem para outras pessoas da minha geração e, portanto, se alguém não as conhece, o problema não é meu, o problema é que as pessoas estão muito ligadas ao vocabulário básico elementar das televisões e das rádios, quando o nosso vocabulário atual é muitíssimo mais versátil e muitíssimo mais rico e está lá para ser empregado, não está para ser omitido».

Se isso significa vender menos livros, é algo que não o aflige, porque não é essa a razão por que escreve: «Interessa-me prosseguir este caminho de uma literatura que já tem oito séculos, que não é de agora, e de vez em quando não é mau darmos uma espreitadela para aquilo que está lá para trás e que nos formou».

Os trovadores, os homens do renascimento, escritores «perfeitamente fascinantes, como Gil Vicente», ou o «espantoso mestre da língua e da clareza» Padre António Vieira são alguns dos autores que de vez em quando revisita.

Olhando para trás, não tem razões de queixa: «Nunca fui um chamado best seller, mas os meus livros têm-me corrido razoavelmente e tanto que, ao fim de 40 anos, eu ainda estou para aqui», já com «uma certa tranquilidade», sem essa «efervescência e emoção de outros tempos».

«As coisas seguem o seu ritmo e penso que, sem falsas modéstias, há um lugar marcado na nossa literatura que não é minha, não fui eu que inventei, são oito séculos, e eu sinto-me a trabalhar nessa base, sou uma voz que se soma a oito séculos de experiência literária e de avanços e recuos neste campo da literatura».

Nascido em Lisboa, em 1944, combatente da ditadura, que o levou à prisão, Mário de Carvalho estreou-se na literatura aos 37 anos, com Contos da sétima esfera, publicados em 1981.

Desde então, entre romance, novela, conto, ensaio, crónica, teatro e literatura para a infância, soma mais de 30 títulos, entre os quais se encontram Um deus passeando pela brisa da tardeA inaudita guerra da avenida Gago CoutinhoOs alferesEra bom que trocássemos umas ideias sobre o assuntoApuros de um pessimista em fugaFantasia para dois coronéis e uma piscina e Se perguntarem por mim, não estou seguido de Haja harmonia.

Os prémios chegaram desde logo com as primeiras obras, como o Prémio Cidade de Lisboa e o Prémio D. Dinis, atribuídos ainda durante a década de 1980.

Entre outros, recebeu os Grandes Prémios de Romance e Novela, Conto e Teatro da Associação Portuguesa de Escritores (APE), o prémio do PEN Clube Português, de narrativa e de ensaio, o prémio internacional Pégaso de Literatura, o Prémio Fernando Namora, por duas vezes, o Grande Prémio de Literatura dst e o Prémio Vergílio Ferreira, de carreira, da Universidade de Évora.

Em 2020, recebeu, pela quarta vez, um grande prémio da APE, este de Crónica e Dispersos Literários, pelo livro O que eu ouvi na barrica das maçãs.

No ano passado publicou igualmente Epítome de pecados e tentações, uma nova coletânea de contos e novelas.

Lusa

https://www.abrilabril.pt/cultura/interessa-me-prosseguir-este-caminho-de-uma-literatura-que-ja-tem-oito-seculos

 


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Poemas de Filipe Chinita

 * Filipe Chinita

madrugada 
de solitário
(prazer)
amando-
me
.
nada 
como 
à 01.50 da madrugada
me apetecer... 
esquartejar 
metade 
de 
um 
dos (meus) duros queijos 
de ovelha alentejanos 
mergulhados... 
durante 
meses
em frascos 
de azeite 
e louro
colocando-o 
aprisionado na mão esquerda 
e a navalha de a minha direita
cortando-o... nas mais finas 
em que me possa
eu exprimir
deixando
-lhe 
brilhar... 
os interiores olhinhos 
repassados de prazer
que lhe dão 
um sabor 
único...
tão 
único... 
que me deu
agora mesmo 
mesmo! a estas horas 
uma desalmada fome
de me deixar inundar 
da sua intensidade 
na
minha boca...
tomando-a toda.
de sabor...
tomando-me todo.
de prazer... 
até 
ao cérebro
.
fj
02.02
21.11.2021
13:19



amar... é perdermo-nos de nós.no outro
fundindo-nos... num outra identidade.
mútua. e não mais individual.
nem que por momentos
.
fj
12.59
22.11.2021


diria mais...
amar... é sermos o outro 
e não mais (só) nós.próprios

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

Ricardo Reis - Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

* Ricardo Reis 

Deixemos, Lídia, a ciência que não põe

Mais flores do que Flora pelos campos,

        Nem dá de Apolo ao carro

        Outro curso que Apolo.

Contemplação estéril e longínqua

Das coisas próximas, deixemos que ela

        Olhe até não ver nada

        Com seus cansados olhos.

Vê como Ceres e a mesma sempre

E como os louros campos entumece

        E os cala pràs avenas

        Dos agrados de Pã.

Vê como com seu jeito sempre antigo

Aprendido no orige azul dos deuses,

        As ninfas não sossegam

        Na sua  dança eterna.

E como as hemadríades constantes

Murmuram pelos rumos das florestas

        E atrasam o deus Pã

        Na atenção à sua flauta.

Não de outro modo mais divino ou menos

Deve aprazer-nos conduzir a vida,

        Quer sob o ouro de Apolo

        Ou a prata de Diana.

Quer troe Júpiter nos céus toldados,

Quer apedreje com as suas ondas

        Neptuno as planas praias

        E os erguidos rochedos.

Do mesmo modo a vida é sempre a mesma.

Nós não vemos as Parcas acabarem-nos.

        Por isso as esqueçamos

        Como se não houvessem.

Colhendo flores ou ouvindo as fontes

A vida passa como se temêssemos.

        Não nos vale pensarmos

        No futuro sabido

Que aos nossos olhos tirará Apolo

E nos porá longe de Ceres e onde

        Nenhum Pã cace à flauta

        Nenhuma branca ninfa.

Só as horas serenas reservando

Por nossas, companheiros na malícia

        De ir imitando os deuses

        Até sentir-lhe a calma.

Venha depois com as suas cãs caídas

A velhice, que os deuses concederam

Que esta hora por ser sua

Não sofra de Saturno

Mas seja o templo onde sejamos deuses

Inda que apenas, Lídia, pra nós próprios

Nem precisam de crentes

Os que de si o foram.

s.d.

Odes de Ricardo Reis . Fernando Pessoa. (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994). 

 - 162.

 

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Daniel Faria - Homens que são como lugares mal situados

* Daniel Faria

Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

António Gedeão - Dez reis de esperança

 * António Gedeão

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Teresa Beleza. «Há decisões judiciais indignas de um país democrático»

NACIONAL|LUTA DAS MULHERES

Entrevista -, AbrilAbril POR NUNO RAMOS DE ALMEIDA

17 DE OUTUBRO DE 2021

 

Feminista e jurista de renome, conversou com o AbrilAbril sobre violência contra as mulheres e aquilo que é necessário fazer para haver uma sociedade em que a opressão das mulheres fique na pré-história do nosso tempo.

 

Teresa Pizarro Beleza foi a primeira mulher a dirigir a Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Criou a disciplina de Direito das Mulheres e da Igualdade Social, introduzida no elenco das cadeiras de opção da licenciatura em Direito. Foi vogal do Conselho Superior do Ministério Público, por designação do Ministro da Justiça. Eleita, por referência de Portugal, para o Comité Europeu para a Prevenção da Tortura (CPT do Conselho da Europa) por um mandato de quatro anos, entre 1999 e 2003, levou a cabo missões de fiscalização das condições de detenção sob autoridade pública em vários países, nos termos da Convenção Europeia para a Prevenção da Tortura e Penas ou Tratamentos Desumanos e Degradantes. 

Há mais assédio sexual hoje do que havia nos seus tempos de faculdade?

Se «…os meus tempos de faculdade…» significa quando eu era estudante universitária, a resposta é: não sei. Não tenho dados objectivos fiáveis, estatisticamente significativos, para dar uma resposta séria. Mas, em termos de intuição e experiência, diria que é provável que a variação quantitativa não seja muita. A percepção e sobretudo a publicitação de um fenómeno que todas ou quase todas as mulheres conhecem é que certamente terão mudado. E muito.

Por que razão é que só agora as questões do assédio sexual parecem ter-se tornado visíveis?

Não se tornaram visíveis só agora. Mas na verdade o grau de visibilidade acentuou-se muito com um certo renascer recente do feminismo. Simplificando, porque «feminismo» é tudo menos coisa simples ou unitária. Há múltiplas e muito diversas correntes que cabem nesta designação genérica. Sendo na verdade coisa antiga, o feminismo (ou os feminismos, talvez melhor dizendo) nem sempre se centrou na atenção à violência e ainda menos ao assédio sexual, que por vezes se fala, e bem, em outro(s), incluindo na legislação do trabalho, por exemplo. Quando John Stuart Mill denunciava no parlamento britânico a violência conjugal mortífera que se abatia sobre as mulheres, ou declarava solenemente que não exerceria sobre a sua mulher os poderes que a lei lhe concedia, caso Harriet Taylor aceitasse casar com ele, era uma voz solitária e rara. Não por acaso autor do magnífico ensaio «The Subjection of Women» (1869), Stuart Mill ainda é hoje – em meu entender – muito pouco conhecido nesta sua faceta, mesmo por parte dos teóricos da Ciência Política, quantas vezes distraídos, ou simplesmente ignorantes, em matéria de relações de género. A União Europeia começou a tentar publicitar e combater o problema do assédio nos locais de trabalho há muitos anos e encarregou um investigador, cujo nome não recordo com exactidão, Michael Rubinstein, creio, de andar pelos vários países da União Europeia antes de esta o ser, incluindo Portugal – passa-se no final dos anos 80, se não erro –, a explicar que o assédio existia (coisa que muitas mulheres, como as operárias, que ouvi pessoalmente depor nessas sessões, estavam fartas de saber). A afirmar sobretudo que era coisa ruim, não aceitável. Nós também sabíamos, mas por timidez, vergonha ou experiência de indiferença ou desconsideração de quem  pudesse ouvir, não tínhamos o hábito de nos queixar, muitas vezes nem de simplesmente contar.

Eu fui vítima, em jovem, quando andava muito pelas ruas, ou nos transportes públicos (metro, autocarros), de vários actos de atentado ao pudor (seria a designação oficial segundo a Lei Penal então vigente) e nunca apresentei queixa, nem sequer me ocorreu. Acontece que, com todas as variações no espaço e no tempo, as mulheres sempre foram educadas para a submissão e simultaneamente para a sedução ma non troppo, e os homens para o domínio e para verem as mulheres como propriedade sua, em casa, na cama ou na rua. E por isso, as agressões verbais ou físicas que quase todas as raparigas sofreram na rua ou no trabalho foram suportadas ou ignoradas, tantas vezes com vergonha das próprias, porque tudo apontava para a sua culpa, provocação. Até o Código Penal, em 1982, nas disposições sobre crime de violação, insinuava que a probabilidade era de provocação por parte da vítima, constituindo uma circunstância atenuante específica desse crime, um dos mais graves e humilhantes para qualquer mulher (ou homem, aliás), alterado em 1995. Aliás, a violação era, na versão originária do Código Penal da democracia, o tal que que toda a Assembleia da República considerou maravilhoso e excelente – excepto quanto ao aborto e não pagamento de salários, cuja regulação ou falta dela foram contestadas pelo Partido Comunista –, o furto qualificado (sem violência) era mais grave que a violação, ou seja, que ofensas corporais graves. Isto é, o furto de um relógio valioso era legalmente mais grave do que cortar o braço de quem o ostentava. Cortar, mesmo, arrancar, a vítima ficar sem o dito…

Fartei-me de refilar, por escrito e oralmente, mas só em 1995 o legislador percebeu, como quem faz uma grande descoberta, o rematado disparate, obviamente inconstitucional, que tinham feito uns bons anos antes… E os juízes, presumo, muito entretidos na sua elaborada dogmática tese (?), aprendida nas faculdades de direito, aparentemente não deram por nada anos a fio. Do assédio, o legislador nunca ouvira falar, não sabia o que era, nem fazia ideia, presumo. Acharia talvez que se tratava de amáveis galanteios que os homens faziam às mulheres e elas até gostavam. As raras e improváveis queixas ou os eventuais protestos viriam certamente de feministas assanhadas, por definição«“feias» (Mário Soares, in illo tempore) e invejosas da atenção de que as suas rivais eram objecto.

Quais são as condições sociais, políticas, educativas e jurídicas que podem erradicar práticas e comportamentos que considerem as mulheres uma espécie de propriedade do homem?

Uma revolução civilizacional, que faça reverter hábitos, convicções, teorias, tradições, costumes e leis de séculos, ou melhor, de milénios. Coisa simples, como se vê. Michelle Rosaldo, uma brilhante antropóloga, infelizmente morta num acidente de trabalho de campo, verificou que em todo o mundo havia uma enorme variação do que era considerado atributo masculino e feminino, mas que uma coisa era constante: a suposta superioridade de tudo o que estava associado ao masculino, isto é, ao homem.

Há uma série de sentenças em tribunais portugueses, umas mais antigas (a célebre coutada do macho latino) e umas mais recentes, que mostram um posicionamento bastante machista da justiça (por exemplo no livro Medusa no Palácio da Justiça ou Uma História da Violação Sexual, de Isabel Ventura.) Isso é verdade? Há algo que se deva mudar na lei, ou apenas na formação dos magistrados?

Não era a «coutada do macho latino», mas a «coutada do macho ibérico», se quer citar a expressão usada num Acórdão do Supremo Tribunal de JustiçaSTJ sobre um caso de violação de duas turistas jugoslavas que pediam boleia numa estrada do Algarve e foram vítimas de energúmenos locais. Tive então a paciência de discutir esse caso, e semelhantes, num programa de televisão que me granjeou o epíteto, de que muito me orgulho, de «Jurista Ás» por parte do saudoso Mário Castrim, no seu papel de observador e crítico televisivo. As raparigas seriam, naturalmente, culpadas da agressão brutal dos moços, coitadinhos, que não resistiram aos seus naturais e desculpáveis impulsos de machos de sangue quente, donos e senhores de qualquer fêmea que se aventurasse na sua… coutada.

Sempre me interroguei sobre o que pensariam suas excelências reverendíssimas, digo, meritíssimas, que assinaram tal dislate sob a forma de acórdão do nosso mais alto tribunal, dos seus próprios filhos e filhas, se acaso os tivessem. As leis portuguesas não estão mal de todo, mas podem e devem ser melhoradas em muitos aspectos, designadamente no cumprimento das obrigações assumidas quando da ratificação da Convenção de Istambul, de 2011. Em primeiro lugar, uma muito diferente da actual compreensão da dignidade e liberdade de todas as pessoas, seja qual for a cor, o sexo, o género, e por aí fora. Ainda estamos bem longe disso, que parece tão evidente como no belo e tão esquecido texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. Jean-Michel Folon, o genial artista belga que ilustrou uma das mais belas edições da DUDH, que conheço (1988, ed. Fondation Folon, Bruxelas), com apoio da Amnistia Internacional, escrevia: «Tout le monde en parle, personne ne la lit».

É altura de, a pretexto de aniversários redondos ou de qualquer outra coisa, relê-la e celebrá-la. E, sobretudo, de a levar a sério, e pô-la finalmente em prática.

Mas a formação dos magistrados é absolutamente essencial, porque já se tornou por demais evidente que ainda hoje há decisões judiciais absolutamente indignas de um país que se diz ser um Estado de direito democrático e tem uma Constituição da República correspondente, que aliás recebe expressamente no seu texto a Declaração Universal como ponto de referência interpretativo privilegiado em matéria de direitos liberdades e garantias.

Nos anos 60, as mulheres reivindicavam o seu direito a ter a sexualidade que entendiam. Actualmente, há uma luta contra o abuso sexual, sendo que uma reivindicação não é contraditória com a outra. Não se verifica, no entanto, em algumas franjas do movimento feminista, uma certa infantilização da mulher e de fazer dela sempre uma vítima? Não existe uma séria deriva em considerar que toda a relação heterossexual se faz num quadro de abuso estrutural?

Depende. Se com essa afirmação se quer dizer que as relações heterossexuais existem num contexto geral de um sistema que ainda hoje se pode descrever e caracterizar como patriarcado, então a afirmação é, obviamente, verdadeira. Tal como se afirmar que uma relação entre um branco e um negro nos EUA existe num contexto estrutural racista. Ou entre um capitalista e um operário num contexto geral de classismo, isto é, de diferenciação entre classes sociais (isto dito de forma simplista, claro, é necessário fazer análises muito mais finas, mas não é este o lugar). Como não reconhecer coisa tão óbvia!? Assunto diferente é o reconhecimento de que as relações individuais – no plano micro, se quiser – podem sempre escapar ao modelo hegemónico, em qualquer destes casos. Há quem o negue, pois claro. Também há quem recuse as vacinas e jure que a Terra é plana, ou que Darwin era doido, que Deus nos criou assim tal e qual, etc. Nem todos os relacionamentos amorosos (ou outros) entre um homem e uma mulher são necessariamente violentos e desiguais como, aliás, nem todos os casais do mesmo sexo são harmoniosos e livres de domínio ou violência. Só quem for muito distraído, ou pouco esclarecido sobre estas coisas, pensará que assim é. Digo eu, é claro, que não me imagino particularmente iluminada, mas ando a estudar e a pensar nisto tudo há muitos anos e tenho a veleidade de ter percebido algumas coisas.

Como conseguiremos criar condições para dar a palavra às mulheres que são vítimas de assédio sexual e ao mesmo tempo garantir a presunção de inocência dos acusados? Como é possível distinguir o quadro da denúncia de uma «cultura de violação» com o quadro individual das acusações concretas?

A palavra não se «dá» às mulheres. Nunca se deu, são as mulheres que a tomam para si, como sempre fizeram, em geral, com os direitos que lhes foram negados. Mesmo se em certos casos se pode falar numa espécie de feminismo de Estado num país, como Portugal, em que a relativa fraqueza dos movimentos feministas – dos movimentos sociais, em geral – se aliou ao centramento da Revolução de 1974 na questão política, no sentido mais estreito desta expressão, levando a que alguns avanços, na senda da igualdade de género (como hoje tendemos a dizer), se tenham dado de cima para baixo. O exemplo mais óbvio será certamente a Revisão do Código Civil, em 1977, aliás em obediência a um comando constitucional de igualdade e não discriminação, sobretudo nas áreas das leis da família e sucessões.

As questões do abuso sexual e do assédio são resolvidas por uma igualdade de poder entre homens e mulheres ou estão presas a comportamentos biológicos e sociais que exigem mais do que uma, ainda assim revolucionária, democratização do poder?

A «democratização do poder» é, como bem sabe, coisa complexa. Desde logo a expressão pode soar oximorónica, porque na democracia total não haveria poder de umas pessoas sobre as outras. Deixando de lado a discussão de possíveis utopias ou distopias, a verdadeira «igualdade de poder entre homens e mulheres» pressupõe que essa distinção deixe de fazer sentido, isto é, que as pessoas deixem de ser identificadas pelo seu sexo - ou mesmo género – como obviamente, para mim, é o caso da desacreditada raça. Não é pelo facto de o conceito científico de raça ter sido posto em causa pela ciência, e como tal abandonado com toda a sua lógica de superioridade e inferioridade, que floresceu com o colonialismo e o imperialismo e perdura em tantas sociedades e de tantas formas tão variadas e complexas que é impossível analisar aqui, que deixou de existir racismo, com a intrínseca racialização de grupos populacionais, como a ECRI (European Commission against Racism and Intolerance, do Conselho da Europa) passa a vida a lembrar nos seus Relatórios e Recomendações.

O problema é transversal a toda a sociedade ou tem pesos diferentes nos mais cultos e menos cultos, nos mais ricos e menos ricos, nos de esquerda ou de direita?

É certamente transversal, o que não significa que se manifeste sempre da mesma forma ou que não haja modos e maneiras mais típicos de meios sociais mais ou menos diferenciados, exactamente como muitos outros, senão todos, os fenómenos sociais.

Existem progressos nesta matéria e há razões para optimismo?

Progressos? Sim. O reconhecimento público e a sua regulação legal, retirando pelo menos alguma boa parte da legitimidade às indiscutidas ou quase práticas tradicionais. Se há razões para optimismo? Depende dos dias… Será melhor dizer: pensa como inteligente, céptico e realista, age e prega como cheio de esperança e optimismo. É que, como num plano mais geral de direitos e de democracia já se vem infelizmente tornando óbvio, nada é adquirido, nunca. Até os famosos «acquis», com que a União Europeia gosta de encher a boca e os discursos, se podem esfumar de um dia para o outro. Basta olhar para Leste e mesmo para outras bandas. Mas, como escrevia Manuel Laranjeira (por acaso um rapaz pessimista que se matou, como se sabe) em «Comigo»:

«Mas ouve, alma; p'ra viver
e ser feliz é preciso
fitar a menina e crer
como alguém que sem Juízo
olha p'rá terra e a vê
convertida em paraíso»

São estes os versos com que fechei a minha dissertação de Mestrado em Criminologia, na Universidade de Cambridge, há muitos anos. Era sobre outro assunto, A Lei Penal na Reforma Agrária em Portugal, mas as dúvidas sobre optimismo tinham alguma semelhança.

Alternativa? Ir com outro Manuel, o Bandeira, para Pasárgada. «Lá moro na casa do Rei…».

https://www.abrilabril.pt/nacional/teresa-beleza-ha-decisoes-judiciais-indignas-de-um-pais-democratico

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Manuel Alegre - Portugal resiste

 * Manuel Alegre

Tiraste-me o direito à vida , mas eu vivo
   Mandaste-me prender, mas eu sou livre
   Que não pode morrer, não pode ser cativo
   Quem pela Pátria morre, e só por ela vive.

   Vi os campos florir mas não ouvi
   Raparigas cantando em nossas eiras
   Nossos frutos eu vi levar e vi
   Na minha Pátria as garras estrangeiras

   Vi os velhos e os meninos assentados
   nos degraus da tristeza vi meu povo cismando
   vi os campos desertos, vi partir soldados
   sobre o meu povo negros corvos vi pairando

   E tu que do pais fizeste a triste cela
   Tu que te fechas em teu próprio cativeiro
   Tu saberás que a Pátria não se vende
   E em cada peito em cada olhar se acende
   Este fogo este vento de lutar por Ela.

   Tu saberás que o vento não se prende.

   E não terás nas tuas mãos de carcereiro
   O sol que mora nas canções que nós cantamos
   Nem estas uvas penduradas nas palavras
   Tu que servis as pretendeste ou escravas

   Em silêncios de morte e de convento
   Tu ouvirás na língua que traíste
   Palavras como o fogo como o vento
   Estas palavras com que Portugal resiste

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Sérgio Godinho - Cantiga para pedir dois tostões

* Sérgio Godinho

Nos carris
Vão dois comboios parados
Foste longe e regressaste
Trazes fatos bem cuidados
E já pensas
Em dourar o teu portão
Se és senhor de dez ou vinte
És criado de um milhão
Regressaste
Com um dedo em cada anel
E projectos num papel
E amigos esquecidos
Tempos idos
São tempos que voltarão
Em que pedirás ao chão
Os banquetes prometidos
Milionário que voltaste
Dois tostões p'rós que atraiçoaste
Fazes pontes
Sobre rios e valados
Mas quando o cimento seca
Já morremos afogados
Fazes fontes
No silêncio das aldeias
E a sede é tal que bebemos
Até ter água nas veias
Instituíste
Guarda-sóis e manda-chuvas
Lambe-botas, beija-luvas
Pedras-moles e águas-duras
Inauguras
Monumentos ao passado
Que está morto e enterrado
Entre naus e armaduras
Milionário que voltaste
Dois tostões p'rós que atraiçoaste
Quanto a nós
Nós cantores da palidez
Nosso canto nunca fez
Filhos sãos a uma mulher
Nem sequer
Passa mel nos nossos ramos
Pois a abelha que cantamos
Será mosca até morrer
Milionário que voltaste
Dois tostões p'rós que atraiçoaste

 
Compositores: Sergio De Barros Godinho / Jose Mario Monteiro Branco

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

José Mário Branco- Ronda do Soldadinho

* José Mário Branco
 
1.
Um e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não era
Como era
O soldadinho
 
Um menino lindo
Que nasceu
Num roseiral
O menino lindo
Não nasceu
P'ra fazer mal
 
Menino cresceu
Já foi à escola
De sacola
Um e dois e três
Já sabe ler
Sabe contar
 
Menino cresceu
Já aprendeu
A trabalhar
Vai gado guardar
Já vai lavrar
E semear
 
2.
Um e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não era
Como era
O soldadinho
 
Menino cresceu
Mas não colheu
De semear
Os senhores da terra
O mandam p'rà guerra
Morrer ou matar
 
Os senhores da guerra
Não matam
Mandam matar
Os senhores da guerra
Não morrem
Mandam morrer
 
A guerra é p'ra quem
Nunca aprendeu
A semear
É p'ra quem só quer
Mandar matar
Para roubar
 
3.
Um e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não era
Como era
O soldadinho
 
Dancemos meninos
A roda
No roseiral
Que os meninos lindos
Não nascem
P'ra fazer mal
 
Soldadinho lindo
Era o rei
Da nossa terra
Fugiu para França
P'ra não ir
Morrer na guerra
 
Soldadinho lindo
Era o rei
Da nossa terra
Fugiu para França
P'ra não ir
Matar na guerra
 
In: José Mário Branco (1969),  A Ronda do Soldadinho 

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Ana Paula Dourado - A ausência das cidades, da paisagem e do território nos debates autárquicos

 

OPINIÃO

A ausência das cidades, da paisagem e do território nos debates autárquicos

Ana Paula Dourado 

Professora da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa


Não é claro a quem os debates se dirigem. Aos eleitores em eleições autárquicas não será. Não é aceitável que os debates instrumentalizem as eleições autárquicas. Eles estão nos antípodas das discussões contemporâneas sobre as cidades inteligentes ou as cidades dos quinze minutos


13 SETEMBRO 2021 13:13


A ideia de cidade e de território adjacente, seja campo, paisagem ou natureza, transmitida nos debates televisivos sobre as autárquicas é muito pobre, insuficiente, fica muito aquém dos desejos e necessidades contemporâneos. As cidades que nos oferecem são tudo o que uma cidade não deve ser.


Nos debates, as grandes cidades em que vivemos ou trabalhamos são prisões ou postais turísticos onde só importa ter acesso a uma qualquer habitação, subsidiada de preferência, e transporte para o emprego. As cidades nas perguntas dos jornalistas e nas respostas dos candidatos são locais para dormir ou chegar e partir, ao serviço do trabalho e do consumo. Cidades fonte de escravatura, isentas de estímulos sensoriais, criativos e de socialização para a maior parte dos que aí trabalham. Cidades desligadas do restante território, umas vezes com espaço e tempo definidos, dotadas de início e fim, outras vezes, cidades contínuas, mas sempre amorfas.


Os debates fazem também lembrar algumas das Cidades Invisíveis mas não vivas, de Italo Calvino: Trude, Maurília, Zora(1972). Lisboa e Porto, apesar de tão diferentes entre si, correspondem, no discurso dos candidatos, à Trude de Calvino. Quem os ouve e não os conheça, não sabe se os candidatos estão a falar de Lisboa ou do Porto, nas suas bocas tornam-se cidades uniformes, não-lugares, com iguais letreiros, setas, alamedas, montras, sem tempo ou história para viver e criar, iguais a todas as outras, como Trude. Já as Praças do Município de Lisboa e do Porto, filmadas para os debates, são Maurílias, embelezadas para os turistas as visitarem aqui e agora, desfrutarem do presente, mas gabando a memória dos velhos edifícios. E estas Lisboa e Porto para turistas são também asZoras, artificiais, partituras musicais que estagnam até desaparecerem um dia.


A especulação imobiliária é sem dúvida o problema mais relevante nas grandes cidades europeias, de entre as quais, Lisboa e Porto. A habitação é a primeira condição para manter vivas as cidades portuguesa. E não há dúvida que o transporte está relacionado com as metas climáticas, de mobilidade e de conforto. Mas habitação e transporte, assim apresentados, sem debate sobre a vida e a qualidade de vida, são insuficientes para um conceito de cidade do século XXI. Não são essas as cidades que desejamos e merecemos, independentemente da nossa profissão.


Se os participantes no debate lessem Calvino, saberiam que o assalariado Marcovaldo, há sessenta anos (As Estações na Cidade, 1963), procurava incessantemente a liberdade na cidade, a presença da natureza na cidade, a complementaridade entre ambas através de sinais ou do ecrã gigante do cinema, idealizava e incutia essa idealização aos filhos.


Estamos em 2021, mais ou menos afetados pelos confinamentos sucessivos e cercas sanitárias. E todavia, para efeitos dos debates televisivos e dos programas autárquicos, esta pandemia foi a última e os constrangimentos vividos não se repetirão. O risco de escassez de bens que vivemos, como evitá-la no futuro, o papel da paisagem rural, não são mencionados; não se discute a produção local ou o compre local; ou a cidade dos 15 minutos. Não fazem parte do debate as cidades sem acesso ao campo e à paisagem limítrofe, por terem sido destruídos e excluídos, como se a cidade não os contemplasse e muito menos dependesse deles. E como se as eleições autárquicas não os abrangessem.


Tudo se passa como se o despovoamento ou as aglomerações urbanas, os incêndios, as inundações e a falta de água, a betonização das margens dos rios, o tratamento e tipo de ocupação dos leitos de água, as construções, o tipo de agricultura e a desertificação não fossem um problema de organização das autarquias.


Não é claro a quem os debates se dirigem. Aos eleitores em eleições autárquicas não será. Não é aceitável que os debates instrumentalizem as eleições autárquicas. Eles estão nos antípodas das discussões contemporâneas sobre as cidades inteligentes ou as cidades dos quinze minutos. Songdo, cidade inteligente construída de raiz em Singapura, onde tudo foi pensado: a eliminação do desperdício, a reciclagem automatizada sem sair de casa, máximo conforto aos seus habitantes, hortas incluídas na paisagem. E todavia, cidade invisível, sem gente, cidade morta. Paris, megacidade a ser transformada em múltiplos bairros, tudo ao alcance de quinze minutos, cidade visível.


Numa antologia sobre a Filosofia da Paisagem (2013), Adriana Veríssimo Serrão explica que as paisagens não são quadros de uma exposição, não são cortinas, não devem ser iguais a todas, são fatores de identidade para as suas populações: a ética da paisagem exige o respeito pelos seus aspetos físicos, morfológicos, culturais, históricos.


O mesmo é verdade para as cidades. Cidades estimulando os nossos sentidos e a imaginação, conservadas e pensadas para quem nelas trabalha e habita, inseridas na paisagem e relacionadas com ela e com a natureza, num contínuo. Paisagem e cidade. Gonçalo Ribeiro Telles explicou-nos isto tudo há muitas décadas, a ideia de paisagem global, ainda não tinham começado as catástrofes naturais aqui e lá fora. As suas ideias devem ser estudadas, explicadas, debatidas, contraditadas. Seriamente.


https://expresso.pt/opiniao/2021-09-13-A-ausencia-das-cidades-da-paisagem-e-do-territorio-nos-debates-autarquicos-44984c6b

domingo, 5 de setembro de 2021

António Gedeão - Poema para Galileu


Galileu - retrato na Galeria dos Ofícios de Florença

 * António Gedeão

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,

aquele teu retrato que toda a gente conhece,

em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce

sobre um modesto cabeção de pano.


Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.

(Não, não, Galileu! Eu não disse Santo Ofício.

Disse Galeria dos Ofícios).


Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras-te?

A ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…

Eu sei… Eu sei…

As margens doces do Arno

às horas pardas da melancolia.

Ai que saudade, Galileu Galilei!


Olha. Sabes? Lá em Florença

está guardado um dedo da tua mão direita

num relicário.

Palavra de honra que está!

As voltas que o mundo dá!

Se calhar até há gente que pensa

que entraste no calendário.


Eu queria agradecer-te, Galileu,

a inteligência das coisas que me deste.

Eu,

e quantos milhões de homens como eu

a quem tu esclareceste,

ia jurar

(que disparate, Galileu!)

- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça

sem a menor hesitação -

que os corpos caem tanto mais depressa

quanto mais pesados são.

 

Pois não é evidente, Galileu?

Quem acredita que um penedo caia

com a mesma rapidez que um botão de camisa

ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.


Estava agora a lembrar-me, Galileu,

daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo

e tinhas à tua frente

um friso de homens doutos,

hirtos,

de toga e de capelo

a olharem-te severamente.


Estavam todos a ralhar contigo,

que parecia impossível

que um homem da tua idade

e da tua condição,

se estivesse tornando num perigo

para a Humanidade

e para a civilização.


Tu, embaraçado e comprometido,

em silêncio mordiscavas os lábios,

e percorrias, cheio de piedade,

os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites

e das estrelas,

desceram lá das suas alturas

e poisaram, como aves aturdidas

(parece-me que estou a vê-las),

nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.

 

E tu foste dizendo a tudo que sim,

que sim senhor,

que era tudo tal qual

conforme suas eminências desejavam,

e dirias que o Sol era quadrado

e a Lua pentagonal

e que os astros bailavam e entoavam

à meia-noite

louvores à harmonia universal.


E juraste que nunca mais repetirias

nem a ti mesmo,

na própria intimidade do teu pensamento,

(livre e calma),

aquelas abomináveis heresias

que ensinavas e escrevias

para eterna perdição da tua alma.


Ai, Galileu!

Mal sabiam os teus doutos juízes,

grandes senhores deste pequeno mundo,

que assim mesmo,

empertigados nos seus cadeirões de braços,

andavam a correr e a rolar pelos espaços

à razão de trinta quilómetros por segundo.


Tu é que sabias, Galileu Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos,

por isso era teu coração cheio de piedade,

piedade pelos homens que não precisam de sofrer,

homens ditosos

a quem Deus dispensou de buscar a verdade.


Por isso, estoicamente,

mansamente,

resististe a todas as torturas,

a todas as angústias,

a todos os contratempos,

enquanto eles,

do alto inacessível das suas alturas,

foram caindo,

caindo,

caindo,

caindo

caindo sempre,

e sempre,

ininterruptamente,

na razão directa dos quadrados dos tempos.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Carlos Esperança - O Hissope – Conto (10.000 carateres)

* C. B. Esperança

Corria tranquila a vida no convento, cumprido o tempo com orações e refeições frugais a horas certas. Da missa diária encarregava-se o Padre Agostinho, confessor e diretor espiritual, com descrições do Inferno, pormenorizadas e convincentes, e de horrores ainda maiores do Mundo, criado por Deus e abandonado nas mãos dos homens. Falava de um ror de pecados inenarráveis que faziam zangar muito Nosso Senhor, cabendo às monjas recuperar-lhe o humor pela oração e sofrimento.


Nas longas horas de meditação, nas rezas coletivas ou individuais, davam graças por não partilharem esse espaço que o Diretor Espiritual e a Madre Superiora eram únicos a transpor, protegidos pelas orações aflitas com que o convento inteiro os acompanhava.

Nessas horas de vigília mística transferiam a intenção habitual para a proteção dedicada e rezavam com a mesma acendrada devoção com que pediam pelas intenções do Santo Padre, sem se interrogarem quais eram essas intenções, pelo cumprimento da vontade divina, se é que depois de tantos anos de Mundo ainda há vontade que resista, mas isto são pensamentos ímpios, reflexões de quem julga inútil a vida monástica e considera a oração mera ociosidade, sem lhe atribuir a eficácia e bondade sublinhadas por milagres que crentes de todas as religiões confirmam.

Agostinho, tal como o santo de quem tomara o nome, possuía a mesma vontade e determinação de ser casto, esperando também que a idade lhe apaziguasse os desejos. Nutria igual desprezo pelas mulheres que lhe incendiavam os sentidos, tinha a mesma certeza de que eram uma encarnação do diabo, cujo cabelo e voz eram obscenos, inteligente reparo do santo, verdadeiras fontes de pecado que só a oração e o sofrimento podiam evitar. Talvez por isso era tão apreciado pelo prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, de quem tinha o privilégio de receber bênçãos especiais por altura das festividades canónicas.

Às vezes, enquanto administrava a sagrada partícula, adivinhava os corpos que os hábitos escondiam, os desejos que as orações atenuavam, e atormentavam-no pensamentos pecaminosos de que os jejuns e a oração o libertavam. Mas era durante a confissão, onde, por dever do múnus, perscrutava até ao mais íntimo da alma, que a efervescência o apoquentava, sabendo bem que a culpa cabia às filhas de Eva que ali se genufletiam carregando o desejo que os seus conselhos e as regras monásticas reprimiam para maior glória divina.

O Padre Agostinho já durante as confissões da Irmã Maria Imaculada tinha indagado dos pecados cometidos, ao menos por pensamentos e, perante o total desinteresse da penitente pelos ditos pecados, a tinha advertido para estar vigilante, que Satanás manifestava particular predileção pelos pensamentos, janela de oportunidade para tresmalhar a alma de uma devota, mesmo, ou sobretudo, sendo freira e estando particularmente devotada à castidade. De resto, o convento não era refúgio seguro das arremetidas do demo, antes pelo contrário. Ele próprio era testemunha, com o sangue a ferver-lhe perante o louvável desinteresse de Imaculada pela luxúria. E tudo isto apesar de o convento albergar uma relíquia tão rara e cobiçada pelos outros mosteiros – uma pena do Arcanjo Gabriel, muito bem conservada num relicário de ouro cinzelado e com pedras incrustadas, proteção infalível à honra do convento.

A Irmã Maria Imaculada do Sagrado Coração de Jesus Santíssimo, ou Irmã Maria Imaculada, ou Imaculada, simplesmente, deixados cair os apelidos e reduzida a um só nome dos que no ato de professar serviram para sepultar os profanos, rezava abundantemente. Sob os olhos indiferentes de um Cristo cansado das orações e da cruz dependurada num prego periclitante entalado na ranhura dos blocos de granito, rezava diariamente o terço, absorta e genufletida, sem pressa de concluir o rosário que a Virgem recomendara à Irmã Lúcia, em Fátima, para conversão da Rússia e salvação do mundo.

Uma tarde, igual a tantas outras, Imaculada, enquanto rezava, através dum ligeiro vaivém da porta sem trinco, apercebeu-se da sombra que penetrara a cela, de uns braços potentes que a agarraram por trás, da mão que lhe esmagou os lábios, dum corpo que se colava ao seu enquanto outra lhe percorria o hábito e lhe devassava a orografia do corpo esquecido.

Debateu-se em silêncio, esquecida a voz de que já se desabituara, incharam-lhe os olhos, acudiu-lhe o sangue à face, quando descobriu na estranha criatura que a enlaçava a figura do padre confessor que, num ápice, lhe despia apressadamente o hábito a caminho da satisfação das necessidades próprias sem cuidar das alheias. Despojada do hábito e reduzida ao mínimo vestuário, precária resistência à lascívia reprimida, em estado de estupor, suportou a arremetida. Apercebeu-se do corpo a ser derrubado sobre o leito, sentiu a arremetida ignóbil, a violência gratuita, a sanha animal, como quem aceita a penitência, como quem se resigna ao isolamento, ao silêncio e à oração, com o mesmo desprendimento da vida sem sentido, que é fardo virado desejo, que é morte de que se faz a vida monástica, que é renúncia a pretexto da salvação.

Debateu-se primeiro, sim, mas quedou-se depois, desinteressada, com uma dor intensa a penetrá-la, ferro em brasa a percorrer-lhe as entranhas, imobilizada por uma força imensa – como se pudesse fugir, primeiro, ou o quisesse tentar, depois. O ódio que a clausura sublimara foi o sentimento primeiro, logo seguido da indiferença que os movimentos alheios poderiam ter conquistado para a cumplicidade.

Não teve tempo. Pela primeira vez o olhar se detivera no teto da cela para voltar à enxerga onde jaziam fluidos cujo sangue não podia provir das chagas do Cristo metálico e indiferente, imobilizado na cruz da parede.

Na violação da freira pôs o padre a mesma violência perversa do proselitismo. Desta feita não foi a fé que procurou impor, apenas buscou aliviar o cio.

Na metamorfose do êxtase esqueceu a alma cujo destino incerto e distante não interfere na pacificação espiritual que os corpos conquistam na tumultuosa explosão dos sentidos. Mas ali não houve arrebatamento, apenas conquista e saque de um corpo devastado, espada enterrada em bainha que a fúria abriu e devassou, um corpo esmagando a alma de outro na pressa de servir-se.

O abuso sexual foi o resultado das pulsões primárias de um indivíduo anacrónico, que não fizera a catarse da violência.

Agora até o místico tugúrio de anacoreta tinha virado palco de profanas fantasias que o carácter confessional dos parceiros transformara em incestuosas investigações eróticas da geografia de um corpo flagelado. O êxtase parece tanto mais sublime quanto maior tiverem sido a dor, a abstinência, o desejo e o recalcamento. Faltou, na circunstância, o tempo, a sabedoria e a sedução. Não foi a mulher que o sevandija procurou, mas o vaso em que se aliviou.

A SIDA, o medo que lhe infundia, foi o pretexto que a si próprio o padre ofereceu para buscar na freira o consolo cujas consequências temia nas rameiras, a violação o prémio que se atribuiu pelos longos meses de castidade sofrida. Ao menos não adicionou à fraqueza da carne o pecado suplementar do preservativo. Desagradara igualmente a Deus, mas não ofendera tanto o Santo Padre.

Apaziguados os desejos, libertos os humores, a freira, que pensou arrancar a lâmina que a rasgou, acabou guardando entre as mãos a arma que a ofendera, inútil, pegajosa, mole, onde adivinhava um hissope fundido pelo vigor da aspersão. E nem sentia sequer revolta, medo ou vergonha. Começava a deixar-se percorrer por uma estranha sensação de prazer igual à flagelação, parecida com a do cilício, e sem dor, sem sofrimento, sem necessidade de se imobilizar. Ousou mesmo uma discreta massagem como se de uma relíquia se tratasse, relicário igual, quem sabe, a outro muito jovem de onde foi extraído o santo prepúcio.

Deixou vaguear os olhos pelo próprio corpo que há muito não via, pousou-os no outro corpo de que sempre afastara os pensamentos, deteve-se nas diferenças de ambos e pensou que tudo poderia ter acontecido sem violência, devagar, como quem reza, com gestos ritmados como se batesse no peito em ato de contrição, mas o ímpeto que a magoou foi talvez o tributo indispensável à tranquilidade que agora sentia. Quem sabe se não devia ao tumulto o prazer que experimentava!

Não era violenta a clausura que extasiava? Não embriagavam os jejuns? Não fazia a dor dos cilícios percorrer o corpo, todo o corpo, de um doce calor de inebriante felicidade?

A dor que inicialmente sentira, a humilhação que sofrera, a vergonha que a prostrara, foram a fonte de onde começou a jorrar uma ponta de felicidade. Estranhos caminhos da natureza, complicadas formas de ventura, a escrava conformada a procurar o caminho do perdão.

Continuou a segurar a arma que a trespassara, tomava-lhe o peso, acariciava-a e sentiu que a coisa mole ganhava dureza, assumia forma, tomava cor. Sentiu-se confusa, fechou os olhos, deixou-se escorregar para o chão e aguardou. Outra vez a dor e o fogo a percorrerem-lhe as entranhas, agora já sem violência, um corpo sobreposto em movimentos ritmados, a dor a esbater-se, o próprio corpo a ensaiar o acompanhamento do outro, uma indizível felicidade a percorrê-la, uma sensação idêntica à da libertação do cilício, sem pensar em intenções do Papa, contrações incontroladas, prazer a jorros, um êxtase sublime, como se naquele momento, sozinha, tivesse libertado o mundo de todos os pecados.

Perdeu a noção do tempo. Ao ver o seu Diretor Espiritual abandonar a cela sem uma explicação, sem uma palavra, confusa, esmagada, teve ainda forças para lhe sussurrar: venha mais vezes, volte...

Na manhã seguinte seguiu com o costumado interesse a santa missa que o mesmo padre celebrava. Sentia os olhos dele cravados em si e, à força do hábito, continuou a olhar o chão. Doía-lhe o corpo cansado de todos os esforços da véspera acrescidos com a dificuldade de disfarçar da cela os sinais de sangue e outros fluidos.

Na confusão do cérebro todos os movimentos eram agora, não para glorificar Deus e o seu divino nome, mas gestos de estimulante lubricidade. Mesmo o turíbulo, no seu vaivém, lembrava-lhe o corpo cujos movimentos esmagaram o seu, mais lentos, é certo, e, talvez por isso, Imaculada sentia percorrê-la uma estranha sensação de felicidade e um calor deslumbrante que a transportava ao êxtase. Lembrou-se das descrições de Santa Teresa e sentiu em si as mesmas emoções, a mesma onda de felicidade que a inundava, duvidosa de ser ou não ser o Divino Mestre que a percorria nas fantasias bem humanas que haviam despertado de forma incontrolável.

Enquanto o oficiante celebrava não eram já as palavras pronunciadas que lhe ouvia, mas a língua que as articulava que sentia. Os conselhos de sempre traziam apenas o bafo quente que lhe envolvia o pescoço. A bênção que lançava devolvia-lhe os dedos que a descobriram.

Imaculada sentia-se transportada ao céu por que tanto tinha implorado. Rezava agora com paixão, sem intenções prévias, cada vez mais convicta de que esse dia traria de novo a visita privada do confessor que talvez passasse a confessado.

E assim foi. A cela deixou de ser o espaço de reflexão sem sentido para se converter na antecâmara do desejo. Perdeu o ar frio e funesto para ganhar a dimensão dum ninho fofo e proporcionar a visão de uma centelha do paraíso.

À mesma hora do dia anterior, a preceder as vésperas, Imaculada viu claramente que não era uma sombra que penetrara a cela. Era o homem que esperava. O ascetismo místico tinha ganhado uma nova dimensão e ia ser temperado pela explosão simultânea dos fluidos em reparadores espasmos fruídos sofregamente, sobre o catre, ou no chão, no exíguo espaço de uma cela.

E não mais pediu ao Padre Agostinho para voltar. Dia após dia o hissope vinha mergulhar suavemente na caldeirinha para aspergi-la vigorosamente no momento certo, enquanto ambos, à medida que exultavam com as delícias da alcova, se foram esquecendo do martírio do seu Deus.

In Pedras Soltas (ed. 2006) – ortografia atualizada

Ponte Europa / Sorumbático

AFIXADO POR: CARLOS MEDINA RIBEIRO ÀS 10:38

http://sorumbatico.blogspot.com/2021/09/o-hissope-conto-10000-carateres.html