sexta-feira, 18 de novembro de 2022

Um trecho de "Memorial do Convento", de José Saramago

* José Saramago

"D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar  infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. 

Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade  não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão  vai na praça.

Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda azão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há-de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por emana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem  a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total, depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homemque ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria

Ana. Mas Deus é grande."

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Rota Memorial do Convento: de Lisboa a Mafra, seguimos Sete-Sóis


Passeios

Rota Memorial do Convento: de Lisboa a Mafra, seguimos Sete-Sóis

A Rota Memorial do Convento leva-nos por lugares da obra de Saramago e monumentos do século XVIII, numa viagem que tem tanto de literatura quanto de património histórico-cultural.

Mara Gonçalves e

Daniel Rocha

12 de Junho de 2021, 8:01

 

Numa taberna ao lado da Casa dos Diamantes, nome pelo qual também é conhecida a Casa dos Bicos, hoje sede da Fundação José Saramago, Baltasar Sete-Sóis “comprou três sardinhas assadas, que sobre a indispensável fatia do pão, soprando e mordiscando, comeu enquanto caminhava em direcção ao Terreiro do Paço”.

É ali, no Campo das Cebolas e da oliveira onde pousam as cinzas do escritor, então mercado da Ribeira Velha, em frente à Casa dos Bicos, onde “as vendedeiras gritavam desbocadamente aos compradores”, sacudindo braceletes, fios, cruzes, berloques e cordões, “tudo de bom ouro brasileiro”, que desembarca em Lisboa o protagonista do Memorial do Convento e arranca a nova rota dedicada à obra de José Saramago.

Não fosse a pandemia, estariam agora os aromas na grelha a invadir o bairro-alma dos arraiais dos Santos Populares. Mantêm-se as sardinhas na oferta de algum restaurante, que começa a ser tempo delas, e sendo assim é possível seguir Sete-Sóis nos passos e no petisco até ao Terreiro do Paço, segunda paragem no roteiro, onde arranca a obra do escritor português, narrando a união entre o rei D. João V e a rainha D. Maria Ana Josefa, e palco de uma das histórias mais emblemáticas do livro, a do padre Bartolomeu e da sua passarola.

De seguida, suba-se ao Rossio para recordar o primeiro encontro de Baltasar e Blimunda, lado a lado no auto-de-fé onde a mãe da protagonista é condenada por feitiçaria pela Inquisição. “E Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis.

De Lisboa a Mafra

A nova rota, projecto iniciado em 2017 e agora lançado oficialmente, parte do romance publicado em 1982 pelo prémio Nobel da Literatura para criar um roteiro turístico que nos leva da Casa dos Bicos até ao Largo da Igreja de Cheleiros, num percurso com cerca de 58 quilómetros, atravessando os concelhos de Lisboa, Loures e Mafra. Iniciativa conjunta das três autarquias, nasce em parceria com a Fundação José Saramago.

“Trata-se de uma rota eminentemente literária, no sentido em que nasce de um livro, mas é uma rota que tenta abranger também outras componentes da cultura num sentido mais lato, sejam o património arquitectónico, religioso, a gastronomia...”, aponta Sérgio Letria, director da fundação, entidade que, desde a assinatura de um protocolo com as autarquias em Novembro do ano passado, assume a comunicação e a organização das actividades de divulgação da rota.

Para 2021, em datas ainda a anunciar, estão agendadas três visitas guiadas temáticas e três visitas mais gerais, uma por concelho. No entanto, através do site do projecto, do folheto informativo e dos painéis colocados em cada um dos pontos assinalados no mapa, é possível (re)descobrir obra literária, monumentos e paisagem de forma autónoma. Basta desempoeirar o livro e pôr pés ao caminho.

Por aqui navegaram reis, tijolos e estátuas

Chegados ao concelho de Loures, afastamo-nos do livro para nos concentrarmos na História. Não existe qualquer menção ao rio Trancão na obra de Saramago, mas sabe-se ter sido por aqui que foram transportados muitos dos materiais, estátuas e sinos que constituem hoje o Palácio-Convento de Mafra, monumento cuja construção dá corpo à narrativa do romance.

No século XVIII, a foz plácida que agora vemos desaguar no Tejo era “muito profunda e, por vezes, agitada”, ao ponto de impedir a travessia das barcas de uma margem para outra. “Era conhecido como o mar de Sacavém”, contam Florbela Estêvão e Paula Pitacas, da autarquia de Loures. Numa época em que o transporte fluvial era ainda o mais utilizado, havia até “uma carreira de barcos” que, duas vezes por dia, ligava Lisboa e Santo Antão do Tojal, do Trancão ao Tejo, e vice-versa.

É difícil acreditar, olhando o fio de água que corre entre as areias lamacentas, que aqui existiriam vários cais e toda a espécie de embarcações, das barcas de passagem às da pesca, passando pelo transporte fluvial de mercadorias, incluindo sal, as hortaliças das explorações agrícolas que ficam logo ali e, grão a grão, boa parte do colosso de Mafra, mais os homens que o ergueram e o rei que o mandou construir.

“O que pretendemos aqui foi valorizar a importância do Trancão no contexto da obra literária e de todo o território que envolvia a cidade de Lisboa no século XVIII”, aponta Florbela Estêvão. Daqui, e de cada um dos pontos assinalados na rota, nasce também “uma proposta de lugares a visitar” na área circundante, desmultiplicando o itinerário por tantos outros, consoante o interesse de cada um.

Em Loures sugerem-se, por exemplo, os dois centros interpretativos mais intimamente ligados ao tema: um dedicado ao contexto histórico-cultural da região no século XVIII, no museu municipal, e outro sobre alguns dos lugares relacionados com a obra de Saramago e a edificação do palácio-convento, na biblioteca municipal. Mas também igrejas, o museu de cerâmica ou o forte de Sacavém, entre outros.

A bênção dos sinos

Uma vez no Trancão, as embarcações subiam o rio até Santo Antão do Tojal, onde materiais e homens eram desembarcados para seguir caminho por estradas reais até Mafra. Na verdade, o leito do rio passa ao largo da povoação vizinha, mas el-rei mandou criar “um canal aberto a braço”, escreve Saramago, para desaguar mais próximo do Palácio dos Arcebispos a comitiva real, as estátuas italianas que veremos à entrada da basílica (e que, no livro, o escritor põe a conversar umas com as outras), ou os 119 sinos, há-de contá-los Filomena Santos já nos telhados do palácio-convento, que aqui foram abençoados, montada uma barraca real para o efeito e ao longo de várias cerimónias solenes, com presença de D. João V e sua corte.

Isto porque, elevada a diocese de Lisboa a patriarcado, Tomás de Almeida, primeiro patriarca de Lisboa, segunda figura do reino, “vai promover um conjunto de obras” para tornar a residência de Verão do arcebispado, em Santo Antão do Tojal, num “espaço nobre e de acordo com o seu estatuto social, económico e político”, conta Florbela Estêvão, em plena praça.

Desenhada pelo arquitecto italiano António Cannaveri, destaca-se a carga cenográfica da monumentalidade do largo e dos edifícios de pompa barroca, cercados de casario rasteiro e terrenos agrícolas. No meio rural, “recria-se o meio urbano”, uma “Praça do Comércio em escala contida e reduzida ao local”. Lá ao fundo, a fonte-palácio e, atrás, o aqueduto. Ao nosso lado, a igreja, ampliada por Tomás de Almeida, e o Palácio dos Arcebispos, requalificado com painéis de azulejos notáveis em todas as salas, uma escadaria de aparato onde reluzem de amarelo-dourado as vestes das três figuras de convite, e outros pormenores característicos do período barroco.

A propriedade continua a pertencer ao Patriarcado de Lisboa, mas é gerida pela Casa do Gaiato. “Em tempos, os miúdos ficavam dentro do palácio. Há fotografias das salas com camas, eram as camaratas.” Actualmente, a instituição aluga a utilização dos espaços para eventos privados (casamentos, por exemplo), como fonte de rendimento. No entanto, é possível visitar os jardins de alamedas simétricas, tanques e pombais adornados a azulejos, assim como as salas do palácio através de marcação prévia com a autarquia de Loures.

É aqui que nos reencontramos com o Memorial do Convento e Baltasar Sete-Sóis, “boieiro de uma das juntas que vão puxando S. João de Deus, único santo português da confraria desembarcada da Itália em Santo António do Tojal e que vai, como quase tudo de que se fala nesta história, a caminho de Mafra”.

Mafra, a obra

Por outras estradas, mais suaves e quase sempre cortadas a direito, no conforto do autocarro e de estômago refastelado no Solar dos Pintor, na Manjoeira, também nós seguimos para Mafra, tentando imaginar aquelas “dezoito estátuas em dezoito carros, juntas de bois à proporção, homens às cordas na conta do já sabido” e Sete-Sóis a braços lá metido, numa caravana de trabalhos que só não se compara à da “pedra de Benedictione”, quem estudou a obra de Saramago dificilmente esquece aquele que é um dos momentos-chave de Memorial do Convento.

Já a temos sobre as cabeças – para trás ficaram as tormentas descritas pelo escritor, oito dias completos para trazê-la de Pêro Pinheiro, com duzentas juntas de bois e 600 homens –, parece pequena a alva laje de mármore vista cá de baixo, cinco metros por três, com uma racha que vai até ao capitel. É a base da varanda da janela central da Sala da Bênção virada ao terreiro, onde o rei podia aparecer “a saudar o povo, com um cenário de igreja por trás, como se ele próprio fosse o Papa em São Pedro do Vaticano”, aponta Filomena Santos, do serviço educativo do Palácio-Convento de Mafra. “O convento fica do lado de trás, mas como o palácio também ocupa todo o último piso, ficando sobre o convento, simbolicamente temos o poder do rei sobre o poder da igreja.”

Desde o torreão norte, apartamento do rei, ao torreão sul, apartamento da rainha, vão 232 metros – medida da “distância da intimidade no século XVIII quando falamos da família real”, atira Filomena. “Saramago dá ênfase a isso, fazendo o paralelo entre a família real e a família do povo, colocando-se, obviamente, sempre do lado do povo, porque a grande opção dele é elogiar quem faz, quem constrói”.

Para se erguer o monumento, classificado como Património Mundial pela UNESCO em 2019, chegaram “a trabalhar em Mafra e para Mafra” cerca de 45 mil operários e sete mil soldados, desde a colocação da primeira pedra, em 1717. De convento para 13 frades, D. João V decidiu subir para 40, depois 80 e, por fim, 300 e, dois anos antes da bênção da Basílica de Mafra, avança ainda que também quer um palácio. “É o que faz o dinheiro do ouro do Brasil.” Os trabalhos na basílica já estavam tão avançados que fica-se em tamanho para 80 frades e é inaugurada em 1730, ainda sem cúpula nem as estátuas que agora admiramos à entrada, trazidas em caixas e cobertas de lã, “porque a palha mói e havia risco de se partirem”.

Quando o Memorial do Convento se tornou leitura obrigatória na disciplina de Português, o Palácio de Mafra “começou a trabalhar com as escolas” e a fazer visitas guiadas sobre a obra. “Antes de ter sido retirado e substituído pelo Ano da Morte de Ricardo Reis, acompanhámos à volta de 32 mil alunos e tivemos à volta de 30 mil a assistir ao espectáculo de teatro”, contabiliza Filomena.

Haveremos de entrar para espreitar a basílica, subir à enfermaria e cruzar as celas, somar salas e salas, subir junto da “caixa de música gigantesca” de um dos carrilhões até aos telhados, descer à biblioteca e à antiga zona conventual, hoje sede da Escola de Armas. E, com tudo somado, já não haverá tempo para mais paragens no roteiro. Para fazer tudo, seriam precisos dois dias, garantem-nos. Ficam fixadas as moradas das três igrejas por onde falta passar no concelho de Mafra, para um regresso: São Miguel de Alcainça, localidade onde, na obra, se encontram as estátuas com os noviços; Santo André de Mafra, muito perto de onde ficaria “a casa dos Sete-Sóis”; e a Igreja de Cheleiros, localidade onde, durante a travessia da pedra, “ficou um homem para enterrar” e “a carne de dois bois para comer”. Porque “o rei faz a promessa, mas quem a cumpre é o povo”, dizia Filomena há pouco. E o Memorial do Convento não os deixa esquecer.

Montemor-o-Novo, concelho onde se desenrola a maior parte da acção do livro de José Saramago "Levantado do Chão" DANIEL ROCHA

A obra de Saramago em rotas pelo país

Há “outras rotas literárias também a nascerem” da obra deixada pelo escritor português, aponta Sérgio Letria, presidente da Fundação José Saramago, junto à Casa dos Bicos, de onde parte este roteiro inspirado pelo romance Memorial do Convento.

Em Fevereiro do ano passado, foi inaugurado o roteiro literário Levantado do Chão, dedicado à obra homónima, desenhado pela autarquia de Montemor-o-Novo, onde se desenrola grande parte do livro, em colaboração com o município de Évora, o Museu do Aljube e a Fundação José Saramago. No final de Maio deste ano, nasceram o site e a aplicação móvel do projecto.

E se, “há três ou quatro anos”, a fundação guia passeios literários em Lisboa pelo Ano da Morte de Ricardo Reis, no início de Junho deverá ser apresentado novo roteiro, desta vez inspirado na obra Viagem do Elefante, organizado pela associação Territórios do Côa. “Em 2009, fizemos um percurso ainda com José Saramago, de Lisboa até Figueira de Castelo Rodrigo, seguindo os passos do elefante de Salomão. E já nessa altura queríamos que essa fosse a génese, a semente que desse origem a uma rota literária”, recorda Sérgio Letria.

tp.ocilbup@sevlacnog.aram

tp.ocilbup@ahcord

https://www.publico.pt/2021/06/12/fugas/noticia/rota-memorial-convento-lisboa-mafra-seguimos-setesois-1964716


sábado, 12 de novembro de 2022

Netflix, Amazon ou Disney “são grandes magnatas que vão controlar tudo”, diz o cineasta Pedro Costa


O realizador português participa esta semana na 60ª edição do Festival Internacional de Cinema de Guijón, ao mesmo tempo que, em Barcelona, a exposição “Canción de Pedro Costa” dá a conhecer obras suas, com curadoria de Javier Codesal


*  Luciana Leiderfarb Jornalista
12 NOVEMBRO 2022, 

Participa esta semana na 60ª edição do Festival Internacional de Cinema de Guijón, mas não é somente por isso que o nome de Pedro Costa está a ter tanto eco no país vizinho. Em Barcelona, o La Virreina —Centro de Imagen, a exposição “Canción de Pedro Costa” dá a conhecer obras do realizador português, com curadoria do também cineasta Javier Codesal. Momentos que celebram um cinema cru como poucos, levado a cabo com o mínimo dos meios e com pessoas reais que “podem ser tão impressionantes como Robert de Niro e Meryl Streep”.

Numa entrevista que faz a capa do suplemento Babelia deste sábado, no jornal espanhol “El País”, Pedro Costa explica a ideia que norteia o seu olhar: “A câmara serve para procurar e não para fingir coisas.”

O realizador conta como, após longas metragens como “Casa de Lava” (1994) e “Ossos” (1997), decidiu mudar de rumo. “Não me apetecia continuar a trabalhar da forma convencional como até então o tinha feito. Truffaut dizia que para fazer cinema corrente era preciso ser-se um pouco estúpido e ingénuo (naive), senão, não se aguenta. Quando vou pela rua e vejo uma filmagem, tenho de virar a cara para não morrer de riso por assistir a uma atividade patética. Eu faço um trabalho profundo com estas pessoas que necessita de tempo e de paciência, talvez um pouco de resistência no sentido de não desistir”, diz Pedro Costa notando que, o que o salva, é “não acreditar noutro tipo de cinema”.

Em 2000, ao instalar-se no bairro das Fontaínhas, quis um “fazer trabalho de investigação”. “Consegui um quarto e pensei que seria positivo estar ali, naquele momento não tinha laços nem obrigações, tinha cortado com tudo, estava sozinho, e pensava que não precisava de ninguém. Depois cheguei à conclusão de que precisava de três ou quatro pessoas, para fazer um filme, e hoje sabemos que somos quatro e que nunca seremos quarenta”, recorda. Ele, que estudou História e aprendeu a lidar com fontes e arquivos, “nas Fontaínhas era como se pudesse pôr em prática algumas coisas [desse curso], ir ao fundo das coisas e trazer à superfície. Pegar na vida completa de um imigrante como a pessoa que ele é e não só com os problemas da imigração. Finalmente o que gostava de fazer e o cinema se encontraram, um trabalho próximo da investigação que se faça de forma económica, consequente, adaptado ao que tenho à minha frente. Não posso filmar em locais como as Fontaínhas com a maquinaria poderosa e capitalista do cinema, que são camiões, maquilhadoras, caterings e croquetes, que muitos consideram indispensáveis mas não o são.”

Pedro Costa sabe que o “sonho dos ministros da Cultura, dos institutos e dos festivais de cinema” é que os autores filmem para um público de massas: “Não é o meu mundo, é um ambiente subjugado ao poder, muito dependente do dinheiro e ignorante em matéria de cinema. A colonização americana está consumada, e também os intelectuais portugueses fazem cambalhotas perante as séries da moda e se gabam de nunca ter visto um filme do Manoel de Oliveira.”

A culpa é de plataformas como Netflix, Amazon ou Disney, “os grandes magnatas que vão controlar tudo, influenciar o gosto e inflacionar os salários. Oferecem 1.500 euros por semana a um jovem como primeiro assistente de câmara, que não come e trabalha mais de 16 horas diárias. É algo inumano, uma exploração contra a qual lutaram milhões de pessoas com armas e palavras”, afirma Pedro Costa. Em Portugal, explica ao “El País”, “não é raro que os chamados filmes comerciais portugueses tenham entre 7 mil e 10 mil espectadores em 50 ou 60 salas do país. A mim, quando muito, dão-me três ou quatro salas em Lisboa, Porto e pouco mais. Os meus filmes rondam os 5 mil espectadores. No meio desta esquizofrenia, não me posso queixar”.

O bairro das Fontaínhas foi demolido, os seus habitantes realojados. Mas, aos 63 anos, o realizador não voltará a filmar em Lisboa, que considera “uma cidade destruída, rendida ao despropósito e vítima do capitalismo mais selvagem”. Prefere manter a simplicidade: “Quando mostro os meus filmes em Los Angeles, ficam intrigados pelo modo como estão feitos. Digo-lhes sempre que não há segredos, que há uma racionalidade que tem a ver com o que o mundo é e com a eliminação de outras mentiras, como que o cinema é muito caro e que só algumas pessoas com muito talento o podem fazer.” O cineasta, diz Costa, não é um filósofo: “Tem décadas de sedimentação esta ideia de que Takovski, Fellini ou Bergman não são apenas realizadores, mas também mestres de filosofia, política, sociologia, que conseguem ver tudo antes do que os outros. O curioso é que, do meu ponto de vista, estes cineastas filósofos são os menos subversivos e revolucionários. Godard, que morreu há pouco tempo, era um investigador, mas não tinha uma ideia do mundo. Considerava a câmara como um telescópio e um microscópio ao mesmo tempo. Via coisas pequenas que mais ninguém tem paciência para ver.”

“As nossas vidas tornaram-se numa loucura absoluta que nos faz até esquecer os mortos. Mas nós precisamos disso e esse é um trabalho que pode ser feito pelo cinema, o teatro, a música ou a pintura”, conclui Pedro Costa.1

https://expresso.pt/cultura/2022-11-12-Netflix-Amazon-ou-Disney-sao-grandes-magnatas-que-vao-controlar-tudo-diz-o-cineasta-Pedro-Costa-6923d88d

José Pacheco Pereira - Mais uma vez a “peste grisalha” – uma “justiça” que é uma injustiça


* José Pacheco Pereira   
12 de Novembro de 2022

Um partido que aspira a governar, no seu afã de combater o actual Governo, está a fazer uma cama em que se tem de deitar e, nessa cama, passar o seu tempo a litigar com o Tribunal Constitucional.

Em 2013, num artigo de jornal, um deputado do PSD escreveu: “A nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha.” A frase suscitou uma furiosa discussão, chegou ao debate parlamentar e foi objecto de processos judiciais. Um reformado que reagiu com veemência à sua classificação como pestífero, e foi por isso processado pelo deputado, ganhou no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e teve direito a uma indemnização. Numa das colunas de verificação de factos confirmou-se a veracidade da frase e do seu autor, “mas” considerou-se uma atenuante que a expressão “peste grisalha” era usada em estudos académicos e não era de sua autoria.

Na verdade, no caso português, toda a frase é sinistra, porque a escolha de palavras densas como “pátria” e “contaminar” não iludem sobre o sentido pejorativo que se pretendia dar à “peste grisalha”. O contexto também não engana: estamos em plena ofensiva do Governo Passos-Portas-troika contra os direitos dos pensionistas e reformados e é a eles que se dirige o amável epíteto de “peste”. Essa ofensiva só não foi mais longe porque o Tribunal Constitucional a impediu.

O contexto da época ainda se torna mais esclarecedor, quando a JSD começou a falar de uma coisa a que chamava “justiça geracional”, considerando que os mais velhos, com as suas reformas e pensões, “roubavam” os mais novos que as tinham de pagar sem ter a garantia de vir a ter idêntico tratamento no futuro. O discurso “geracional”, mais uma variante dos discursos antidemocráticos que circulam nos dias de hoje, estruturalmente semelhante aos discursos “identitários”, era à época uma forma de legitimar a ofensiva contra a “peste”. O que é grave é que ele aparece de novo no actual projecto constitucional do PSD.

O que sabemos sobre esse projecto são as 40 propostas de alteração à Constituição, mais um programa de governo do que um projecto de revisão constitucional, com uma ou outra ideia razoável, mas muitas más. As propostas, que ainda não são o texto da revisão, tornam a Constituição um texto complexo e confuso, dominado pela preocupação de limitar o poder actual do PS, esquecendo-se que, a seu tempo, o PSD terá de governar com uma Constituição que torna a governação quase impossível. A Constituição tornar-se-á gigantesca, cheia de direitos abstractos, escritos na linguagem da moda “do século XXI”, num país que está longe de garantir sequer os direitos do século XIX. Um partido que aspira a governar, no seu afã de combater o actual Governo, está a fazer uma cama em que se tem de deitar e, nessa cama, passar o seu tempo a litigar com o Tribunal Constitucional.

Uma das ideias perigosas é exactamente essa da “justiça intergeracional”. Ela está a expressa nos seguintes pontos:

Justiça intergeracional, combate à sub-representação dos jovens no processo democrático e valorização de todas as gerações:

a. Inclusão entre as tarefas fundamentais do Estado da promoção da justiça entre gerações;
b. Criação do Conselho da Coesão Territorial e Geracional como um órgão que assegura uma representação paritária das diferentes regiões do território e gerações, (…)
c. Alteração da idade legal para exercer o direito de voto: a partir dos 16 anos;
d. Reforço da dignidade na terceira idade.

Percebe-se muito bem que quem redigiu este ponto não diz ao que vem. A última alínea – “reforço da dignidade na terceira idade”, numa formulação de slogan, está lá apenas por razões cosméticas, porque o essencial está antes disfarçado em afirmações confusas. O que é que significa o “combate à sub-representação dos jovens no processo democrático”? Quotas? Direitos de preferência? A mais importante é a frase “Inclusão entre as tarefas fundamentais do Estado da promoção da justiça entre gerações”. Muito bem, podemos é perguntar quais são as “injustiças” actuais, porque aí é que se percebe melhor o alvo.

A verdade nua e crua, e que muita gente não gosta de ouvir, é que ser jovem é, sob todos os pontos de vista, melhor do que ser velho. Não há sequer comparação possível entre as oportunidades de quem tem futuro e quem só tem passado. Pode ter dificuldades em arranjar emprego, mas não são certamente maiores do que as de uma pessoa que nem precisa de ser velho, basta ser de meia-idade. Pode ter salários mais baixos e precariedade, sem dúvida, mas ser desempregado de um dia para o outro com família constituída e receber o subsídio de desemprego por uns meses é um drama maior.

E, se há injustiça é a invisibilidade social da condição de velho, a que se soma a condição terrível de ser velho e pobre, e que a sociedade, obcecada pela moda da juventude – os jovens têm sempre boa imprensa –, pura e simplesmente ignora por comodidade e desatenção. As ruas das cidades nunca foram tão hostis aos velhos, que podem tropeçar numa trotinete atirada ao chão em qualquer lado, ser atropelados por uma bicicleta em sentido contrário ou a andar nos passeios, ser obrigados a ler em ecrãs sem resolução para quem já vê mal, a subir e descer escadas em prédios em que o condomínio desde a troika a primeira coisa que deixa de compor são os elevadores, com correios que obrigam a deslocações e perda de tempo para receber a reformas ou pagar as contas, com transportes inadequados e difíceis de apanhar. Habituem-se, modernizem-se, chamem um Uber… E a enorme solidão que o egoísmo crescente de famílias e vizinhos traz numa sociedade em que as relações sociais são substituídas por simulacros virtuais. E ser velho hoje é insulto, e não é preciso ir mais longe para o ver do que as caixas de comentários deste jornal.

Sim, há “injustiça geracional”, só que num sentido diferente daquele que o PSD coloca nas suas propostas de revisão constitucional. Há uma parte que vem da natureza e pode ser minimizada, mas não eliminada, e outra que vem de uma sociedade dominada pela moda, pelo egoísmo e pela falta daquilo a que Shakespeare chamava “the milk of human kindness”.

O autor é colunista do PÚBLICO

https://www.publico.pt/2022/11/12/opiniao/opiniao/peste-grisalha-justica-injustica-2027439?ref=hp&cx=manchete_2_destaques_0

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Manuel Augusto Araújo - A miséria da informação

 * Manuel Augusto Araújo
9 DE NOVEMBRO DE 2022

Um dos temas ultimamente em destaque são as eleições intercalares nos EUA, como se todo o mundo e ninguém estivesse dependente do seu resultado e como se fosse substancialmente decisivo os democratas suplantarem os republicanos ou vice-versa.

A comunicação social, a tradicional e a veiculada pelas redes sociais, é uma cloaca a céu aberto onde os poderes dominantes escoam a propaganda para condicionar a opinião pública. Quotidianamente alinham-se exemplos, tanto dos sucessos nacionais como internacionais, para não haver fissuras nem incertezas. Um dos temas ultimamente em destaque são as eleições intercalares nos EUA, como se todo o mundo e ninguém estivesse dependente do seu resultado e como se fosse substancialmente decisivo os democratas suplantarem os republicanos ou vice-versa, nunca se referindo que tanto uns como outros obedecem aos interesses conjunturais dos poderosos poderes económicos do complexo militar, financeiro e tecnológico que são quem de facto determina os vencedores.

Teresa de Sousa, uma das mais assanhadas jornalistas porta-voz em Portugal da «democracia» coca-cola do «mercado livre», anda a escrevinhar uns Diários de Houston no Público em que relata alguns episódios das lutas eleitorais em curso nos EUA, como se fossem cruciais para alterar o que é essencial e imutável nas políticas económicas neoliberais do «mercado livre», o tal em que as empresas podem cobrar o quiserem porque o governo se exonera de regular o que quer que seja.

«Qual a “magia” de Obama? A mesma com que obteve um prémio Nobel da Paz, para depois bombardear quatro vezes mais países que Bush Filho, o que invadiu o Iraque, e lançar seis vezes mais bombas.»

Claro que não tem uma palavra sobre o «mercado livre» daquela «democracia» que põe em prática uma política económica de que os trabalhadores são excluídos, em que os seus direitos conquistados em anos de duras lutas se degradam cada vez mais. «Mercado livre» em que o governo se demite de intervir na economia, que desmantelou a regulamentação anti-monopólios e em que quem domina e traça os planos económicos é Wall Street, favorecendo os financeirizados grandes monopólios. Utilize-se como exemplo um desses textos em que escreve uma diatribe em louvor de Obama, que, segundo ela, entrou na campanha eleitoral em curso nos EUA para «exercer a sua magia» usando «as suas qualidades de oratória intactas». Qual a «magia» de Obama? A mesma com que obteve um prémio Nobel da Paz, para depois bombardear quatro vezes mais países que Bush Filho, o que invadiu o Iraque, e lançar seis vezes mais bombas.

A «magia» de Obama, que, com as suas «qualidades de retórica intactas», prometeu antes de ser eleito aumentar o salário mínimo e apoiar a sindicalização. Assim que se sentou na cadeira do poder, rapidamente anunciou que a única coisa que não podia fazer era aumentar o salário mínimo e que estimular a sindicalização era um mal para o «mercado livre» porque sindicalizar o trabalho iria incentivar os trabalhadores a reivindicarem melhores condições de trabalho e melhores salários. A «magia» da retórica de Obama focou-se em agradecer e apoiar os seus doadores, amplamente maioritários em Wall Street, quando a economia dos EUA já era sobretudo de capital fictício. Não perdeu tempo a reunir-se com os banqueiros de Wall Street para lhes garantir que não se deviam preocupar com os eleitores das classes desfavorecidas que nele tinham votado. Ele, Obama, estava ali para os meter na ordem. Ele, Obama, estava de caneta em punho na Sala Oval da Casa Branca para que a Reserva Federal germinasse a maior quantidade de crédito da história da humanidade, tudo a correr para os bolsos de uma minoria muito minoritária da população. Nada para a economia, nada para os salários, tudo para manter bem altos os valores dos títulos-lixo, tão altos que não pudessem cair e para que se gerasse o maior boom obrigacionista da história. Ele, o democrata Obama igual aos republicanos Bush, pai e filho, continuava a obra do democrata Clinton, que desarmou a lei anti-trusts de Sherman, 1890, e Clayton, 1914, que foram assertivamente postas em prática por Roosevelt para combater a Grande Depressão.

«Não espanta, nem causa alguma admiração que nesta «democracia» de combates wrestling entre dois partidos, nos tempos actuais o Partido Democrata esteja, em políticas económicas e financeiras, à direita do Partido Republicano. Lá chegará o dia em que o Partido Republicano volte a estar à direita do Partido Democrata, tudo depende dos interesses económicos que lhes dão apoio variável.»

São esses dignos representantes da política sempre a favorecer o grande capital que esta escrevente aplaude a quatro mãos. É uma recruta da tropa peralvilha que subverteu o jornalismo da chamada comunidade internacional, onde se acoitam os antigos impérios coloniais, o actual império dos EUA e mais uns quantos colonizados que ainda não se libertaram dessas tutelas, para o transformarem numa farsa de propaganda ao serviço do imperialismo neoliberal.

Agora estão do lado dos democratas, de Biden e restante trupe onde também têm lugar destacados neocons republicanos, que continuam essas políticas económicas e financeiras que, até mais que as políticas pró-empresariais e pró-financeiras dos republicanos – ainda que polvilhadas com os perigosos arroubos proto-fascistas de Trump e seguidores –, estão a desmantelar todo um legado de protecção da economia, legado anti-monopolista e de contenção dos impactos da financeirização, posto em prática nos anos de New Deal. Não espanta, nem causa alguma admiração que nesta «democracia» de combates wrestling entre dois partidos, nos tempos actuais o Partido Democrata esteja, em políticas económicas e financeiras, à direita do Partido Republicano. Lá chegará o dia em que o Partido Republicano volte a estar à direita do Partido Democrata, tudo depende dos interesses económicos que lhes dão apoio variável. A cartilha das guerras, golpes de Estado, revoltas coloridas e outras técnicas de destabilizar é igualmente lida pelos dois partidos, são parte integrante de um arsenal explanado em 1992 no Defense Planning Guidance do neocon Paul Wolfowitz, documento em que se estabelece uma nova estratégia dos EUA após a desagregação da União Soviética, que tem sido aplicado, retocado e melhorado pelos seus seguidores republicanos e democratas, durante todos estes anos, e que é a raiz da doutrina de uma «nova ordem mundial sustentada e comandada pelos EUA» enquanto única superpotência que se predispõe a fazer alianças conjunturais conforme os conflitos, para que a sua hegemonia não seja posta em causa, pelo que deve contrariar e bloquear qualquer eventual competidor, nomeadamente «as nações industriais desenvolvidas». A União Europeia, particularmente a Alemanha, o seu motor, e o Japão que se cuidem! Aliás, a UE é singularmente referida: «ainda que os Estados Unidos apoiem o projecto de integração europeia, devemos estar atentos e prevenir a emergência de um sistema de segurança puramente europeu que mine a NATO e a sua estrutura de comando militar».

«É notável o autismo que conduz a UE, por arrasto toda a Europa, para a irrelevância económica, já que a política balança entre a subserviência indisfarçável e fracos arremedos logo metidos na ordem, para tudo desaguar na obediência servil aos ditames dos que estão dispostos a tudo para impedir qualquer alteração ao ordenamento neoliberal»

Para lá dos sucessos de muitas batalhas, a guerra em curso em que a Ucrânia é palco é bem ilustrativa desse desígnio. É o palco de uma guerra entre os EUA/NATO e a Rússia, em que os EUA defendem a ordem unipolar que impuseram depois da queda do Muro de Berlim e que aproveitam para enfraquecer mais rapidamente a Europa e a sua «nação industrial mais desenvolvida», pondo-a bem atrelada a reboque dos seus interesses. Os autocratas da EU, destaque para Ursula von der Leyen, Josep Borrell e Charles Michel, governantes de muitos países, realce para a fiel aliada Grã-Bretanha, Polónia e estados bálticos, são as suas destacadas marionetas. É  notável o autismo que conduz a UE, por arrasto toda a Europa, para a irrelevância económica, já que a política balança entre a subserviência indisfarçável e fracos arremedos logo metidos na ordem, para tudo desaguar na obediência servil aos ditames dos que estão dispostos a tudo para impedir qualquer alteração ao ordenamento neoliberal, sempre defendido com a faca nos dentes de uma política de guerra, como se tem estado a assistir desde há dezenas de anos e que agora subiu um patamar na guerra dos EUA/NATO por procuração na Ucrânia.

Um dos pilares deste estado de sítio é uma poderosa máquina de desinformação e propaganda que se apoderou praticamente da totalidade dos meios de informação na chamada comunidade internacional, rebuçada de independente, que, tal como as redes sociais, é propriedade de plutocratas internacionais e nacionais onde ecoam, com maior ou menor relevância, as notícias que, directa ou indirectamente, antecipam, justificam e sustentam as manobras do império, das mais brutais às mais brandas, das mais agressivas às mais diplomáticas. Esses exércitos de mercenários mascarados de jornalistas são os alcoviteiros de um universo dominado e controlado pelo 1% da humanidade que detém poder económico e financeiro igual aos outros 75%. Com esta desigualdade, a democracia é uma impossibilidade, por maiores que sejam os contorcionismos com que lantejoulam a liberdade, as liberdades. Nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais e essa dura realidade é escamoteada pelo terrorismo informativo de que somos alvo. É uma campanha tóxica sistemática e diária promovida pelas oligarquias que controlam o universo através dos seus serventuários.

«Com esta desigualdade, a democracia é uma impossibilidade, por maiores que sejam os contorcionismos com que lantejoulam a liberdade, as liberdades. Nada é mais desigual que a igualdade entre desiguais e essa dura realidade é escamoteada pelo terrorismo informativo de que somos alvo.»

O desnudar desse estado de sítio tem sido feito por vários intelectuais e académicos, sendo justo destacar Noam Chomsky1, que colocam em causa as razões políticas e culturais dessa espiral crescente de desinformação e manipulação que corrói mesmo a esquerda, como ele denuncia: «Não me interessa escrever sobre a Fox News. É muito fácil. Prefiro falar dos intelectuais progressistas que se autodenominam corajosos que pretendem (ou acreditam) criticar o poder, defender a verdade e a justiça. São os guardiões da fé. Fixam os seus limites. Determinam até onde podem ir. Repetem “vejam como sou corajoso!” mas ninguém pode ultrapassar por um milímetro que seja o que dizem. Os mais instruídos entre eles são os mais implacáveis defensores do sistema.»

Um dos grandes trunfos dos oligarcas e dos plutocratas ao seu serviço é terem conseguido que mesmo as elites progressistas tenham entrado para os círculos do poder, deixando à porta quaisquer imperativos morais, como Edward Said denunciou2: «A meus olhos nada é mais repreensível que esta disposição de fugir, esta deserção tão característica de uma posição de difícil princípio que se pensa pertinentemente justa. Este medo de parecer muito político e reivindicativo, esta necessidade de se ser aprovado por quem detém o poder; este desejo de manter uma reputação de objectividade e de moderação com a esperança de ser solicitado, consultado e de se sentar num qualquer prestigioso comité, com o objectivo de se manter no meio das correntes dominantes e de receber em troca uns favores, um diploma, uma espórtula, uma embaixada.» Este é por excelência o modo corruptor dominante que neutraliza, desarma, mata qualquer vida intelectual, torna-se uma prática normalizada que é veiculada diariamente pela comunicação social estipendiada, seus funcionários e comentadores contratados. As excepções, sempre à beira do abismo, são cada vez mais raras.


Para as classes dominantes, para a economia neoliberal, para as multinacionais e fundos abutres a democracia é um eufemismo e a difusão intensiva das suas regras uma urgência que têm com bastante sucesso posto em prática.

1.Leia-se Noam Chomsky, Propaganda e Opinião Pública, Campo da Comunicação, 2002; A Manipulação dos Media, Inquérito, 2003; Mídia, Propaganda Política e Manipulação, Martins Fontes, 2021.

2.Edward Said, Des Intellectuels et du Pouvoir, Seuil, 1996, p. 116-117.
(publicado em AbrilAbril AbrilAbril | O outro lado das notícias em 9/11)

https://pracadobocage.wordpress.com/2022/11/09/a-miseria-da-informacao/

Filipe Chinita - ao jerónimo ou do secretário-geral



 *  Filipe Chinita 

ao
jerónimo
ou
do secretário-geral 
.
20.01.2011
20.19
.
respiração
.
cousa
ainda 
inverosímil
nesta democracia
36 anos passados
.
mesmo depois
de um operário metalúrgico 
de 
nome 
jerónimo
- aquele
mesmo… que 
continua a viver 
na sua casa de 
pirescoxe -
se 
ter 
já 
candidatado 
à dita presidência
e
ter 
assumido 
o cargo de secretário-geral 
do
partido
da 
classe operária
.
bem 
me dizia a maria
que teria.s 
perfil
para 
tal
.
como 
estava 
eu 
errado
que
mal 
te 
julgava
.
quando 
sequer 
pessoalmente
te
conhecia
.
- aqui 
te peço 
públicas desculpas
jerónimo -
.
um
secretário-geral 
operário
no
histórico
mas
sempre 
renovado
partido 
comunista português
retomando 
as quasi.iniciais insígnias proletárias
do torneiro 
bento 
gonçalves 
.
07.11.2016
.
e
não
tendo
álvaro cunhal
- que sempre connosco estará! -
é uma honra. e um orgulho enorme
termos um antigo operário
como 
secretário-geral
do 
nosso
amado
partido
.
de
seu 
nome
jerónimo
.
criou-se
todo 
ele 
no 
nosso
seio
.
08.01.2017
.
ou 
da 
diferença 
entre 
os 
comunistas 
de 
momento 
de 
uma
inteira
vida
.
ainda! 
no dito debate 
diz(ia) 
que 
queria 
'sociedade sem classes'
viu-se! 
e
à 
vista 
está
aliás 
estudando 
tal debate. à distância 
está lá tudo o que 
nos dividia 
ainda nos
divide
e
comparar 
nalgum plano 
da vida.e do discurso 
- nem 
já falo do físico - 
soares 
com cunhal 
des
culpem-me 
é
como
comparar 
um 
sapo 
(o 
tal 
que tapámos 
com umas das
mãos)
com 
um
príncipe
.
ainda por cima 
um sapo 
com
bochechas!
.
e
dizer que 
ainda… assim
foi 
príncipe
que se manteve
comunista
até! 
todos
os 
fins 
da vida
e da morte
.
19.02.2017
.
jerónimo
operário
deputado 
da constituinte
.
eu 
gosto 
da 
seriedade 
da 
humana 
profunda
cara
do 
nosso 
secretário-geral
operário
.
ainda que 
não seja 
um 
álvaro 
cunhal
.
é 
ele 
mesmo!
.
sempre 
me pareceu 
humano
afável
próximo
na 
forma 
como 
uma vez 
me 
veio 
apertar 
mão
na soeiro
.
que 
enorme 
sua
lá 
está! 
de 
operário
.
apertou-ma… fraterno
sem nada mais falarmos
- além do cumprimento -
nem 
bem saber 
quem 
seria 
eu
.
estava 
eu 
ao lado 
do casanova
- deve ter sido 
por isso! -
com 
ele falando
sobre 
os meus livros
a
editar
que 
p’la primeira vez
lhe levava
entregando-os 
em suas mãos
ao 
meu 
partido
.
mas 
também! 
no modo como está
no mesmo restaurante
- de avante! - em que
às vezes vamos
almoçar
quando 
em trabalho
de novos
livros
.
ele 
também
.
ali 
está 
só 
ou
acompanhado
como se 
fora 
é 
um 
vulgar 
cidadão
.
ali
sem 
responsabilidades 
algumas
a
todos 
tratando
por igual
.
todos 
ali gostam… dele. 
mesmo não sendo 
nossos
.
mais 
não sei 
nem 
posso dizer
.
pois 
que 
não 
conheço
.
mas 
gosto 
da 
forma 
como se veste
como sempre se vestiu
.
que
também 
nisso 
ele 
é 
ele!
.
gosto 
do 
som
maduro 
da
sua voz
de
homem
.
mais 
não posso 
dizer
que 
mais
nem 
melhor 
não 
conheço
.
sei 
que é 
do meu benfica
vermelho 
.
que 
escreve
pela esquerda
tal qual como 
pela vida 
veio
e
vai
.
parece-me 
que 
em nada 
nos envergonha 
tê-lo 
como nosso 
secretário-geral 
mesmo não sendo 
um álvaro
cunhal
.
tem feito 
muito 
bem 
seu 
papel
.
comum
de ser 
um 
entre 
nós
.
honesto 
homem
.
uma vez
num comício no terreiro
(em campo maior.
aquando 
das 
únicas 
eleições
 em que na inteira vida
derrotámos
tropa 
fandanga
do nabeiral)
com 
aurélio
ao lado!
.
(ora 
aí 
está 
um
que bem 
poderia ter 
sido 
um 
álvaro!)
.
cometi 
a estupidez… pública 
de afirmar 
mui alto
 e bom 
som
destilando 
meu 
costumado 
inebriante entusiamo
que ainda… um dia! 
iriamos ter 
muitos
álvaros!
.
claro
também 
dessa 
vez 
me 
enganei
.
aliás 
a.percebi
logo
após
haver 
a.firmado
.
mas 
também 
já 
pedi
e
peço desculpa
pelo meu
erro
.
de 
julgamento
juvenil
.
é 
que 
por 
vezes 
apagamo-los
antes 
que
o
sejam
.
antes
que
o
possam 
ser
.
por 
vezes
matamo-los 
o(s) 
pinto(s)!
ainda
dentro do(s)
ovo(s)
.
06.01.2022
13.55
.
ao
jerónimo.
jovem operário.
com o meu abraço.ao homem
que sempre a todos… os humanos! 
estende a sua longa 
mão
fraterna
.
1.
acho graça
(não posso deixar de achar graça)
a certos comentadores de direita (quasi.todos!)
quando dizem... que é a empatia.humana 
do nosso secretário-geral 
que (ainda) nos 
as.segura 
pouca 
votação
nos 
ideais 
comunistas
.
e
que
indo-se ele
logo
seríamos
atomizados
num
instante
.
2.
como se... um partido
e em particular
nosso
comunista
.
comum.de comunistas
.
fosse 
uma.só pessoa
por 
mui importante
que (ela nos)
possa
ser
.
3.
o
ideal
comunista
como 
teoria 
materialista
histórico/dialéctica
- da 
classe 
operária 
de 
todos 
os demais
trabalhadores 
assalariados -
de transformação revolucionária
da sociedade capitalista
a tudo! e a todos!
sobreviverá
.
4.
pois
se até
todos! 
os 
seus 
criadores 
teóricos e práticos
sobreviveu
.
e
se
expandiu
.
fj
ao 
longo
do tempo

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

João Rodrigues - Comuns

DOMINGO, 6 DE NOVEMBRO DE 2022  -  Comuns, por João Rodrigues

Não sendo militante do PCP, estou militantemente convencido que este partido é uma condição absolutamente necessária, mas naturalmente não suficiente, para uma alternativa digna do povo deste país.  

Com todas as divergências e convergências, saúdo Jerónimo de Sousa por todo um percurso, por ser um operário e um comunista em construção. 

Uma memória: acabado de chegar à universidade, em 1995, assisti a um discurso de Jerónimo. Perante uma audiência de estudantes, estimulou-nos a estudar com afinco, até para sermos merecedores do investimento do país. Disse, com a ajuda de Soeiro Pereira Gomes, que tinha sido um dos “homens que não foram meninos”. Fê-lo com naturalidade, sem qualquer ressentimento, pelo contrário, com evidente orgulho dos diferentes percursos. Ainda hoje fico emocionado.

A Paulo Raimundo desejo boa sorte. A biografia é um programa único: trata-se de sublinhar com orgulho que os que vêm de baixo, na realidade, vêm de cima. Os últimos, digamos, têm de ser mesmo os primeiros aqui, nesta terra. Há lá algo de mais importante?

https://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2022/11/comuns.html

António Santos - Raimundo como qualquer um

* António Santos

SEGUNDA, 07 DE NOVEMBRO DE 2022

A eleição de Paulo Raimundo terá um doce simbolismo para todos esses anónimos que ganham mal e trabalham muito, que andam enlatados nos comboios e são da comissão de utentes. Numa palavra: os que lutam.

Paulo quem? Como é que eles se atrevem? A escolher para secretário-geral um anónimo, um filho da mulher das limpezas, um padeiro qualquer, um tipo que as televisões nunca chamaram para comentar nada nem fora predestinado por quem é chamado para comentar tudo, carpinteiro, ou padeiro, ou animador, ou lá qualquer coisa que se estuda à noite e que nunca ninguém tratará por doutor –  só por camarada – Paulo quem?

Paulo Raimundo é tão anónimo como nós, os que comunistas são e que por isso anónimos ficarão, excepto como o Paulo, excepto nas lembranças anónimas da refinaria de Matosinhos, nas greves anónimas dos motoristas dos autocarros de Braga, nos socalcos anónimos do Douro vinhateiro, nos intestinos anónimos dos hotéis do Algarve, nas lutas anónimas dos arquitectos do Porto.

Tal como o Paulo, Portugal é um país de gente anónima que tem de deixar de ser. Quantos escritores falariam melhor de literatura do que Marques Mendes? Quantos dirigentes sindicais explicariam melhor que José Júdice, e de forma mais informada e eloquente, as consequências sociais da inflação? Quantas vezes é que a dupla Milhazes e Rogeiro têm contraditório? Quantos milhares de nós conseguem proezas de decência, coragem e dignidade em condições de total anonimato? Paulo quem?

«Quantos escritores falariam melhor de literatura do que Marques Mendes? Quantos dirigentes sindicais explicariam melhor que José Júdice, e de forma mais informada e eloquente, as consequências sociais da inflação?»

Paulo Raimundo é anónimo porque, nas televisões e nos jornais, #ComunistaNãoEntra, mesmo que se assuma, há 30 anos, as mais altas responsabilidades políticas e mesmo que, desde então, se fale pelo PCP em conferências de imprensa que a comunicação social da classe dominante decide ignorar.

A eleição de Paulo Raimundo terá um doce simbolismo para todos esses anónimos: os que construíram Tebas e o convento de Mafra; os que arriscam o pêlo pelos colegas porque têm princípios; os que ganham mal e trabalham muito; os que vivem em bairros onde a Ana Gomes não vai; os que andam enlatados nos comboios e são da comissão de utentes; os que esticam orçamentos por famílias de quatro. Numa palavra: os que lutam.

Com ou sem mediatismo, mesmo sem nunca ter sido deputado, até sem ser licenciado. Tanto como o nosso povo. Vindo dele e sem dele sair. Como são os comunistas.

https://www.abrilabril.pt/nacional/raimundo-como-qualquer-um

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Poema de Pablo Picasso

* Pablo Picasso

Deita fora todos os números não essenciais à tua sobrevivência.
Isso inclui idade, peso e altura.
Deixa o médico preocupar-se com eles.
É para isso que ele é pago.
Frequenta, de preferência, amigos alegres.
Os de "baixo astral" põem-te em baixo.
Continua aprendendo...
Aprende mais sobre computador, artesanato, jardinagem, qualquer coisa.
Não deixes o teu cérebro desocupado.
Uma mente sem uso é a oficina do diabo.
E o nome do diabo é Alzheimer.

Aprecia coisas simples.
Ri sempre, muito e alto.
Ri até perder o fôlego.
Lágrimas acontecem.
Aguenta, sofre e segue em frente.
A única pessoa que te acompanha a vida toda és tu mesmo.
Mantém-te vivo, enquanto vives!

Rodeia-te daquilo de que gostas:
Família, animais, lembranças, músicas, plantas, um hobby, o que for.
O teu lar é o teu refúgio.
Aproveita a tua saúde;
Se for boa, preserva-a.
Se está instável, melhora-a.
Se está abaixo desse nível, pede ajuda.
Não faças viagens de remorso.
Viaja para a cidade vizinha, para um país estrangeiro, mas não faças viagens ao passado.
Diz a quem amas, que realmente os amas, em todas as oportunidades.

E lembra-te sempre que:
A vida não é medida pelo número de vezes que respiraste, mas pelos momentos
Em que perdeste o fôlego:
De tanto rir...
De surpresa...
De êxtase...
De felicidade...

domingo, 30 de outubro de 2022

Luís Reis Torgal: - “A ditadura não foi branda, foi um fascismo à portuguesa”

* Luís Reis Torgal

Numa obra compilada pelo historiador, prova-se que os tentáculos da polícia portuguesa iam às colónias e passavam o Atlântico para vigiar a actividade dos exilados.

O título da obra parte de uma referência irónica, a uma entrevista de António Ferro a António de Oliveira Salazar no início dos anos 30 do século passado. Contudo, Brandos Costumes, o Estado Novo e os Intelectuais, coordenado por Luís Reis Torgal, desfaz esta visão. A ditadura tinha polícia política, prisões sem culpa formada, censura, tribunais plenários especiais, interrogatórios, as matracas da força de choque da Legião Portuguesa, torturas e informadores visando as oposições. Havia falsas eleições das quais saía sempre vitorioso o partido único nas suas duas versões — União Nacional e Acção Nacional Popular —, o sindicalismo livre era reprimido naquele Estado de corporações e aos funcionários públicos exigido um juramento de fidelidade ao regime. “Activo repúdio ao comunismo e a todas as ideias subversivas”, proclamava.

As prisões eram várias e, algumas, coexistiram no tempo: do Aljube ao Campo do Tarrafal, em Cabo Verde; da ilha de Ataúro, em Timor, ao forte de São Sebastião, em Angra do Heroísmo, nos Açores; da fortaleza de Peniche ao forte de Caxias. A polícia teve várias declinações de cosmética mantendo o essencial da sua função. Em 1933, nasceu a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), sucedeu-lhe a partir de 1945 a Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), para terminar na Direcção-Geral de Segurança, assim baptizada por Marcelo Caetano, que caiu com o 25 de Abril de 1974.

“É uma referência irónica, a ditadura não foi branda”, avança, ao PÚBLICO, o coordenador que reúne investigações suas e de outros seis estudiosos — Heloísa Paulo, Julião Soares Sousa, Luís Filipe Torgal, Paulo Marques da Silva, Renato Nunes e Vítor Neto.

“A violência, o processo directo e constante da ditadura fascista não são aplicáveis, por exemplo, ao nosso meio, não se adaptam à brandura dos nossos costumes”, respondera com paternalismo Salazar a António Ferro, dando origem ao mito de uma lusa benignidade do regime de excepção. Ou seja, não há lugar para revisionismos, branqueamentos ou negacionismos.

“A ditadura não foi branda, defendo que o regime foi um fascismo à portuguesa, se utilizarmos a palavra totalitarismo não estamos errados e não há totalitarismos brandos”, acentua Luís Reis Torgal. “Claro que a PIDE não era infalível, nem podia ser, uma coisa é a vigilância, outra a prisão, mas os pides observavam tudo ou, pelo menos, tentavam”, refere.

“O início deste projecto data dos anos 90 do século passado, quando comecei a trabalhar com alunos sobre os arquivos da PIDE”, explica. “Agora, foi pegar em artigos publicados, em sínteses de doutoramento, em livros pouco lidos”, prossegue o professor da Universidade de Coimbra e membro da Academia Portuguesa de História.

Dos dois lados do Atlântico
No entanto, no volume há espaço para novidades: são três. Se era conhecida a militância comunista e a história da repressão do Estado Novo a Soeiro Pereira Gomes, também Miguel Torga e Jorge de Sena sofreram as vicissitudes da vigilância da polícia política. Este último, do outro lado do Atlântico, no exílio brasileiro, através da articulação da PIDE com o Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Brasil, e da presença de enviados especiais da polícia política portuguesa. O Brasil tinha tradição de terra de exílio das oposições, desde o advento do Estado Novo, sujeitas a vigilância. O que foi determinante para que Jorge de Sena partisse para os Estados Unidos.

O historiador Luís Reis Torgal coordena a obra Brandos Costumes, o Estado Novo e os Intelectuais 

Nos relatórios dos arquivos da PIDE, Miguel Torga constava como “escritor desafecto com ideias avançadas” e Fernando Namora estava “sob vigilância”. Aquilino Ribeiro também estava na mira. Fundador da Seara Nova, exilado em França pelo seu envolvimento na revolta de 1927, aderiu à frente oposicionista do Movimento Unitário Democrático (MUD) e teve um processo-crime pela edição de Quando os Lobos Uivam.

O republicano Tomás da Fonseca, um dos mais tenazes escritores anticlericais do século XX português, foi classificado pela polícia política como “radical e perigoso” e “raivoso anti-situacionista”. Esta classificação teve consequências, pela sua expulsão da Escola do Magistério Público de Coimbra e na proibição pela censura de 17 dos seus livros. Ferreira de Castro, outro “desafecto ao regime” no crivo da polícia política, não teve nenhum livro censurado nem foi preso, o que Luís Reis Torgal justifica pelo seu prestigio internacional.

Na selecção dos estudos de 12 escritores, “meramente simbólica” como assinala o coordenador, destaque para Natália Correia, que, ainda antes de ser processada pela direcção literária das Novas Cartas Portuguesas, de Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, um dos episódios do ocaso da ditadura, teve censurada a sua Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica.

Outros dois intelectuais acompanhados pela PIDE aparecem nesta obra, ambos residentes na Casa dos Estudantes do Império, Amílcar Cabral e Agostinho Neto. Do dirigente guineense, agrónomo, nada consta nos arquivos, apesar da sua actividade nacionalista. Quanto ao médico e primeiro Presidente de Angola, o seu envolvimento em acções políticas, como o abaixo-assinado a Craveiro Lopes para que Portugal abandonasse a NATO, o apoio à campanha presidencial de Norton de Matos e a sua adesão ao Movimento Nacional Democrático levaram-no às prisões do Aljube e de Caxias.

30 de Outubro de 2022
Público 2022 10 29

O DISCURSO DE PUTIN E NAPOLEÃO por Carlos Matos Gomes

 * Carlos Matos Gomes 

Através de dois camaradas que muito prezo recebi entre ontem e hoje dois textos importantes, “Napoleão Bonaparte, Sobre a Guerra — A arte da batalha e da estratégia” Apontamentos e notas de Bruno Colson, enviado pelo major-general Carlos Chaves Gonçalves e do major-general Raúl Cunha a tradução de elementos significativos do discurso de Vladimir Putin, no dia 27 de Outubro, no Clube Valdai, um think tank russo que se reúne nos arredores de Moscovo.

Os dois textos têm um elemento comum: a guerra. As causas da guerra, os objetivos da guerra e as consequências da guerra. A mim interessa-me, sempre me interessou, saber como terminam as guerras. Saber como se faz a guerra levou-me à Academia Militar e saber como se faz uma dada guerra, a guerra de guerrilha levou-me aos «comandos». Saber como terminam as guerras levou-me ao 25 de Abril de 1974, ao estudo, à investigação, à literatura.

Não sou um admirador de Napoleão, que perdeu a sua guerra, não atingindo o objetivo que se propôs e pelo qual combateu por toda a Europa, de Lisboa a Moscovo. (No tempo de Napoleão Moscovo era Europa. Agora, segundo a doutrina do secretário-geral da NATO, de que poucos saberão o nome e das afirmações da senhora Ursula Van Der Leyen, que surgiu do anonimato submisso de onde vêm geralmente os presidentes da Comissão Europeia já não é, transformou-se numa jangada, uma jangada de pedra, como a que Saramago ficcionou para a Península Ibérica.) O pensamento único Ocidental impôs que a Rússia deixasse de ser Europa, que se cindisse pelos montes Urais! Este corte ideológico e ditado por interesses alheios à Europa terá consequências. O discurso de Putin anuncia-as. É prudente conhecê-las.

Não sou admirador do francês que quis ser imperador da Europa, que venceu as potências continentais, exceto a Rússia, mas não conseguiu o império planetário que o seu ego imaginou, perdendo para a Inglaterra, a potência marítima, e logo numa batalha em terra, em Waterloo e para um general do Exército, Wellington, mas apoio a afirmação do autor do livro: “De certa maneira, todos os oficiais do mundo se identificam com ele (Napoleão), pois conferiu à profissão militar uma envergadura intelectual e um profissionalismo ainda hoje reivindicados.”

Napoleão Bonaparte não deixou umas «Memórias» estruturadas como tal, mas frases, depoimentos e pensamentos que foram reunidos no livro que recebi. Servem-me para comparar alguns elementos do pensamento do “pequeno Corso”, com o de Vladimir Putin (também ele de baixa estatura) no discurso de fundo que proferiu no Clube Valdai para todos os Estados do mundo e não apenas para o Ocidente.

O discurso é muito mais dirigido aos outros Estados do que ao Ocidente e é significativo que Putin não o tenha querido pronunciar na Assembleia Geral das Nações Unidas e que esta não tenha ambiente, nem se atribua a importância de ouvir o líder da Rússia que decidiu desarrumar o tabuleiro do xadrez mundial. Um sinal de fraqueza da organização e do estado do mundo. O discurso parece ser tão importante e desconcertante da verdade oficial que, prudentemente, a propaganda ocidental decidiu cobri-lo com um manto de silêncio. Palavras do diabo.

Um primeiro ponto comum entre Napoleão e Putin, o senso de ambos na análise de vantagens e inconvenientes de prosseguir uma guerra por parte de forças cercadas. O caso de Mântua, para Napoleão e o caso da Ucrânia (realmente cercada e sem possibilidade de sair do cerco, mesmo com o envolvimento massivo do verdadeiro inimigo da Rússia, os EUA e, por decisão desta, da UE) para Putin.

Sobre o cerco de Mântua, escreve Napoleão ao comandante do Exército Austríaco: “senhor, o bravo deve enfrentar o perigo, mas não a peste de um pântano. A sua cavalaria, tão preciosa, está sem forragem; a sua guarnição, tão numerosa, está mal alimentada; milhares de doentes precisam de um novo ar, de muitos medicamentos e de alimentos sadios: eis aí razões de destruição. Creio ser do espírito da guerra, do interesse dos dois exércitos, chegar a um acerto”.

Esse acordo era para Napoleão, como para Putin, que o chefe cercado lhe entregasse Mântua: “todos ganharemos com isto, e a humanidade ainda mais que nós.”

Putin, no discurso: “Sempre acreditei e ainda acredito no poder do bom senso”. “Estou convencido de que, mais cedo ou mais tarde, os novos centros da ordem mundial e o Ocidente terão que iniciar um diálogo sobre um futuro comum.” (o que apenas será possível com a resolução da guerra na Ucrânia)

Dir-se-á que em ambos os casos se trata de capitulação. É verdade. Mas em todos os casos de final de guerra se trata de capitulação. A finalidade da guerra é impor uma vontade pela força. Vencer é obrigar o inimigo a aceitar outra vontade. Capitular. Napoleão capitulou após Waterloo e sobre a capitulação, isto é, sobre o reconhecimento de que um dado exército ou Estado já não tem condições para resistir e alterar a situação a seu favor, desenvolveu conceitos que bem podiam servir ao Ocidente para utilizar na Ucrânia: “os generais “sábios e humanos” devem instruir o comandante de uma praça a não contar inutilmente com a defesa de uma derradeira posição e oferecer-lhe uma capitulação honrosa e vantajosa. Se ele se obstinar, sendo enfim forçado a render-se por completo pode-se usar contra ele e os seus todo o rigor do direito da guerra.” E acrescenta: “Se o comandante de uma praça decide enfrentar um ataque, sabe que põe em risco a vida de todas as pessoas que se encontram na praça, militares e civis, assim como as suas propriedades.” (Seria útil os mentores de Zelenski lerem esta frase de Napoleão).

A questão do futuro é para todos nós, o dito Ocidente, o ponto sobre o qual os europeus deviam concentrar as atenções. Qual a nova relação de forças entre potências no mundo? Como quer a Europa a partir de agora relacionar-se com os outros espaços políticos e civilizacionais se decidiu atirar para o campo do inimigo o Estado de maior superfície, com maiores reservas de recursos energéticos, com quem partilha a cultura, a história e a religião, além de fronteiras, de mares e da continuidade territorial, e submeter-se à direção da superpotência do outro lado do Atlântico e prioritariamente interessada no Pacífico, responsável pela ordem (desordem) mundial desde o final da II Guerra?

Napoleão qualificou os conflitos entre países europeus como guerras civis. Durante uma receção ao corpo diplomático e aos membros do parlamento britânico, numa Europa pacificada pelo tratado de Amiens, comentou com Charles James Fox, chefe do partido Liberal e partidário de uma aproximação com a França: “Existem apenas duas nações, o Oriente e o Ocidente. A França, a Inglaterra e a Espanha têm os mesmos costumes, a mesma religião, as mesmas ideias, até certo ponto. É apenas uma família. Aqueles que querem vê-las em guerra querem a guerra civil.”

A guerra na Ucrânia seria mais uma guerra civil europeia, se não fossem interesses fora da Europa a transformá-la numa guerra de civilizações e de superpotências. A submissão da União Europeia aos Estados Unidos também teve o efeito de transformar uma questão europeia numa questão de divisão do mundo. Foi mais um sucesso desta Comissão, além das sanções, da inflação, da deslocalização de indústrias, do desvio de recursos financeiros, das carências energéticas, do abandono das políticas de ambiente, do desperdício de recursos.

A longa manobra de instalação pelo Ocidente (os EUA e a Inglaterra) de um regime abertamente hostil à Rússia, disponível para integrar a NATO e a deixar instalar no seu território armas de primeiro ataque decisivo, junto à sua fronteira — numa repetição da manobra do Ocidente na Polónia — levaram a Rússia e Putin a concluir que o Ocidente não só os excluía, como os cercava para os destruir e fazer capitular.

O discurso de Putin é muito claro na desfiliação da Rússia do Ocidente e do seu posicionamento do “outro lado”, assumindo o novo campo, o do Oriente, num choque que ele apresenta com grande clareza e crueza: “Como disse Solzhenitsyn, o Ocidente é caracterizado por “uma contínua cegueira de superioridade”. E: “ A confiança do Ocidente na sua própria infalibilidade é uma tendência muito perigosa. O liberalismo mudou para além do entendimento até ao ponto do absurdo, quando os pontos de vista alternativos são declarados subversivos e ameaças à democracia.”

E, como corolário do seu pensamento: “O Ocidente reivindica para si todos os recursos da humanidade.” — “A civilização ocidental não é a única, a maioria da população está concentrada no Leste.” — Por fim: “O período de indisputado domínio do Ocidente nas questões mundiais está a terminar”.

Pensar o futuro é equacionar as consequências já visíveis das decisões da União Europeia e dos atuais líderes europeus de alinharem na estratégia dos EUA de separar a Rússia da Europa, de evitar que a Rússia pudesse ser uma parte decisiva do Ocidente em termos civilizacionais, culturais, políticos, económicos e militares.

Do discurso de Putin, como de há dias do de Xi Jiping, presidente da China no Congresso do Partido Comunista, conclui-se que para estas duas grandes entidades políticas o mundo está irremediavelmente dividido entre Ocidente e Oriente. É nesse cenário de opostos que eles agem a todos os níveis, o político, o económico, o militar. É nesse cenário que elaboram as suas estratégias. A Rússia e a China e todo o Oriente vêm o Ocidente como a continuação de um império colonial, de um domínio que eles não aceitam desde o final da Segunda Guerra e contra o qual lutam desde o Movimento Descolonizador.

A União Europeia (em boa parte através da Inglaterra e após o Brexit através de Úrsula Van Der Leyen) atirou a Rússia para o lado de lá. Acresce que é do lado de lá que se encontram as reservas de energia e de matérias-primas que durante meio milénio asseguraram o poder do lado de cá, do Ocidente. Acontece ainda que o Ocidente colonial não deixou muito boas referências em África, nem nas Américas do Centro e do Sul, nem na Ásia, o que quer dizer que muitos Estados desses espaços serão tentados a concordar com a leitura que Putin faz dele, do Ocidente. Acontece ainda, embora não seja doutrina do Ocidente, que o Oriente apresenta uma muito maior diversidade cultural, política e civilizacional que o Ocidente, maior oferta de visões do homem e do mundo, um maior e mais profundo número de religiões e essa diversidade ideológica, que vai do xintoísmo ao budismo, ao hinduísmo, ao islamismo, ao confucionismo, ao cristianismo ortodoxo, traduz-se em energia e em última análise em poder, apesar das gritantes desigualdades sociais. Mas, como se sabe da história, não foi a miséria e a desigualdade que impediram a Inglaterra de ser o maior poder mundial. ´

O pensamento único que se impôs no Ocidente, a crença na sua superioridade, que Putin referiu no discurso são empobrecedores e enfraquecedores. São sintomas de derrota a prazo. E as derrotas começam normalmente numa fase de decadência do pensamento.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Bárbara Reis - Adriano Moreira, uma vida a explicar dois anos no Estado Novo

Adriano Moreira morreu este domingo. Tinha 100 anos (1922 / 2022)

A nova geração de historiadores olha para Adriano Moreira com distância e com reserva. Quis mudar o Estado Novo por dentro ou apenas suavizar o regime colonial?

* Bárbara Reis

23 de Outubro de 2022

  “Quando eu morrer, vão ler”, disse muitas vezes Adriano Moreira aos filhos. O professor, político e ministro do Ultramar no Estado Novo referia-se a Uma simples carta, um texto que escreveu em Abril de 1974.

“O meu pai dizia sempre isso: ‘Vão ler.’ Eu li-o muitas vezes ao longo dos anos. É um ensaio sobre a pobreza”, disse ao PÚBLICO Isabel Moreira, filha e deputada do PS, no Verão, quando o pai fez 100 anos.

A Carta abre o seu livro de memórias, A Espuma do Tempo — Memórias do tempo de vésperas (Edições Almedina, 2008), e começa assim: “Talvez não haja muito que contar, meus filhos, porque não são muitas as coisas que aconteceram que valha a pena reter e transmitir.”

Não foi bem assim. Na autobiografia, Moreira conta 460 páginas de “coisas”. Uma delas é a de que gostava de ser enterrado no cemitério de Grijó de Vale Benfeito, em Trás-os-Montes, onde nasceu.

Em 1974, quando tinha 52 anos, escreveu — na Carta — que lhe parecia “intolerável” o “afastamento” da terra onde nascera e onde estão enterrados os avós maternos. “Fomos criados no amor à terra, o que não tem apenas um valor simbólico.” Fisicamente seremos terra, diz, “solidários no pó como na vida”. O avô Valentim Alves, “anticlerical por tradição e católico por convencimento”, e o primeiro homem que Moreira viu morrer, resistiu à pobreza e à morte de cinco dos nove filhos como “uma das rochas da serra”.

Agora que morreu, aos 100 anos e dois meses, poderá não ser como quis e ele sabia-o: “Os meus filhos obrigam-me a ter âncora noutro lugar”, lamenta na Carta. Os pormenores do funeral continuam incompletos — sabe-se apenas que o velório é esta segunda-feira, no Mosteiro dos Jerónimos, a partir das 20h, e que haverá uma missa às 12h, no mesmo local, e que o enterro será uma cerimónia privada, desconhecendo-se se será em Lisboa ou em Trás-os-Montes.

Portugal das “jeiras”, “rebusco” e “galelo”

Dizer que Adriano Moreira nasceu noutra época é redundante. Basta pensar que no dia em que nasceu, Portugal “entusiasmava-se com o centenário da independência do Brasil” e que acabámos de celebrar o bicentenário.

Adriano José Alves Moreira nasceu em 1922 numa aldeia marcada pela pobreza, onde não havia “proletários” ou “trabalhadores”, mas “pobres”, diz nas memórias, como os avós maternos, agricultores, e os avós paternos, moleiros.

Uma aldeia onde os mais velhos falavam da I Guerra Mundial, mas também, ainda, “do martírio das invasões francesas, que não se tinha minorado na memória das gerações”, e à qual se chegava, ido de Lisboa, depois de uma viagem de 30 horas, incluindo a parte final que era feita de burro, entre a estação de comboios e a povoação.

Um tempo em que se usava a expressão “colheita do Senhor” para quando as crianças morriam — e morriam muito —, em que, no mundo rural, se dizia “regar a leira”, “pagar uma jeira com outra jeira”, se falava do “rebusco” (apanha do que fica no campo depois da colheita), do “galelo” (cachos que ficam na videira depois da vindima), em que a aguardente era “mata-bicho” com supostas “virtudes preventivas de doenças sérias”, o interior estava cheio de “viúvas de homens vivos” e, na igreja, os homens e as mulheres ficavam separados durante a missa.

Na sua aldeia, “não se conhecia a humildade”. “A justiça civil tinha pouca ocasião de intervir, salvo nos casos de furto” — conta nas memórias —, pois “a violência física e a morte de homem eram frequentemente problemas familiares”, “não se denunciava o agressor, se calhava fazia-se justiça privada, muitas vezes com a colaboração da aldeia, quando o culpado era de fora”.

“Não gosto do padre”

O avô materno não ia à missa. Andava já no liceu quando, finalmente, se atreveu a perguntar-lhe porquê:

— Não gosto do padre. E não é por ter dois filhos, que ninguém tem nada com isso. É porque empresta dinheiro a juros aos pobres.

O pai, que em Lisboa se tornou polícia, não tinha sapatos apresentáveis para ir fazer o exame da instrução primária à vila e foi com as botas emprestadas de um soldado, cheias de papel para não lhe caírem dos pés. Foi também na aldeia transmontana onde nasceu que uma tia o ensinou a ler e a escrever pela Cartilha de João de Deus antes da idade de ir para a escola.

Em 1923, os pais, António e Leopoldina, mudaram-se para Lisboa com o filho bebé. Viam-se como “emigrantes que vinham do norte” e o pai foi para uma das carreiras abertas para os pobres da província — a PSP. António Moreira reformou-se como subchefe ajudante na Administração do Porto de Lisboa. Contou muitas vezes — e muitos viram — que andava sempre com a fotografia do pai fardado de polícia no bolso do casaco e que, com frequência, a mostrava aos polícias com que se cruzava. Todos sublinham a raridade destes pais que, vindos da aldeia, quiseram muito que os filhos fossem para a universidade. A irmã de Moreira, Olívia Moreira, que tem 90 anos, licenciou-se em Medicina nos anos 1950 — e é também sempre sublinhado que é militante do PCP e os dois foram sempre íntimos.

Entre Trás-os-Montes e Trás-os-Montes

O livro de memórias vai do beco da Rua Estevam Pinto, em Campolide, Lisboa, onde morava com os pais, a Grijó de Vale Benfeito, em Trás-os-Montes, onde nasceu e passava as férias de Verão, “meses dos mais decisivos da minha vida”.

Moreira chama “emigrantes” às pessoas que iam para Lisboa de outros lugares em Portugal — “os meus pais emigraram não tinha dois anos”. Na capital, as pessoas viviam numa “espécie de colónias interiores”, organizadas por regiões. Por isso, Moreira cresceu em Campolide, mas “intimamente amarrado à aldeia transmontana” onde nasceu, conta a filha Isabel. “Há uma frase na Carta de que gosto muito: é quando o meu pai diz que ‘viajava entre Trás-os-Montes e Trás-os-Montes’.”

“A vida de um estudante pobre não era fácil nesse tempo.” Moreira andou no Liceu Passos Manuel e no Liceu do Carmo, para onde ia e voltava a pé para casa. O mesmo na Faculdade de Direito. Ficou amigo para a vida de colegas que entraram na faculdade ao mesmo tempo, em 1939: Manuel Gonçalves Pereira, Fernando Pedroso Rodrigues, João Rosas e Vicente Loff.

Dar com uma mãe, tirar com a outra

Em 1990, o historiador Manuel Loff — sobrinho de Vicente Loff — entrevistou-o para a sua tese de mestrado. A conversa entre o jovem estudante e o político reformado inclui os dois anos de Moreira no Ministério do Ultramar, a legislação reformista que introduziu, mal chegou, em 1961, e a “política de assimilação”, como se dizia na altura. “A minha política de assimilação era total!”, exclama Moreira. “Quer dizer: toda a gente tem os mesmos direitos políticos! Essa é que foi a inovação.”

A certa altura, Loff pergunta:

— Com os preâmbulos aos seis decretos que saem em Setembro de 1961, queria realmente fazer uma crítica à política ultramarina anterior?

A resposta:

— É evidente! Isso que lá está escrito não pode deixar de ser visto como uma crítica! Por exemplo: é evidente que existia no território português uma prática de trabalho compelido. Exactamente o contrário do que diziam as leis e as convenções internacionais. Era evidente que isso não podia continuar!

Sessenta anos depois, esta ideia continua a ser debatida. Os seis decretos do ministro Moreira — aprovados a 6 de Setembro, dia dos seus anos — foram reformistas. Mas até que ponto? Do mesmo modo, a pergunta do jovem historiador — e o seu “realmente” — está viva. Historiadores como Diogo Ramada Curto, Bernardo Pinto Cruz e Pedro Aires Oliveira, que têm estudado e escrito sobre este período e sobre as reformas relativas às colónias introduzidas em 1961, olham com distância, reservas e crítica para a acção de Moreira como ministro do Ultramar.

De tudo o que Moreira fez — como presidente do CDS, presidente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, deputado e conselheiro de Estado —, é sempre nos menos de dois anos como ministro do Ultramar que as conversas, entrevistas e investigações académicas se centram. “Adriano Moreira passou o resto da vida a gerir a memória daqueles dois anos no Ministério do Ultramar”, diz Ramada Curto ao PÚBLICO.

Na entrevista a Loff, que tem 28 páginas — e que foi dada quando Moreira tinha 68 anos —, o ex-ministro de António de Oliveira Salazar defende, citando a hoje controversa tese do lusotropicalismo proposta pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, que quis uma “interpenetração de culturas” e a “igual dignidade das culturas” entre colonizadores e colonizados. “Não é transformar a população de África em europeus”, explica. Com a nova legislação de 1961, “deixa de haver diferenciação em matéria de direitos políticos que resultam do estatuto cultural das pessoas, ou étnico ou religioso”.​

Moreira entrou no Governo de Salazar em 1959, como subsecretário de Estado da Administração Ultramarina, e avançou com as novas leis pouco depois de subir a ministro. De entre os célebres seis decretos, está a abolição do Estatuto dos Indígenas e a criação do Código do Trabalho Rural. Na sua leitura, a nova legislação defendia uma “autonomia progressiva e irreversível” das colónias e foi “uma etapa inovadora” — “não tenho dúvidas nenhumas sobre isso!”, diz na entrevista de 1990. As mudanças que propôs para o então “Ultramar” receberam “muita, muita oposição”, “como é natural”. “Não era a corrente de pensamento do Governo. Era uma corrente de pensamento de pessoas que se interessavam por estes problema.

Ao mesmo tempo que abolia o Estatuto dos Indígenas, no entanto, criava a lei das regedorias, sublinha Ramada Curto, que publicou ensaios sobre o tema. A lei das regedorias “fixava as populações nativas e colocava os chefes nativos na posição de colaboradores do Estado colonial, criando aldeamentos e, na prática, campos de concentração, uma vez que as pessoas não podiam sair sem a autorização do regedor, que era o chefe indígena”, diz o historiador. “Tira com uma mão e põe com a outra. Há um excesso de empolamento do lusotropicalismo e da ideia de reforma.”

Sobre Moreira conta-se sempre a história de como durou pouco no Governo e de como saiu. Foi a despacho com Salazar e o ditador não gostou das suas propostas. Ao que Moreira disse: “Não muda de política, muda de ministro.” É uma história que não está fechada. 

https://www.publico.pt/2022/10/23/politica/noticia/adriano-moreira-2025080