Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 18 de novembro de 2022
Um trecho de "Memorial do Convento", de José Saramago
quarta-feira, 16 de novembro de 2022
Rota Memorial do Convento: de Lisboa a Mafra, seguimos Sete-Sóis
Passeios
Rota Memorial do Convento: de Lisboa a Mafra, seguimos
Sete-Sóis
A Rota Memorial do Convento leva-nos por lugares da obra de
Saramago e monumentos do século XVIII, numa viagem que tem tanto de literatura
quanto de património histórico-cultural.
12 de Junho de 2021, 8:01
Numa taberna ao lado da Casa dos Diamantes, nome pelo qual
também é conhecida a Casa dos Bicos, hoje
sede da Fundação José Saramago, Baltasar Sete-Sóis “comprou três sardinhas
assadas, que sobre a indispensável fatia do pão, soprando e mordiscando, comeu
enquanto caminhava em direcção ao Terreiro do Paço”.
É ali, no Campo das Cebolas e da oliveira onde pousam as
cinzas do escritor, então mercado da Ribeira Velha, em frente à Casa dos Bicos,
onde “as vendedeiras gritavam desbocadamente aos compradores”, sacudindo
braceletes, fios, cruzes, berloques e cordões, “tudo de bom ouro brasileiro”, que
desembarca em Lisboa o protagonista do Memorial do Convento e arranca a
nova rota dedicada à obra de
José Saramago.
Não fosse a pandemia, estariam agora os aromas na grelha a
invadir o bairro-alma dos arraiais dos Santos Populares. Mantêm-se as sardinhas
na oferta de algum restaurante, que começa a ser tempo delas, e sendo assim é
possível seguir Sete-Sóis nos passos e no petisco até ao Terreiro do Paço,
segunda paragem no roteiro, onde arranca a obra do escritor português, narrando
a união entre o rei D. João V e a rainha D. Maria Ana Josefa, e palco de uma
das histórias mais emblemáticas do livro, a do padre Bartolomeu e da sua
passarola.
De seguida, suba-se ao Rossio para recordar o primeiro
encontro de Baltasar
e Blimunda, lado a lado no auto-de-fé onde a mãe da protagonista é
condenada por feitiçaria pela Inquisição. “E Blimunda disse ao padre, Ali
vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto,
perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo
o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam
Sete-Sóis.”
De Lisboa a Mafra
A nova rota, projecto iniciado em 2017 e agora lançado
oficialmente, parte do romance publicado em 1982 pelo prémio Nobel da
Literatura para criar um roteiro turístico que nos leva da Casa dos Bicos até
ao Largo da Igreja de Cheleiros, num percurso com cerca de 58 quilómetros,
atravessando os concelhos de Lisboa, Loures e Mafra. Iniciativa conjunta das
três autarquias, nasce em parceria com a Fundação José Saramago.
“Trata-se de uma rota eminentemente literária, no sentido em
que nasce de um livro, mas é uma rota que tenta abranger também outras
componentes da cultura num sentido mais lato, sejam o património
arquitectónico, religioso, a gastronomia...”, aponta Sérgio Letria, director da
fundação, entidade que, desde a assinatura de um protocolo com as autarquias em
Novembro do ano passado, assume a comunicação e a organização das actividades de
divulgação da rota.
Para 2021, em datas ainda a anunciar, estão agendadas três
visitas guiadas temáticas e três visitas mais gerais, uma por concelho. No
entanto, através do site do projecto, do folheto informativo e dos painéis
colocados em cada um dos pontos assinalados no mapa, é possível (re)descobrir
obra literária, monumentos e paisagem de forma autónoma. Basta desempoeirar o
livro e pôr pés ao caminho.
Por aqui navegaram reis, tijolos e estátuas
Chegados ao concelho de Loures, afastamo-nos do livro para
nos concentrarmos na História. Não existe qualquer menção ao rio Trancão na
obra de Saramago, mas sabe-se ter sido por aqui que foram transportados muitos
dos materiais, estátuas e sinos que constituem
hoje o Palácio-Convento de Mafra, monumento cuja construção dá corpo à
narrativa do romance.
No século XVIII, a foz plácida que agora vemos desaguar no
Tejo era “muito profunda e, por vezes, agitada”, ao ponto de impedir a
travessia das barcas de uma margem para outra. “Era conhecido como o mar de
Sacavém”, contam Florbela Estêvão e Paula Pitacas, da autarquia de Loures. Numa
época em que o transporte fluvial era ainda o mais utilizado, havia até “uma
carreira de barcos” que, duas vezes por dia, ligava Lisboa e Santo Antão do
Tojal, do Trancão ao Tejo, e vice-versa.
É difícil acreditar, olhando o fio de água que corre entre as
areias lamacentas, que aqui existiriam vários cais e toda a espécie de embarcações, das
barcas de passagem às da pesca, passando pelo transporte fluvial de
mercadorias, incluindo sal, as hortaliças das explorações agrícolas que ficam
logo ali e, grão a grão, boa parte do colosso de Mafra, mais os homens que o
ergueram e o rei que o mandou construir.
“O que pretendemos aqui foi valorizar a importância do
Trancão no contexto da obra literária e de todo o território que envolvia a
cidade de Lisboa no século XVIII”, aponta Florbela Estêvão. Daqui, e de cada um
dos pontos assinalados na rota, nasce também “uma proposta de lugares a
visitar” na área circundante, desmultiplicando o itinerário por tantos outros,
consoante o interesse de cada um.
Em Loures sugerem-se, por exemplo, os dois centros
interpretativos mais intimamente ligados ao tema: um dedicado ao contexto
histórico-cultural da região no século XVIII, no museu municipal, e outro sobre
alguns dos lugares relacionados com a obra de Saramago e a edificação do
palácio-convento, na biblioteca municipal. Mas também igrejas, o museu de
cerâmica ou o forte de Sacavém, entre outros.
A bênção dos sinos
Uma vez no Trancão, as embarcações subiam o rio até Santo
Antão do Tojal, onde materiais e homens eram desembarcados para seguir caminho
por estradas reais até Mafra. Na verdade, o leito do rio passa ao largo da
povoação vizinha, mas el-rei mandou criar “um canal aberto a braço”, escreve
Saramago, para desaguar mais próximo do Palácio dos Arcebispos a comitiva real,
as estátuas italianas que veremos à entrada da basílica (e que, no livro, o
escritor põe a conversar umas com as outras), ou os 119 sinos, há-de contá-los
Filomena Santos já nos telhados do palácio-convento, que aqui foram abençoados,
montada uma barraca real para o efeito e ao longo de várias cerimónias solenes,
com presença de D. João V e sua corte.
Isto porque, elevada a diocese de Lisboa a patriarcado, Tomás
de Almeida, primeiro patriarca de Lisboa, segunda figura do reino, “vai
promover um conjunto de obras” para tornar a residência de Verão do
arcebispado, em Santo Antão do Tojal, num “espaço nobre e de acordo com o seu
estatuto social, económico e político”, conta Florbela Estêvão, em plena praça.
Desenhada pelo arquitecto italiano António Cannaveri, destaca-se
a carga cenográfica da monumentalidade do largo e dos edifícios de pompa
barroca, cercados de casario rasteiro e terrenos agrícolas. No meio rural,
“recria-se o meio urbano”, uma “Praça do Comércio em escala contida e reduzida
ao local”. Lá ao fundo, a fonte-palácio e, atrás, o aqueduto. Ao nosso lado, a
igreja, ampliada por Tomás de Almeida, e o Palácio dos Arcebispos,
requalificado com painéis de azulejos notáveis em todas as salas, uma escadaria
de aparato onde reluzem de amarelo-dourado as vestes das três figuras de
convite, e outros pormenores característicos do período barroco.
A propriedade continua a pertencer ao Patriarcado de Lisboa,
mas é gerida pela Casa do Gaiato. “Em tempos, os miúdos ficavam dentro do
palácio. Há fotografias das salas com camas, eram as camaratas.” Actualmente, a
instituição aluga a utilização dos espaços para eventos privados (casamentos,
por exemplo), como fonte de rendimento. No entanto, é possível visitar os
jardins de alamedas simétricas, tanques e pombais adornados a azulejos, assim
como as salas do palácio através de marcação prévia com a autarquia de Loures.
É aqui que nos reencontramos com
o Memorial do Convento e Baltasar Sete-Sóis, “boieiro de uma das
juntas que vão puxando S. João de Deus, único santo português da confraria
desembarcada da Itália em Santo António do Tojal e que vai, como quase tudo de
que se fala nesta história, a caminho de Mafra”.
Mafra, a obra
Por outras estradas, mais suaves e quase sempre cortadas a
direito, no conforto do autocarro e de estômago refastelado no Solar dos
Pintor, na Manjoeira, também nós seguimos para Mafra, tentando imaginar aquelas
“dezoito estátuas em dezoito carros, juntas de bois à proporção, homens às
cordas na conta do já sabido” e Sete-Sóis a braços lá metido, numa caravana de
trabalhos que só não se compara à da “pedra de Benedictione”, quem estudou a
obra de Saramago dificilmente esquece aquele que é um dos momentos-chave de Memorial
do Convento.
Já a temos sobre as cabeças – para trás ficaram as tormentas
descritas pelo escritor, oito dias completos para trazê-la de Pêro Pinheiro,
com duzentas juntas de bois e 600 homens –, parece pequena a alva laje de
mármore vista cá de baixo, cinco metros por três, com uma racha que vai até ao
capitel. É a base da varanda da janela central da Sala da Bênção virada ao
terreiro, onde o rei podia aparecer “a saudar o povo, com um cenário de igreja
por trás, como se ele próprio fosse o Papa em São Pedro do Vaticano”, aponta
Filomena Santos, do serviço educativo do Palácio-Convento de Mafra. “O
convento fica do lado de trás, mas como o palácio também ocupa todo o último
piso, ficando sobre o convento, simbolicamente temos o poder do rei sobre o
poder da igreja.”
Desde o torreão norte, apartamento do rei, ao torreão sul,
apartamento da rainha, vão 232 metros – medida da “distância da intimidade no
século XVIII quando falamos da família real”, atira Filomena. “Saramago dá
ênfase a isso, fazendo o paralelo entre a família real e a família do povo,
colocando-se, obviamente, sempre do lado do povo, porque a grande opção dele é
elogiar quem faz, quem constrói”.
Para se erguer o monumento, classificado
como Património Mundial pela UNESCO em 2019, chegaram “a trabalhar em Mafra
e para Mafra” cerca de 45 mil operários e sete mil soldados, desde a colocação
da primeira pedra, em 1717. De convento para 13 frades, D. João V decidiu subir
para 40, depois 80 e, por fim, 300 e, dois anos antes da bênção da Basílica de
Mafra, avança ainda que também quer um palácio. “É o que faz o dinheiro do ouro
do Brasil.” Os trabalhos na basílica já estavam tão avançados que fica-se em
tamanho para 80 frades e é inaugurada em 1730, ainda sem cúpula nem as estátuas
que agora admiramos à entrada, trazidas em caixas e cobertas de lã, “porque a
palha mói e havia risco de se partirem”.
Quando o Memorial do Convento se tornou leitura
obrigatória na disciplina de Português, o Palácio de Mafra “começou a trabalhar
com as escolas” e a fazer visitas guiadas sobre a obra. “Antes de ter sido
retirado e substituído pelo Ano da Morte de Ricardo Reis, acompanhámos à
volta de 32 mil alunos e tivemos à volta de 30 mil a assistir ao espectáculo de
teatro”, contabiliza Filomena.
Haveremos de entrar para espreitar a basílica, subir à
enfermaria e cruzar as celas, somar salas e salas, subir junto da “caixa de
música gigantesca” de um dos carrilhões até aos telhados, descer à biblioteca e
à antiga zona conventual, hoje sede da Escola de Armas. E, com tudo somado, já
não haverá tempo para mais paragens no roteiro. Para fazer tudo, seriam
precisos dois dias, garantem-nos. Ficam fixadas as moradas das três igrejas por
onde falta passar no concelho de Mafra, para um regresso: São Miguel de
Alcainça, localidade onde, na obra, se encontram as estátuas com os noviços;
Santo André de Mafra, muito perto de onde ficaria “a casa dos Sete-Sóis”; e a
Igreja de Cheleiros, localidade onde, durante a travessia da pedra, “ficou um
homem para enterrar” e “a carne de dois bois para comer”. Porque “o rei faz a
promessa, mas quem a cumpre é o povo”, dizia Filomena há pouco. E o Memorial
do Convento não os deixa esquecer.
Montemor-o-Novo, concelho onde se desenrola a maior parte da
acção do livro de José Saramago "Levantado do Chão" DANIEL ROCHA
A obra de Saramago em rotas pelo país
Há “outras rotas literárias também a nascerem” da obra
deixada pelo escritor português, aponta Sérgio Letria, presidente da Fundação
José Saramago, junto à Casa dos Bicos, de onde parte este roteiro inspirado
pelo romance Memorial do Convento.
Em Fevereiro do ano passado, foi inaugurado o roteiro
literário Levantado do Chão, dedicado à obra homónima, desenhado pela
autarquia de Montemor-o-Novo, onde se desenrola grande parte do livro, em
colaboração com o município de Évora, o Museu do Aljube e a Fundação José
Saramago. No final de Maio deste ano, nasceram o site e a aplicação
móvel do projecto.
E se, “há três ou quatro anos”, a fundação guia passeios
literários em Lisboa pelo Ano da Morte de Ricardo Reis, no início
de Junho deverá ser apresentado novo roteiro,
desta vez inspirado na obra Viagem do Elefante, organizado pela
associação Territórios do Côa. “Em 2009, fizemos um percurso ainda com José
Saramago, de Lisboa até Figueira de Castelo Rodrigo, seguindo os passos do
elefante de Salomão. E já nessa altura queríamos que essa fosse a génese, a
semente que desse origem a uma rota literária”, recorda Sérgio
Letria.
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segunda-feira, 24 de outubro de 2022
Bárbara Reis - Adriano Moreira, uma vida a explicar dois anos no Estado Novo
Adriano Moreira morreu este domingo. Tinha 100 anos (1922 / 2022)
A nova geração de historiadores olha para Adriano Moreira com distância e com reserva. Quis mudar o Estado Novo por dentro ou apenas suavizar o regime colonial?
* Bárbara Reis
23 de Outubro de 2022
“Quando eu morrer, vão ler”, disse muitas vezes Adriano Moreira aos filhos. O professor, político e ministro do Ultramar no Estado Novo referia-se a Uma simples carta, um texto que escreveu em Abril de 1974.
“O meu pai dizia sempre isso:
‘Vão ler.’ Eu li-o muitas vezes ao longo dos anos. É um ensaio sobre a
pobreza”, disse ao PÚBLICO Isabel Moreira, filha e deputada do PS, no Verão,
quando o pai fez 100 anos.
A Carta abre o seu livro
de memórias, A Espuma do Tempo — Memórias do tempo de vésperas (Edições
Almedina, 2008), e começa assim: “Talvez não haja muito que contar, meus
filhos, porque não são muitas as coisas que aconteceram que valha a pena reter
e transmitir.”
Não foi bem assim. Na
autobiografia, Moreira conta 460 páginas de “coisas”. Uma delas é a de que
gostava de ser enterrado no cemitério de Grijó de Vale Benfeito, em
Trás-os-Montes, onde nasceu.
Em 1974, quando tinha 52 anos,
escreveu — na Carta — que lhe parecia “intolerável” o “afastamento” da
terra onde nascera e onde estão enterrados os avós maternos. “Fomos criados no
amor à terra, o que não tem apenas um valor simbólico.” Fisicamente seremos
terra, diz, “solidários no pó como na vida”. O avô Valentim Alves,
“anticlerical por tradição e católico por convencimento”, e o primeiro homem
que Moreira viu morrer, resistiu à pobreza e à morte de cinco dos nove filhos
como “uma das rochas da serra”.
Agora que morreu, aos 100 anos e
dois meses, poderá não ser como quis e ele sabia-o: “Os meus filhos obrigam-me
a ter âncora noutro lugar”, lamenta na Carta. Os pormenores do funeral
continuam incompletos — sabe-se apenas que o velório é esta segunda-feira, no
Mosteiro dos Jerónimos, a partir das 20h, e que haverá uma missa às 12h, no
mesmo local, e que o enterro será uma cerimónia privada, desconhecendo-se se
será em Lisboa ou em Trás-os-Montes.
Portugal das “jeiras”,
“rebusco” e “galelo”
Dizer que Adriano Moreira nasceu
noutra época é redundante. Basta pensar que no dia em que nasceu, Portugal
“entusiasmava-se com o centenário da independência do Brasil” e que acabámos de
celebrar o bicentenário.
Adriano José Alves Moreira nasceu
em 1922 numa aldeia marcada pela pobreza, onde não havia “proletários” ou
“trabalhadores”, mas “pobres”, diz nas memórias, como os avós maternos,
agricultores, e os avós paternos, moleiros.
Uma aldeia onde os mais velhos
falavam da I Guerra Mundial, mas também, ainda, “do martírio das invasões
francesas, que não se tinha minorado na memória das gerações”, e à qual se
chegava, ido de Lisboa, depois de uma viagem de 30 horas, incluindo a parte
final que era feita de burro, entre a estação de comboios e a povoação.
Um tempo em que se usava a
expressão “colheita do Senhor” para quando as crianças morriam — e morriam
muito —, em que, no mundo rural, se dizia “regar a leira”, “pagar uma jeira com
outra jeira”, se falava do “rebusco” (apanha do que fica no campo depois da
colheita), do “galelo” (cachos que ficam na videira depois da vindima), em que
a aguardente era “mata-bicho” com supostas “virtudes preventivas de doenças
sérias”, o interior estava cheio de “viúvas de homens vivos” e, na igreja, os
homens e as mulheres ficavam separados durante a missa.
Na sua aldeia, “não se conhecia a
humildade”. “A justiça civil tinha pouca ocasião de intervir, salvo nos casos
de furto” — conta nas memórias —, pois “a violência física e a morte de homem
eram frequentemente problemas familiares”, “não se denunciava o agressor, se
calhava fazia-se justiça privada, muitas vezes com a colaboração da aldeia,
quando o culpado era de fora”.
“Não gosto do padre”
O avô materno não ia à missa.
Andava já no liceu quando, finalmente, se atreveu a perguntar-lhe porquê:
— Não gosto do padre. E não é por
ter dois filhos, que ninguém tem nada com isso. É porque empresta dinheiro a
juros aos pobres.
O pai, que em Lisboa se tornou
polícia, não tinha sapatos apresentáveis para ir fazer o exame da instrução
primária à vila e foi com as botas emprestadas de um soldado, cheias de papel
para não lhe caírem dos pés. Foi também na aldeia transmontana onde nasceu que
uma tia o ensinou a ler e a escrever pela Cartilha de João de Deus antes
da idade de ir para a escola.
Em 1923, os pais, António e
Leopoldina, mudaram-se para Lisboa com o filho bebé. Viam-se como “emigrantes
que vinham do norte” e o pai foi para uma das carreiras abertas para os pobres
da província — a PSP. António Moreira reformou-se como subchefe ajudante na
Administração do Porto de Lisboa. Contou muitas vezes — e muitos viram — que
andava sempre com a fotografia do pai fardado de polícia no bolso do casaco e
que, com frequência, a mostrava aos polícias com que se cruzava. Todos
sublinham a raridade destes pais que, vindos da aldeia, quiseram muito que os
filhos fossem para a universidade. A irmã de Moreira, Olívia Moreira, que tem
90 anos, licenciou-se em Medicina nos anos 1950 — e é também sempre sublinhado
que é militante do PCP e os dois foram sempre íntimos.
Entre Trás-os-Montes e Trás-os-Montes
O livro de memórias vai do beco
da Rua Estevam Pinto, em Campolide, Lisboa, onde morava com os pais, a Grijó de
Vale Benfeito, em Trás-os-Montes, onde nasceu e passava as férias de Verão,
“meses dos mais decisivos da minha vida”.
Moreira chama “emigrantes” às
pessoas que iam para Lisboa de outros lugares em Portugal — “os meus pais
emigraram não tinha dois anos”. Na capital, as pessoas viviam numa “espécie de
colónias interiores”, organizadas por regiões. Por isso, Moreira cresceu em
Campolide, mas “intimamente amarrado à aldeia transmontana” onde nasceu, conta
a filha Isabel. “Há uma frase na Carta de que gosto muito: é quando o
meu pai diz que ‘viajava entre Trás-os-Montes e Trás-os-Montes’.”
“A vida de um estudante pobre não
era fácil nesse tempo.” Moreira andou no Liceu Passos Manuel e no Liceu do
Carmo, para onde ia e voltava a pé para casa. O mesmo na Faculdade de Direito.
Ficou amigo para a vida de colegas que entraram na faculdade ao mesmo tempo, em
1939: Manuel Gonçalves Pereira, Fernando Pedroso Rodrigues, João Rosas e
Vicente Loff.
Dar com uma mãe, tirar com a
outra
Em 1990, o historiador Manuel
Loff — sobrinho de Vicente Loff — entrevistou-o para a sua tese de mestrado. A
conversa entre o jovem estudante e o político reformado inclui os dois anos de
Moreira no Ministério do Ultramar, a legislação reformista que introduziu, mal
chegou, em 1961, e a “política de assimilação”, como se dizia na altura. “A
minha política de assimilação era total!”, exclama Moreira. “Quer dizer: toda a
gente tem os mesmos direitos políticos! Essa é que foi a inovação.”
A certa altura, Loff pergunta:
— Com os preâmbulos aos seis
decretos que saem em Setembro de 1961, queria realmente fazer uma crítica à
política ultramarina anterior?
A resposta:
— É evidente! Isso que lá está
escrito não pode deixar de ser visto como uma crítica! Por exemplo: é evidente
que existia no território português uma prática de trabalho compelido.
Exactamente o contrário do que diziam as leis e as convenções internacionais.
Era evidente que isso não podia continuar!
Sessenta anos depois, esta ideia
continua a ser debatida. Os seis decretos do ministro Moreira — aprovados a 6
de Setembro, dia dos seus anos — foram reformistas. Mas até que ponto? Do mesmo
modo, a pergunta do jovem historiador — e o seu “realmente” — está viva.
Historiadores como Diogo Ramada Curto, Bernardo Pinto Cruz e Pedro Aires Oliveira, que têm estudado e escrito sobre este
período e sobre as reformas relativas às colónias introduzidas em 1961, olham
com distância, reservas e crítica para a acção de Moreira como ministro do
Ultramar.
De tudo o que Moreira fez — como presidente do CDS, presidente do Instituto Superior de
Ciências Sociais e Políticas, deputado e conselheiro de Estado —, é sempre nos
menos de dois anos como ministro do Ultramar que as conversas, entrevistas e
investigações académicas se centram. “Adriano Moreira passou o resto da vida a
gerir a memória daqueles dois anos no Ministério do Ultramar”, diz Ramada Curto
ao PÚBLICO.
Na entrevista a Loff, que tem 28
páginas — e que foi dada quando Moreira tinha 68 anos —, o ex-ministro de
António de Oliveira Salazar defende, citando a hoje controversa tese do
lusotropicalismo proposta pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, que quis
uma “interpenetração de culturas” e a “igual dignidade das culturas” entre
colonizadores e colonizados. “Não é transformar a população de África em
europeus”, explica. Com a nova legislação de 1961, “deixa de haver
diferenciação em matéria de direitos políticos que resultam do estatuto
cultural das pessoas, ou étnico ou religioso”.
Moreira entrou no Governo de
Salazar em 1959, como subsecretário de Estado da Administração Ultramarina, e
avançou com as novas leis pouco depois de subir a ministro. De entre os
célebres seis decretos, está a abolição
do Estatuto dos Indígenas e a criação do Código do Trabalho
Rural. Na sua leitura, a nova legislação defendia uma “autonomia progressiva e
irreversível” das colónias e foi “uma etapa inovadora” — “não tenho dúvidas
nenhumas sobre isso!”, diz na entrevista de 1990. As mudanças que propôs para o
então “Ultramar” receberam “muita, muita oposição”, “como é natural”. “Não era
a corrente de pensamento do Governo. Era uma corrente de pensamento de pessoas
que se interessavam por estes problema.
Ao mesmo tempo que abolia o
Estatuto dos Indígenas, no entanto, criava a lei das regedorias, sublinha
Ramada Curto, que publicou ensaios sobre o tema. A lei das regedorias “fixava
as populações nativas e colocava os chefes nativos na posição de colaboradores
do Estado colonial, criando aldeamentos e, na prática, campos de concentração,
uma vez que as pessoas não podiam sair sem a autorização do regedor, que era o
chefe indígena”, diz o historiador. “Tira com uma mão e põe com a outra. Há um
excesso de empolamento do lusotropicalismo e da ideia de reforma.”
Sobre Moreira conta-se sempre a história de como durou pouco no Governo e de como saiu. Foi a despacho com Salazar e o ditador não gostou das suas propostas. Ao que Moreira disse: “Não muda de política, muda de ministro.” É uma história que não está fechada.
https://www.publico.pt/2022/10/23/politica/noticia/adriano-moreira-2025080

