terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Wham - Last Christmas


 Wham! - Last Christmas  - "Pudding Mix" (Official Video)

Last Christmas, I gave you my heart

But the very next day, you gave it away

This year, to save me from tears

I'll give it to someone special


Last Christmas, I gave you my heart

But the very next day, you gave it away (you gave it away)

This year, to save me from tears

I'll give it to someone special (special)


Once bitten and twice shy

I keep my distance, but you still catch my eye

Tell me, baby, do you recognize me?

Well, it's been a year, it doesn't surprise me


Happy Christmas

I wrapped it up and sent it

With a note saying: I love you, I meant it

Now I know what a fool I've been

But if you kissed me now

I know you'd fool me again


Last Christmas, I gave you my heart

But the very next day, you gave it away (you gave it away)

This year, to save me from tears

I'll give it to someone special (special)


Last Christmas, I gave you my heart

But the very next day, you gave it away

This year, to save me from tears

I'll give it to someone special (special)


Oh, oh, baby


A crowded room, friends with tired eyes

I'm hiding from you and your soul of ice

My God, I thought you were someone to rely on

Me? I guess I was a shoulder to cry on


A face of a lover with a fire in his heart

A man undercover, but you tore me apart

Ooh, ooh, now I've found a real love

You'll never fool me again


Last Christmas, I gave you my heart

But the very next day, you gave it away (you gave it away)

This year, to save me from tears

I'll give it to someone special (special)


Last Christmas, I gave you my heart

But the very next day, you gave it away

This year, to save me from tears (oh)

I'll give it to someone special (special)


A face of a lover

With a fire in his heart (I gave you my heart)

A man undercover, but you tore him apart

Maybe next year

I'll give it to someone

I'll give it to someone special (special)

Someone

Maria Jorgete Teixeira - O Natal da minha infância cheirava a fumo e a frio.


* Maria Jorgete Teixeira 

Na aldeia, nas faldas do Marão, o dia 24 de Dezembro amanhecia com uma auréola especial. Logo cedinho, havia uma azáfama diferente.

Raramente estava sol e o cinzento frio da serra descia e inundava tudo com uma luz fantasmagórica. O fumo subia das chaminés, das casas que as tinham, ou então evolava-se da ardósia que cobria os telhados de xisto. Não parava de fumegar até à altura do apagar de todas as lareiras. No universo feminino das cozinhas, as iguarias eram preparadas pelas mães e avós.  A abóbora cozida escorria em pequenos sacos pendurados à entrada da porta das cozinhas, para mais tarde ser frita no azeite, transformando-se nos pequenos bolos de “calondro”. As rabanadas eram feitas com fatias de um pão de massa fina, os cacetes, encomendados na Vila para aquela ocasião, passadas por ovo e por leite, fritas e envoltas por fim, em calda de açúcar. A aletria também não faltava, cozida e disposta em pratinhos, depois enfeitados com desenhos de canela. Na noite de consoada o bacalhau era o rei. E não eram muitas as postas que se coziam na altura, umas lascas para as crianças, meia posta para os adultos e isto nas casas mais abastadas. Nas outras, era apenas um “cheirinho” para dar o gosto às batatas e à couve tronchuda. Essas eram com fartura, cultivadas no campo e escolhidas entre as melhores, assim como as batatas da terra fria, saborosas mesmo que só comidas sem acompanhamento. A ceia era servida cedo e o serão passado a conversar e a jogar o “par ou ímpar” ou o “rapa, tira deixa e põe” que era jogado com um pequeno pião que tinha escritas as três palavras que ditavam a sorte de quem o lançava. A minha avó materna sentava-se no escano e ia espevitando o lume e, de vez em quando, entrava na brincadeira. Acho que era a altura em que a sentíamos mais perto de nós e o seu semblante, sempre um pouco severo, mais se adoçava.

Íamos para a cama cedo e, antes de nos deitarmos, os sapatos eram deixados todos enfileirados na base da chaminé. Nessa noite nem dormíamos descansados e só no dia seguinte saberíamos o que o Pai Natal lá tinha deixado.

De entre os símbolos do Natal o presépio era o mais importante. A sua feitura estava a cargo dos irmãos mais velhos que colhiam o musgo nos soutos e nos pinhais para atapetar o chão onde eram plantados os montes e os vales, os rios e os lagos de um universo em miniatura: a cabana do menino, coberta de colmo, ao centro, os pastores e seus rebanhos, as mulheres com galinhas à cabeça ou cestos de ovos, os velhos com as suas bengalas e claro: os três reis do Oriente guiados pela estrela. A narrativa era contada aos mais novos à medida que o presépio ia tomando forma, qual “História Antiga” de Torga. (...)

A maior parte das crianças da aldeia não sabia o que era ter prendas no Natal. Os tempos eram difíceis e arranjar dinheiro para fazer uma ceia mais aprimorada já era muito bom. Os mimos recebidos resumiam-se a uns confeitos ou rebuçados que eram dados aos montinhos, embrulhados em papel.
Na minha casa sempre tivemos presentes.(...)

Hoje, os natais não têm, para mim, a magia desse tempo, mas procuro guardar um pouco da luz e interioridade de antigamente para passar às gerações vindouras, pois se é certo que não se pode parar o progresso, também é certo que o que somos em adultos é consequência da teia de afectos que nos forma, alimenta e resguarda, quando somos meninos.

2022 12 25

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Sven Lindqvist - Exterminem todas as bestas –


* Exterminem todas as bestas  By Paulo Ribeiro da Silva
* Exterminem todas as bestas, por  Intifada
* Exterminem todas as Bestas  (Amazon)
* Sven Lindqvist: Exterminem todas as Bestas  
        Pré-publicação
                Prefácio
                Primeira parte — Rumo a In Salah
Exterminem Todas as Bestas: Estado Livre do Congo

 By Paulo Ribeiro da Silva   Posted in Antologia LITERATURA

 Posted on 10/05/2022

Exterminem todas as bestas («Exterminate all the brutes» no original) é uma citação do clássico Heart of Darkness de Józef Teodor Konrad Korzeniowski, mais conhecido como Joseph Conrad (1857-1924), base de Francis Ford Coppolla para o filme Apocalipse Now (1979). Estas referências servem de espinha dorsal ao raciocínio de Sven Lindqvist (1932-2019) neste livro onde traça uma história das origens do imperialismo, do colonialismo e do racismo, assim como as suas consequências, escolhendo como conclusão o brutal desenlace da II Guerra Mundial.

quando aquilo que fora feito no coração das trevas se repetiu no coração da Europa, ninguém o reconheceu. Ninguém quis admitir o que toda a gente sabia”, [isto é, que] “O imperialismo é um processo biologicamente necessário que, de acordo com as leis da Natureza, resulta na inevitável destruição das raças inferiores.” (267).

A formulação desta e outras pérolas de sabedoria veio de algumas das mais doutas personagens da ciência e da vida pública ao longo de séculos, subvertendo e inventando teorias “científicas” para validar conveniências, com o apoio expresso de vários Estados ditos evoluídos, como Portugal, Espanha, Bélgica, Estados Unidos da América, França, Inglaterra, Holanda e Alemanha (ironicamente o mais lembrado, apesar de ter sido o último a entrar nesta “corrida”).


O livro propõe-se reconstituir o percurso dessas falácias fatais, escolhendo factos históricos documentados, protagonistas (como escritores, cientistas, governantes) e as consequências das suas palavras, actos e omissões. É de morte e luto que aqui falamos, da extinção planeada de vários povos pelo lucro proveniente das terras que ocupavam e o poder que daí advinha durante mais de meio milénio (perpetuado na actualidade por outras formas a que Lindqvist também alude).


Ao contrário do que se passara aquando das Cruzadas, em que o Ocidente se confrontou com povos melhor preparados (cultural, diplomática e estrategicamente, mas também na área da saúde, com experiência de epidemias), a expansão de séc. XV foi bem diferente. Nessa altura, “eram eles próprios portadores dessas bactérias superiores. As pessoas morriam por onde os europeus passassem.” (178)


O início da expansão europeia trouxe consigo a extinção do povo guanche que habitava nas Canárias. Entre 1478 e 1453 passaram de oitenta mil a dois mil e cem. Em 1541 havia apenas um guanche. O resultado da guerra foi decidido pelas bactérias, a modorra como lhe chamavam. As terras foram roubadas pelos colonizadores e os indígenas perderam a sua subsistência. A desinteria, a pneumonia e as doenças venéreas fizeram o resto. Porquê este exemplo tão específico?

Este grupo de ilhas no Atlântico foi o infantário do imperialismo europeu. Os principiantes aprenderam aí que as pessoas, as plantas e os animais europeus se dão muito bem até mesmo em zonas onde não existiam por natureza. Aprenderam também que, embora os habitantes indígenas possam ser superiores em número e resistir até às últimas, são vencidos, sim, exterminados – sem ninguém saber realmente como aconteceu.” (177)

A expansão americana, iniciada por Colombo em 1492 foi ainda mais desastrosa. À época, a população europeia e a americana tinham dimensão equivalente (aproximadamente setenta milhões), mas nos trezentos anos seguintes, a população europeia aumentou até 500% e a americana reduziu até 95%. Novamente, a causa de morte maioritária foi a doença (assim como a fome e as condições de trabalho desumanas), mas “a causa subjacente era a seguinte: os índios eram demasiado numerosos para terem qualquer valor económico no quadro da sociedade dos conquistadores.” (179)


A diferente valoração das vidas humanas, de acordo com a cor da pele e a origem, foi o motor deste avanço imparável e demasiado lucrativo para ser abandonado, suportado pelo sistema financeiro mundial, que desenhou a distribuição de riqueza pelo mundo tal como a conhecemos hoje. Lindqvist exemplifica:

Quando Darwin publicou A Origem do Homem em 1871, a caça aos índios na Argentina ainda prosseguia, financiada por um empréstimo obrigacionista. Depois de expulsarem os índios da sua terra, esta era partilhada entre os detentores das obrigações, dando cada obrigação direito a dois mil e quinhentos hectares.”

Hoje os activos e as oportunidades diversificaram-se, a narrativa tornou-se mais sofisticada, mas a fome de poder e influência mantém-se insaciável, com efeitos facilmente comprovados a cada novo ciclo noticioso. Onde antes o território detido por cada nação era o factor identificador de supremacia, hoje o poder económico e financeiro (e bélico) é o barómetro.


Nada melhor do que as eloquentes e urgentes palavras do autor para a conclusão deste e do seu texto:

Em todos os lugares do mundo em que o conhecimento é reprimido (…) O Coração das Trevas está a ser posto em cena./Já sabe quanto baste. Eu também. Não é de informação que carecemos. O que nos falta é coragem para compreender o que sabemos e tirar conclusões.

Um livro essencial, uma das inspirações para o excelente documentário homónimo de Raoul Peck que encontram na HBO.

https://www.intro.pt/exterminem-todas-as-bestas-sven-lindqvist-caminho-2022/

Martinho Júnior .- INCLINAÇÃO CONTRA NATURA

.segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

*  Martinho Júnior.

..

Martinho Júnior, Luanda 

“REMEMBER” HAITI!

Em África fica-se com a sensação que jamais se foi tão longe quanto o necessário para resgatar toda a humanidade não só dum passado genocida como de um presente de domínio hegemónico que se nutre dos modos e dos tempos desse genocídio, da escravatura sua contemporânea, do colonialismo, do “apartheid” e de todas as sequelas desse longo processo de degradação ética e moral de muito mais de 5 séculos!

Explicá-lo em termos dialéticos é um processo fecundo que está por muito averiguar e aprofundar, porque muitas convenções ditadas por longos processos de aculturação à “civilização ocidental” têm sido mantidas, garantindo a formatação mental dos africanos, limitando-os, confinando-os, enfim, subjugando-os!... 

Um dos marcos a considerar é incontornavelmente a questão do Haiti que África desconhece, em muitos casos recusando-se a abordá-la, de tão inibida que está pelas convenções “ocidentais”, conforme se pode verificar, por exemplo, por via da agenda dos países de África, Caraíbas e Pacífico. “ACP”…

África recusa-se basicamente a debruçar-se sobre a revolução dos escravos de há mais de 200 anos no Haiti, a revolução que marcou a ignição das lutas armadas de libertação desde logo na América… e recusa-se a debruçar-se também porque todo o processo libertário do Haiti foi propositadamente inquinado não só pelo poder das potências colonizadoras (e neocolonizadoras) desde então, mas porque dando sequência à IIª Guerra Mundial, a hegemonia unipolar sustentada pelo exercício anglo-saxónico cada vez mais a partir dos Estados Unidos, multiplicou as ingerências e as manipulações sobre as pequenas ilhas das Caraíbas desde a inércia da sua própria expansão, intoxicando premeditadamente todo o conhecimento e compreensão histórica e antropológica que pudesse haver sobre a revolução haitiana e sobre o que se foi abatendo sobre o Haiti! 

A luta armada de libertação em África desse modo confinou-se às convenções “ocidentais” não só temporalmente (historicamente), mas também antropológica, sociológica, psicológica e sobretudo ideologicamente!... 

Sobretudo ideologicamente por que a história da escravatura dos afrodescendentes na América e a ignição revolucionária que constituiu a revolução dos escravos do Haiti, ou foram amputadas da memória de África, ou sofreram manipulações de interpretação por parte dos interesses de domínio que culminaram no império da hegemonia unipolar!

Figuras como Franz Fanon, que estudou a psicologia do opressor e do oprimido (“Os condenados da Terra”) e o estado latente de ruptura do seu inter relacionamento, ou de Amílcar Cabral que se propunha ao “suicídio de classe” para fazer emergir a figura do combatente da luta armada de libertação em África, são nesse aspecto algumas das excepções que merecem a referência e a honra próprias dum patamar de cultura de que África se alheou!

As suas abordagens sendo excepção, não tiveram suficiente continuidade, nem mereceram a preocupação no sentido de se aprofundar o conhecimento histórico e antropológico que mergulha nos fenómenos do genocídio, da escravatura e do próprio colonialismo inerentes aos sucessivos expedientes de domínio sobre o Sul Global!

Assim o conceito de ruptura ficou mutilado, confinando-se às premissas marxistas-leninistas que só surgiram com a introdução da máquina ao invés da força braçal do trabalho escravo, com o advento da Revolução Industrial com expressão colonial na Conferência de Berlim!

Essa mutilação esteve também na base da sobrevalorização dos conceitos da “Guerra Fria” estimulados acima de tudo pelo processo de domínio que conduziu ao império da hegemonia unipolar, acompanhado no seu reverso pela subvalorização das capacidades de Não-Alinhamento, apesar da Conferência de Bandung e do seu dramático espectro no Sul Global (lembre-se o que aconteceu em relação à Indonésia e à Jugoslávia, a título de exemplo).

A carga energética e mental para se abordar o que ao imperialismo diz respeito, no Sul Global deve ser anterior à Revolução Industrial!

É a revolução cubana primeiro, quando o Comandante Fidel assumiu a necessidade de se pagar a dívida ética e moral para com África, ou a revolução bolivariana, quando desenterra do olvido a gesta do prócer da independência Lourenço Chirindo, antecessor de Simon Bolivar, que se aproximam da interpretação mais justa e mais saudável das profundas (e profícuas) raízes da luta armada de libertação no Sul Global, que remontam a épocas antes da revolução industrial!

Fazem-no enquanto nações, estados e povos caribenhos também afrodescendentes que revelam, além de José Marti e de Simon Bolivar, a gesta do Haiti e respeitam os imensos ensinamentos que há a colher dela!

A legitimidade sobre a ruptura portanto não se consumou no patamar saudável em benefício de toda a humanidade, nem no espaço, nem no tempo, pelo contrário: a necessidade de ruptura nestes tempos decisivos de mudança de paradigma, recrudesceu, dado o bárbaro carácter da hegemonia unipolar e o peso de seus tentáculos, vassalagens e “emparceiramentos” contra natura, por África adentro!

Ao contrário das nações e povos autóctones da América, os africanos perderam-se em convencionados labirintos que não tocaram suas próprias raízes desde os críticos aspectos transatlânticos de sua escravatura!

OS AFRICANOS ESTÃO LIMITADOS E CONFUNDIDOS NA VISÃO DE SI PRÓPRIOS E DOS OUTROS!

A base da percepção dos africanos sobre si próprios e sobre os outros, estando convencionada, limitada, confinada e confundida (fazendo-se deliberadamente uso dos chavões do interesse e conveniência dos processos de domínio), não só rejeita a perceção sobre o Haiti, mas inibe a percepção sobre a história contemporânea do Haiti, tal como o estado neocolonial em que os povos se encontram!

Em África quem ousa estudar o Haiti e as lições que se desprendem de sua história?

Esse estado de prostração por inibição, é já um estado mental propício ao neocolonialismo e evidencia-se à medida que se vão esclarecendo os processos de domínio hegemónico unipolar eminentemente anglo-saxónicos, processos que lançam mão de seu poder “hard power” como do seu poder “soft power”!

O poder instrumentalizado do Pentágono revela-nos precisamente isso e é assim que o Comando África contempla “hard power” e “soft power”, ou seja, um misto de exercício militar confundido com os parâmetros de inteligência “civis”…

São esses poderes que criaram e recriaram chavões generalistas impeditivos de apreciação consciente rebelde, capaz de levar por diante a legítima ruptura, como o termo “Guerra Fria”, ou ainda o conceito sobre “esquerda” e “direita”, quando o verdadeiro conceito que conta é a luta de libertação quando segue a lógica com sentido de vida… ou a sua inexistência!

O domínio da hegemonia unipolar condiciona ainda mais os conceitos e as interpretações dos africanos, como se a ruptura fosse um processo não mais vigente, ultrapassado no espaço e no tempo, subvertendo desse modo as ideologias que nutrem o poder em África, a ponto de procurar separar classes dirigentes de todos os outros substractos sociais e prejudicando qualquer veleidade de gerar, sob os escombros da Conferência de Berlim e onde quer que seja, desde logo “um só povo e uma só nação”!

As amarras mentais que prendem os africanos às convenções “ocidentais” foram-se institucionalizando e por isso África tem tantas dificuldades em sair do pântano duma economia ultraperiférica tal qual hoje se encontra!

Com a mudança de paradigma em curso, essa confusão lançada sobre os africanos que estão longe de consumar a ruptura porque ideologicamente confinados, limitados e pressionados, torna-se mais exposta, daí, por exemplo, estarem-se a condenar de forma tão convencionada, os golpes de estado contra os expedientes da “FrançAfrique”, quando eles se tornaram mais-que-legítimos nos termos da ruptura neocolonial que está por fazer! 

A confusão contudo vai mais longe e revela-se nas apreciações que se fazem em relação aos outros, por vezes nutridas de intestinos contraditórios!

O próprio fenómeno de luta armada de libertação está assim em cheque, como está em cheque até onde ele continua a ser legítimo!

As interpretações sobre a libertação da Europa demonstram esse dilema que repesca a “Guerra Fria” e os conceitos inculcados de “esquerda” e “direita” por via da confusão que não leva em conta subjacentes contraditórios, considerando por exemplo que o “apartheid” sul-africano está em pé de igualdade com as iniciativas em curso por parte da Federação Russa, integradas num amplo processo de mudança de paradigma!

Apagar a necessidade de ir mais longe na legitimidade da luta de libertação, é isso que nos traz o capitalismo neoliberal, porque é ele que hoje introduz neocolonialismo!

Há uma crise existencialista em África: “to be or not to be”?!...

ALINHAR COM AS REGRAS DA HEGEMONIA UNIPOLAR?

No seguimento da Cimeira Estados Unidos – África (retiramos propositadamente o termo América), o Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço deu uma entrevista à “Voice of America”, uma entidade conhecida como um instrumento “soft power” da Central Intelligence Agency, CIA.

Na entrevista ao “senhor Angola” da “VOA”, o veterano João Santa Rita e no que diz respeito ao choque que se faz sentir no campo de batalha da Ucrânia, num momento em que os emergentes vão marcando a mudança de paradigma desmascarando as pretensões da “civilização ocidental” regida pelos anglo-saxónicos “straussianos”, o argumento para o voto favorável à Ucrânia “desalinha” Angola em relação à percepção histórica dum contencioso que já leva séculos!...

“Desalinha” também Angola da lógica com sentido de vida!

O “Grande Jogo” da tensão entre a Rússia e o Império Britânico, sintomaticamente ocorre desde o tempo da revolução dos escravos no Haiti, advindo ambos os fenómenos históricos do início do século XIX… 

… No imenso continente Asiático-Europeu (assim se deve considerar com os olhos do Sul Global ao invés do apelativo conceito que se expressa como “continente Euroasiático”), tem tido a “ilha” interior do Afeganistão a charneira do impasse, tal como o Haiti nas Caraíbas, se levarmos em conta Cuba versus Estados Unidos, ou Venezuela Bolivariana versus Estados Unidos…

De facto na Ásia-Europa o choque entre uma potência marítima como o foi o Reino Unido (agora o seu legado são os Estados Unidos) e uma potência transcontinental como a Federação Russa e com os olhos na China, não pode ficar sem profunda referência face aos contenciosos actuais que nas Caraíbas se distendem também sobre o impasse do Haiti!

A ruptura que há a fazer sendo contra o neocolonialismo, é pela libertação das nações, dos estados e dos povos do Sul Global, ou seja a libertação justa de toda a humanidade que só tem uma saída: lógica com sentido de vida!

As opções a favor da libertação de toda a humanidade do fardo que constitui a hegemonia unipolar, ganham hoje uma revigorada expressão e impulso, porque é a opção ética, moral e cívica que deve nutrir todo o Sul Global como antes a revolução dos escravos no Haiti, ou a luta armada de libertação em África!

Compreende-se desse modo a tensão em que se encontra a Europa e a pressão no sentido de sua libertação pois a Europa, além de ocupada militarmente, tem sido instrumentalizada enquanto vassala, a ponto de estar à beira de se tornar de novo “carne para canhão”!

O “desalinhamento contra natura” de Angola começou a ser feito alinhando-a de facto com a opção marítima dos piratas e corsários de sempre, a perversa versão dos acontecimentos segundo a trilha de Sua Majestade Britânica, contrariando a coerência de 47 anos de Não-Alinhamento que impôs imensos sacrifícios sim, mas manteve, a nível dos relacionamentos internacionais, o “alto facho levado aceso” do MPLA sobre todas as patrióticas cabeças dos que se têm identificado com o povo angolano e com todos os povos africanos, particularmente os da África Austral e Central, ainda que no alheamento das lições emanadas desde a saga histórica do Haiti.

A OPÇÃO PELA HEGEMONIA, ESTÁ À BEIRA DE SER UMA OPÇÃO PELA ESPADA DOS QUE ESTÃO DESTINADOS A “CARNE PARA CANHÃO”!

O “desalinhamento contra natura” da Angola, ao invés de seguir a cultura do Não-Alinhamento recomendável para África (que continua a ser uma ultraperiferia económica, pasto dos artifícios coloniais e neocoloniais advenientes de antes dos tempos da Conferência de Berlim conforme comprova o alheamento sobre a revolução dos escravos do Haiti enquanto ignição de outras libertárias revoluções), vai com cada vez mais evidências no sentido da barbárie, desde logo ao utilizar-se um falso pretexto, relativo às nações, aos estados, aos seus territórios e aos povos!

Nenhum outro continente teve uma arquitectura feita sob tão violenta opressão como África sujeita ao esquadrinhar da Conferência de Berlim pelas potências coloniais e neocoloniais e por isso a noção de território só pode ser distinta quando comparada à questão de estado, de nação, de território e de povo noutros continentes…

Nenhum outro continente esteve sujeito a algo similar à Conferência de Berlim, numa altura em que ficava comprovado desde o Haiti que a liberdade para os africanos, sendo legítima, afinal só podia ser conseguida com muito sangue, suor e lágrimas e um processo de ruptura que está longe de ter terminado!

Tanto pior quando se recorda o “bastião branco” da África Austral, alinhavado desde o Le Cercle pelo Exercício Alcora e o seu prolongado sucedâneo enquanto houve “apartheid”, tal como suas sequelas!

Impossível, quando se tem presente esses ingredientes que continuam a fazer parte dos expedientes dominantes, “baralhar as cartas e dar de novo” num jogo híper viciado!

A ética, a moral e a componente cívica do “apartheid” era barbárie, enquanto o exercício dos emergentes multilaterais, tanto na Ucrânia quanto em Taiwan, está de facto no mesmo pé de legitimidade dos que levaram a cabo a expressão armada da luta de libertação no Haiti, na América Latina, na Ásia e em África, neste caso de Argel ao Cabo, com uma vantagem: buscam a paz e a harmonia por via da cooperação, da solidariedade, do comércio e da integração económica e financeira em novos moldes, ao invés de recorrer às armas, ao genocídio, ao caos, ao terrorismo, à pirataria e à desagregação!

De facto o regime implantado em Kiev por via do golpe de estado de EuroMaidan, tem tudo a ver com neonazismo e suas práticas, repescando as redes “stay behind” de Stepan Bandera conformes, pela sua natureza, à essência do “apartheid” do bastião branco na África Austral, ou à essência da intervenção napoleónica no Haiti, que a revolução dos escravos derrotou!

Na Europa tanto pior quando se recorda a devassa da União Soviética, ou o estilhaçar da Jugoslávia, porque a hegemonia agarra-se ao caos étnico e religioso em pleno século XXI, para levar avante os seus propósitos de confundir, dividir, desagregar, a partir dos oceanos para dentro dos continentes, tal como o faz em suas práticas de conspiração o Pentágono e a instrumentalização da Organização do Tratado do Atlântico Norte que tenta juntar os cacos sem qualquer responsabilidade ou coerência democrática!

África deve-se antecipar em relação à Europa, no que diz respeito à ruptura com as convenções “ocidentais” que condicionam até à asfixia!

Estudar a história do Haiti, torna-se obrigatório para África saber sair do pântano que os da hegemonia unipolar a tentam colocar, apesar dos esforços dos que protagonizam a mudança de paradigma!

Círculo 4F, Martinho Júnior, 24 de Dezembro de 2022 

Imagem:

Recuperação de “Reconstrução”, quadro dum pintor haitiano que expõe na tela a continuada aspiração de liberdade dos descendentes dos escravos na Hispañiola – https://paginaglobal.blogspot.com/2019/03/estado-do-mundo.html; https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/03/11/estado-do-mundo/. . 

Alguns textos de suporte:

. Grande entrevista: João Lourenço fala sobre a aproximação aos EUA e mandatos presidenciais – https://www.voaportugues.com/a/grande-entrevista-jo%C3%A3o-louren%C3%A7o-fala-sobre-aproxima%C3%A7%C3%A3o-com-os-eua-e-sobre-os-seus-mandatos-presidenciais/6884470.html

. Grande Jogo – https://en.wikipedia.org/wiki/Great_Game

. Do material secreto do 5º Departamento do GUGB do NKVD da URSS – sobre a participação de estadistas americanos e britânicos em operações financeitras… – https://www.prlib.ru/item/1295744

. África, Caraíbas e Pacífico –  https://www.jornaldeangola.ao/ao/noticias/africa-caraibas-e-pacifico/.   

Alguns textos de Martinho Júnior:

. A aposta pela vida – http://paginaglobal.blogspot.com/2014/02/haiti-aposta-pela-vida.html

. Um país invisível – http://paginaglobal.blogspot.com/2014/02/haiti-um-pais-invisivel.html

. As muitas lições do Haiti – http://paginaglobal.blogspot.com/2011/05/as-muitas-licoes-do-haiti.html

. Estado do mundo – https://paginaglobal.blogspot.com/2019/03/estado-do-mundo.html; https://frenteantiimperialista.org/blog/2019/03/11/estado-do-mundo/

à(s) dezembro 26, 2022  

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https://paginaglobal.blogspot.com/2022/12/inclinacao-contra-natura-martinho-junior.html


Carmo Afonso - Natal, a grande festa de termos de nos aturar uns aos outros

 Opinião

Num mundo ideal, num Natal próximo o tio facho e o cunhado homofóbico estarão diferentes. Desistir é mais doloroso do que aturar.

*  Carmo Afonso

26 de Dezembro de 2022, 0:00

«Vivemos em proximidade apenas com aqueles que pensam como nós. São esses que procuramos para amigos e para interagirem connosco nas várias plataformas. Estamos cada vez mais afunilados. Nas redes sociais, temos os grupos dos comunistas, o dos bloquistas e o dos centro-esquerda, e as barreiras entre eles são feitas a granito. À direita, os fossos também existem. Mas diria que se notam menos. Talvez porque o que move a esquerda são projetos que têm acentuadas diferenças entre eles, enquanto a direita anda na disputa pelo pódio de quem mais critica o marxismo cultural. Ninguém procura aproximações. Isto não acontece só em política. Há exceções; amizades improváveis, mas elas reluzem e dão nas vistas de tal forma que confirmam a regra de que aquilo não é suposto. Ficamos com a convicção de que é mesmo possível viver num mundo em que todos foram escolhidos a dedo para não nos contrariarem com as suas opiniões. E isso acontece se não forem inteiramente coincidentes com as nossas. Facílimo.

Era o tema de uma instalação do Rodrigo Oliveira. Dizia assim: “We cannot escape from each other.” A perfeita maldição. E podia ser também a legenda para o Natal.

Este Natal, e depois de um intervalo de dois anos cheios de limitações, as famílias voltaram a juntar-se e esse reencontro foi uma boa maneira de avivar aquilo que poderia entretanto ter ficado esquecido: temos de aturar-nos uns aos outros. Este ditado faz lembrar um outro, mais ambicioso e utópico, que impunha que nos deveríamos amar uns aos outros. A verdade é que, já que temos de nos aturar, seria mais fácil fazê-lo se nos amássemos, mas ninguém nos pode pedir tanto.

Devemos fazer das nossas vidas um exercício com alguma coerência e estabelecer limites para o que estamos dispostos a tolerar e aquilo que já não é possível. É sabido que esse caminho tende a ser cada vez mais apertado e que cada vez cabem lá menos. Não é nada natalício.

Mas faz sentido. Se não toleramos racismo, porque devemos tolerar um familiar racista à mesa connosco? Sabemos que o racismo é um problema com a importância e a potencialidade de causar sofrimento, injustiça e até a destruição de vidas. Como ser tolerante com isto?

Mas, se falamos de racismo, também podemos falar de homofobia. Porque devemos aceitar e receber na esfera mais pessoal e íntima quem despreza ou desrespeita a forma como outros se identificam ou amam?

E se falamos de homofobia, também devemos falar de transfobia. É que milhares de portugueses, que já compreendem o tema da homossexualidade, continuam a não entender as pessoas transgénero. É o típico fenómeno de: “Tudo bem que gostem de pessoas do mesmo sexo, mas mudarem de sexo já é doença e se continuamos assim isto vai por aí a fora e não tem limites.” Eventualmente, uma boa parte dos portugueses é transfóbica. Que fazer a estas pessoas?

Claro que está aqui presente um pressuposto que não é o predominante nas famílias portuguesas: serem os progressistas a ocupar o lugar de quem julga e avalia os restantes. Na maioria das vezes, são os “fóbicos” e os “istas” que se encontram nessa posição e são os “diferentes” que se sentem mal recebidos nas festas familiares ou que até já desistiram de aparecer.

Os avanços que o mundo tem feito no sentido de uma sociedade mais justa têm acontecido graças à intolerância de muitos relativamente aos preconceitos dos outros. Também na vida, como na regra matemática, o menos por menos pode dar mai                                                                                               

É matéria altamente pessoal. Mas os avanços que o mundo tem feito no sentido de uma sociedade mais justa têm acontecido graças à intolerância de muitos relativamente aos preconceitos dos outros. Podíamos pensar que não é com intolerância que se cura a intolerância, mas não é bem assim. A intolerância pode resultar. Também na vida, como na regra matemática, o menos por menos pode dar mais.

É verdade que, se a família quer estar junta, ela tem de se esforçar, mas os esforços não têm todos o mesmo valor. Num anúncio espanhol do whisky J&B, deste Natal, vemos um avô que, durante semanas, tenta aprender a maquilhar-se. Aquele processo surge como sendo um enigma. Na noite da consoada, chama um dos netos à parte e faz-lhe uma maquilhagem altamente profissional. É assim que o leva à mesa. Mistério resolvido, e só não chora quem não tem coração. Cada vez mais os publicitários convencem as pessoas a comprar coisas enquanto lhes passam uma mensagem relativa a um tema sensível. Mas a escolha que fazem é capitalizar o progressismo. As marcas apostam que são mais os que estão dispostos a mudar do que os empedernidos.

Num mundo ideal, num Natal próximo o tio facho e o cunhado homofóbico estarão diferentes. No mundo real, pode ser um pai ou um irmão e podem não ter vontade nenhuma de ficar diferentes. No mundo real, temos mesmo de nos aturar uns aos outros. Desistir é mais doloroso do que aturar.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo  ortográfico

https://www.publico.pt/2022/12/26/opiniao/opiniao/natal-festa-termos-aturar-2032681                                                                                                                                                                                                                      


Desigualdade nos EUA é a maior desde a Grande Depressão

A desigualdade econômica nos Estados Unidos alcançou o nível mais elevado desde aquele que ficou conhecido como o mais maldito dos anos: 1929. Nas principais economias dos países de língua inglesa as desigualdades de renda alcançaram extremos que não eram vistos desde a era de “O Grande Gatsby”.

Por John Plender, para o Financial Times

De forma bem semelhante ao que ocorre nesta década, os anos 1920 foram um período de vigoroso aumento dos lucros corporativos e do endividamento familiar. Nadando em dinheiro fácil, Wall Street foi fisgada por aquilo que o economista J.K. Galbraith, no seu original trabalho subseqüente sobre o período - “The Great Crash” (”O Grande Crash”) -, chamou de “the magic of leverage” (”a mágica da alavancagem”): a capacidade de elevar os lucros pegando dinheiro emprestado.*

As empresas de investimentos forneceram o veículo para este carrossel financeiro, no qual uma destas empresas “bancava” uma outra, que por sua vez fazia o mesmo com uma próxima. Esta multiplicação embaralhada da assunção de riscos traz uma semelhança notável com a fragmentação de riscos nos atuais mercados de crédito baseados em drásticas alavancagens.

Na década de 1930, isso terminou com a bancarrota de bancos e a Grande Depressão. Agora, após décadas de “financialização” nos Estados Unidos e outras economias anglófonas, por meio da qual os serviços financeiros elevaram a sua fatia do produto interno bruto, os bancos estão sendo resgatados - com o uso de dinheiro público - na tentativa de garantir que a mesma coisa não volte a acontecer.

Sob uma perspectiva política, o aspecto notável da era de mercado livre e de desigualdades que teve início na década de 1980 é a exigüidade de reações contra a estagnação dos rendimentos dos cidadãos comuns em uma parcela tão grande da economia do mundo desenvolvido. Mas há sinais de que a mistura de políticas e circunstâncias econômicas que proporcionaram um prolongado laisser-passer aos ricos e ao empresariado está chegando ao fim.

Este é um território potencialmente perigoso. Porque, conforme argumentou Bill Gross, diretor-gerente do Pimco, o maior fundo de títulos do mundo: “Quando os frutos do trabalho da sociedade tornam-se mal distribuídos, quando os ricos ficam mais ricos e as classes média e baixa lutam para manter a cabeça acima da linha d’água, conforme ocorre nitidamente nos dias de hoje, o sistema acaba desabando. Os diversos barcos não ascendem de forma conjunta com a maré; o centro é incapaz de se sustentar”.

A questão é determinar o que acontecerá com a criação de riquezas, as avaliações do mercado de ações e o crescimento econômico se, conforme parece cada vez mais provável, houver uma redução drástica da tolerância popular em relação à desigualdade econômica e àquilo que é chamado genericamente de modelo de capitalismo de livre mercado.

O ponto inicial para qualquer análise desta questão é inevitavelmente os Estados Unidos, onde uma combinação de recessão, crise financeira e eleição presidencial trouxe várias das questões para a frente principal do debate político.

Indicadores da desigualdade

Um dos maiores indicadores da desigualdade é o chamado coeficiente Gini. O número do Departamento do Censo dos Estados Unidos para este índice em 2005 foi, de acordo com Gary Burtless, da Brookings Institution, o maior já registrado, o que significa a existência de extrema desigualdade. Uma análise dos números do Departamento Congressual do Orçamento por Jared Bernsteins do Instituto de Política Econômica aponta para uma direção similar. Entre 1979 e 2005 a renda, antes do pagamento dos impostos, dos domicílios mais pobres aumentou 1,3% ao ano, e a da classe média cresceu 1% ao ano. Já a renda daqueles indivíduos que compõem o grupo dos 1% mais ricos aumentou 200% antes do desconto de impostos e, o mais surpreendente, 228% após os impostos.

O resultado desta distribuição desequilibrada do crescimento da renda foi que, em 2005, a renda média após o pagamento de impostos do grupo que compõem o quinto mais pobre da população era de US$ 15.300, a do quinto intermediário de US$ 50.200, enquanto a dos 1% mais ricos foi superior a US$ 1 milhão.

Vendo a coisa sob um outro ângulo, em 1979 a renda pós-impostos dos 1% mais ricos era oito vezes superior àquela das famílias de renda média, e 23 vezes maior do que a do quinto mais pobre da população. Já em 2005, essas proporções aumentaram respectivamente para 21 e 70 vezes. Esse processo atingiu o seu ponto extremo com as reduções de impostos promovidas pelo atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley, calcula que durante a expansão econômica de 2002 a 2006 o topo plutocrata da pirâmide, que corresponde a 1% da população, obteve quase três quartos do crescimento da renda.

Indicadores da riqueza, oriundos da Pesquisa de Finanças dos Consumidores feita pelo Federal Reserve (o Fed, o banco central dos Estados Unidos), são menos atualizados, mas o quadro oferecido é similar. A fatia da riqueza dos Estados Unidos detida pelo 1% dos domicílios que ocupa o topo da pirâmide, subiu continuamente de 20% em 1976 para 38% em 1998. A concentração de renda é mais extrema do que em qualquer outro país da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para o qual existem estatísticas disponíveis.

Desemprego

Embora alguns economistas questionem a integridade dos dados oficiais sobre a desigualdade, é difícil lançar dúvidas sobre esta tendência ampla percebida no decorrer do tempo - e embora as causas do alto nível de desigualdade de renda ainda sejam objetos de debates, há pouca dúvida de que a globalização contribuiu para este fenômeno. Em um ambiente cada vez menos sindicalizado, os trabalhadores norte-americanos foram alijados do mercado de trabalho global à medida que as fábricas transferiram a sua produção para países de baixo custo, como China, Índia e México.

Ao mesmo tempo, e mais importante, uma elite de indivíduos de altas rendas, especialmente em diretorias de finanças e conselhos administrativos em todo o país, experimentaram um aumento explosivo dos seus pagamentos, sendo que esses prêmios são cada vez mais oriundos das ações normais ou com opções de venda. Outras explicações incluem mudanças tecnológicas e o impacto da internacionalização dos mercados nos salários dos executivos mais bem pagos.

Os políticos ampliaram o fenômeno através do sistema federal de impostos. Da Grande Depressão até o início da década de 1980, o sistema tributário dos Estados Unidos favoreceu os trabalhadores de renda baixa ou média, em detrimento daqueles com altos rendimentos. Mas, a partir do governo Reagan, este padrão foi modificado.

Uma parcela desproporcional dos ganhos com renda, tanto sob os governos republicanos quanto sob os democratas, passou a ir para o bolso dos indivíduos de maior renda - uma política que foi apelidada pelo economista Paul Krugman de “Robin Hood às avessas”.

Desregulamentação

No mundo pós-Guerra Fria esta abordagem ficou evidente nas atitudes gerais dos mercados, das empresas e dos ricos. Após as políticas de desregulamentação dos governos de Ronald Reagan e de George H.W. Bush, o próprio democrata Bill Clinton revelou-se um conservador no campo fiscal. Embora no início do seu governo tivesse aumentado os impostos, ele depois reduziu a tributação sobre ganhos de capital de 28% para 20% e instaurou o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta).

No Reino Unido, onde economistas do Instituto de Estudos Fiscais identificaram uma tendência crescente de desigualdade de renda, que chegou a níveis históricos desde que os trabalhistas assumiram o poder em 1997, a questão não gerou tanta controvérsia. Quando era primeiro-ministro, Tony Blair declarou que garantir que o jogador de futebol David Beckham ganhasse menos não era uma das suas maiores ambições.

Peter Mandelson, um dos arquitetos do Novo Trabalhismo britânico, ficou famoso por ter observado que o partido sentia-se “intensamente tranqüilo quanto ao fato de certas pessoas ficarem escandalosamente ricas - contanto que estas pagassem os seus impostos”. Os dois desviaram-se do seu caminho político original para cortejar o empresariado, da mesma forma que Gordon Brown, quando o atual primeiro-ministro era chanceler do Tesouro Público.

Até mesmo em países de língua inglesa nos quais há uma cultura mais igualitária, esta tendência à desigualdade é real. No início do século 21, segundo Anthony Atkinson e Andrew Leigh, a parcela de renda dos 1% mais ricos da população australiana era maior do que em qualquer outro período desde a Guerra da Coréia.**

No Canadá, que permanece mais sindicalizado do que o seu vizinho, a onda de altos salários veio mais tarde, e foi mais concentrada do que nos Estados Unidos. Emmanuel Saez e Michael Veall vêem uma explicação para isto baseada no fenômeno da fuga de cérebros: a ameaça de migração de executivos e profissionais canadenses de alta qualificação para os Estados Unidos pode ter provocado esse surto.***

Políticas econômicas liberais pareceram atraentes para os políticos pragmáticos da esquerda moderada porque elas pareciam resultar em altos índices de crescimento econômico. Quanto aos ricos, eles contribuíram bastante para a arrecadação fiscal. Chris Watling, do Longview Economics, observa: “É evidente que com um número tão pequeno de trabalhadores dando uma contribuição tão importante para a arrecadação tributária, é da mais alta importância para o governo estabelecer políticas que não ameacem tal arrecadação. É desta forma que se entende a atual situação de um governo trabalhista no Reino Unido, que, há mais de dez anos no poder, não promoveu aumentos de impostos para os ricos, mas elevou significativamente a carga tributária sobre a classe média, sobremaneira através de impostos ocultos”.

Tolerância

Mas por que será que este longo período de desigualdade crescente e de rendas estagnadas tem sido tolerado pela maioria dos eleitores? A resposta é que em todos os grandes países de língua inglesa, o padrão de vida desvinculou-se da renda. Em um período de crescimento econômico estável e de baixa inflação, conhecido pelos economistas como “a grande moderação”, indivíduos de renda média e baixa contraem prontamente mais dívidas, enquanto devoram as suas poupanças.

Os preços ascendentes dos ativos, especialmente no mercado imobiliário, criaram uma sensação de aumento de riqueza, independentemente da renda. A renegociação das hipotecas durante o longo período de redução das taxas de juros proporcionou uma fonte de fundos conveniente através da utilização de equities para o financiamento do consumo crescente.

Subitamente todo esse quadro mudou e, com isso, o cálculo político. O colapso do mercado imobiliário norte-americano deixou um rastro de equities negativas. Para muitos, o custo de morar está aumentando mais do que os salários. As casas não podem mais ser utilizadas como cofres de dinheiro e as poupanças precisam ser reconstruídas. A “financialização” está dando marcha à ré, e o setor financeiro não é mais capaz de turbinar o crescimento econômico. Fora dos Estados Unidos este processo está menos avançado, mas a tendência é clara.

Tendo como pano de fundo um cenário econômico mais do que preocupante, a falta de correlação entre o desempenho das empresas e os rendimentos estratosféricos de certos indivíduos começa a irritar a população. Os exemplos de Stan O’Neal, do Merrill Lynch, e Chuck Prince, do Citigroup, que pareceram ter sido recompensados pelo fracasso, exacerbaram essa irritação. Em outras plagas, até mesmo quando tais prêmios são modestos segundo os padrões dos Estados Unidos, como no caso do pagamento de 760 mil libras esterlinas a Adam Applegarth, ex-diretor-executivo da Northern Rock, uma financiadora de hipotecas agora nas mãos do governo britânico, o fenômeno causa igual, ou maior, indignação.

Há também a raiva em relação a um sistema que permite que os banqueiros embolsem enormes bônus quando as finanças estão a pleno vapor, enquanto os contribuintes pagam a conta quando os bancos fracassam. O modelo de capitalismo anglo-americano baseado no mercado parece estar enodoado, e uma dúvida esquisita paira sobre o processo de livre mercado. As empresas mais uma vez enfrentam um problema de legitimidade, conforme aconteceu quando se apropriaram de recursos públicos após o colapso da Enron. O pacto implícito entre os negócios e a política está rompendo-se.

Eleições nos EUA

A eleição presidencial norte-americana revelou até que ponto o clima mudou. Na busca da indicação democrata, Hillary Clinton atacou estridentemente as companhias de petróleo, medicamentos e de seguro-saúde. Ela manifestou sérias reservas em relação ao Nafta, um legado embaraçoso do seu marido, e opõe-se à renovação dos cortes de impostos para os ricos, uma política instituída por George W. Bush. Barack Obama, que critica veementemente a desigualdade, vai um passo além em uma plataforma similar, ao pedir a elevação do limite de renda taxada destinada ao social security (a previdência social dos Estados Unidos). Grande parte da velha batalha retórica entre esquerda e direita está ressurgindo nesta campanha, trazendo consigo uma forte indicação de reversão, no campo dos democratas, para as políticas de velho estilo do tipo taxar e gastar.

Enquanto isso o governo do Reino Unido gerenciou mal a sua tentativa de extrair mais impostos de estrangeiros que não estão domiciliados no país com objetivos fiscais, enviando, desta forma, de forma involuntária, um sinal de que Londres não mais recebe de braços abertos os investidores estrangeiros. O tema subjacente foi a necessidade de elevar os impostos em um nicho fiscal apertado. Parece que as empresas serão os bodes expiatórios dessa modificação das regras tributárias.

Preocupações crescentes com a desigualdade foram ecoadas por um punhado de empresários do setor privado. Em um evento para arrecadação de verbas para a campanha de Hillary Clinton, em dezembro do ano passado, Warren Buffett, o guru dos investimentos e o homem mais rico do mundo, de acordo com a revista “Forbes”, manifestou preocupações quanto à desigualdade de renda e a um sistema tributário cujo caráter redistribuidor é insuficiente. No Reino Unido, Nicholar Ferguson, presidente do SVG Capital, que investe em private equity, provocou furor entre os seus colegas ao afirmar ser injusto que os executivos do ramo arquem com índices tributários inferiores aos das suas faxineiras.

Mudança real

Na verdade, esta reação contra a desigualdade não se restringe aos países de língua inglesa. Pelos padrões dos Estados Unidos ou do Reino Unido, a desigualdade no Japão é insignificante. Mas, não obstante, ela foi elemento central da crítica do Partido Democrático do Japão (PDJ) ao governo do Partido Liberal Democrata (PLD) na eleição de julho do ano passado, quando o PDJ conquistou a maioria das cadeiras no congresso japonês.

Cresce no Japão uma reação política contra o fluxo livre de capital global. No ano passado o governo ampliou, alegando motivos vinculados à segurança nacional, a lista de setores nos quais a participação acionária dos investidores estrangeiro acima de 10% em determinada companhia exige sanções regulatórias.

O medo dos predadores estrangeiros, sejam eles os fundos soberanos, os fundos de hedge ou companhias multinacionais, também ajuda a explicar uma recente declaração de Takao Kitabata, um alto burocrata do Ministro da Economia, Comércio e Indústria. Kitabata afirmou que as companhias japonesas precisam ser capazes de selecionar os seus acionistas porque tais pessoas são “instáveis, irresponsáveis e gananciosas”. Enquanto isso o governo japonês nada fez para impedir uma inciativa das empresas do país de adotar defesas do tipo “pílula de veneno” para impedir as aquisições por empresas estrangeiras.

Na Alemanha, onde a filosofia igualitária também é forte, o relacionamento do governo liderado pelos democratas-cristãos com as empresas também passou por uma reviravolta. Quando na oposição a chanceler Angela Merkel era uma aguerrida defensora do empresariado, chegando até mesmo a ter defendido Klaus Esser, o ex-diretor do grupo de telecomunicações Mannesmann, que foi condenado por auferir um lucro multimilionário com a venda da companhia para a britânica Vodafone. Ela também criticava bastante o velho sistema alemão de negociação salarial coletiva.

Mas ultimamente Merkel vem ameaçando o empresariado alemão com a imposição de salários mínimos em diversos setores caso as empresas descartem as negociações coletivas e empurrem os salários para baixo. Esta é uma resposta populista à pressão eleitoral. Além das suas inseguranças quanto ao salário, os eleitores vêem com preocupação as atividades de empresas estrangeiras de private equities e fundos de hedge. Agora os alemães estão furiosos devido à revelação de que líderes empresariais sonegaram impostos usando contas secretas em Liechtenstein. Tudo isto tem sido acompanhado de um debate matizado de protecionismo a respeito da ampliação dos investimentos estrangeiros.

Nem todos os países encaixam-se neste padrão. Mas a reação pública pode ser a mesma. Na França, o presidente Nicolas Sarkozy é bastante criticado pelo seu relacionamento estreito com empresários milionários. Ele está procurando implementar aquelas que, para os padrões franceses, são políticas econômicas bastante liberais, que, caso sejam bem-sucedidas, poderão aumentar a desigualdade. Mas em um país no qual os eleitores não simpatizam com o empresariado, ele poderá deparar-se com problemas como o escândalo comercial na Société Générale, e a negociata envolvendo o grupo aeroespacial franco-alemão EADS.

A recente proposta de Sarkozy de taxar as opções acionárias pode ser um indicador de que haverá pela frente políticas menos amigáveis para com os negócios.

O que está óbvio neste novo clima é que o protecionismo é uma ameaça mais intensa. Se as empresas forem incapazes de encontrar uma maneira de conter o excesso de pagamento aos seus executivos, a sua legitimidade será questionada e a política de extrair mais impostos do setor corporativo irá se tornar mais atraente. A redistribuição de renda será uma pauta mais importante na agenda política. A reação reguladora à crise de crédito poderá também ser mais extremada e menos ponderada do que normalmente seria, ecoando a experiência da década de 1930, e da lei pós-Enron, Sarbanes-Oxley.

Não se sabe se os mercados detectaram este oceano de mudanças. Até que os países de língua inglesa superem a crise financeira e imobiliária, será impossível afirmar se a mudança de clima é transitória ou se é algo pior. Mas a mudança é real.

___________

*”The Great Crash”, 1929 (Hamish Hamilton, 1955) **”The Distribution of Top Incomes in Australia”. Australian National University Centre for Economic Policy Research discussion paper No 514 ***”The Evolution of High Incomes in Canada”, 1920-2000, NBER Working Paper No 9607

Tradução: UOL

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in vermelho - 12 DE ABRIL DE 2008 - 22h00

domingo, 25 de dezembro de 2022

DANIEL OLIVEIRA - O império de um troll

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DANIEL OLIVEIRA

O império de um troll

Uma ponte com mais de 140 anos, monumento nacional dos Países Baixos que sobreviveu à II Guerra Mundial, esteve a dias de ser desmontada para abrir passagem ao gigantesco iate de Jeff Bezos. Era a única passagem entre o estaleiro onde foi construída a embarcação de 460 milhões de dólares, com 127 metros de comprimento e três mastros, e o mar aberto. O clamor popular conseguiu reverter a decisão, mas o episódio é sintomático dos excessos da concentração de riqueza. Comprar uma ilha é muito anos 90. Agora, depois de a pandemia ter duplicado a riqueza dos principais milionários, vai-se ao espaço, constroem-se iates do tamanho de navios de guerra e estoira-se um valor superior à riqueza produzida anualmente na Letónia para comprar uma pequena rede social.

Sim, mesmo sendo a maior aquisição de uma empresa por um indivíduo, o Twitter não é o Facebook ou o Instagram. Tanto em número de utilizadores como no modelo de financiamento, é uma pequena rede. Tem menos alcance do que a sua congénere chinesa, o Weibo, e cerca de metade do Snapchat. Mas é lá que estão os mais influentes, e o seu modelo favorece mensagens curtas, a um ritmo frenético, com um grande impacto noticioso. Com a aquisição, Elon Musk consegue condicionar a política. Este é um negócio de poder, e o interesse da direita americana é compreensível.

FOTO DADO RUVIC/REUTERS

Musk promete que o “jornalismo-cidadão” tornará o Twitter numa fonte credível de informação. Só que, ao contrário de carros e foguetes espaciais, gerir uma rede social é gerir uma complexa teia de interações humanas. A redução dos ténues mecanismos de moderação e o regresso de milhares de contas que disseminavam fake news fizeram disparar o conteúdo abusivo e antissemita, exponenciado pelos despedimentos em massa e pela degradação das condições de trabalho na empresa. Com o ambiente mais tóxico, há uma deserção de anunciantes. A forma caótica como tem gerido a empresa, dos planos espetacularmente falhados para garantir uma subscrição mensal ou atrasos no pagamento da renda da sede, revelam a versão gourmet do princípio de Peter. Para distrair da incompetência e da censura, Elon Musk lançou um inquérito aos utilizadores para saber se queriam que deixasse de ser o CEO. O “sim” venceu, o que é indiferente, porque há muito tinha anunciado que não tencio­nava ficar. Mas a comunicação social mordeu o isco, como sempre fez com Trump.

A apologia do “jornalismo-cidadão” esconde a dificuldade de Musk lidar com o escrutínio do jornalismo profissional. Há umas semanas, divulgou um trabalho de um freelancer que correspondia a documentos vazados pela sua empresa sobre a forma como durante 48 horas funcionários do Twitter tinham impedido, na administração anterior, a propagação de uma notícia do tabloide “New York Post” sobre o suposto conteúdo de um portátil do filho de Biden. No dia seguinte à publicação dos “Twitter Files”, Musk condenou o silêncio dos principais jornais. Mesmo correspondendo a acusações graves que confirmam o risco da concentração de poder e a falta de transparência na gestão destas redes, o “New York Times” revelou que foi ele que se negou a dar-lhes essa informação, preferindo disponibilizá-la a um jornalista que aceitasse fazer o trabalho sem acesso aos documentos na íntegra ou a certeza de que não teriam sido editados.

No meio de uma gestão caótica, Musk passou de intransigente defensor da liberdade de expressão à suspensão de contas de jornalistas e à proibição de links para outras plataformas. Quando os bilionários falam de liberdade, defendam as democracias. Só a sua própria liberdade, sem limites, os preocupa

Num país polarizado e com uma longa história de violência política, Musk espalha as teorias de conspiração que Trump adorava com o mesmo efeito pavloviano nas massas que o veneram: o antigo responsável pela política de moderação no Twitter, Yoel Roth, teve de mudar de casa depois de o multimilionário o lançar às feras. E veremos se Anthony Fauci, antigo responsável pelo combate à covid, que também tem sido seu alvo, não terá de lhe seguir o exemplo. Musk é tão perigoso como Trump para a democracia. Mas a uma escala global.

Depois de chamar “marionetas sem vergonha” aos reguladores que apontam o dedo às suas práticas empresariais, Musk suspendeu contas de meia dúzia de jornalistas que há vários anos escreviam sobre ele (algumas foram reativadas), inventando uma regra sobre a publicação de links para a conta que indica os voos e destino do seu jato privado. Pelo meio, anunciou uma funcionalidade que permite, a quem pague oito dólares por mês, pontuar as publicações no Twitter, reduzindo o alcance de alguns utilizadores, o que diminuirá a presença de correntes que lhe desagradam, transformando a rede numa caixa de ressonância de quem pensa como ele, que são os que vão pagar a mensalidade. Em poucas semanas, Musk passou de intransigente defensor da liberdade de expressão para a suspensão de jornalistas, proibição de links para outras plataformas e entrega de poder a quem mais paga para silenciar opiniões minoritárias na rede (não na sociedade). Sabemos que a concentração de poder político leva à tirania. Passa-se o mesmo com o poder económico. Parafraseando Robert Reich, que disse que “quando os bilionários falam de liberdade, vigiem as vossas carteiras”, diria: quando os bilionários falam de liberdade, defendam as democracias. Porque só a sua própria liberdade, sem limites, os preocupa.

© Expresso Impresa Publishing S.A.

SEMANÁRIO#2617 - 23/12/22

https://expresso.pt/opiniao/2022-12-23-O-imperio-de-um-troll-a4916a72


José Pacheco Pereira ·- Operações de busca e salvamento

 

Opinião

·        *  José Pacheco Pereira

·    Aqui vão algumas histórias de salvamentos feitos pelo Arquivo Ephemera.

24 de Dezembro de 2022, 7:03

Um ditado na ditadura do Estado Novo Arquivo Ephemera

Como estamos em festas, tiramos umas pseudoférias da agressividade política destes tempos e da conversação com a máquina da inteligência artificial (lá voltaremos) para a mais interessante tarefa de andar aos papéis, actividade a que eu e um bando de goliardos/as/es muito especial se dedica com grande pathos e considerável hubris.

Aqui vão algumas histórias de salvamentos feitos pelo Arquivo Ephemera, fiéis aos factos, mas imitando aquele twist que Mário Soares fazia, quando contava as suas histórias.

Os contentores no meio do campo

Um dia, à saída da missa, na igreja ao lado de casa, naqueles momentos em que numa pequena aldeia se socializa, um senhor disse-me que andava aos papéis, ou seja, era farrapeiro. O nome da profissão não é muito encomiástico, mas para os caçadores-recolectores é uma nobre profissão, quando se chega a tempo, antes dos farrapos. Disse-me que tinha uns livros a que ia arrancar as capas, visto que a cartolina das capas era mais valiosa do que o papel do miolo do livro e perguntou-me se eu queria ver e eventualmente comprar alguns. Queria, claro.

Fui ver. Estavam no meio de um campo em contentores, atirados para dentro como se fossem pedras, madeira ou restos de coisas, porque na verdade eram restos, só que restos muito especiais. Tirei um à sorte. Era uma primeira edição de Jorge Amado. “Compro tudo.” O preço era a peso, no seu conjunto, e ainda havia mais. “Há para lá uns papéis escuros.” “Traga tudo.” Ao todo seis toneladas descarregadas à pá de cestos de vindima. Felizmente não tinha chovido.

Era uma biblioteca e papéis de um autodidacta ribatejano e, como já escrevi, “os livros falam de mais”, e os papéis ainda mais. Era um autodidacta muito especial: agente da Polícia de Viação e Trânsito, integrado na GNR, e, depois de reformado, pastor evangélico. Muito provavelmente homossexual, a julgar pelas revistas pornográficas alemãs que possuía e pela transformação visual nas fotografias depois de sair da GNR. Talvez por isso a família vendeu tudo a peso no dia seguinte à sua morte.


O armazém onde os trolhas andavam em cima de papéis

A vantagem de ser um arquivo pouco ortodoxo que, entre outras estranhezas, tem uma equipa de futebol com camisolas apelando ao papel da conservação da memória e que vai a todo o lado aborrecer as pessoas com “estas coisas” é que dá resultados. É pouco ortodoxo e pouco sisudo, mas resulta.

Vários espólios valiosos têm sido salvos, porque empreiteiros e construtores civis viram falar na televisão ou nos jornais (como aqui) do valor documental dos papéis antigos. Há alguns anos recebi um contacto de um senhor que era responsável pela demolição (ou reparação) de um armazém na zona de Aveiro: “Os trolhas andam em cima de papéis, vocês querem?” Esta é a pergunta que não vale a pena fazer, mas que gostamos sempre de ouvir. Claro que queremos.

'Os trolhas andam em cima de papéis, vocês querem?' Esta é a pergunta que não vale a pena fazer, mas que gostamos sempre de ouvir

E lá vieram em caixotes, cheios de pó e caliça, nem mais nem menos do que um arquivo do MDP/CDE de Aveiro, do jornal Libertação, da JCP, da campanha de Zenha, etc. Correspondência, contabilidade, actas, livros de assinantes, artigos por publicar, cartazes, faixas, tudo. E este salvamento nestas circunstâncias – obras, demolições, limpeza de casas abandonadas para reabilitação – está longe de ser o único.

O partido despejado da sua sede

Um dia, há muito pouco tempo, recebeu-se ao fim da tarde um telefonema: “O CDS encerrou a sua sede de Coimbra e deitaram tudo fora na rua.” Como é que a esta hora se vai conseguir lá chegar antes de os papéis desaparecerem? Felizmente que há amigos e voluntários por todo o lado e em breve se conseguiu uma carrinha que da Figueira da Foz foi a Coimbra ao local indicado. Já não estava lá nada. “Mas há ali ao fundo uns contentores do lixo, vou lá ver.” E viu. Foram salvas pastas com correspondência, contabilidade, panfletos, cartazes, faixas e panos, documentação sobre a intervenção da Juventude Centrista na universidade, documentos sobre a passagem do CDS a CDS-PP, a campanha presidencial de Basílio Horta, etc., etc.

Veio tudo do lixo, e não é excepção. Felizmente nada estava estragado e tudo consideravelmente limpo. Vir do lixo não é novidade, há muitas histórias, desde uma senhora que descobriu que a vizinha da frente deitara para o lixo dezenas de pastas e embrulhos de documentos e recolheu-os. Salvou assim uma parte relevante da história da agricultura angolana, visto que os papéis eram de um alto funcionário administrativo, uma espécie de ministro da agricultura colonial. Ou uma outra senhora que durante dez anos recolheu muito daquilo que as famílias deitavam fora depois de um falecimento, organizou as fotos, as cartas, os documentos pessoais, permitindo assim valorizar o arquivo das “pessoas comuns”, que são mais do que se pensa incomuns, nas suas vidas anónimas e muitas vezes “mal vividas”.

São estes papéis que nos ensinam muito. Acima de tudo a confrontar as pessoas com aquilo que antigamente se dizia ser o olhar “humanista”, que cada vez mais se perde.

Aqui ficam, pois, três histórias para que sejam exemplares, ou seja, para que haja outras para contar. É propaganda? É, mas é de boas coisas. As más estão sempre em vantagem, e têm tudo a seu favor, pelo que se deve aproveitar tudo.

O autor é colunista do PÚBLICO

Historiador

https://www.publico.pt/2022/12/24/opiniao/opiniao/operacoes-busca-salvamento-2032586