segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Viriato Soromenho-Marques - 'Salus populi suprema lex esto'

* Viriato Soromenho Marques

Este título ("Que a salvação do povo seja a lei suprema") não consagra apenas uma das teses mais profundas e duradouras da herança romana, mas a própria essência da política em geral na tradição milenar do pensamento ocidental. Numa democracia representativa esse princípio deveria ser ainda mais imperativo, já que - como foi recordado por Lincoln em 1863 no cemitério militar de Gettysburg - o tipo ideal do sistema democrático constitucional é o do "governo do povo, pelo povo, para o povo". As peripécias do atual governo de maioria absoluta são, talvez, um indicador do crescente esgotamento das energias e competências não apenas do partido que ocupa sozinho as cadeiras do poder executivo, mas também sinal do aparente cansaço do sistema partidário de onde poderia brotar uma alternativa, e, atrevo-me a dizer, um sintoma de desvinculação da realidade por parte dos órgãos de soberania. A maior prova disso não se encontra nos episódios lamentáveis, mas menores, de biografias tortuosas de governantes, de gestores de falências com indemnizações milionárias, ou de sumptuosos altares nada condizentes com a humildade franciscana do Papa que o país receberá em breve. O problema reside no modo negligente, irrefletido e mimético como Governo, Assembleia da República e Presidência têm tratado a questão da guerra provocada pela invasão russa da Ucrânia.

UMA COISA é a justeza e o consenso nacional na condenação da invasão de um país reconhecido pela comunidade internacional, incluindo oferecer todo o apoio humanitário que nos seja possível para tornar menos penosa a vida dos refugiados ucranianos que nos procuram, ou ajudar as instituições de proteção civil e de saúde pública que na Ucrânia acodem as vítimas dos combates. Outra coisa bem diferente é entrar numa escalada militar de apoio ao governo de Kiev, seguindo em grande medida uma agenda de apoio bélico ditada pelo próprio, sem ponderar as consequências que daí poderão decorrer para a segurança global e, no que nos diz respeito, sobretudo nacional. Invocar a nossa pertença à OTAN ou à UE como motivo para imitar os aliados, sem o esforço de ponderação do nosso interesse próprio, é uma desculpa preguiçosa. Não temos qualquer obrigação militar perante a OTAN, pois o artigo 5.º da "defesa mútua" não se aplica ao caso presente da Ucrânia, país que não pertence à organização do Atlântico Norte. Nem a UE tem qualquer estrutura ou estratégia de defesa comum, desde que em 1954 gaulistas e comunistas abortaram o Tratado da Comunidade Europeia de Defesa no Parlamento de Paris.

Esta guerra é desde o seu início o evento internacional mais perigoso depois de 1945. Infelizmente, nos círculos políticos parece ser subestimado o facto de que cada acha na pira militar faz subir um grau no nível de hostilidades. Aumenta não só o número de vítimas, mas também o risco impensável, mas bem real nos arsenais atuais, de se resvalar para a twilight zone do confronto nuclear em larga escala. Qualquer governo europeu, incluindo o português, deveria colocar como prioridade máxima a salvaguarda da sua população contra o risco de o seu território ser um alvo direto ou indireto (através do fallout radioativo resultante de explosões nucleares). O entusiasmo belicista, bem patente na declaração pessoal de guerra que a MNE alemã fez a Moscovo, é visível também na Grã-Bretanha ou na Polónia. O brio castrense da maioria da opinião escrita, evoca o sinistro entusiasmo europeu nas primeiras semanas de agosto de 1914. Que a razão jurídica não esgota a complexidade do real, sobretudo quando se morre nos campos de batalha, é algo esquecido no atual jardim europeu, onde, com a modéstia lusa de sempre, procuramos fazer boa figura. Na verdade, será nos limites da razão de Estado das duas potências que contam, os EUA e a Rússia, que será decidido ou o cessar das hostilidades ou a escalada para a autodestruição geral.

A DIPLOMACIA é a capacidade de escutar as razões dos outros, sobretudo daqueles que são potenciais inimigos. Esta é uma guerra sem vitória possível e que poderia ter sido evitada diplomaticamente, se os países europeus, que partilham uma vizinhança histórica com a Rússia, tivessem tido maturidade e coragem para contrariar a obstinação dos EUA, nunca abandonada desde a cimeira de Bucareste em 2008, de integrar a Ucrânia na OTAN, apesar das reiteradas reservas e sucessivos alertas russos de que tal constituía uma inaceitável linha vermelha de segurança. Depois de iniciada a guerra, o que teria sido sensato seria travar diplomaticamente as hostilidades, garantindo o Estado ucraniano, deixando a questão territorial para negociações de segurança europeia posteriores. Reconstruir a paz será obra de muitos anos. O que importa agora é estancar a escalada da violência, cessando as hostilidades. Há exemplos dessa espécie de paz imperfeita: recorde-se que ainda não existe um tratado de paz entre as duas Coreias, apesar do fim dos combates em 1953; os Montes Golã separam, desde 1973, dois países, Israel e Síria, tecnicamente ainda em estado de guerra.

O caminho alternativo seguido com o abandono das negociações iniciais, foi o de apoiar militarmente Kiev, sem envolver a OTAN diretamente com forças no terreno. O pressuposto subjacente a essa posição parece-me irrealista e cruel. Irrealista, porque a ideia de que a Ucrânia, com apoio material da OTAN, poderia vencer sozinha a Rússia não resiste a uma análise objetiva mínima da relação de forças entre os dois países. Aliás, essa implícita subestimação das capacidades militares da Rússia, entra em total contradição com o fruste argumento usado por muitos partidários desse apoio militar, segundo o qual se a Rússia não for travada, Moscovo continuará a guerra para Ocidente. Cruel, na medida em que, embora enfraqueça a Rússia - como o secretário de Estado da Defesa, Lloyd Austin, definiu ser um dos objetivos dos EUA - continuará a implicar um enorme preço para a Ucrânia, pago em vidas, destruição de património, e perda de território.

TUDO INDICA que estamos nas vésperas de uma grande ofensiva russa. Se no rescaldo desse confronto, a posição de Kiev se tornar insustentável, os EUA e os seus aliados poderão ainda arriscar o confronto convencional direto com a Rússia. Nesse caso, teríamos atingido o culminar da loucura coletiva. Só quem acreditasse em milagres esperaria que uma Rússia derrotada por forças militares convencionais da OTAN não iria usar - como o fariam os EUA, a China, a França, ou a Grã-Bretanha se encurralados num beco sem saída semelhante - todo o seu potencial nuclear. Apesar de ter lido longamente Herman Kahn, na sua pregação nos anos 60 sobre a moderação na escalada nuclear, nunca acreditei que num contexto vertiginoso e infernal de cidades a serem vaporizadas, exista algum líder com sangue-frio para fazer cálculos de mitigação de danos no inimigo. Se ultrapassarmos o patamar nuclear nesta guerra, passaremos das relações internacionais para a teologia, da geopolítica para a encomendação das nossas próprias almas.

Já basta termos traído as gerações mais jovens, entregando-lhes um planeta em desagregação ambiental e climática. É tempo de a força da razão se sobrepor à temeridade insensata, disfarçada de coragem. Portugal deveria estar do lado do fim urgente das hostilidades, como primeiro e frágil passo para construir uma paz que a todos deve comprometer. Continuar a alimentar esta guerra, mais tarde ou mais cedo, terminará numa catástrofe irreversível.

Professor universitário
11 Fevereiro 2023 
https://www.dn.pt/opiniao/salus-populi-suprema-lex-esto-15815326.html

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Carmo Afonso - Ventura, Moedas e Montenegro — trio Odemira e trio Mouraria

* Carmo Afonso

Ventura, Moedas e Montenegro estão do mesmo lado e com um discurso alinhado. A xenofobia e as razões do mercado levam, afinal, às mesmas conclusões.


10 de Fevereiro de 2023Sobre imigração, André Ventura tem afirmado que temos de pensar qual queremos para Portugal e que, se mais ninguém tem coragem de o dizer, há o Chega para o fazer.

E disso já sabíamos. O Chega, com a adversativa do reconhecimento da necessidade de imigrantes, tem vindo a defender um discurso fortemente restritivo à entrada destes, para usar uma caracterização eufemística. Na verdade, o partido propaga uma mensagem anti-imigração e fazendo soar os alarmes da relação demográfica entre nacionais e imigrantes. Ainda em outubro do ano passado, e faltando à verdade como é costume, Ventura dizia que Lisboa tinha 500 mil habitantes, dos quais quase 300 mil eram imigrantes. Foi desmentido: os quase 300 mil estrangeiros vivem na Área Metropolitana de Lisboa, onde residem quase três milhões de pessoas. Nada de novo aqui.

As novidades chegaram esta semana com as declarações de Carlos Moedas e de Luís Montenegro a propósito do incêndio na Mouraria que vitimou dois migrantes e que pôs a nu o problema da falta de condições de habitação destas comunidades. Viviam naquele rés-do-chão 22 pessoas, numa situação absolutamente degradante. Todos sabemos que não são exceção e que em várias partes do país, com destaque para Lisboa e Odemira, imigrantes vivem em condições que nos envergonham e que incomodam.

O que aconteceu aos sobreviventes desalojados? Que medidas estão a ser tomadas para resolver o problema de habitação destas pessoas e a forma como estão a ser exploradas a nível laboral e nos preços que pagam por alojamentos indignos? Estas são preocupações naturais de quem soube daquela notícia.

Mas pode não ser esse o foco das preocupações de parte da classe política perante situações como a tragédia na Mouraria. Podem zelar pelo bem-estar mínimo de pessoas economicamente muito fragilizadas, que não dominam a língua portuguesa e que não têm qualquer rede de apoio neste país. Mas podem optar por proteger os portugueses de terem de se confrontar com a miséria criando medidas que restrinjam a entrada a imigrantes ou estrangeiros prósperos.

Moedas e Montenegro não hesitaram.

Moedas declarou que não deveria poder entrar em Portugal quem não tivesse previamente um contrato de trabalho, ou seja, vamos lá restringir isto. Claro que, se forem ricos, já a conversa é outra. Curiosamente, afirmou que esta questão não deve ser politizada. Se não tratarmos como políticas as questões relacionadas com a imigração, passamos a chamar a Carlos Moedas CEO de Lisboa em vez de presidente da câmara.

Montenegro foi ainda mais explícito. Disse que o Governo não deve meter a cabeça na areia e que deve encarar o problema, o que costuma ser a introdução para “dizer umas verdades”. Não desiludiu. Afirmou que temos de escolher quem é que queremos em Portugal para serem colaboradores do nosso desenvolvimento. Ora, desgraçados de Odemira e da Mouraria devem dar fracos colaboradores.

Várias questões aqui.

A primeira é o evidente uníssono entre os três destacados líderes da direita. Ventura, Moedas e Montenegro estão do mesmo lado e com um discurso alinhado. A xenofobia e as razões do mercado levam, afinal, às mesmas conclusões. Há pessoas a viver miseravelmente em Portugal. Pois a solução para isso é não deixarmos entrar mais miseráveis.

Por outro lado, depois de os socialistas terem aniquilado a oposição dos sociais-democratas na medida em que, a nível orçamental, têm vindo a seguir as políticas que estes tradicionalmente defendem, temos os sociais-democratas a tentar idêntica façanha com a agenda política da extrema-direita. E isto é notável.

Reparem que estamos a falar de um tema no qual o partido racista e xenófobo tem especial “propriedade”. As restrições à imigração são uma das mais importantes bandeiras do partido. Ao aproximarem-se desta forma do discurso de Ventura e num momento de luto pela morte de dois imigrantes, Moedas e Montenegro estão a marcar posição num território que estava reservado exclusivamente ao ideário do Chega.

Ventura afirmou na Assembleia da República que o Chega é o único partido com coragem para defender que devemos escolher os imigrantes que podem entrar em Portugal.

Não, André Ventura. Os dirigentes do PSD também estão cheios dessa coragem. A coragem para abrir as portas do país a quem não precisa e a de as fechar aos outros, os que estão desesperados por uma oportunidade, mesmo que seja um colchão imundo num rés-do-chão da Mouraria ou num contentor em Odemira. Afinal, era fácil.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2023/02/10/opiniao/opiniao/ventura-moedas-montenegro-trio-odemira-trio-mouraria-2038310


António Guerreiro - Contra as biografias

 Crónica Acção Paralela  

* António Guerreiro  

10 de Fevereiro de 2023,  

A ilusão biográfica consiste em fazer do biografado um indivíduo coerente que se vai tornando naquilo que é. Uma caricatura desta atitude é a das curtas biografias dos políticos nos jornais.

Nos últimos anos, talvez por influência da cultura anglo-americana, começaram a proliferar as biografias nas livrarias portuguesas e algumas até já as acomodam numa secção exclusiva devidamente assinalada, construindo assim um pequeno museu das grandes individualidades. Outrora, a biografia era um género que devia quase tudo à erudição; actualmente deve uma boa parte ao jornalismo e outra parte à edição, pois a biografia é sobretudo um “género editorial”. Partilha essa condição com o romance, tal como ele hoje é produzido, difundido e “encorajado” (um eminente crítico literário italiano escreveu um livro a exortar: “Não encorajar o romance”).

Chamo “género editorial” a um género que deve muito do seu sucesso e hegemonia à máquina editorial, por mais emperrada que ela esteja. Isto não significa que todos os romances publicados actualmente possam ser incluídos neste género. Mas tinha alguma razão um avisado crítico, ou até hipercrítico, especialista em diagnósticos, que escreveu: “o romance é o cancro da literatura”. Orientados pelo seu olhar clínico, podemos dizer que as biografias produzidas para responder às exigências do género editorial são metástases.

O volumoso caudal de matéria biográfica com que estamos confrontados merece que mencionemos um ensaio, publicado em 1930, por um génio da Alemanha de Weimar, que iniciou o adolescente Adorno na leitura de Kant, andou por vezes na proximidade da Escola de Frankfurt e atravessou diversas disciplinas sem obedecer aos protocolos de qualquer uma delas. Esse génio chama-se Siegfried Kracauer e, em 1930, escreveu um texto a que deu o título: A Biografia — Forma de Arte da Nova Burguesia.

Também ele começa por verificar que a biografia se tornou, no seu tempo, uma produção literária muito difundida. E sete anos mais tarde dará o seu contributo para alimentar o fenómeno, escrevendo uma biografia de Jacques Offenbach. Em boa verdade, apontar-lhe esta incoerência é um pouco injusto porque Offenbach é, para ele, apenas um pretexto: Paris do Segundo Império é o grande protagonista desse livro.

O texto de Kracauer é denso e complexo. Simplificando, digamos que ele entende que a ilusão biográfica fornece o sossego e bem-estar de que a “nova burguesia” carece. A ilusão biográfica consiste em fazer do biografado um indivíduo coerente, consciente, unitário, soberano, que se vai tornando progressivamente naquilo que é.

Uma caricatura desta atitude é a das curtas biografias dos políticos que às vezes os jornais publicam: aí, a história do biografado, desde a infância, torna-se quase sempre um destino. Trata-se sempre de personagens fadadas desde a infância para se tornarem, sem falhas, naquilo que são. Os biógrafos entendem quase sempre como obrigatória a passagem da vida do biografado para a sua obra. Ora, partir da obra para a vida é não apenas muito mais interessante, mas também mais próximo da verdade que toda a biografia visa.

Kracauer escreve numa altura em que a ideia da “morte do romance” era glosada convictamente, e ele também não evita esse tema sem derrames lutuosos. Ora, sendo o romance o género burguês que veio substituir a epopeia numa época em que já não era possível dar sentido a um herói épico, a biografia conserva, mesmo que com baixo teor, uma componente épica, uma positividade heróica.

O discurso de Kracauer sobre a biografia tem um aspecto histórico e outra sociológico. Há nele uma forte resistência ideológica à biografia que se deve essencialmente ao facto de se tratar de uma forma de literatura que satisfaz plenamente quem não quer arriscar um único passo para além do seu limite individual e para além da sua própria classe. É verdade que a forma literária da biografia, escreve Kracauer, é o signo de uma fuga, ou antes, de uma esquiva. Mas de uma esquiva muito conservadora, que só serve para dar algum suplemento de frescura ao lugar que se habita em segurança.

A elite da nova burguesia que concede tempo e privilégios à forma biográfica não se compromete seriamente em qualquer tipo de dialéctica e sente-se confortada com um género que tem a pretensão de erigir monumentos, mesmo que efémeros, aos grandes heróis. Heidegger, num célebre curso de 1924 sobre Aristóteles, resolveu de maneira categórica, como um epitáfio, a questão da monumentalização biográfica, dizendo que a única coisa a registar na biografia de um filósofo é que nasceu em tal época, trabalhou e morreu.

Livro de recitações

“[Héctor Bellerín] É um futebolista improvável: defensor de causas progressistas como a luta LGBTQIA+ e a luta antirracismo”
Carmo Afonso, in PÚBLICO, 6/2/2023

É possível vislumbrar um pressuposto ou mesmo um princípio ideológico no modo como se declina aquela série de letras maiúsculas que começam com um L e acabam com o sinal + . Há quem só escreva LGBT, há quem acrescente a contragosto mais umas letrinhas, há quem se sinta exausto quando chega ao + e reclame contra a perniciosa “ideologia do género”. Carmo Afonso, pelo contrário, é tão generosa na declinação que parece pertencer à categoria de quem cumpre sem protestos a longa justaposição de letras maiúsculas, com um + a rematar. A quem acha que há ali letras a mais, é preciso dizer que o que é próprio do género é a proliferação e a invenção. O sinal + serve para dizer que a série tende para o infinito e não há letras maiúsculas que cheguem, haverá sempre quem fica fora da representação. Isto é novo? Não, foi sempre assim. Só que era quase tudo sem nome.

https://www.publico.pt/2023/02/10/culturaipsilon/cronica/biografias-2038081


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Luís Miguel Queirós - Produção de Beckett cancelada por restringir audições a homens

 Teatro

Produção de Beckett cancelada por restringir audições a homens

Encenador cumpriu instruções do dramaturgo, mas foi acusado de violar política de inclusão da universidade holandesa de Groningen.

Luís Miguel Queirós

7 de Fevereiro de 2023

A peça À Espera de Godot, encenada por Gábor Tompa, no Teatro Nacional São João, em 2021 TUNA

Uma encenação de À Espera de Godot, de Samuel Beckett, cuja estreia estava prevista para Março no Centro Cultural de Estudantes Usva, da universidade holandesa de Groningen, foi cancelada quando a instituição soube que as audições para os cinco papéis masculinos da peça só tinham sido abertas a actores desse mesmo sexo.

O jovem irlandês que estava a dirigir a encenação, Oisín Moyne, de 24 anos, tentou argumentar que o próprio Samuel Beckett deixara instruções para que a peça fosse representada por cinco intérpretes do sexo masculino, e que desrespeitar essa indicação colocava a companhia em risco de ser processada pelos herdeiros do dramaturgo, mas a Universidade de Groningen manteve a sua decisão de cancelar o espectáculo, alegando que este violara a sua “política de inclusão”.

O responsável pela programação teatral do Usva, Bram Douwes, secundou a posição da universidade. “Se se tratasse de uma peça com cinco tipos brancos para a qual tivessem aberto audições, estaria tudo bem, mas o que não podem é banir pessoas logo à partida”, afirmou Douwes ao jornal universitário Ukrant.

A assessora de imprensa da Universidade, Elies Kouwenhoven, reconhece que Beckett “declarou explicitamente que esta peça devia ser interpretada por cinco homens”, mas argumenta que “os tempos mudaram” desde que a peça foi apresentada pela primeira vez em 1953, e que “a ideia de que só os homens são adequados a estes papéis está datada e é mesmo discriminatória”. E concluiu: “Nós, como universidade, defendemos uma comunidade aberta e inclusiva, na qual não é apropriado excluir outros seja com que bases for.”

A administradora do Usva, Fay Sterken, explicou ao Ukrant que o centro só soube que as audições tinham sido exclusivamente para homens há cerca de duas semanas, quando a preparação do espectáculo já ia adiantada, com ensaios a decorrer desde Novembro. “Descobrimos que a companhia [intitulada GUTS – acrónimo de Groningen University Theatre Society] tinha assinado a cláusula ‘só homens’, e isso foi um choque, porque realmente não podemos concordar com ela por razões de princípio”.

Oisín Moyne, que estudou Física na Universidade de Groningen e acabou por se radicar na cidade holandesa, onde hoje trabalha, explicou ao jornal irlandês Irish Times que tinha considerado abrir as audições a todas as pessoas, mas que não o fez por causa das regras estabelecidas por Beckett pouco antes da sua morte, as quais têm sido defendidas pelos herdeiros legais da sua obra, que só entrará no domínio público em 2059.

A produtora da peça, Medeea Anton, em declarações ao mesmo jornal, defendeu que a decisão de cancelar a peça se centrou nos actores, ignorando o papel de toda a restante equipa. “Havia uma restrição quanto aos actores, que são apenas cinco, mas o resto da equipa de produção é maioritariamente feminina, e também temos pessoas trans e não-binárias”, informou Medeea Anton, acrescentando que “a maioria da equipa de produção é da comunidade LGTB”.

A produtora diz que tentou explicar aos responsáveis da universidade que se tratava apenas de uma questão legal, mas que não conseguiu fazê-los mudar de ideias. “Somos uma pequena companhia amadora, que não se pode arriscar a ser processada”, observou.

E não faltam precedentes para demonstrar que o risco seria real. Recordando que o próprio Beckett, em 1988, pouco antes de morrer, processou uma companhia holandesa por ter aberto as audições da peça a mulheres, o Irish Times observa que os seus herdeiros se têm mantido fiéis às instruções deixadas pelo dramaturgo.

Em 1991, a companhia Brut de Beton tentou apresentar um À Espera de Godot com um elenco exclusivamente feminino no Festival de Avignon e o caso chegou a tribunal, com o juiz a proferir uma decisão algo salomónica, permitindo a apresentação da peça, mas obrigando a que fosse lida, antes de cada récita, a carta em que os representantes legais do autor expunham as suas objecções.

Outra encenação da peça com cinco actrizes foi cancelada em 2019 num colégio do Ohio, nos Estados Unidos, por assumido receio de que os herdeiros de Beckett processassem a instituição.

Já a companhia de teatro londrina Silent Faces criou, em 2021, uma paródia às regras de género impostas à obra de Samuel Beckett com o espectáculo Godot Is a Woman (Godot É Uma Mulher), cujo texto promocional abria com esta cronologia: “Em 1953 um homem escreveu uma peça sobre esperar; em 1988 processou cinco mulheres por tentarem interpretá-la; em 2001 Madonna lançou What It Feels Like for a Girl; estamos em 2021 e continuamos à espera.”

Em Dezembro de 2021, depois de uma estreia cancelada em Março – mas esta por causa da pandemia –, o encenador romeno Gábor Tompa levou ao palco do Teatro Nacional São João, no Porto, uma nova encenação de À Espera de Godot na qual o papel de Lucky é interpretado pela actriz Maria Leite, escolha que, tanto quanto se sabe, não deu origem a nenhum processo judicial.

Quando percebeu, neste início de 2023, que não ia mesmo conseguir apresentar a sua encenação da peça na Universidade de Groningen, Oisín Moyne, provavelmente ironizando com o facto de o próprio texto de Beckett tratar do absurdo da existência, confessou ao jornal Irish Times: “Diria com inteira sinceridade que a minha vida, nestas últimas semanas, se tornou totalmente absurda.” E o encenador contou ainda que, no elenco e na equipa de produção, já corria a piada de que agora estavam, todos eles, à espera de Godot.

Moyne adianta que está a procurar outro espaço que receba a peça, para que o trabalho já feito não seja desperdiçado, e manifesta a esperança de que o centro cultural Usva use as datas agora libertadas no calendário da programação para acolher "uma iniciativa que promova a inclusão no teatro".

https://www.publico.pt/2023/02/07/culturaipsilon/noticia/producao-beckett-cancelada-restringir-audicoes-homens-2038010?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

80º aniversário da vitória de Estalinegrado - discurso de Putin


Presidente da Rússia Vladimir Putin : 

Companheiros cidadãos russos,

Caros veteranos,

Camaradas soldados e marinheiros, sargentos e sargentos majores, aspirantes e subtenentes,

Camaradas oficiais, generais e almirantes,

Parabenizo vocês pelo Dia da Grande Vitória!

A defesa de nossa Pátria quando seu destino estava em jogo sempre foi sagrada. Foi o sentimento de verdadeiro patriotismo que a milícia de Minin e Pozharsky defendeu a Pátria, os soldados partiram para a ofensiva no Campo Borodino e lutaram contra o inimigo fora de Moscou e Leningrado, Kiev e Minsk, Stalingrado e Kursk, Sebastopol e Kharkov.

Hoje, como no passado, vocês estão lutando por nosso povo em Donbass, pela segurança de nossa pátria, pela Rússia.

O dia 9 de maio de 1945 ficou para sempre consagrado na história mundial como um triunfo do povo soviético unido, sua coesão e poder espiritual, um feito sem paralelo nas linhas de frente e na frente doméstica.

O Dia da Vitória é intimamente querido por todos nós. Não há família na Rússia que não tenha sido queimada pela Grande Guerra Patriótica. Sua memória nunca se apaga. Neste dia, filhos, netos e bisnetos dos heróis marcham em um fluxo interminável do Regimento Imortal. Eles carregam fotos de seus familiares, dos soldados caídos que permaneceram jovens para sempre e dos veteranos que já se foram.

Temos orgulho da geração corajosa invicta dos vencedores, temos orgulho de ser seus sucessores, e é nosso dever preservar a memória daqueles que derrotaram o nazismo e nos confiaram a vigilância e tudo fazer para frustrar o horror de outra guerra global.

Portanto, apesar de todas as controvérsias nas relações internacionais, a Rússia sempre defendeu o estabelecimento de um sistema de segurança igual e indivisível que é extremamente necessário para toda a comunidade internacional.

Em dezembro passado, propusemos a assinatura de um tratado sobre garantias de segurança. A Rússia instou o Ocidente a manter um diálogo honesto em busca de soluções significativas e comprometedoras e a levar em conta os interesses de cada um. Tudo em vão. Os países da OTAN não queriam nos atender, o que significa que eles tinham planos totalmente diferentes. E nós vimos.

Outra operação punitiva em Donbass, uma invasão de nossas terras históricas, incluindo a Crimeia, estava abertamente em andamento. Kiev declarou que poderia obter armas nucleares. O bloco da OTAN lançou um acúmulo militar ativo nos territórios adjacentes a nós.

Assim, uma ameaça absolutamente inaceitável para nós estava sendo constantemente criada em nossas fronteiras. Havia todas as indicações de que um confronto com neonazistas e banderitas apoiados pelos Estados Unidos e seus asseclas era inevitável.

Deixe-me repetir, vimos a infraestrutura militar sendo construída, centenas de conselheiros estrangeiros começando a trabalhar e suprimentos regulares de armamento de ponta sendo entregues pelos países da OTAN. A ameaça crescia a cada dia.

A Rússia lançou um ataque preventivo à agressão. Foi uma decisão forçada, oportuna e a única correta. Uma decisão de um país soberano, forte e independente.

Os Estados Unidos começaram a reivindicar seu excepcionalismo, principalmente após o colapso da União Soviética, denegrindo assim não apenas o mundo inteiro, mas também seus satélites, que têm que fingir não ver nada e tolerar obedientemente.

Mas somos um país diferente. A Rússia tem um caráter diferente. Jamais abriremos mão de nosso amor pela Pátria, nossa fé e valores tradicionais, costumes de nossos ancestrais e respeito por todos os povos e culturas.

Enquanto isso, o Ocidente parece estar pronto para cancelar esses valores milenares. Tal degradação moral está subjacente às falsificações cínicas da história da Segunda Guerra Mundial, aumentando a russofobia, elogiando os traidores, zombando da memória de suas vítimas e riscando a coragem daqueles que conquistaram a Vitória através do sofrimento.

Estamos cientes de que os veteranos dos EUA que queriam vir ao desfile em Moscou foram proibidos de fazê-lo. Mas quero que saibam: estamos orgulhosos de seus feitos e de sua contribuição para nossa Vitória comum.

Honramos todos os soldados dos exércitos aliados – americanos, ingleses, franceses, combatentes da Resistência, bravos soldados e guerrilheiros na China – todos aqueles que derrotaram o nazismo e o militarismo.

Camaradas,

A milícia Donbass ao lado do exército russo está lutando em suas terras hoje, onde os retentores dos príncipes Svyatoslav e Vladimir Monomakh, soldados sob o comando de Rumyantsev e Potemkin, Suvorov e Brusilov esmagaram seus inimigos, onde os heróis da Grande Guerra Patriótica Nikolai Vatutin, Sidor Kovpak e Lyudmila Pavlichenko ficou até o fim.

Estou me dirigindo às nossas Forças Armadas e à milícia Donbass. Você está lutando por nossa Pátria, seu futuro, para que ninguém esqueça as lições da Segunda Guerra Mundial, para que não haja lugar no mundo para torturadores, esquadrões da morte e nazistas.

Hoje, inclinamos nossas cabeças para a memória sagrada de todos aqueles que perderam suas vidas na Grande Guerra Patriótica, as memórias dos filhos, filhas, pais, mães, avôs, maridos, esposas, irmãos, irmãs, parentes e amigos.

Curvamos nossas cabeças à memória dos mártires de Odessa que foram queimados vivos na Casa dos Sindicatos em maio de 2014, à memória dos velhos, mulheres e crianças de Donbass que foram mortos em bombardeios atrozes e bárbaros por neonazistas . Nós inclinamos nossas cabeças para nossos camaradas de combate que morreram uma morte corajosa na batalha justa – pela Rússia.

Declaro um minuto de silêncio.

(Um minuto de silêncio.)

A perda de cada oficial e soldado é dolorosa para todos nós e uma perda irreparável para as famílias e amigos. O governo, autoridades regionais, empresas e organizações públicas farão tudo para envolver essas famílias em cuidados e ajudá-las. Será dado apoio especial aos filhos dos camaradas de armas mortos e feridos. A Ordem Executiva Presidencial para este efeito foi assinada hoje.

Desejo uma rápida recuperação aos soldados e oficiais feridos e agradeço aos médicos, paramédicos, enfermeiros e funcionários dos hospitais militares por seu trabalho altruísta. Nossa mais profunda gratidão vai para você por salvar cada vida, muitas vezes não poupando nenhum pensamento para si mesmo sob bombardeios nas linhas de frente.

Camaradas,

Soldados e oficiais de muitas regiões da nossa enorme Pátria, incluindo aqueles que chegaram direto do Donbass, da área de combate, estão agora ombro a ombro aqui, na Praça Vermelha.

Lembramos como os inimigos da Rússia tentaram usar gangues terroristas internacionais contra nós, como eles tentaram semear conflitos interétnicos e religiosos para nos enfraquecer por dentro e nos dividir. Eles falharam completamente.

Hoje, nossos guerreiros de diferentes etnias estão lutando juntos, protegendo-se de balas e estilhaços como irmãos.

É aqui que reside o poder da Rússia, um grande poder invencível de nossa nação multiétnica unida.

Você está defendendo hoje o que seus pais, avôs e bisavós lutaram. O bem-estar e a segurança de sua pátria eram sua principal prioridade na vida. A lealdade à nossa Pátria é o principal valor e uma base confiável da independência da Rússia para nós, seus sucessores também.

Aqueles que esmagaram o nazismo durante a Grande Guerra Patriótica nos mostraram um exemplo de heroísmo para todas as idades. Esta é a geração de vencedores, e sempre os admiraremos.

Glória às nossas heróicas Forças Armadas!

Para a Rússia! Para a vitória!

Viva!

https://vermelho.org.br/2022/05/10/contra-expectativas-discurso-do-dia-da-vitoria-de-putin-nem-citou-ucrania/

sábado, 21 de janeiro de 2023

Eugénio de Andrade - Poema XVIII

 * Eugénio de Andrade

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.
Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

 

Trazer nos versos a «consciência do mundo» - Evocação de Eugénio de Andrade (1923/2005) no centenário do seu nascimento

ª Domingos Lobo


Jorge Pi­nheiro

Eu­génio de An­drade, pseu­dó­nimo li­te­rário de José Fon­ti­nhas Neto, nasceu em Póvoa de Ata­laia, con­celho do Fundão, a 19 de Ja­neiro de 1923. Filho de cam­po­neses, o pai aban­donou a fa­mília era Eu­génio ainda cri­ança. Aos oito anos, mudou-se com a mãe para Cas­telo Branco, numa pas­sagem breve, fi­xando-se em Lisboa a partir de 1932. Na ca­pital fre­quen­tará o liceu Passos Ma­nuel e a Es­cola Téc­nica Ma­chado de Castro.

A vo­cação li­te­rária de Eu­génio de An­drade foi pre­coce, co­meça a ma­ni­festar-se por volta dos seus doze, treze anos. O gosto pela lei­tura leva-o a fre­quentar as bi­bli­o­tecas pú­blicas de Lisboa, a des­co­brir o mundo vasto e fan­tás­tico da lei­tura dado que, diz-nos ele em Rosto Pre­cário, «em casa havia apenas um só livro, uma Vida de Santos que nin­guém lia». Jack London, Júlio Verde, todo o Eça, Ale­xandre Dumas, Tolstoi, Gorki, Jun­queiro e Aqui­lino, fazem parte do ro­teiro das suas lei­turas de ado­les­cente.

Inicia a es­crita dos seus pri­meiros po­emas por volta dos treze anos, ar­ris­cando en­viar al­guns deles a An­tónio Botto, ao tempo um poeta fa­moso quer pelo es­tilo quer pelo modo trans­gressor dos con­teúdos, so­bre­tudo a partir da pu­bli­cação do seu livro Can­ções. Botto gosta dos po­emas do jovem José Fon­ti­nhas e in­cen­tiva-o a es­crever mais e a pu­blicar. É a partir deste in­cen­tivo que pu­bli­cará, em 1939, aos de­zas­seis anos, o seu pri­meiro poema, quase pu­eril, in­ti­tu­lado Nar­ciso, poema «sobre a be­leza que se con­templa e se com­praz em si mesma», con­fes­sará em Rosto Pre­cário, poema em que a in­fluência de Botto, as suas co­or­de­nadas es­té­ticas, está muito pre­sente.

Pas­sará, a partir da pu­bli­cação desse poema, a as­sinar os seus textos com o pseu­dó­nimo Eu­génio de An­drade, com o qual pas­sará a cu­nhar todos os tí­tulos da sua vasta e po­lié­drica obra. Em 1942 pu­bli­cará Ado­les­cente, o seu livro de es­treia. Mais tarde re­ti­rará este livro da sua bi­bli­o­grafia, con­si­de­rando que a sua ver­da­deira voz poé­tica ainda não es­tava nele pre­sente. A ver­dade é que a in­fluência de Botto, e de Pessoa, cuja po­esia co­nheceu através do poeta de Bai­o­netas da Morte, está, nesse livro ini­cial, muito vin­cada.

Uma voz pró­pria e in­con­fun­dível

Eu­génio pro­cu­rava a sua iden­ti­dade, uma voz que fosse sua e in­con­fun­dível, e essa voz co­meça a de­finir-se nos seus Pri­meiros Po­emas (1940), que ele, sim­bo­li­ca­mente, de­dica a Fer­nando Pessoa. Esses mag­ní­ficos versos trans­portam já os si­nais da sua voz plena e fu­tura, como em Canção, que se trans­for­mará num dos seus mais fa­mosos e an­to­lo­gi­ados po­emas: Tinha um cravo no meu balcão;/​veio um rapaz e pediu-mo/- ​mãe, dou-lho ou não?//​Sen­tada, bor­dava um lenço de mão;/​veio um rapaz e pediu-mo/- ​mãe, dou-lho ou não?//​Dei um cravo e dei um lenço,/​só não dei o co­ração;/​mas se o rapaz mo pedir/-​mãe, dou-lho ou não?

Essa voz ma­dura e res­so­nante, surge, já de­fi­nida e vi­go­rosa, no livro As Mãos e os Frutos, de 1948, livro que o tor­nará um poeta re­co­nhe­cido e sin­gular, aplau­dido pela crí­tica e pelos lei­tores que, a partir deste, o des­co­brem. As Mãos e os Frutos é ainda hoje um dos seus tí­tulos mais em­ble­má­ticos, ao qual se jun­tará, já nos anos 1960, essa obra-prima da nossa po­esia con­tem­po­rânea que é Os­ti­nato Ri­gore.

Os temas e o lé­xico que farão parte cons­tante do seu modo poé­tico, estão já ple­na­mente de­fi­nidos e pre­sentes em As Mãos e os Frutos, como o amor sem sombra de amar­gura, os ma­dri­gais, que ele vai buscar a Pêro Meogo, a na­tu­reza, as ár­vores, os pás­saros, a água, os barcos, a noite, o fas­cínio pelo corpo, pelos corpos, a que José Sa­ra­mago cha­mará «po­esia do corpo, a que chega me­di­ante uma de­pu­ração con­tínua», o amor pela mãe, o li­rismo pró­ximo da ma­téria dos so­nhos, como neste be­lís­simo poema de amor ao qual Luís Cília daria mú­sica e voz, trans­for­mando-o numa das nossas can­ções dos anos som­brios, onde a vida e a es­pe­rança se mis­turam e vi­bram: Fe­cundou-te a vida nos pi­nhais./​Fe­cundou-te de seiva e de calos. /alargou-te o corpo pelos areais/​onde o mar se es­praia sem con­torno e cor.//​Pôs-te sonho onde havia apenas/​si­lêncio de rosas por abrir,/​e um jeito nas mãos mo­renas/​de que sabe que o fruto há-de surgir.//​Brotou água onde tudo era se­cura./​Paz onde mo­rava a so­lidão/​E a cer­teza de que a se­pul­tura/​é uma cova onde não cabe o co­ração.

No seu livro se­guinte, Os Amantes Sem Di­nheiro (1949), Eu­génio es­creve num texto in­tro­du­tório, re­fe­rindo-se à sua terra de nas­ci­mento e aos anos que aí viveu, re­ve­lador de al­guns dos as­pectos, das me­mó­rias afec­tivas e das re­la­ções mais fe­cundas e pe­renes, a re­lação de amor/​li­ber­tação com a pro­ge­ni­tora é pa­ra­dig­má­tica, pre­sentes na sua obra poé­tica: Da casa da Eira só me lembro do quar­tito que se se­guia à co­zinha. Um ta­bique se­pa­rava-nos da casa da Ti Ana, uma ve­lhota a quem minha mãe às vezes me dei­xava a guardar. […] Uma manhã acordei so­zinho em casa. Acordei a chorar. – Ó mãe, mãe… - Mas a mãe não vinha. Não havia mãe. Havia só a porta fe­chada. […] E nin­guém me abriu a porta para apa­nhar as es­trelas. Nem mesmo tu, mãe, que a essas horas an­davas a ga­nhar o pão para a boca da­quele que hoje te ofe­rece estes versos.

Em Os Amantes Sem Di­nheiro, Eu­génio ins­creve uma série de po­emas in­tem­po­rais, que são ainda hoje re­fe­ren­ciais do seu uni­verso poé­tico. Po­emas como Os Amantes Sem Di­nheiro, que dá tí­tulo ao livro, Poema à Mãe Adeus, cons­ti­tuem-se na sua vasta obra poé­tica mo­mentos raros e su­blimes, que le­varam Óscar Lopes a con­si­derá-lo o mais per­feito dos po­etas por­tu­gueses, sendo também o de maior pú­blico, e Edu­ardo Lou­renço a re­ferir a sua obra como A pri­meira e a mais pura ex­pressão da po­esia como ar­qui­tec­tura do real, a mais lím­pida ma­ni­fes­tação da en­trega sem re­servas aos sor­ti­lé­gios do “puro poé­tico”.

Co­or­de­nadas poé­ticas

A ne­gação do luxo, da su­per­fi­ci­a­li­dade, do egoísmo da vida con­tem­po­rânea, a de­núncia do aces­sório, da fu­ti­li­dade e dos hor­rores da guerra, são ou­tras das co­or­de­nadas que a sua po­esia também ma­ni­festa. No livro de 1951, As Pa­la­vras In­ter­ditas, es­creve no poema Não é Ver­dade, a sua in­dig­nação: Não é ver­dade tanta loja de per­fumes, não é ver­dade tanta rosa de­ce­pada,/​tanta ponte de fumo, tanta roupa es­cura,/​tanto re­lógio, tanta pomba as­sas­si­nada//​Não quero para mim tanto ve­neno,/​tanta ma­dru­gada var­rida pelo gelo,/​nem olhos pin­tados onde morre o dia,/​nem beijos de lá­grimas no meu ca­belo. No poema que dá tí­tulo ao livro, gri­tará a re­volta e a so­lidão do nosso flu­tu­ante e amargo modo de estar vivo, numa lin­guagem que vei­cula o que é hu­mano, como bem o en­tendeu Óscar Lopes: Dói-me esta água, este ar que se res­pira,/ dói-me esta so­lidão de pedra es­cura,/​estas mãos noc­turnas onde aperto/​os meus dias que­brados na cin­tura.//​E a noite cresce apai­xo­na­da­mente./​Nas suas mar­gens nuas, de­so­ladas,/​cada homem tem apenas para dar/​um ho­ri­zonte de ci­dades bom­bar­de­adas.

Já pro­fis­si­onal do Mi­nis­tério da Saúde, teve uma breve pas­sagem por Coimbra (1943/​1946), onde es­ta­be­lece ami­zade com Mi­guel Torga e con­vive com ou­tros po­etas e crí­ticos de ge­ra­ções e op­ções es­té­ticas di­versas, como Carlos de Oli­veira, Paulo Quin­tela, Afonso Du­arte e Edu­ardo Lou­renço. No en­tanto, a sua fi­li­ação li­te­rária, de­pois das in­fluên­cias ini­ciais de Botto, Pessoa e Ca­sais Mon­teiro, mais Rim­baud, Lorca, Walt Whitman, es­ta­be­lece-se com os po­etas do de­no­mi­nado grupo dos in­de­pen­dentes, ou seja, dos po­etas que não per­ten­ciam às duas cor­rentes li­te­rá­rias então do­mi­nantes: o ne­or­re­a­lismo e o pre­sen­cismo. Po­etas como Sophia de Mello Breyner An­dresen, Jorge de Sena, Na­tália Cor­reia e An­tónio Ramos Rosa, nas­cidos entre 1919 (Sena e Sophia), 1923 (Na­tália) e 1924 (Ramos Rosa), terão per­ten­cido a esse inor­gâ­nico grupo, tendo apenas em comum, com maior ou menor ex­pressão, a sua pre­clara opo­sição ao re­gime fas­cista. As pro­du­ções poé­ticas destes au­tores não dei­xaram, a es­paços, de re­flectir esse po­si­ci­o­na­mento cí­vico de um modo ge­né­rico, em­bora, e por vezes, ide­o­lo­gi­ca­mente con­fuso.

Co­lo­cado pro­fis­si­o­nal­mente no Porto, como ins­pector ad­mi­nis­tra­tivo do Mi­nis­tério da Saúde, será nessa ci­dade que pa­recia um sin­di­cato de viúvas, na ex­pressão de João Vil­laret, que irá es­ta­be­lecer-se a partir de 1950, aí vi­vendo até ao final dos seus dias, sendo con­si­de­rado um dos seus mais ilus­tres ha­bi­tantes. Aí co­nhe­cerá José da Cruz Santos, esse mestre das edi­ções exem­plares, seu editor e cúm­plice, tendo grande parte da sua obra sido pu­bli­cada pela mí­tica edi­tora Inova.

Poeta como pe­dreiro

Em vá­rias en­tre­vistas, Eu­génio fala-nos da re­vo­lução dos cravos e do País em que muita coisa mudou e as­sume no livro Epi­tá­fios, o seu po­si­ci­o­na­mento po­lí­tico, em belos e sim­bó­licos po­emas, como este O Comum da Terra, to­cante tri­buto a Vasco Gon­çalves, re­cor­dando também os dias altos e ful­gu­rantes de Abril, mas já a de­nun­ciar as mar­gens que o in­cen­di­avam: Nesses dias era sí­laba a sí­laba que che­gavas/​Quem co­nheça o sul e a sua trans­pa­rência/​também sabe que no verão pelas ve­redas/​da cal a cris­pação da sombra ca­minha de­vagar./​De tanta pa­lavra que dis­seste al­gumas/​se per­diam, ou­tras duram ainda, são lume/​breve arado ceia de pobre roupa re­men­dada./​Ha­bi­tavas a terra, o comum da terra, e a paixão/​era mo­rada e ins­tru­mento de ale­gria.//​Esse eras tu: in­cli­nação da água. Na margem/​vento areias mas­tros lá­bios, tudo ardia.

Neste mesmo livro, mais um dos seus po­emas an­to­ló­gicos, es­crito ainda nos dias som­brios do ca­e­ta­nismo, mas já inun­dado pelas águas in­qui­etas do porvir, anun­ci­ador das pa­la­vras que é ur­gente se­mear, pa­la­vras que aguardam na noite o sol e o vinho que ha­ve­ríamos de beber em redor do fogo: Elegia das Águas Ne­gras Para Che Gue­vara – Olhos aper­tados pelo medo/​aguardam na noite o sol onde cresces,/​onde te con­fundes com os ramos/​de sangue do verão ou o rumor/​dos pés brancos da chuva nas areias.//​A pa­lavra, como tu di­zias, chega/​hú­mida dos bos­ques: temos que semeá-la;/​chega hú­mida da terra: temos que de­fendê-la;/​chega com as an­do­ri­nhas/​que a be­beram sí­laba a sí­laba na tua boca.//​Cada pa­lavra tua é um homem de pé,/​cada pa­lavra tua faz do or­valho uma faca,/​faz do ódio um vinho ino­cente/​para be­bermos con­tigo/​no co­ração em redor do fogo.

Um outro poema ainda, in­tenso e ma­goado, que nos fala de José Dias Co­elho e de Ca­ta­rina, da morte de ambos às mãos do puro ódio fas­cista: […] di­zias: es­paço diurno onde o rumor/​do sangue é um rumor de ave -/​re­para como voa, e poisa nos om­bros/​da Ca­ta­rina que não cessam de matar.//​Sem vo­cação para a morte, di­zíamos. Também/​ela, também ela a não tinha. Na pla­nície/ branca era uma fonte: em si trazia/​um co­ração in­cli­nado para a se­mente do fogo.//​Ca­ta­rina ou José – o que é um nome?/​Que nome nos im­pede de morrer,/​quando se beija a terra de­vagar/​ou uma cri­ança tra­zida pela brisa?

Ao lermos estes po­emas de Eu­génio, e os sig­ni­fi­cantes que os es­tru­turam, ape­tece-nos dizer como Ramos Rosa: Rei Midas do verbo: pa­lavra que to­casse vi­rava ouro de lei.

Tra­dutor de Lorca, das Cartas Por­tu­guesa, atri­buídas a Ma­riana Al­co­fo­rado, dos po­emas de Safo; or­ga­ni­zador de di­versas an­to­lo­gias; Prémio Ca­mões, em 2001, Grande Ofi­cial da Ordem Mi­litar de San­tiago da Es­pada, pré­mios da Crí­tica e da APE; poeta da ple­ni­tude e da es­pe­rança, poeta maior de um fir­ma­mento de no­tá­veis, Eu­génio de An­drade con­si­de­rava que o seu tra­balho de poeta seria um ofício equi­pa­rado ao de um pe­dreiro, pro­fissão que fora a do seu avô: Ele usava o gra­nito como ma­te­rial, as suas casas estão ainda de pé; o neto tra­balha com po­eira, sem ne­nhuma pre­tensão de de­sa­fiar o tempo.

Quando as pa­la­vras de um poeta nos tocam, esse acto em cons­trução, pri­mor­dial do ser, o poema é subs­tância e ar­gila. Pode moldar a nossa forma de en­tender e de ha­bitar o mundo e dar-nos cons­ci­ência do modo como o po­demos trans­formar. Eu­génio de An­drade é um desses raros po­etas. Por isso, con­nosco ca­minha. Para sempre.

Bi­bli­o­grafiaObras de Eu­génio de An­drade; Pre­fácio de Óscar Lopes para An­to­logia Breve – Inova, 1972; A Po­esia Por­tu­guesa nos Me­ados do Sé­culo XX, de Maria de Fá­tima Ma­rinho, Ca­minho, 1987; In­ci­sões Oblí­quas, de An­tónio Ramos Rosa, Ca­minho, 1987; Ci­fras do Tempo, de Óscar Lopes, Ca­minho, 1990.


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