Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023
Viriato Soromenho-Marques - 'Salus populi suprema lex esto'
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023
Carmo Afonso - Ventura, Moedas e Montenegro — trio Odemira e trio Mouraria
* Carmo Afonso
Ventura, Moedas e Montenegro estão do mesmo lado e com um discurso alinhado. A xenofobia e as razões do mercado levam, afinal, às mesmas conclusões.
10 de Fevereiro de 2023Sobre
imigração, André Ventura tem afirmado que temos de pensar qual queremos para
Portugal e que, se mais ninguém tem coragem de o dizer, há o Chega para o
fazer.
E disso já sabíamos. O Chega, com
a adversativa do reconhecimento da necessidade de imigrantes, tem vindo a
defender um discurso fortemente restritivo à entrada destes, para usar uma
caracterização eufemística. Na verdade, o partido propaga uma mensagem anti-imigração
e fazendo soar os alarmes da relação demográfica entre nacionais e imigrantes.
Ainda em outubro do ano passado, e faltando à verdade como é costume, Ventura
dizia que Lisboa tinha 500 mil habitantes, dos quais quase 300 mil eram
imigrantes. Foi desmentido: os quase 300 mil estrangeiros vivem na Área
Metropolitana de Lisboa, onde residem quase três milhões de pessoas. Nada de
novo aqui.
As novidades chegaram esta semana
com as declarações de Carlos Moedas e de Luís Montenegro a
propósito do incêndio na Mouraria que vitimou dois migrantes e que pôs a nu
o problema da falta de condições de habitação destas comunidades. Viviam
naquele rés-do-chão 22 pessoas, numa situação absolutamente degradante. Todos
sabemos que não são exceção e que em várias partes do país, com destaque para
Lisboa e Odemira,
imigrantes vivem em condições que nos envergonham e que incomodam.
O que aconteceu aos sobreviventes
desalojados? Que medidas estão a ser tomadas para resolver o problema de
habitação destas pessoas e a forma como estão a ser exploradas a nível laboral
e nos preços que pagam por alojamentos indignos? Estas são preocupações
naturais de quem soube daquela notícia.
Mas pode não ser esse o foco das
preocupações de parte da classe política perante situações como a tragédia na
Mouraria. Podem zelar pelo bem-estar mínimo de pessoas economicamente muito
fragilizadas, que não dominam a língua portuguesa e que não têm qualquer rede
de apoio neste país. Mas podem optar por proteger os portugueses de terem de se
confrontar com a miséria criando medidas que restrinjam a entrada a imigrantes
ou estrangeiros prósperos.
Moedas e Montenegro não hesitaram.
Moedas declarou que não deveria
poder entrar em Portugal quem não tivesse previamente um contrato de trabalho,
ou seja, vamos lá restringir isto. Claro que, se forem ricos, já a conversa é
outra. Curiosamente, afirmou que esta questão não deve ser politizada. Se não
tratarmos como políticas as questões relacionadas com a imigração, passamos a
chamar a Carlos Moedas CEO de Lisboa em vez de presidente da câmara.
Montenegro foi ainda mais
explícito. Disse que o
Governo não deve meter a cabeça na areia e que deve encarar o problema, o
que costuma ser a introdução para “dizer umas verdades”. Não desiludiu. Afirmou
que temos de escolher quem é que queremos em Portugal para serem colaboradores
do nosso desenvolvimento. Ora, desgraçados de Odemira e da Mouraria devem dar
fracos colaboradores.
Várias questões aqui.
A primeira é o evidente uníssono
entre os três destacados líderes da direita. Ventura, Moedas e Montenegro estão
do mesmo lado e com um discurso alinhado. A xenofobia e as razões do mercado
levam, afinal, às mesmas conclusões. Há pessoas a viver miseravelmente em
Portugal. Pois a solução para isso é não deixarmos entrar mais miseráveis.
Por outro lado, depois de os
socialistas terem aniquilado a oposição dos sociais-democratas na medida em
que, a nível orçamental, têm vindo a seguir as políticas que estes
tradicionalmente defendem, temos os sociais-democratas a tentar idêntica
façanha com a agenda política da extrema-direita. E isto é notável.
Reparem que estamos a falar de um
tema no qual o partido racista e xenófobo tem especial “propriedade”. As
restrições à imigração são uma das mais importantes bandeiras do partido. Ao
aproximarem-se desta forma do discurso de Ventura e num momento de luto pela
morte de dois imigrantes, Moedas e Montenegro estão a marcar posição num
território que estava reservado exclusivamente ao ideário do Chega.
Ventura afirmou na Assembleia da
República que o Chega é o único partido com coragem para defender que devemos
escolher os imigrantes que podem entrar em Portugal.
Não, André Ventura. Os dirigentes
do PSD também estão cheios dessa coragem. A coragem para abrir as portas do
país a quem não precisa e a de as fechar aos outros, os que estão desesperados
por uma oportunidade, mesmo que seja um colchão imundo num rés-do-chão da
Mouraria ou num contentor em Odemira. Afinal, era fácil.
A autora é colunista do
PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico
António Guerreiro - Contra as biografias
Crónica Acção Paralela
* António Guerreiro
10 de Fevereiro de 2023,
A ilusão biográfica consiste em
fazer do biografado um indivíduo coerente que se vai tornando naquilo que é.
Uma caricatura desta atitude é a das curtas biografias dos políticos nos
jornais.
Nos últimos anos, talvez por
influência da cultura anglo-americana, começaram a proliferar as biografias nas livrarias
portuguesas e algumas até já as acomodam numa secção exclusiva devidamente
assinalada, construindo assim um pequeno museu das grandes individualidades.
Outrora, a biografia era um género que devia quase tudo à erudição; actualmente
deve uma boa parte ao jornalismo e outra parte à edição, pois a biografia é
sobretudo um “género editorial”. Partilha essa condição com o romance, tal como
ele hoje é produzido, difundido e “encorajado” (um eminente crítico literário
italiano escreveu um livro a exortar: “Não encorajar o romance”).
Chamo “género editorial” a um
género que deve muito do seu sucesso e hegemonia à máquina editorial, por mais
emperrada que ela esteja. Isto não significa que todos os romances publicados
actualmente possam ser incluídos neste género. Mas tinha alguma razão um
avisado crítico, ou até hipercrítico, especialista em diagnósticos, que
escreveu: “o romance é o cancro da literatura”. Orientados pelo seu olhar
clínico, podemos dizer que as biografias produzidas para responder às
exigências do género editorial são metástases.
O volumoso caudal de matéria
biográfica com que estamos confrontados merece que mencionemos um ensaio,
publicado em 1930, por um génio da Alemanha de Weimar, que iniciou o
adolescente Adorno na leitura de Kant, andou por vezes na proximidade da Escola
de Frankfurt e atravessou diversas disciplinas sem obedecer aos protocolos de
qualquer uma delas. Esse génio chama-se Siegfried Kracauer e, em
1930, escreveu um texto a que deu o título: A Biografia — Forma de Arte da
Nova Burguesia.
Também ele começa por verificar
que a biografia se tornou, no seu tempo, uma produção literária muito
difundida. E sete anos mais tarde dará o seu contributo para alimentar o
fenómeno, escrevendo uma biografia de Jacques Offenbach. Em boa verdade,
apontar-lhe esta incoerência é um pouco injusto porque Offenbach é, para ele,
apenas um pretexto: Paris do Segundo Império é o grande protagonista desse
livro.
O texto de Kracauer é denso e
complexo. Simplificando, digamos que ele entende que a ilusão biográfica
fornece o sossego e bem-estar de que a “nova burguesia” carece. A ilusão
biográfica consiste em fazer do biografado um indivíduo coerente, consciente,
unitário, soberano, que se vai tornando progressivamente naquilo que é.
Uma caricatura desta atitude é a
das curtas biografias dos políticos que às vezes os jornais publicam: aí, a
história do biografado, desde a infância, torna-se quase sempre um destino.
Trata-se sempre de personagens fadadas desde a infância para se tornarem, sem
falhas, naquilo que são. Os biógrafos entendem quase sempre como obrigatória a
passagem da vida do biografado para a sua obra. Ora, partir da obra para a vida
é não apenas muito mais interessante, mas também mais próximo da verdade que toda
a biografia visa.
Kracauer escreve numa altura em
que a ideia da “morte do romance” era glosada convictamente, e ele também não
evita esse tema sem derrames lutuosos. Ora, sendo o romance o género burguês
que veio substituir a epopeia numa época em que já não era possível dar sentido
a um herói épico, a biografia conserva, mesmo que com baixo teor, uma
componente épica, uma positividade heróica.
O discurso de Kracauer sobre a
biografia tem um aspecto histórico e outra sociológico. Há nele uma forte resistência
ideológica à biografia que se deve essencialmente ao facto de se tratar de uma
forma de literatura que satisfaz plenamente quem não quer arriscar um único
passo para além do seu limite individual e para além da sua própria classe. É
verdade que a forma literária da biografia, escreve Kracauer, é o signo de uma
fuga, ou antes, de uma esquiva. Mas de uma esquiva muito conservadora, que só
serve para dar algum suplemento de frescura ao lugar que se habita em
segurança.
A elite da nova burguesia que concede
tempo e privilégios à forma biográfica não se compromete seriamente em qualquer
tipo de dialéctica e sente-se confortada com um género que tem a pretensão de
erigir monumentos, mesmo que efémeros, aos grandes heróis. Heidegger, num
célebre curso de 1924 sobre Aristóteles, resolveu de maneira categórica, como
um epitáfio, a questão da monumentalização biográfica, dizendo que a única
coisa a registar na biografia de um filósofo é que nasceu em tal época,
trabalhou e morreu.
Livro de recitações
“[Héctor Bellerín] É um
futebolista improvável: defensor de causas progressistas como a luta LGBTQIA+ e
a luta antirracismo”
Carmo Afonso, in PÚBLICO, 6/2/2023
É possível vislumbrar um
pressuposto ou mesmo um princípio ideológico no modo como se declina aquela
série de letras maiúsculas que começam com um L e acabam com o sinal + . Há
quem só escreva LGBT, há quem acrescente a contragosto mais umas letrinhas, há
quem se sinta exausto quando chega ao + e reclame contra a perniciosa
“ideologia do género”. Carmo Afonso, pelo contrário, é tão generosa na
declinação que parece pertencer à categoria de quem cumpre sem protestos a
longa justaposição de letras maiúsculas, com um + a rematar. A quem acha que há
ali letras a mais, é preciso dizer que o que é próprio do género é a
proliferação e a invenção. O sinal + serve para dizer que a série tende para o
infinito e não há letras maiúsculas que cheguem, haverá sempre quem fica fora
da representação. Isto é novo? Não, foi sempre assim. Só que era quase tudo sem
nome.
https://www.publico.pt/2023/02/10/culturaipsilon/cronica/biografias-2038081
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023
Luís Miguel Queirós - Produção de Beckett cancelada por restringir audições a homens
Produção de Beckett cancelada
por restringir audições a homens
Encenador cumpriu instruções do
dramaturgo, mas foi acusado de violar política de inclusão da universidade
holandesa de Groningen.
7 de Fevereiro de 2023
A peça À Espera de Godot,
encenada por Gábor Tompa, no Teatro Nacional São João, em 2021 TUNA
Uma encenação de À Espera de
Godot, de Samuel Beckett, cuja estreia estava prevista para Março no Centro
Cultural de Estudantes Usva, da universidade holandesa de Groningen, foi
cancelada quando a instituição soube que as audições para os cinco papéis
masculinos da peça só tinham sido abertas a actores desse mesmo sexo.
O jovem irlandês que estava a
dirigir a encenação, Oisín Moyne, de 24 anos, tentou argumentar que o próprio Samuel
Beckett deixara instruções para que a peça fosse representada por cinco
intérpretes do sexo masculino, e que desrespeitar essa indicação colocava a
companhia em risco de ser processada pelos herdeiros do dramaturgo, mas a
Universidade de Groningen
manteve a sua decisão de cancelar o espectáculo, alegando que este violara a
sua “política de inclusão”.
O responsável pela programação
teatral do Usva, Bram Douwes, secundou a posição da universidade. “Se se
tratasse de uma peça com cinco tipos brancos para a qual tivessem aberto
audições, estaria tudo bem, mas o que não podem é banir pessoas logo à
partida”, afirmou Douwes ao jornal universitário Ukrant.
A assessora de imprensa da
Universidade, Elies Kouwenhoven, reconhece que Beckett “declarou explicitamente
que esta peça devia ser interpretada por cinco homens”, mas argumenta que “os
tempos mudaram” desde que a peça foi apresentada pela primeira vez em 1953, e
que “a ideia de que só os homens são adequados a estes papéis está datada e é
mesmo discriminatória”. E concluiu: “Nós, como universidade, defendemos uma
comunidade aberta e inclusiva, na qual não é apropriado excluir outros seja com
que bases for.”
A administradora do Usva, Fay
Sterken, explicou ao Ukrant que o centro só soube que as audições tinham
sido exclusivamente para homens há cerca de duas semanas, quando a preparação
do espectáculo já ia adiantada, com ensaios a decorrer desde Novembro.
“Descobrimos que a companhia [intitulada GUTS – acrónimo de Groningen
University Theatre Society] tinha assinado a cláusula ‘só homens’, e isso foi
um choque, porque realmente não podemos concordar com ela por razões de
princípio”.
Oisín Moyne, que estudou Física
na Universidade de Groningen e acabou por se radicar na cidade holandesa, onde
hoje trabalha, explicou ao jornal irlandês Irish Times que tinha
considerado abrir as audições a todas as pessoas, mas que não o fez por causa
das regras estabelecidas por Beckett pouco antes da sua morte, as quais têm
sido defendidas pelos herdeiros legais da sua obra, que só entrará no domínio
público em 2059.
A produtora da peça, Medeea
Anton, em declarações ao mesmo jornal, defendeu que a decisão de cancelar a
peça se centrou nos actores, ignorando o papel de toda a restante equipa.
“Havia uma restrição quanto aos actores, que são apenas cinco, mas o resto da
equipa de produção é maioritariamente feminina, e também temos pessoas trans e
não-binárias”, informou Medeea Anton, acrescentando que “a maioria da equipa de
produção é da comunidade LGTB”.
A produtora diz que tentou
explicar aos responsáveis da universidade que se tratava apenas de uma questão
legal, mas que não conseguiu fazê-los mudar de ideias. “Somos uma pequena
companhia amadora, que não se pode arriscar a ser processada”, observou.
E não faltam precedentes para
demonstrar que o risco seria real. Recordando que o próprio Beckett, em 1988,
pouco antes de morrer, processou uma companhia holandesa por ter aberto as
audições da peça a mulheres, o Irish Times observa que os seus herdeiros
se têm mantido fiéis às instruções deixadas pelo dramaturgo.
Em 1991, a companhia Brut de
Beton tentou apresentar um À
Espera de Godot com um elenco exclusivamente feminino no Festival de
Avignon e o caso chegou a tribunal, com o juiz a proferir uma decisão algo
salomónica, permitindo a apresentação da peça, mas obrigando a que fosse lida,
antes de cada récita, a carta em que os representantes legais do autor expunham
as suas objecções.
Outra encenação da peça com cinco
actrizes foi cancelada em 2019 num colégio do Ohio, nos Estados Unidos, por
assumido receio de que os herdeiros de Beckett processassem a instituição.
Já a companhia de teatro londrina
Silent Faces criou, em 2021, uma paródia às regras de género impostas à obra de
Samuel Beckett com o espectáculo Godot Is a Woman (Godot É Uma Mulher),
cujo texto promocional abria com esta cronologia: “Em 1953 um homem escreveu
uma peça sobre esperar; em 1988 processou cinco mulheres por tentarem
interpretá-la; em 2001 Madonna lançou What It Feels Like for a Girl;
estamos em 2021 e continuamos à espera.”
Em Dezembro de 2021, depois de
uma estreia cancelada em Março – mas esta por causa da pandemia –, o
encenador romeno Gábor Tompa levou ao palco do Teatro Nacional São João, no
Porto, uma nova encenação de À Espera de Godot na qual o papel de Lucky
é interpretado pela actriz Maria Leite, escolha que, tanto quanto se sabe, não
deu origem a nenhum processo judicial.
Quando percebeu, neste início de
2023, que não ia mesmo conseguir apresentar a sua encenação da peça na
Universidade de Groningen, Oisín Moyne, provavelmente ironizando com o facto de
o próprio texto de Beckett tratar do absurdo da existência, confessou ao jornal
Irish Times: “Diria com inteira sinceridade que a minha vida, nestas
últimas semanas, se tornou totalmente absurda.” E o encenador contou ainda que,
no elenco e na equipa de produção, já corria a piada de que agora estavam,
todos eles, à espera de Godot.
Moyne adianta que está a procurar
outro espaço que receba a peça, para que o trabalho já feito não seja
desperdiçado, e manifesta a esperança de que o centro cultural Usva use as
datas agora libertadas no calendário da programação para acolher "uma
iniciativa que promova a inclusão no teatro".
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023
80º aniversário da vitória de Estalinegrado - discurso de Putin
sábado, 21 de janeiro de 2023
Eugénio de Andrade - Poema XVIII
* Eugénio de Andrade
quinta-feira, 19 de janeiro de 2023
Trazer nos versos a «consciência do mundo» - Evocação de Eugénio de Andrade (1923/2005) no centenário do seu nascimento
ª Domingos LoboEugénio de Andrade, pseudónimo literário de José Fontinhas Neto, nasceu em Póvoa de Atalaia, concelho do Fundão, a 19 de Janeiro de 1923. Filho de camponeses, o pai abandonou a família era Eugénio ainda criança. Aos oito anos, mudou-se com a mãe para Castelo Branco, numa passagem breve, fixando-se em Lisboa a partir de 1932. Na capital frequentará o liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro.
A vocação literária de Eugénio de Andrade foi precoce, começa a manifestar-se por volta dos seus doze, treze anos. O gosto pela leitura leva-o a frequentar as bibliotecas públicas de Lisboa, a descobrir o mundo vasto e fantástico da leitura dado que, diz-nos ele em Rosto Precário, «em casa havia apenas um só livro, uma Vida de Santos que ninguém lia». Jack London, Júlio Verde, todo o Eça, Alexandre Dumas, Tolstoi, Gorki, Junqueiro e Aquilino, fazem parte do roteiro das suas leituras de adolescente.
Inicia a escrita dos seus primeiros poemas por volta dos treze anos, arriscando enviar alguns deles a António Botto, ao tempo um poeta famoso quer pelo estilo quer pelo modo transgressor dos conteúdos, sobretudo a partir da publicação do seu livro Canções. Botto gosta dos poemas do jovem José Fontinhas e incentiva-o a escrever mais e a publicar. É a partir deste incentivo que publicará, em 1939, aos dezasseis anos, o seu primeiro poema, quase pueril, intitulado Narciso, poema «sobre a beleza que se contempla e se compraz em si mesma», confessará em Rosto Precário, poema em que a influência de Botto, as suas coordenadas estéticas, está muito presente.
Passará, a partir da publicação desse poema, a assinar os seus textos com o pseudónimo Eugénio de Andrade, com o qual passará a cunhar todos os títulos da sua vasta e poliédrica obra. Em 1942 publicará Adolescente, o seu livro de estreia. Mais tarde retirará este livro da sua bibliografia, considerando que a sua verdadeira voz poética ainda não estava nele presente. A verdade é que a influência de Botto, e de Pessoa, cuja poesia conheceu através do poeta de Baionetas da Morte, está, nesse livro inicial, muito vincada.
Uma voz própria e inconfundível
Eugénio procurava a sua identidade, uma voz que fosse sua e inconfundível, e essa voz começa a definir-se nos seus Primeiros Poemas (1940), que ele, simbolicamente, dedica a Fernando Pessoa. Esses magníficos versos transportam já os sinais da sua voz plena e futura, como em Canção, que se transformará num dos seus mais famosos e antologiados poemas: Tinha um cravo no meu balcão;/veio um rapaz e pediu-mo/- mãe, dou-lho ou não?//Sentada, bordava um lenço de mão;/veio um rapaz e pediu-mo/- mãe, dou-lho ou não?//Dei um cravo e dei um lenço,/só não dei o coração;/mas se o rapaz mo pedir/-mãe, dou-lho ou não?
Essa voz madura e ressonante, surge, já definida e vigorosa, no livro As Mãos e os Frutos, de 1948, livro que o tornará um poeta reconhecido e singular, aplaudido pela crítica e pelos leitores que, a partir deste, o descobrem. As Mãos e os Frutos é ainda hoje um dos seus títulos mais emblemáticos, ao qual se juntará, já nos anos 1960, essa obra-prima da nossa poesia contemporânea que é Ostinato Rigore.
Os temas e o léxico que farão parte constante do seu modo poético, estão já plenamente definidos e presentes em As Mãos e os Frutos, como o amor sem sombra de amargura, os madrigais, que ele vai buscar a Pêro Meogo, a natureza, as árvores, os pássaros, a água, os barcos, a noite, o fascínio pelo corpo, pelos corpos, a que José Saramago chamará «poesia do corpo, a que chega mediante uma depuração contínua», o amor pela mãe, o lirismo próximo da matéria dos sonhos, como neste belíssimo poema de amor ao qual Luís Cília daria música e voz, transformando-o numa das nossas canções dos anos sombrios, onde a vida e a esperança se misturam e vibram: Fecundou-te a vida nos pinhais./Fecundou-te de seiva e de calos. /alargou-te o corpo pelos areais/onde o mar se espraia sem contorno e cor.//Pôs-te sonho onde havia apenas/silêncio de rosas por abrir,/e um jeito nas mãos morenas/de que sabe que o fruto há-de surgir.//Brotou água onde tudo era secura./Paz onde morava a solidão/E a certeza de que a sepultura/é uma cova onde não cabe o coração.
No seu livro seguinte, Os Amantes Sem Dinheiro (1949), Eugénio escreve num texto introdutório, referindo-se à sua terra de nascimento e aos anos que aí viveu, revelador de alguns dos aspectos, das memórias afectivas e das relações mais fecundas e perenes, a relação de amor/libertação com a progenitora é paradigmática, presentes na sua obra poética: Da casa da Eira só me lembro do quartito que se seguia à cozinha. Um tabique separava-nos da casa da Ti Ana, uma velhota a quem minha mãe às vezes me deixava a guardar. […] Uma manhã acordei sozinho em casa. Acordei a chorar. – Ó mãe, mãe… - Mas a mãe não vinha. Não havia mãe. Havia só a porta fechada. […] E ninguém me abriu a porta para apanhar as estrelas. Nem mesmo tu, mãe, que a essas horas andavas a ganhar o pão para a boca daquele que hoje te oferece estes versos.
Em Os Amantes Sem Dinheiro, Eugénio inscreve uma série de poemas intemporais, que são ainda hoje referenciais do seu universo poético. Poemas como Os Amantes Sem Dinheiro, que dá título ao livro, Poema à Mãe e Adeus, constituem-se na sua vasta obra poética momentos raros e sublimes, que levaram Óscar Lopes a considerá-lo o mais perfeito dos poetas portugueses, sendo também o de maior público, e Eduardo Lourenço a referir a sua obra como A primeira e a mais pura expressão da poesia como arquitectura do real, a mais límpida manifestação da entrega sem reservas aos sortilégios do “puro poético”.
Coordenadas poéticas
A negação do luxo, da superficialidade, do egoísmo da vida contemporânea, a denúncia do acessório, da futilidade e dos horrores da guerra, são outras das coordenadas que a sua poesia também manifesta. No livro de 1951, As Palavras Interditas, escreve no poema Não é Verdade, a sua indignação: Não é verdade tanta loja de perfumes, não é verdade tanta rosa decepada,/tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,/tanto relógio, tanta pomba assassinada//Não quero para mim tanto veneno,/tanta madrugada varrida pelo gelo,/nem olhos pintados onde morre o dia,/nem beijos de lágrimas no meu cabelo. No poema que dá título ao livro, gritará a revolta e a solidão do nosso flutuante e amargo modo de estar vivo, numa linguagem que veicula o que é humano, como bem o entendeu Óscar Lopes: Dói-me esta água, este ar que se respira,/ dói-me esta solidão de pedra escura,/estas mãos nocturnas onde aperto/os meus dias quebrados na cintura.//E a noite cresce apaixonadamente./Nas suas margens nuas, desoladas,/cada homem tem apenas para dar/um horizonte de cidades bombardeadas.
Já profissional do Ministério da Saúde, teve uma breve passagem por Coimbra (1943/1946), onde estabelece amizade com Miguel Torga e convive com outros poetas e críticos de gerações e opções estéticas diversas, como Carlos de Oliveira, Paulo Quintela, Afonso Duarte e Eduardo Lourenço. No entanto, a sua filiação literária, depois das influências iniciais de Botto, Pessoa e Casais Monteiro, mais Rimbaud, Lorca, Walt Whitman, estabelece-se com os poetas do denominado grupo dos independentes, ou seja, dos poetas que não pertenciam às duas correntes literárias então dominantes: o neorrealismo e o presencismo. Poetas como Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Natália Correia e António Ramos Rosa, nascidos entre 1919 (Sena e Sophia), 1923 (Natália) e 1924 (Ramos Rosa), terão pertencido a esse inorgânico grupo, tendo apenas em comum, com maior ou menor expressão, a sua preclara oposição ao regime fascista. As produções poéticas destes autores não deixaram, a espaços, de reflectir esse posicionamento cívico de um modo genérico, embora, e por vezes, ideologicamente confuso.
Colocado profissionalmente no Porto, como inspector administrativo do Ministério da Saúde, será nessa cidade que parecia um sindicato de viúvas, na expressão de João Villaret, que irá estabelecer-se a partir de 1950, aí vivendo até ao final dos seus dias, sendo considerado um dos seus mais ilustres habitantes. Aí conhecerá José da Cruz Santos, esse mestre das edições exemplares, seu editor e cúmplice, tendo grande parte da sua obra sido publicada pela mítica editora Inova.
Poeta como pedreiro
Em várias entrevistas, Eugénio fala-nos da revolução dos cravos e do País em que muita coisa mudou e assume no livro Epitáfios, o seu posicionamento político, em belos e simbólicos poemas, como este O Comum da Terra, tocante tributo a Vasco Gonçalves, recordando também os dias altos e fulgurantes de Abril, mas já a denunciar as margens que o incendiavam: Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas/Quem conheça o sul e a sua transparência/também sabe que no verão pelas veredas/da cal a crispação da sombra caminha devagar./De tanta palavra que disseste algumas/se perdiam, outras duram ainda, são lume/breve arado ceia de pobre roupa remendada./Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão/era morada e instrumento de alegria.//Esse eras tu: inclinação da água. Na margem/vento areias mastros lábios, tudo ardia.
Neste mesmo livro, mais um dos seus poemas antológicos, escrito ainda nos dias sombrios do caetanismo, mas já inundado pelas águas inquietas do porvir, anunciador das palavras que é urgente semear, palavras que aguardam na noite o sol e o vinho que haveríamos de beber em redor do fogo: Elegia das Águas Negras Para Che Guevara – Olhos apertados pelo medo/aguardam na noite o sol onde cresces,/onde te confundes com os ramos/de sangue do verão ou o rumor/dos pés brancos da chuva nas areias.//A palavra, como tu dizias, chega/húmida dos bosques: temos que semeá-la;/chega húmida da terra: temos que defendê-la;/chega com as andorinhas/que a beberam sílaba a sílaba na tua boca.//Cada palavra tua é um homem de pé,/cada palavra tua faz do orvalho uma faca,/faz do ódio um vinho inocente/para bebermos contigo/no coração em redor do fogo.
Um outro poema ainda, intenso e magoado, que nos fala de José Dias Coelho e de Catarina, da morte de ambos às mãos do puro ódio fascista: […] dizias: espaço diurno onde o rumor/do sangue é um rumor de ave -/repara como voa, e poisa nos ombros/da Catarina que não cessam de matar.//Sem vocação para a morte, dizíamos. Também/ela, também ela a não tinha. Na planície/ branca era uma fonte: em si trazia/um coração inclinado para a semente do fogo.//Catarina ou José – o que é um nome?/Que nome nos impede de morrer,/quando se beija a terra devagar/ou uma criança trazida pela brisa?
Ao lermos estes poemas de Eugénio, e os significantes que os estruturam, apetece-nos dizer como Ramos Rosa: Rei Midas do verbo: palavra que tocasse virava ouro de lei.
Tradutor de Lorca, das Cartas Portuguesa, atribuídas a Mariana Alcoforado, dos poemas de Safo; organizador de diversas antologias; Prémio Camões, em 2001, Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada, prémios da Crítica e da APE; poeta da plenitude e da esperança, poeta maior de um firmamento de notáveis, Eugénio de Andrade considerava que o seu trabalho de poeta seria um ofício equiparado ao de um pedreiro, profissão que fora a do seu avô: Ele usava o granito como material, as suas casas estão ainda de pé; o neto trabalha com poeira, sem nenhuma pretensão de desafiar o tempo.
Quando as palavras de um poeta nos tocam, esse acto em construção, primordial do ser, o poema é substância e argila. Pode moldar a nossa forma de entender e de habitar o mundo e dar-nos consciência do modo como o podemos transformar. Eugénio de Andrade é um desses raros poetas. Por isso, connosco caminha. Para sempre.
Bibliografia: Obras de Eugénio de Andrade; Prefácio de Óscar Lopes para Antologia Breve – Inova, 1972; A Poesia Portuguesa nos Meados do Século XX, de Maria de Fátima Marinho, Caminho, 1987; Incisões Oblíquas, de António Ramos Rosa, Caminho, 1987; Cifras do Tempo, de Óscar Lopes, Caminho, 1990.
hcenten%C3%A1rio-do-seu-nascimento.htm

