sábado, 9 de setembro de 2023

António Guerreiro - A mais bela profissão do mundo

CRÓNICA ACÇÃO PARALELA  

* António Guerreiro

8 de Setembro de 2023

A escola perdeu os atractivos da beleza e ganhou a imagem de um cúmulo de deficiências e problemas.

A escola é cada vez mais esmagada pelo peso das ansiedades NELSON GARRIDO

Reinício do ano lectivo, tempo de examinar as doenças da escola e sondar o mal-estar dos professores. Um jornal, com vocação crítica desde o seu nascimento, fala da “crise dos professores” e analisa as causas do desinteresse pela “mais bela profissão do mundo”. As aspas, não sou eu que as coloco por estar a citar o dito jornal; é o jornal que se encarrega, através das aspas, de dizer que está a citar uma frase que nos foi transmitida pela tradição. Mas neste caso as aspas também significam outra coisa: que a expressão já não pode ser dita sem recuo, e só um ingénuo ousaria repeti-la sem aspas. A “mais bela profissão do mundo”, é dito logo no início do artigo, deixou de ser interessante e, por isso, atrai cada vez menos candidatos e provoca cada vez mais o abandono dos que nela entraram, por causa de condições de trabalho cada vez mais difíceis e uma remuneração pouco atractiva.

O jornal em questão não é português, é francês, chama-se Libération e analisa o estado da “Éducation nationale”, o mito republicano por excelência. Mas também podia ser um jornal português, espanhol, italiano, alemão (sim, até a escola alemã se debate com uma imensa falta de professores e uma degradação das condições de trabalho que leva muitos a abandoná-la). A escola, a mais bela instituição do mundo (sem aspas), ainda que as suas práticas tenham sido tantas vezes criminosas, perdeu os atractivos da beleza e ganhou a imagem de um cúmulo de deficiências e problemas.

Como toda a gente passou pela escola, toda a gente tem qualquer coisa a dizer sobre ela. Mas em Portugal ninguém sabe muito bem o que se passa no seu interior, é tudo exterior.

Há pouco tempo, um estudante italiano, tendo concluído o exame de maturità que dá acesso à Universidade, escreveu um testemunho cruel da sua experiência, publicado num jornal. Por cá, estamos a precisar deste tipo de testemunhos, tal como precisamos de um discurso dos professores mais analítico, não exclusivamente centrado sobre questões sindicais e as condições pragmáticas de trabalho (por mais legítimo que seja este discurso, ele é insuficiente).

É esta falta que me convida aqui a falar de dois livros, de uma grande escritora francesa, Nathalie Quintane, que é professora de um collège há mais de 30 anos (no sistema de educação francês, o collège corresponde ao ciclo de estudos que se segue aos quatro anos de ensino básico, abrange, portanto, os alunos dos 11 aos 15 anos). Trata-se de Un hamster à l’école e de J’adore aprendre plein de choses. No primeiro, o de maior fôlego (mas o segundo é talvez mais maldoso e sarcástico), Nathalie Quintane faz um retrato da “Éducation nationale”, num texto que é um longo poema em verso livre, narrativo, entre autobiografia e reflexão, que atravessa os seus anos de aluna e os de professora. O género e o discurso nada convencionais deste texto justificam-se inteiramente: para criticar a instituição escolar é preciso inventar uma língua que é estranha à instituição escolar.

A metáfora do hamster que corre para lado nenhum, fazendo mover uma roda que está sempre no mesmo sítio e que atinge uma tal velocidade que os seus raios até produzem uma ilusão óptica, serve para traçar a imagem de um trabalho repetitivo e absurdo, submetido a um ritmo infernal que tem a lógica do círculo vicioso: é um movimento circular que não vai a lado nenhum, que tem um fim em si mesmo (“Se soubessem o número de reuniões e de formações inúteis a que tivemos direito desde há quinze anos [...]”). É, em suma, uma máquina de esvaziar sentido, de treinar os alunos a dominar códigos. Um hamster movendo a roda a grande velocidade: é assim que esta professora se sente, concentrada sobre os efeitos de óptica que produz. Nos momentos em que emerge deste turbilhão, vê a escola como uma violenta experiência de estranheza que lhe dá a sensação de nunca estar no seu lugar. E, numa entrevista a uma revista francesa, declarou: “Não há uma alteração da profissão de professor, há uma liquidação.”

O diagnóstico desta liquidação não se compadece com aquele discurso piedoso que implora a restauração da autoridade professoral. É um diagnóstico muito mais fino e complexo, que Nathalie Quintane não resume a algumas proposições, a teses, a propostas salvíficas. E se o livro nos faz compreender com grande evidência que a escola é cada vez mais esmagada pelo peso das ansiedades que se sobrepõem em estratos e recaem sobre os alunos (a dos pais, a dos professores, etc.), tudo nele é muito mais subtil do que as explicações sociológicas e psicológicas. Não é um livro de tese, é um texto literário.

Livro de recitações

“A tauromaquia atravessa uma fase de franco declínio, a roçar a extinção nos anos da pandemia de covid-19.” In Expresso, 27/08/2023

O declínio da tauromaquia de que se fala neste artigo acontece em Espanha, no país da “festa brava”, como se dizia em tempos. Tal notícia faz-nos perguntar: mas as touradas não são hoje uma actividade quase clandestina, cultivada por um grupo estrito que tem cada vez mais dificuldade em mostrar a sua “cultura” sem suscitar o desprezo e a reprovação, exercida como um ritual secreto, tão longe dos olhares públicos como os matadouros? Em boa verdade, a tourada já só subsiste como espectáculo que, fora do ambiente anacrónico que o sustenta, deixou de ser uma coisa tolerável. Intolerável não é apenas o espectáculo nas praças. É todo o habitus que germinou neste universo classista de enraizamentos cruéis.

https://www.publico.pt/2023/09/08/culturaipsilon/cronica/bela-profissao-mundo-2062325

José Manuel Ribeiro - Constituição: o que se faz quando o Presidente mete o pé na argola?


Admitindo que não compete a um primeiro-ministro avaliar a constitucionalidade dos pronunciamentos do Presidente, pergunta-se: a quem cabe então avaliar tal coisa?

A atuação de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República está, nestes dias, no centro da discussão política. Desde logo, pelo facto de os seus atos recentes serem discutidos como intervenções de “um Presidente de fação”. Mas também por as suas intervenções não se enquadrarem no que a Constituição da República Portuguesa estabelece quanto aos poderes e competências do Presidente da República.

Na terça-feira, interrogado pelos jornalistas antes do Conselho de Estado, o primeiro-ministro António Costa recusou-se a comentar se o Presidente da República tem ultrapassado as competências que lhe estão cometidas. Advertiu, contudo, que “as coisas correm sempre mal quando há confusão de papéis”. E concluiu: “Esse é um comentário que não me compete a mim fazer”.

Admitindo que não compete a um primeiro-ministro avaliar a constitucionalidade dos pronunciamentos do Presidente, pergunta-se: a quem cabe então avaliar tal coisa? A questão inversa tem uma resposta clara dada pela Constituição e, de resto, regularmente praticada desde 1983: sempre que o Presidente tem dúvidas sobre a constitucionalidade das intervenções do Governo dirige-se ao Tribunal Constitucional.

O problema surge quando o Presidente da República age de tal forma que os seus atos ou palavras saem dos domínios e competências que a Constituição lhe atribui. O que é que se faz? A quem é que se dirige o pedido para a análise sucessiva da constitucionalidade da intervenção presidencial? Que órgão tem competência constitucional para essa avaliação? E que consequências se poderão extrair da constatação jurídica que o Presidente violou a Constituição que jurou cumprir e fazer cumprir?

Esta não é uma questão meramente teórica, como se depreende das perguntas dos jornalistas ao primeiro-ministro no Montijo. Esta é uma questão que palavras e atos recentes de Marcelo Rebelo de Sousa levantam e, por consequência, confrontam a organização do sistema político inscrita na Constituição da República Portuguesa com uma lacuna.

As declarações de Marcelo Rebelo de Sousa em Kiev sobre a entrada da Ucrânia na União Europeia, ou as suas declarações em São Tomé e Príncipe sobre decisões da CPLP antes de estas terem tido lugar, e antes de o Governo se ter pronunciado sobre elas, são dois exemplos dessa lacuna. Nada da “Competência nas relações internacionais” do Presidente da República inscrita da Constituição (Artigo 135.º) parece autorizar Marcelo Rebelo de Sousa a falar como falou.

Do mesmo modo, a ameaça feita na Festa do Livro em Belém quanto ao pacote Mais Habitação (não deixar passar a regulamentação que tem de ir às suas mãos) configura um posicionamento “a priori” de contra-governo que parece extravasar, e ofender, o espírito e a letra da Constituição.

Voltamos ao problema da lacuna na Constituição: quem e a que instância se poderá pedir, ou exigir, que avalie a constitucionalidade dos atos do Presidente da República? Se a Constituição não o prevê, os comportamentos de Marcelo Rebelo de Sousa exigem que passe a prevê-lo em futura revisão. Não só para que o Tribunal Constitucional passe a ter a competência explícita de o fazer, mas, também, para que, para além do “Sim” ou do “Não” sobre a conformidade do Presidente com a lei suprema, se estabeleçam consequências para as respostas negativas. Acórdãos que funcionem como repreensões escritas – por exemplo – ou, em casos limite, a perda de mandato.

A lacuna constitucional que hoje verificamos é tanto mais flagrante quanto o comedimento de presidentes anteriores a manteve indetetável ao longo de décadas. O facto é que, mesmo sem juízos de valor sobre a ação política de Marcelo Rebelo de Sousa, este Presidente tem sido um agente subversivo do equilíbrio semipresidencialista com que o sistema funcionou ao longo de quatro décadas.

Esta subversão exige, para reequilibrar no sistema os mecanismos de “checks and balances”, uma revisão constitucional. Até que tal suceda, o país terá de viver com um Presidente que mina sistematicamente a autoridade democrática do órgão de soberania executivo. Uma forma clássica de populismo, como sabemos.

Tiago Franco -· O MEU OBRIGADO AO PS/PSD |



* `Tiago Franco

Já perdi a conta aos períodos de despedimento colectivo que atravessei em 18 anos. Acaba por ser normal quando se vende a força de trabalho à hora, é um facto, mas não deixa de ser chato.

A meio desses processos que trazem sempre alguma angústia dou por mim a pensar que será a última vez. É desta que me deixo de vender à hora, qual reta de Coina versão digital, e passo à estabilidade dos contratos mais duradouros que os casamentos. 

Pelo meio aparece sempre o mercado dos amigos liberais que me conta que não faltam sítios para vergar a mola. Há falta é de quem a queira vergar e, no fim, continuo a meter todas as fichas no risco. A vida é um casino. Ninguém disse mas foi pena.

Nunca fui ceifado pelas derrocadas do despedimento colectivo. Umas vezes sei como, outras nem tanto. Mas desta vez foi diferente. Já não canto a solo e há toda uma banda que pede mais algum cuidado.

São miúdos, ainda ontem estavam em casa dos pais. Emigraram, confiaram em estranhos, vieram cumprir o primeiro emprego a 3500 km de casa. São 7, faltam 2 na fotografia. 

Desde que formámos uma equipa estabelecemos regras básicas de convívio e crescimento profissional. Quem vai a casa e cria mais trabalho para quem fica, traz uns pastéis de nata. É o mínimo aceitável. Os aumentos de salário são para todos. Se não for assim, quem recebe divide com os outros. Quem perde no pingue-pongue paga a cervejinha chinesa, um biberão de 0.6 L. Quem tem salário mais baixo tem prioridade nas horas extra. Quem sabe explica, quem não sabe pergunta. Não saber deixa de ser tema ao fim de umas semanas. Todos vão ver a família quando muito bem entenderem e tiram férias quando lhes apetecer. Ser do Sporting é aceitável, do Porto veremos quando acontecer. 

Mas mais importante do que tudo, quem nos contrata sabe o que tem em mãos. Não é o Zé, o Manel ou o António. É uma equipa. A quem tudo se pode pedir, a qualquer hora do dia e em qualquer dia da semana mas...nada de mexer. Se quiserem despedir um, trocar outro ou mexer na dinâmica da coisa, pegamos nas violas e vamos todos cantar para o prédio do lado. É este o acordo desde o primeiro dia. 

Portanto, enquanto numa sala cheia de gente, quem mandava explicava que iam ser despedidas umas dezenas largas de trabalhadores, nós já sabíamos que a faca passaria ao largo.

Mais tarde, essa mesma pessoa disse-se, em privado, "ainda estou para perceber como é que vocês conseguiram meter tudo a funcionar em tão poucos meses". Não sabe ele, nem sei eu. É a clássica história da ponte que todos os que passaram pelo ISEL ouviram no primeiro semestre de aulas.

O que realmente importa é que nos safámos, pelo menos desta vez, até que os chineses se lembrem de outra. Os chefes (suecos) agradecem à equipa portuguesa salvar a área de negócio em Gotemburgo, eu agradeço ao ISEL - Instituto Superior de Engenharia de Lisboa ter formado estes putos e também ao Centrão por criar condições de trabalho em Portugal tão miseráveis. E graças a essa combinação de factores, agradece o estimado leitor, também, por ter, pela primeira vez na história, a possibilidade de comprar um volvo baratinho (30 000 eur ou lá o que é) com coisas da Google lá dentro. 

De aperto em aperto, os dias acabam sempre por ser bons. Uma pessoa envelhece mais depressa a este ritmo, é verdade, mas é preciso não esquecer que também só faltam 4 anos para a reforma. Dá para aguentar. 

Ontem, um dos directores que anda atrás de novos projectos disse-me: "achas que conseguíamos convencer a Google a alinhar com a Aston Martin? Podia aparecer o logo numa cena do James Bond ou algo do género".

Epá...James Bond. Qualquer dia ainda começo a gostar da engenharia. 

Bem vistas as coisas, a Google é que nos devia começar a patrocinar a ginja. Estes putos vão longe, é o que vos digo. Continuem a viver para os turistas e a exportar engenheiros. O primeiro mundo agradece.

2023 09 09

terça-feira, 5 de setembro de 2023

Miguel Esteves Cardoso - Nomes da nossa Terra

|* Miguel Esteves Cardoso

"Um dos mais notáveis documentos da nossa cultura é o Dicionário Corográfico de Portugal, de A.C. Amaral Frazão. Contém cerca de 1000 nomes de lugares, aldeias, vilas e cidades portuguesas. Ao ler os nomes de alguns sítios, (...) compreende-se logo que o trauma de viver na Damaia ou na Reboleira não é nada comparado com certos nomes portugueses.

Imagine-se o impacto de dizer "Eu sou da Margalha" (Gavião) no meio de um jantar. Veja-se a cena num chá dançante em que um rapaz pergunta delicadamente "E a menina, de onde é?", e a menina dizia: "Eu sou da Fonte da Rata" (Espinho).

É evidente que, na nossa cultura, existe o trauma de «terra». Ninguém é do Porto ou de Lisboa. Toda a gente é de outra terra qualquer. Geralmente, como veremos, a nossa terra tem um nome profundamente embaraçante, daqueles que fazem apetecer rir.

Apresente-se no aeroporto com o cartão de desembarque a denunciá-lo como originário de Filha Boa (Torres Vedras). Verá que não é bem atendido.

Há terras com nomes que parecem títulos de livros de Eugénio de Andrade, como Ferido de Água (concelho de Paredes). Há saldos de todas as espécies. Toda a gente conhece o Vale das Pegas (Albufeira) e a Venda das Raparigas (Alcobaça), mas há lugares mais especializados como a Venda da Luísa (Condeixa-a-Nova) e ainda lugares lamrntavelmente racistas, como seja a infame Venda dos Pretos, em Leiria. Com nomes destes, nunca iremos a lado nenhum.

Não há limites. Há um lugar chamado Cabrão, no concelho de Ponte de Lima. Começo assim para não começar a falar logo em Picha, vergonha eterna da freguesia e concelho de Pedrógão Grande. Picha tem as casas mais baratas do país, só porque os potenciais residentes são incapazes de enfrentar uma morada tão rasca. Não é um nome que torne distinto um cartão de visita.

Se fosse um caso isolado, passaria, mas infelizmente não é. De facto, para além de Picha, Portugal conta igualmente com dois lugarejos denominados Venda da Gaita. Uma fica em Almoster e outra em Tomar.

Recomecemos a nossa viagem pela nossa terra. Que dizer de um país onde é possível ir de Cabeça Perdida (em Portimão) para a Cornalheira (em Meda)?

Devia haver uma Comissão para a Decência Onomástica, que tratasse nomes como Casal do Gorta Rabos (Alcobaça), Mal Lavado (Odemira), Casal da Porcaria (Leiria) e Ripanço (Proença-a-Nova).

Qual o construtor civil que se sente tentado a empreender a construção de novos fogos em lugares chamados São Paio da Farinha Podre (Penacova), Casal do Esborrachado (Almeirim), Triste Feia (Leiria), Parola (Mafra) ou Farta-Vacas (Lagos)?

No capítulo da ciência, há nomes que fazem sorrir. Mesmo assim, para quem mora neles, devem ser muito maçadores. Há em Chaves um Raio-X e, como se não bastasse, um Entroncamento do Raio-X. Em Alcobaça, em contrapartida, há uma (mais portuguesa) Engenhoca. Continua com Telégrafo (em Tomar) e Arquitecto (em Mafra). Em Grândola, há uma Aldeia do Futuro. Em que outro país europeu é possível sair um dia de automóvel e fazer o trajecto Raio-X, Engenhoca, Telégrafo, Arquitecto, Aldeia do Futuro??!!

Também deve ser difícil arranjar outro país onde se possa fazer um percurso que vá da Fome Agua à Carne Assada (Sintra) passando pelo Corte Pão e Água (Mértola), sem passar por Poriço (Vila Verde), e acabando a comprar rebuçados em Bombom do Bogadouro (Amarante), depois de ter parado para fazer um chi-chi em Alçáperna (Lousã). E basta! " 

in Os Meus Problemas

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Margarita Correia - Marcelo e o discurso em ucraniano

 * Margarita Correia   

04 Setembro 2023 

Muito se escreveu sobre o discurso que Marcelo terá proferido durante as comemorações no Dia da Independência da Ucrânia, a 24 de agosto. Percorrendo as notícias sobre o assunto, podemos ler que Marcelo "discursa / faz discurso em ucraniano", "lê em ucraniano", "fala em ucraniano". Será que o fez? De facto, quando chegou a sua vez de discursar, o Presidente optou por reproduzir oralmente, supostamente em ucraniano, um texto.

O que estava no documento? É pouco provável que fosse um texto escrito em ucraniano: esta língua escreve-se com alfabeto ucraniano, variação do alfabeto cirílico, que inclui 34 letras representando 40 fonemas (representações mentais, abstratas, dos sons); dessas 34 letras: 20 representam consoantes (algumas não existentes em português); 10, vogais (idem); duas, semivogais; um "sinal suave", que modera a entoação da consoante que o antecede; um apóstrofo, que suaviza algumas consoantes em contextos não esperados. Também é improvável que estivesse escrito em Alfabeto Fonético Internacional (AFI), um sistema Internacional de notação fonética composto por 157 carateres, que visa obter uma representação padronizada dos sons (concretos) das línguas do mundo, que permite a um connaisseur reproduzir oralmente uma transcrição fonética de qualquer língua, mas que é amplamente desconhecido do cidadão comum. O mais provável é que fosse um documento escrito em ucraniano romanizado, i.e., usando um sistema de transcrição/transliteração de ucraniano em carateres latinos. O problema é que o alfabeto cirílico foi criado precisamente por se assumir que o latino não representava eficazmente os sons das línguas eslavas.

O que fez Marcelo foi tão-só reproduzir através da voz uma transcrição em alfabeto latino de um texto talvez escrito originalmente em ucraniano, ou traduzido de português para ucraniano.

Marcelo "leu em ucraniano"? José Morais, no seu livro de 1992 sobre leitura, conta que John Milton, que ficara cego, ensinou as filhas a reproduzir oralmente textos clássicos, para, ouvindo a voz delas, poder usufruir do conteúdo deles, e chega à conclusão de que nem Milton lia, nem as filhas liam, em sentido estrito: elas reproduziam sinais gráficos através da voz, ele ouvia a voz delas e (re)construía a representação mental do conteúdo dos textos. Leitura implica compreensão e, mesmo ao ler em voz alta, compreendemos o que dizemos, o que torna possível usar a prosódia certa, i.e., ler com entoação. Marcelo não leu com entoação, não compreendeu o que disse e, portanto, não leu, nem discursou naquela língua.

Marcelo "falou em ucraniano"? Para falar uma língua é preciso sabê-la (dominar a sua gramática e vocabulário, construir enunciados, articular os sons dessa língua e atribuir significado ao contínuo sonoro de quem fala a língua). E Marcelo não sabe ucraniano, como ele próprio admitiu ao comentar o seu ato. Não falou, nem poderia falar.

Em suma, o que fez Marcelo foi tão-só reproduzir através da voz uma transcrição em alfabeto latino de um texto talvez escrito originalmente em ucraniano, ou traduzido de português para ucraniano. É legítimo questionar se, após passar por tantas traduções e transliterações, o texto faria ainda sentido, mas isso eu não sei. Quando Cândida Pinto, na Grande Entrevista, perguntou a Zelensky se ele tinha percebido o discurso, ele parece ter respondido que não...

O que está em causa não é o comportamento do Presidente, que terá certamente atingido algum(uns) dos propósitos que tinha em mente ao fazê-lo. Pergunto-me, sim, o que levará os media a, da perspetiva do discurso, serem tão pouco precisos no uso da linguagem ou, talvez, a pretenderem exacerbar as qualidades de Marcelo. A cada um, a sua resposta.

Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

https://www.dn.pt/opiniao/marcelo-e-o-discurso-em-ucraniano-16963607.html?  


domingo, 3 de setembro de 2023

A FOME vista por Galeano

* Eduardo Galeano


 UMA COLÓNIA SUPERPOVOADA

Não saía fumo das chaminés. Em 1850, depois de quatro anos de fome e de pragas, os campos da Irlanda despovoaram-se, e pouco a pouco as casas desabitadas ruíram. Os habitantes tinham partido para o cemitério ou para os portos da América do Norte.

A terra nem batatas dava. Só a produção de loucos crescia. O manicómio de Dublin, pago por Jonathan Swift, tinha noventa internos quando foi inaugurado. Um século depois, havia mais de três mil.

Durante a fome, Londres enviou alguma ajuda de emergência, mas a caridade acabou passados alguns meses. O império decidiu não continuar a socorrer esta colónia incómoda. Conforme explicou o primeiro-ministro, lorde Russell, o ingrato povo irlandês pagava esta generosidade com rebeliões e difamações e isso caía muito mal à opinião pública.

E Charles Trevelyan, alto funcionário encarregado da crise irlandesa, atribuiu a fome à Divina Providência. A Irlanda tinha a mais alta densidade demográfica de toda a Europa, e uma vez que o excesso de população não podia ser evitado pelos homens, Deus solucionava-o em toda a sua sabedoria, de forma imprevista, inesperada, mas com grande eficácia.



DESASTRES NATURAIS

Um deserto vazio de passos e de vozes, apenas pó fustigado pelo vento.

Muitos chineses se enforcam, antes que a fome os leve a matar ou antes que a fome os mate.

Os triunfantes mercadores da guerra do ópio fundam em Londres o Fundo de Socorro para a Fome na China.

Esta instituição de caridade promete evangelizar o país pagão por via digestiva: do Céu choverão alimentos, enviados por Jesus.

*

OUTROS DESASTRES NATURAIS

Em 1879, depois de três Invernos sem chuva, há menos nove milhões de indianos.

A culpa é da natureza:

– São desastres naturais – dizem os que sabem.

Mas na Índia, nesses anos atrozes, o mercado castiga mais do que a seca.

Como lei do mercado, a liberdade oprime. A liberdade de comércio, que obriga a vender, proíbe comer.

A Índia é uma plantação colonial, não uma misericórdia. O mercado manda. Sábia é a sua mão invisível, que faz e desfaz; e ninguém tem razão para corrigi-la.

O governo britânico limita-se a ajudar a morrer uns quantos moribundos, nos seus campos de trabalho chamados Campos de Socorro, e a exigir os impostos que os camponeses não conseguem pagar. Os camponeses perdem as suas terras, que se vendem ao desbarato; e ao desbarato se vendem os braços que nelas trabalham, enquanto a escassez eleva até às nuvens o preço  dos grãos que os empresários açambarcam.

Os exportadores vendem mais do que nunca. Montanhas de trigo e de arroz são despejadas nos portos de Londres e de Liverpool. A Índia, colónia esfomeada, não come, mas dá de comer. Os britânicos comem a fome dos indianos.

É muito cotada no mercado esta mercadoria chamada fome, que multiplica as oportunidades de investimento, reduz os custos de produção e aumenta os preços dos produtos.

*

O PAI DA CRUZ VERMELHA

A Cruz Vermelha nasceu em Genebra, fruto da iniciativa de alguns banqueiros suíços, para socorrer os feridos abandonados pelas guerras nos campos de batalha.

Gustave Moynier, o primeiro presidente, encabeçou o Comité Internacional durante mais de quarenta anos. Ele explicava a Cruz Vermelha, instituição inspirada na moral evangélica era bem recebida nos países civilizados, mas deparava com muita ingratidão nos países colonizados.

— A compaixão — escreveu — é desconhecida por aquelas tribos selvagens, que praticam o canibalismo. Este sentimento é-lhes tão estranho que as suas línguas não têm nenhuma palavra para expressar essa ideia.

*

CHURCHILL

Todo-poderosa era a influência dos herdeiros de lorde Marlborough, conhecido como Mambru; graças à sua família, o jovem Winston Churchill conseguiu entrar num dos batalhões de lanceiros que iam combater no Sudão.

Ele foi soldado e cronista da batalha de Omdurman, em 1898, nos arredores de Cartum, nas margens do rio Nilo.

A coroa britânica estava a criar um corredor de colónias que atravessasse África do Cairo, a norte, a Cidade do Cabo, no extremo sul. A conquista do Sudão era fundamental para esse projecto de expansão imperial, que Londres explicava dizendo:

— Estamos a civilizar África através do comércio,

em vez de confessar:

— Estamos a comercializar África através da civilização.

Esta missão redentora abria caminho a ferro e fogo. Como os raquíticos cérebros africanos não conseguiam compreendê-la, ninguém se dava ao trabalho de lhes pedir opinião.

Nos bombardeamentos da cidade de Omdurman, reconheceu Churchill, morreu um grande número de infelizes não-combatentes, vítimas do que passou a chamar-se, um século depois, danos colaterais. Mas, finalmente e segundo as suas palavras, as armas imperiais obtiveram o triunfo mais eloquente jamais alcançado pelas armas da ciência contra as armas da barbárie, a derrota do exército selvagem mais poderoso e mais bem armado alguma vez amotinado contra um moderno poder europeu.

De acordo com os dados oficiais dos vencedores, este foi o resultado da batalha de Omdurman:

nas tropas civilizadas, cerca de dois por cento de baixas;

nas tropas selvagens, cerca de noventa por cento de baixas.

(Eduardo Galeano, “Espelhos – Uma História Quase Universal. Antígona, 2018.)

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/a-fome-vista-por-galeano-119778?fbclid=IwAR18acpxl2-IGfXzyZIMaSPGjS_ND5k_qJoAl6j8pDX1MgsI2GA3mfyi1WI

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

Antero de Quental - Poesia

* Antero de Quental


AOS MISERÁVEIS


Vós vedes esses lobos carniceiros,
Que em volta d0s redis andam bramindo?
Que onde se espalha o sangue são primeiros,
E últimos onde o Amor esta sorrindo?
Tremeis de medo ao vê-los? ou, rasteiros,
Da vista deles vos andais sumindo?
Ou, cheios de ódio, estais a invejá-los?
Pois, em verdade, que é melhor chorá-los!

Eles não vêem deste grande mundo
Mais que os tectos dourados de seus paços...
Vós tendes todo o céu largo e profundo
Por tecto, e por palácio esses espaços!
O que Deus dá a todos... o fecundo...
Que não se nega aos mais mirrados braços...
O brado que de um peito amado sai...
E o que do olhar das mães n’alma nos cai...

A herança é bela, miseráveis! vede...
Miseráveis! porquê? porque no estio
Só piedoso olhar vos mata a sede?
Porque, quando tremeis de fome e frio,
Deus só seio de amigo vos concede?
Só tendes a esperança, como rio,
Para banhar-vos no maior calor?
Eles têm tudo... sé lhes falta o Amor!

Não têm inteligência! a que vem d’alma!
Esse grande entender da Grande Cousa!
Cacho nascido na mais alta palma!
Coroa de quem crê e de quem ousa!
Sangue de irmãos a sede lhes acalma.
Dão banquetes no mármore da lousa...
E saber isto? é isto inteligência?
Não! que o Bem é o perfume dessa essência!

A cânfora… a balsâmica resina...
A essência que destila sobre os Povos,
Na fronte deles, como unção divina...
Quando o tronco deitou rebentos novos,
E palpitou a ave pequenina
Por um leve rumor dentro em seus ovos,
Então caiu também da imensidade,
Sobre a fronte dos povos, a Verdade!

É Ela, que ressalta, como lume,
Do choque das ideias e das cousas!
Não há grilhões que a prendam... que os consume!
Nem campa… que ela estala as frias lousas!
Machado de aço fino, com o gume
A árvore decepou onde te pousas
Tu, negro mocho da Hipocrisia,
E tu, águia fatal da Tirania!

Odes Modernas – Livro Segundo (Antero de Quental, Poesia Completa. Círculo de Leitores. 1991)

sábado, 26 de agosto de 2023

Carlos Matos Gomes - Truanismo — o regime de falsificação da história e dos valores



* Carlos Matos Gomes

2023 08 26

A propósito da atuação de Marcelo Rebelo de Sousa na presidência da República, António Barreto escreveu na sua coluna no Público (26/08/23) — Grande angular: «O regime está mudar». “O Presidente vetou tudo. Não por motivos constitucionais, jurídicos e constitucionais, mas por razões políticas e programáticas.” (…) “Além do tradicional, o Presidente parece agora desempenhar vários papéis. O de fiscal da ação política, provedor do cidadão, colegislador, responsável pelas políticas públicas.” (…) “ Estamos a assistir a uma mudança de regime” E exalta como exemplo da virtuosidade da ação de Marcelo Rebelo de Sousa e da mudança de regime a patética visita a Kiev para marcar o ponto: “ O Presidente da República desempenhou na Ucrânia, com garbo (hirto a marchar com os braços colados ao corpo em direção ao mural de Bucha) e competência (sic), cultural (sic — deve ter sido quando falou ucraniano) e afetuosamente (é um distribuidor de afetos ambulante, sabe-se), com brilho e distinção” (é uma nota de um examinador amigo).

A António Barreto salta a boca para a verdade e para a contradição quando afirma (para fazer a quadratura do círculo): “Ultrapassou (sic) as tradições de cerimónia. Dentro das margens estabelecidas pela Constituição (definidas por Barreto), foi um verdadeiro Chefe de Estado (uma figura não contemplada na Constituição) e chefe da política externa” (outro pé fora da Constituição).

As contradições no raciocínio de A Barreto são antigas e evidentes. É evidente que Marcelo Rebelo de Sousa subverte a natureza do regime que foi votado pelos portugueses e que está fixado na Constituição. A primeira conclusão a tirar é a de que estamos perante um abuso de poder exercido por quem se arroga do exercício de um cargo em seu proveito e à margem da lei. A António Barreto não interessa referir o pormenor de que a mudança de regime que ele diz estar em curso coloca a velha e decisiva questão de todos os regimes de saber quem julga os juízes! Nos Estados Unidos os presidentes vão a tribunal!

Estes casos de abuso de poder são tão mais perversos e de chocante desonestidade porquanto são praticados pelos que foram eleitos para respeitar os limites dos outros poderes, o que implica serem particularmente exigentes consigo e com os seus. Não é, manifestamente o caso de Marcelo Rebelo de Sousa, nem do seu apoiante António Barreto, que interpretam a lei segundo o seu interesse, sem limites. Que se colocam permanentemente na posição do soberano atrevido e do truão irresponsável.

A importância e o foco da mudança de regime que o artigo de António Barreto evoca no título não reside, contudo, apenas na corrupção constitucional e no abuso de poder de Marcelo Rebelo de Sousa que, sendo graves, são uma consequência de uma prática que se tem vindo a impor nas chamadas democracias liberais do Ocidente, cada vez menos democracias, menos liberais e mais totalitárias, iliberais e populistas.

Regimes que têm sido definidos, à falta de melhor, por democracias iliberais — em que os cidadãos votam para uma assembleia que os devia representar, mas em que o poder de facto reside noutras instâncias, capturado por “presidentes”, presidentes de estados, de corporações financeiras e da indústria, de instituições, por manipuladores de opinião, civis e religiosos.

Marcelo Rebelo de Sousa é mais um na linha desse tipo de políticos populistas que incluem personagens como Reagan, como Bush jr, Obama, Blair, Boris Johnson, como João Paulo II ou o bispo da IURD, como Trump, ou, recentemente, como Ursula Von Den Leyen e Zelenski.

É o surgimento destas novas personagens como figuras de efetivo e real poder que carateriza os regimes políticos no espaço civilizacional que reuniu a tradição e a filosofia grega, inglesa e francesa que eram, sublinhe-se, regimes aristocráticos, em que o soberano (mesmo que formalmente presidente de uma república) se deificava, exercia o seu magistério de forma distante, raramente sujava as mãos e se expressava através de vassalos, o mais eficaz dos quais era o truão. O truão, uma palavra de origem provençal, era sustentado pelos reis, pago para fazer passar com zombarias e bobagens, sem tumulto e de forma indolor, as ações mais subtis e perversas do exercício do poder real.

Os novos poderes, os novos regimes a que A. Barreto associa Marcelo Rebelo de Sousa, têm como novidade essencial a tomada do poder pelos truões. Os truões deixaram de ter um soberano para quem trabalhavam e passaram a ter eles o poder. Um processo que já havia sido previsto por George Orwell em O Triunfo dos Porcos e que tem levado vários atores ao poder real, Reagan, Trump, Johnson, Zelenski. Marcelo Rebelo de Sousa era, recorde-se, um popular comentador político nas televisões!

O truanismo de Marcelo Rebelo de Sousa manifestou-se em pelos menos três casos exemplares. O primeiro na triste viagem de salamaleques a Londres para celebrar o Tratado de Aliança Luso-Britânico. O tratado é tudo menos merecedor de hinos e cortesias de dobra da espinha por parte de Portugal. O tratado serviu os interesses dos ingleses, que utilizaram Portugal continental como base de combate a Napoleão e passaram a ter direito ao comércio do Brasil. O tratado transformou (ou oficializou) Portugal numa colónia inglesa, o que não é motivo para os ademanes de Marcelo Rebelo de Sousa perante uma outra figura de decoração, Carlos III, ademanes, vénias e sorrisos que transmitem a mensagem que Portugal e os portugueses se sentem muito bem, felizes, como fiéis servidores e vassalos de suas majestades britanicas. Marcelo Rebelo de Sousa pode ter o dorso moldado para servir de montada, mas não essa atitude não consta do cartão do cidadão.

A segunda exibição truanesca ocorreu com a visita do Papa, durante a Jornada da Juventude: ver um Presidente a fazer de sacristão não é um bom estímulo para nós, enquanto portugueses, nos interrogarmos sobre o papel das várias instituições na nossa sociedade. A beatice de Marcelo pode ser-lhe confortável, mas revela falta de respeito pela responsabilidade individual dos portugueses que decidem por si, segundo o seu livre arbítrio. Os que não pertencem a um rebanho e dispensam pastores não se revêm nestas atitudes.

Por fim, esta risível (talvez seja o melhor qualificativo) visita a Kiev. Em termos políticos é uma prova de vassalagem, de truanismo: o presidente de Portugal está com os Estados Unidos, como Durão Barroso já estivera com Bush na invasão do Iraque e Santos Silva havia estado com Trump a apoiar Guiadó na Venezuela. A visita está nessa linha de vassalagem de um truão. E, não satisfeito com essa tarefa, Marcelo Rebelo de Sousa atribui o colar da Ordem da Liberdade a Zelenski! O qual, suprema ironia, recusa porque é modesto e não quer ficar como único responsável pelo desastre que se prevê venha a ser o futuro da Ucrânia. Nem com a glória, na versão otimista. Por fim, declara que as suas palavras e atitudes comprometem Portugal e os portugueses no seu todo e para sempre! Assim nega o presidente que exerce a função num regime de liberdade, logo de pluralidade, o direito à diferença. A mudança de regime detetada por António Barreto não parece trazer nem liberdade, nem responsabilidade, nem senso das realidades, nem respeito pelos direitos dos cidadãos.

Mas o truanismo, a farsa da atribuição da Ordem da Liberdade a Zelenski nem assenta na personagem Zelenski, nem no processo que o levou ao poder, e que ali o mantém, nem na natureza do regime ucraniano, mas sim na corrupção feita por Marcelo Rebelo de Sousa do conceito de Liberdade que a atribuição (falhada ou não) da Ordem significa a vários títulos. O primeiro dos quais é o presidente da República Portuguesa, professor doutor, constitucionalista e político de relevo desde a mais tenra idade, confundir Liberdade — um valor ético — com Independência — um valor político.

Na Ucrânia o regime no poder luta pelo que entende ser a Independência política e pelos interesses a ela associada. Não luta pela Liberdade. O regime ucraniano e os seus dirigentes não clamam por liberdade (que abafaram): clamam por integração em instituições multinacionais que lhe retiram liberdade sob a forma de parcelas de soberania. Em última estância, o presidente português ofende os ucranianos (não colocando como exigência da perda de soberania que eles se pronunciem livremente) e confunde os portugueses com o abuso da entrega da Ordem da Liberdade a quem pede sujeição, mesmo com o pretexto de se defender de uma invasão, esquecendo o que fez ou não fez para a provocar ou para a evitar. As causas da guerra são não temas para os fiéis que cumprem o seu dever de presença.

A contradição final: Quem impede que a Ucrânia e Zelenski entrem para NATO e para a União Europeia não é a Rússia, são a NATO e a União Europeia que negam a liberdade da Ucrânia, não a recebendo. Marcelo Rebelo de Sousa, presidente de um Estado membro da NATO e da U E, outorga a Ordem da Liberdade a um Estado a que os seus parceiros negam a liberdade de aderir a esses dois esteios da Liberdade! E depois ri-se tira uma selfie. Em que gaveta, caixote ou armário ucraniano estará metido neste momento o colar da Ordem da Liberdade?

O truanismo segue impante e sem se deter com ninharias.

https://cmatosgomes46.medium.com/truanismo-o-regime-de-falsifica%C3%A7%C3%A3o-da-hist%C3%B3ria-e-dos-valores-fd18edb2ea09

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Sophia de Mello Breyner - Pelo negro da terra e pelo branco do muro

* Sophia de Mello Breyner Andresen

 10 de Agosto de 2002, 0:00

Há uma beleza que nos é dada: beleza do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas. Mas há também uma outra beleza que o homem tem o dever de criar: ao lado do negro da terra é o homem que constrói o muro branco onde a luz e o céu se desenham. A beleza não é um luxo para estetas, não é um ornamento da vida, um enfeite inútil, um capricho. A beleza é uma necessidade, um princípio de educação e de alegria. Diz S. Tomás de Aquino que a beleza é o esplendor da verdade. Pela qualidade e grau de beleza da obra que construímos se saberá se sim ou não vivemos com verdade e dignidade. A obra do homem é sempre um espelho onde a consciência se reconhece. Quando olhamos à nossa roda as aldeias, vilas e cidades de Portugal temos de constatar que quase tudo quanto se construiu nas últimas décadas é feio. Feio e - ai de nós! - para durar. Feias as obras públicas e feias as obras particulares. As excepções à regra de fealdade são raras. Costuma dizer-se que a nossa pobreza é a origem dos nossos males. Mas o que caracteriza grande parte da nossa arquitectura desta época é o novo-riquismo. Um novo-riquismo exibicionista - quase sempre sem funcionalidade e sempre sem cultura e sem sensibilidade. Isto é especialmente triste quando comparamos o presente com o passado: de facto olhando os antigos solares de pedra e cal vemos que a nossa arquitectura soube criar nobreza sem riqueza. Daí a pureza e a dignidade de tantas casas antigas. Agora não se trata evidentemente de copiar o passado: a arquitectura é uma arte e a arte é criação e não imitação. Continuar não é imitar e imitar é sempre ofender e trair aquilo que é imitado. Mas é necessário que exista aquela consciência do passado e do presente a que chamamos cultura. Somos um país antigo. Dizem-nos que somos um país pobre. É estranho que destas coordenadas resulte uma arquitectura de novos ricos. A construção da cidade moderna traz problemas difíceis de resolver: problemas de espaço e de circulação. Mas entre nós estes problemas só existem em Lisboa e no Porto. No resto do país os problemas são quase unicamente problemas de humanidade, de bom senso, e de bom gosto ou seja problemas de moral, de inteligência e de sensibilidade e cultura. A regra a seguir é esta: uma casa para todos e beleza para todos. E a beleza não é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do dinheiro. Penso neste momento especialmente na terra do Algarve, com suas praias, suas grutas, seus promontórios, seus muros brancos, sua luz claríssima. É preciso não destruir estas coisas. É preciso que aquilo que vai ser construído não destrua aquilo que existe.  arte é sempre a expressão duma relação do homem com o mundo que o rodeia. A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má arquitectura. Afirma-se que é necessário desenvolver turisticamente o Algarve. Para isso será preciso construir. Mas é necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz e o próximo. Existem todas as condições para que se possa criar no Algarve uma boa arquitectura: ali temos uma paisagem e uma luz que pedem "arquitectura", ali encontramos um uso belo e tradicional do barro e da cal; ali temos uma arquitectura local lisa e pura como uma arquitectura moderna, uma arquitectura popular cujos temas o arquitecto poderá desenvolver duma forma mais técnica e mais culta: ali temos um clima que facilita a vida e propõe soluções de extrema simplicidade. Ali poderemos ter os materiais, as inovações, a técnica e a cultura do nosso tempo. Ali poderão trabalhar os arquitectos competentes que existem no nosso país. Mas é urgente evitar os seguintes perigos:- A incompetência- O saloísmo- As especulações com os terrenos- Os maus arquitectos- O falso tradicionalismo- A mania do luxo e da pompa- As obras de fachada Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor. De todas as artes a arquitectura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à vida. Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitectura.

(Publicado em Janeiro de 1963, no nº 21 da "Távola Redonda")

https://www.publico.pt/2002/08/10/jornal/pelo-negro-da-terra-e-pelo-branco-do-muro-173555

sábado, 19 de agosto de 2023

Camo Afonso A franqueza de Eduardo Catroga e a pobreza dos portugueses

 OPINIÃO -, 

* Carmo Afonso
18 de Agosto de 2023

Ainda bem que Catroga teve um percurso de sucesso e que foi sempre bem remunerado. Terá sido excelente. Mas estranha-se a falta de noção

Li neste jornal uma entrevista a Eduardo Catroga feita pela jornalista Helena Pereira. Rui Gaudêncio foi o repórter fotográfico. Destaco nomes porque considero que foi um trabalho bem conduzido e bem conseguido.

A propósito do convite para ser ministro das Finanças Eduardo Catroga disse: “Quando essa oportunidade apareceu, estava com 50 anos, tinha autonomia financeira para fazer o sacrifício de ir para o Governo.” Mais adiante, ainda esclareceu que pode investir nessa experiência (de ser ministro das Finanças) porque “já tinha uma acumulação de capital privado” que lhe “permitia manter o nível de vida” que já tinha dado à sua família.

Eduardo Catroga não se coibiu de ser franco. Essa falha não lhe pode ser apontada. Mas na sua franqueza podemos observar que, em Portugal, existem dois mundos socioeconómicos separados por aquilo a que devemos chamar “um fosso”. A maioria dos portugueses considera o salário de um ministro um patamar de riqueza ao qual não pode aspirar. Não é só uma impressão. É absolutamente real e os números falam por si. Aproximadamente um milhão de trabalhadores portugueses ganha o salário mínimo nacional. Se aprofundarmos e detalharmos a informação disponível, temos que 66% dos trabalhadores ganham abaixo dos 1000 euros mensais e 27% ganham entre 1000 e 2499 euros. Apenas 4% ganham entre 2500 e 4999 euros. Acima dessa remuneração, estão apenas 0,7% dos trabalhadores.

Um ministro em Portugal ganha mais de 5000 euros mensais. Não estou a dizer que é muito e ainda menos que é demasiado. O que estou a dizer é que, no contexto socioeconómico nacional, um ministro ganha aquilo que apenas uma ínfima minoria dos portugueses ganha. A situação não era muito diferente no tempo em que Eduardo Catroga foi ministro.

O ex-ministro da Finanças revelou que só aceitou viver, durante um período da sua vida, com um salário, que é para a maioria dos portugueses altíssimo, porque tinha umas economias que lhe permitiram, e à sua família, não baixar o nível de vida nesse período.

Ainda bem que Catroga teve um percurso de sucesso e que foi sempre bem remunerado. Terá sido excelente. Mas estranha-se a falta de noção quando está a dar uma entrevista que vai ser lida pela generalidade dos portugueses. Estamos a falar de uma pessoa que desempenhou funções públicas importantes.

Um ex-ministro partilhou com os portugueses uma perspectiva da vida, que é a sua, que os coloca na cauda da pura insignificância. Aquilo que poderiam sonhar ganhar num mundo ideal corresponde ao que Catroga ganhou por ter aceitado fazer um sacrifício pessoal.

Eduardo Catroga não se distinguiu por ter combatido as desigualdades sociais e é certo que desempenhou funções em que poderia ter feito alguma diferença nessa área. Fez o oposto. Como ministro introduziu uma “moderação salarial” na função pública. O nome indica o que está em causa. Também baixou a TSU para as empresas e aumentou a taxa de IVA, prejudicando os que ganhavam menos. Destacou-se ainda a equilibrar as contas públicas, o que tem um conhecido impacto negativo nos rendimentos dos trabalhadores.

Dá tanta importância ao salário e ao dinheiro que, passados todos estes anos, ainda destacou ter feito um sacrifício financeiro para ser ministro. Mas conviveu bem com a imposição, aos portugueses, de apertarem o cinto até doer. Estamos a falar de portugueses que viviam numa situação infinitamente pior.
Não pretendo evidenciar falhas morais de Eduardo Catroga. O que tem aqui interesse, e digo interesse político, é que as desigualdades socioeconómicas em Portugal são gritantes e algumas das pessoas que integram a minoria privilegiada estão confortavelmente instaladas no seu privilégio sem ao menos acusar a consciência da gravidade política dessa situação. Reparem que injustiça social nunca foi o berço da paz.

Algumas das pessoas que integram a minoria privilegiada estão confortavelmente instaladas no seu privilégio sem ao menos acusar a consciência da gravidade política dessa situação

As pessoas costumam dizer que “quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão”. Nesta frase está implícito um profundo descrédito na ideia de que somos todos tratados como iguais. Na verdade, não somos e esta consciência de classe faz mesmo falta aos portugueses. O mar está muito bravo.
A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

Advogada

https://www.publico.pt/2023/08/18/opiniao/opiniao/franqueza-eduardo-catroga-pobreza-portugueses-2060533 

terça-feira, 15 de agosto de 2023

DN - Entrevista a João Soares, por Pedro Cruz

 

João Soares: "Sócrates fez uma asneira porque quem foi líder de um partido, não se demite dele"

Artigo originalmente publicado a 14 de abril de 2023. O DN, durante o mês de agosto, republica algumas entrevistas marcantes e mais lidas desde o verão de 2022..

João Pedro Henriques e Pedro Cruz

15 Agosto 2023 

Filho do principal fundador do PS, João Soares, ex-deputado, ex-presidente da Câmara de Lisboa e ex-ministro de Costa, diz que todos os ex-líderes devem ser convidados para a festa dos 50 anos, inclusivamente Sócrates, apesar da "asneira" de ter deixado o partido.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973? Mário Soares e a mulher Maria Barroso estavam na Alemanha, na reunião da fundação do Partido Socialista. Maria Barroso é, aliás, a única mulher presente na fotografia que se tornou icónica e que marca o nascimento do partido. E os filhos, Isabel e João? João Soares tinha 23 anos. Hoje, com 73 anos, afastado da política depois de ter sido deputado, presidente da câmara de Lisboa e (muito esporadicamente) ministro (da Cultura), João Soares dá nesta entrevista DN/TSF a sua visão do que foi a fundação do PS.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973?

Eu e a minha irmã estávamos em Paris, curiosamente, mas estávamos evidentemente a par do que se ia passar na Alemanha. E até recebemos indicações para, no final dos trabalhos, mandar um telegrama para o Porto, para os irmãos Cal Brandão ou para o António Macedo, com um texto perfeitamente anódino e pré combinado que sinalizaria que as coisas tinham corrido bem e que o desfecho tinha sido aquele que todos eles esperávamos.

Fernanda Câncio - Clericalismo e anticlericalismo, uma introdução

 OPINIÃO

* Fernanda Câncio 

15 Agosto 2023 

Mais de um século após a 1ª República e no ano em que finalmente se revelou a diabólica dimensão dos crimes de abuso na Igreja Católica portuguesa, descobrimos que um furor clerical tomou conta dos representantes do Estado e das autarquias, e que ser anticlerical é descrito como ódio e fobia. Há coisas do demónio.

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Achava que já tinha escrito que chegasse a propósito da Jornada Mundial da Juventude, mas a possessão beata dos representantes do Estado e autarquias portuguesas não permite mudar de assunto.

Não bastou, portanto, torrar dezenas de milhões de euros numa semana de propaganda religiosa de uma igreja, nem vermos o primeiro-ministro a determinar, definitivo e autocrático, como "absurdas essas polémicas" - as sobre os gastos - assegurando de seguida que o tal retorno incrível que ia haver de todo esse investimento é "imaterial" (em lugares no céu?). Não chegou termos a conversão televisiva do presidente da Câmara de Lisboa em porta-cruzes. Não chegou termos todos os canais de televisão trasladados em canção da boa-nova ou lá como se chama aquilo. Não chegou sermos setenta vezes sete vezes esbofeteados com a certificação de que como "80% do país é católico porque Censos" quem não for católico ou quem, sendo-o, defenda a laicidade tem mais é de ficar bem caladinho e perguntar se querem mais um café ou um copo de água ou umas dezenas de milhões de euros, por obséquio.

Não: tínhamos ainda de ver uma autarquia - a de Oeiras - mandar retirar, na véspera da chegada do papa, um cartaz que, custeado por um crowdfunding de 300 cidadãos, lembrava e honrava, à guisa do memorial prometido que não aconteceu, as 4800 vítimas estimadas de abuso sexual na Igreja Católica portuguesa desde 1950. Tínhamos de ver uma autarquia - a de Loures - "convidar para a missa" os seus munícipes, como se uma missa, católica ou de outro culto qualquer, fosse uma espécie de concerto do Tony Carreira ou dos Xutos oferecido pelo município para alegrar os cidadãos. Tínhamos de ver um autarca - Moedas, de novo - a anunciar que decidira nomear um equipamento público, a ponte sobre o rio Trancão, "Cardeal Dom Manuel Clemente", calcando as regras municipais para a toponímia que implicam não apenas votação camarária e apreciação pela comissão criada para esse efeito como, por regra, só atribuir o nome de quem tenha morrido há pelo menos cinco anos (isto para não falar da genuflexão daquele "Dom"). E tínhamos ainda de ver a conta Twitter oficial da Câmara de Lisboa a "ocultar" (censurar, portanto) respostas a esse anúncio que se limitavam a reproduzir o cartaz com o número de vítimas de abuso, chegando até a bloquear quem assim respondia. Uma conta oficial de uma autarquia a tratar como difamação, insulto ou calúnia os números da comissão nomeada pela própria Igreja Católica.