segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Amílcar Correia - Novo símbolo do Governo gera críticas à direita e ameaças ao seu autor


DESIGN

Novo símbolo do Governo gera críticas à direita e ameaças ao seu autor

O escudo, as quinas e os castelos não constam do novo logótipo do Governo, para que este “não se torne uma cópia ou uma adaptação livre da bandeira original”

Amílcar Correia

25 de Dezembro de 2023, 19:09

Personalidades da direita e da extrema-direita portuguesa criticaram o novo logótipo do Governo, porque a sua identidade gráfica foi descrita como “inclusiva, plural e laica”, e porque nele não figuram “os sete castelos, as cinco quinas, as chagas e a esfera armilar” da bandeira nacional.

Paulo Portas, José Miguel Júdice, Manuela Ferreira Leite, Nuno Melo ou André Ventura foram algumas dessas vozes que se insurgiram contra a nova identidade visual do Governo, que desencadeou um coro violento de críticas nas redes sociais, e esteve na origem de várias ameaças ao seu autor, o designer Eduardo Aires, que, entretanto, apresentou queixas às autoridades judiciais.

Houve quem amaldiçoasse a ideologia woke (expressão que descreve uma perspectiva progressista em que há preocupações de igualdade de género, religiosa, bem como para com as pessoas LGBTQ e de diferentes etnias) que estaria subjacente a esta alteração. E quem achasse que “este novo logótipo que decretaram representar o nosso país, sem nos perguntar, não respeita a história de um dos mais antigos países da Europa”.

Pacheco Pereira tem sido excepção: “Esta é uma típica questão suscitada pela direita radical que não tem hoje muitas oportunidades para ser nacionalista, e prolongada por ignorância, ou por equívoco, pela direita em peso e pela ala direita do PS”, escreveu na revista Sábado.

O designer Eduardo Aires recorda que o logótipo governamental começou a ser amplamente utilizado aquando da Jornada Mundial da Juventude, e que teve outro momento de grande exposição na entrega do Orçamento do Estado, mas que as críticas só surgiram depois da demissão do primeiro-ministro, em Novembro.

“É um facto que as críticas”, afirma ao PÚBLICO, “só surgiram depois disso: elas são de uma profunda ignorância, porque não têm a percepção da complexidade do projecto, nem da síntese de criação de um logótipo com esta natureza”.


Foto

Exemplo de utilização do símbolo nas redes sociais D.R.

O facto de as críticas só terem surgido neste momento levam-no a concluir que a transição entre o anterior e o actual logótipo tenha sido uma evolução tranquila e a questionar se são indissociáveis da presente fase política do país. Luís Montenegro, líder do PSD, associou-se aos críticos desta mudança e já se comprometeu a alterar o símbolo, caso tome posse como primeiro-ministro.

Mas, afinal, que logótipo é este? A nova imagem é formada por uma coluna verde à esquerda, um círculo amarelo ao centro, numa reconfiguração sintética da esfera armilar, e uma segunda coluna vermelha à direita.

Os elementos verde e vermelho são colocados na mesma proporção em que surgem na bandeira portuguesa, que data da instauração da República e que tanta celeuma provocou na época, com Guerra Junqueiro a liderar o grupo dos críticos da opção final.


“Nas suas cores e na sua geometria são encontrados os argumentos visuais que melhor conseguem associar o símbolo à bandeira, sem a desvirtuar ou copiar”, lê-se no respectivo manual de identidade visual. O escudo, as quinas e os castelos não constam do novo símbolo, para que este “não se torne uma cópia ou uma adaptação livre da bandeira original” e possa ser uma “forma abstracta, isenta, para assim representar o executivo da República Portuguesa”.

Todos os órgãos de soberania têm os seus próprios símbolos. O da Presidência da República apenas tem o verde como fundo e o da Assembleia exibe simplesmente um desenho a preto e branco da respectiva fachada. É frequente que os organismos públicos, nomeadamente governos, recorram a uma linguagem visual que não seja um decalque preciso da bandeira nacional. Segundo Eduardo Aires, os Países Baixos e o Reino Unido são dois dos melhores exemplos de logótipos que não reproduzem a bandeira das respectivas Nações.

“Não é uma questão de ideologia”​

“O Governo não se identifica com a Nação e os símbolos nacionais são sempre reconstruções”, começa por dizer o politólogo João Adelino Maltez. “A República na sua via patriótica, imperialista, passou a [esfera] armilar a símbolo nacional para substituir a coroa. Há quem goste e quem não goste!”, diz.


Foto

Exemplo da nova tipografia do Governo. DR

João Adelino Maltez observa que “este símbolo, pelo menos, tem a vantagem de não confundir o Governo com a Nação” e tem, também, “a vantagem de ser simples”. Maltez nota que a oposição “transformou isto quase numa traição à pátria, o que não tem graça nenhuma”. “Portugal pode ter muitos problemas, mas não o da identidade nacional: o ‘sou mais patriota do que tu’ já deu o que tinha a dar.” Em suma, sintetiza o politólogo, “é um problema técnico, não é uma questão de ideologia”. “Quem deveria discutir isto”, sugere, “eram os especialistas”.

A intenção do Eduardo Aires Studio foi criar um logótipo que se comportasse correctamente segundo as especificidades de cada canal de comunicação, seja o email ou a newsletter, seja o PowerPoint ou um post numa determinada rede, a pensar na sua legibilidade num computador, telemóvel, mupi ou em qualquer outro dispositivo ou evento.

O referido manual de identidade gráfica estipula a utilização do logótipo em cada uma das várias situações, determinando regras gráficas e de paginação, com a “uniformização da natureza da informação e a sua hierarquização, para um Governo que assim fala no mesmo tom e na mesma linguagem gráfica”.

Ou seja, os 19 ministérios e os vários organismos públicos obedecem às mesmas regras de comunicação, o que até Maio último não acontecia, quer do ponto de vista gráfico, quer do ponto de vista da tipografia. O símbolo do Governo manteve-se inalterável nos últimos 12 anos (a sua criação data de um Governo de Pedro Passos Coelho e Paulo Portas).



Foto

Imagem do logótipo anterior DR

“Nos sites, nas redes sociais, nos grupos de conversação, nas aplicações mobile e em todas as plataformas digitais (que não existiam há 12 anos), a marca do Governo tem de se comportar tão bem como a de qualquer outro país, entidade ou empresa. Ou melhor”, explica João Cepeda, director de comunicação do Governo. O objectivo foi criar uma “representação do Governo e não do país”. “Do executivo e não da bandeira. Nunca da bandeira.”

João Cepeda acrescenta que “a expressão em que se baseiam as críticas nunca fez parte desse manual e portanto nunca quis fazer parte de qualquer narrativa pública. É retirada de um documento interno para as entidades tuteladas, com orientações técnicas sobre a aplicação da nova marca”.

O director de comunicação do executivo sublinha que “em nenhuma parte desse documento se afirma que a nova identidade visual da República Portuguesa se afirma ‘mais’ inclusiva, plural e laica. Apenas assume esses atributos, porque é suposto que toda a comunicação da República o faça; e uma imagem simplificada, mais genérica, que apenas usa as cores e as formas ao ponto de tornar o país reconhecível, é por inerência uma imagem mais plural, com menos valores simbólicos e limitada ao papel executivo de um Governo”.

A criação do logótipo foi secundada pela encomenda de dois tipos de letra, um para o logótipo em si e outro para o corpo de texto, da autoria de Dino dos Santos. Isto quer dizer, sublinha Eduardo Aires, que, contrariamente a algumas críticas que lhe foram feitas, esta mudança de identidade visual teve preocupações económicas, uma vez que os novos tipos de letra “podem ser empregues ad aeternum”.

Eduardo Aires é professor de Design na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto e um dos profissionais mais premiados em Portugal. Aires já venceu o D&AD, o European Design Awards e o Graphis Design Award. Este designer colaborou com a Fundação de Serralves e com a da Gulbenkian, com o Esporão ou com a Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Um dos trabalhos mais recentes, e ao mesmo tempo mais conhecido e premiado, foi a identidade visual da cidade do Porto.

tp.ocilbup@aierroca

https://www.publico.pt/2023/12/25/politica/noticia/novo-simbolo-governo-gera-criticas-direita-ameacas-autor-2074740

Carlos Coutinho - Erosão frutuosa

*  Carlos Coutinho

HÁ muito que eu trocava da melhor vontade todas as consoadas por qualquer sensoada, visto que, no mínimo, uma ceia de comezaina destravada a soar a superstição é sempre de uma noite que soa mal aos ouvidos de alguém como eu que tenho passado a vida a ouvir dislates, além de arrotos e outros ruídos estomacais.

Em contrapartida, uma refeição sem coisa soada pode ser alegremente um repasto sem barulhos indesejáveis, dentro ou fora de casa.

Verifico e registo que por entre palavras mortas há palavras a germinar, como julgo que também pensa o linguista Salikoko Mufwene, para quem “falar da evolução da linguagem não é uma metáfora”.

Teve, aliás, o arrojo de criar uma teoria geral das espécies aplicada à comunicação e parece que não foi tempo perdido. Disse mesmo que “há palavras inglesas noutras línguas, porque, provavelmente, é mais fácil transmitir o significado com as palavras inglesas do que com as palavras indígenas. Mas também é uma forma de mostrar que alguém está atualizado no conhecimento do mundo.”

É, de resto, o que vão fazendo muitos decisores, muitos analistas encartados, muitos comentadores e muitos estrategas de café.

Mas quem sou eu ara falar destas coisas, quando vejo que até o profissionalismo é uma forma de avacalhar a natureza humana, dando como vantagem a capacidade de um fulano ser cada vez menos genuíno e cada vez mais a máquina especializada e afunilada para um ofício?

Penso até na origem do nome António que comecei por encontrar na onomástica lusitana como a marca de um genial orador barroco e andarilho que fixou o tecido da minha língua, movendo-se sob uma válvula achatada de um molusco bivalve marinho da família Pectinidae a que ainda chamamos vieira.

Na verdade, António, segundo o Ciberdúvidas, é “talvez o nome mais popular da antroponímia portuguesa, permanece de origem obscura, se bem que alguns lhe encontrem etimologia etrusca que deu em latim ‘antonius’, “inestimável”, ou etimologia grega, ‘anthonomos’, o ‘que se alimenta de flores’.

É certo que existia já em Roma, designando uma ‘gens’ famosa da qual o mais conhecido é Marco António”, mas daí a admitir que um certo António de Santa Comba se alimentava de flores, embora andasse sempre encostado a uma cerejeira que floria no Patriarcado de Lisboa, vai uma distância enorme.

E isto sem ter em conta a vila de Vieira de Leiria, onde em tempos me refugiei por uma semana, quando a PIDE, ainda sem saber o meu nome, andava à minha procura, por motivos que não são agora para aqui chamados.

Vale a pena saber que a área desta freguesia é constituída por dois elementos geológicos e que um deles, representado por uma cobertura de areias de praia e de areias e dunas, ocupa toda a faixa litoral. Podem também ser incluídos neste conjunto moderno os aluviões do Lis. Na margem sul deste rio, entre as dunas do litoral, a faixa aluvial é muito estreita e os aluviões penetram numa depressão interdunar situada junto à praia de Vieira.

Mas, se um António pode ser padre e até jesuíta, como pôr em dúvida as suas profecias, incluindo as mais estapafúrdias, como a do Quinto Império, coisa universal e sob a égide de Portugal?

2023 12 25


LEÃO TOLSTOI – UM CONTO DE NATAL

* LeãoTolstoi

Um camponês russo, muito cristão, pedia nas suas orações que Jesus o viesse visitar à sua humilde cabana.

Na véspera do Natal sonhou que o Senhor lhe iria aparecer. Teve tanta certeza da visita que, logo que acordou, levantou-se e imediatamente começou a limpar e a arrumar a casa para receber o tão esperado hóspede.

Lá fora, uivava uma violenta tempestade de granizo e neve, e o camponês prosseguia as suas tarefas domésticas, ao mesmo tempo que vigiava a sopa de legumes, que era o seu prato preferido.

De vez em quando ia olhar a estrada, sempre na expectativa. Passado algum tempo, viu que alguém se aproximava caminhando com dificuldade no meio do nevão. Era um pobre bufarinheiro, que carregava às costas um fardo bastante pesado. Com pena do homem, saiu da cabana e foi ao encontro do pobre mercador. Levou-o para o interior, pôs roupa dele a secar perto do lume da chaminé e repartiu com o hóspede a sopa de legumes. Apenas consentiu em deixá-lo partir quando viu que recuperara forças para retomar a jornada.
Olhando depois pela janela, vislumbrou uma mulher na estrada coberta de neve. Foi ter com ela e deu-lhe abrigo na choupana. Fê-la sentar-se próximo da chaminé, deu-lhe de comer, agasalhou-a com a sua capa… Não a deixou partir enquanto não viu que tinha de novo forças suficientes para a caminhada.

A noite caía… E Jesus não vinha!

De esperança quase perdida, foi novamente foi à janela e perscrutou a estrada atapetada de neve. A custo viu uma criança, percebendo que se encontrava perdida e enregelada pelo frio…Saiu mais uma vez, pegou na criança ao colo e levou-a para a cabana. Deu-lhe de comer, e não demorou muito para que a visse adormecida junto ao calor da chaminé.

Cansado e desolado, o camponês sentou-se e acabou também ele por adormecer junto ao fogo.

Porém, de súbito, uma luz radiosa, que não provinha da lareira, iluminou tudo! Diante do pobre homem, surgiu risonho o Senhor, envolto numa túnica branca!

– Ah! Senhor! Esperei-Vos todo o dia e não aparecestes, lamentou-se.

Jesus respondeu:

– Por três vezes, visitei  hoje a tua cabana: o mercador que socorreste, aqueceste e alimentaste…era Eu! A pobre mulher, a quem deste a capa…era Eu! E essa criança que salvaste da tempestade, era Eu também…O Bem que a cada um deles fizeste, a mim mesmo o fizeste.

 

Este conto já tinha sido publicado no Estrolabio a 20 de Dezembro de 2010. Cliquem em:

VerbArte – Duas visões diferentes sobre o Natal – Estrolabio (sapo.pt)

Djamel Labidi - Kiev e Gaza

25 DE DEZEMBRO DE 2023

Neste 25 de Dezembro

1Lembrar os hipócritas e os cínicos que  exaltam a liberdade de imprensa no Ocidente mas que fazem por esquecer que Julian Assange continua preso , que calam o mais possível as mortes deliberadas de jornalistas em Gaza pelo exército Israelita , que se limitam a noticiar o que lhes aparece debitado pelas agências de informação que sabem ser controladas pelos EUA e a promover internamente o Chega e a bipolarização PS/PSD , que de vez em quando descobrem que são despedidos por aqueles a que andaram a servir , sem regras , nem deontologia  ... facebook de Hipólito Jordan

2 Lembrar aos que foram bater palmas de pé na Assembleia da Republica à marionete de Biden que a Guerra na Ucrânia podia e devia nunca ter começado .

3 Kiev e Gaza. Djamel Labidi  

Os acontecimentos actuais obrigam-nos a comparar os conflitos na Ucrânia e na Palestina, Kiev e Gaza.


Em Kiev, caminhamos pelas ruas, acolhendo líderes ocidentais, chefes de estado, ministros, diplomatas, generais, empresários. Diz-se que as discotecas estão lotadas, e este verão até descobrimos imagens de jovens a festejar em piscinas. Nem nos refugiamos mais no metro. Acabamos entendendo que locais oficiais, bairros residenciais, áreas frequentadas, não foram atacados. tomamos o comboio, ou o avião, para viajar. Igrejas, monumentos e edifícios históricos estão lá, testemunhando o passado ortodoxo eslavo comum da Ucrânia e da Rússia. Certamente houve destruições, mas nada a ver com Gaza. Aqui os russos, ao que parece, estavam preocupados em não matar o futuro, em não provocar o ódio eterno. Eles poderiam, provavelmente no início do conflito, ter causado grandes danos a Kiev. Mas não fizeram isso.

Em Gaza não resta nada, exceto um povo de resistência

Em Gaza não existem mais mesquitas, não existem mais escolas, não existem mais universidades. Em Gaza praticamente já não há ruas onde andar, não há mais edifícios, não há mais casas. Eles foram bombardeados de forma sistemática, impiedosa e fria. Não há metrô para se refugiar. Os residentes tentaram inocentemente refugiar-se em hospitais ou edifícios de agências internacionais, acreditando que algumas regras diplomáticas ou humanitárias seriam pelo menos respeitadas, mas aí também foram bombardeados. Tentaram então refugiar-se nas ruínas dos edifícios já bombardeados, esperando que o raio não caísse duas vezes no mesmo local. Mas nada funcionou. Partiram então para o Sul como Israel exigia, mas Israel também bombardeou o Sul.

Em Gaza, há muito tempo que não existe um local festivo como Kiev. Em 30 anos de bloqueio e bombardeamentos, já houve algum? Não há mais água, não há mais eletricidade, não há mais comida. Há o cheiro pútrido dos corpos e da morte que sobe por toda parte sem que ninguém saiba de onde vem. Em Gaza não resta nada exceto um povo a resistir.

Em Gaza já não há medicamentos. Os médicos, os motoristas de ambulância, os próprios socorristas são mortos, e também os jornalistas, e também os professores, e também as crianças, e também as mulheres, e também os idosos, e também... e também todos. Israel não discrimina, Israel mata todo mundo, tudo que se move. Até mesmo o seu próprio povo, quando ele achar necessário. O exército israelense matou três reféns que estavam nus até a cintura e agitavam uma bandeira branca. Ela admite que eles eram palestinos, uma admissão terrível de que um palestino é baleado mesmo com as mãos levantadas, mesmo com uma bandeira branca. Mas o que Israel, e os meios de comunicação afiliados, também não querem dizer, porque na sua narrativa o israelita é por definição ocidental, é que os israelitas parecem palestinos, como árabes quando estão sem... um kipá. o colonialismo e o racismo ainda mais absurdos e odiosos.

As crianças de Gaza

Em Kiev, as pessoas estão chateadas com os filhos de Donbass que teriam sido deportados e sequestrados pela Rússia. O Procurador-Geral do Tribunal Penal Internacional sentiu-se então vigilante e acusou o Presidente da Federação Russa de um “crime de guerra” a este respeito. Em Gaza, crianças estão a ser mortas aos milhares, mas o procurador do TPI permaneceu em silêncio. O Ocidente político também permaneceu em silêncio ou, em última análise, protestou fracamente, falando de “danos colaterais” ou que “as guerras são necessariamente sujas”. Israel mata crianças sem um pingo de compaixão. Não os consideram filhos dos “animais humanos”, da “futura semente terrorista”?

Existem dezenas de milhares de crianças feridas. No hospital eles são operados sem anestesia. Eles sentem essa dor indescritível no limite de suas vidas, com os olhos bem abertos, inocentes, incrédulos. O Procurador-Geral do TPI permaneceu em silêncio. Centenas de outras crianças estão desaparecidas, enterradas em algum lugar sob as ruínas, e seus pequenos corpos agora fazem parte da argamassa dos escombros. O promotor do TPI permaneceu em silêncio.

Às vezes vemos crianças, milagrosamente ilesas, arranhando as ruínas com as mãozinhas na esperança de encontrar ali os pais ou estendendo os braços suplicantes, soluçando em busca de refúgio, pelo menos uma explicação para toda esta crueldade. A mãe deles não está mais lá. O pai deles não está mais lá. Crianças vagueiam pelos escombros de Gaza, à procura de quem as possa recolher. Eles estão com sede e bebem água do mar, estão com fome. Muitos que escaparam dos bombardeios morrerão de doenças

Na Cisjordânia, tal como em Gaza, os residentes aguardam com medo os colonos armados e os soldados israelitas que virão e decidirão quem disparar, quem matar, quem poupar, pelo menos por enquanto, quem humilhar, quem alinhados, agachados, em filas, nus na rua.

Uma guerra dos pobres, uma guerra dos ricos

Em Kiev, pedimos constantemente dinheiro ao Ocidente, milhares de milhões de dólares fluem livremente, 113 mil milhões de dólares em Novembro de 2022, 110 mil milhões aguardando aprovação dos Estados Unidos e da União Europeia, 270 mil milhões em ajuda militar prometida por todos os países ocidentais em setembro de 2023 (*). Mas Israel e os meios de comunicação ocidentais reclamaram quando soubemos que o Hamas recebeu alguns milhões de dólares. E até agora, Kiev queixa-se repetidamente de não ter armas, tanques, munições, canhões, bazucas, mísseis, aviões e dinheiro suficientes. Digo a mim mesmo que se o Hamas tivesse um centésimo, não, um milésimo das armas de Kiev, Israel não resistiria. Isto é óbvio. Digo a mim mesmo que se os palestinianos tivessem um milésimo do dinheiro dado a Kiev, venceriam sem disparar um tiro. Digo a mim mesmo que se tivessem o apoio de todo o Ocidente, como Kiev tem, Israel não resistiria como os palestinos. Devo chutar uma porta aberta? sim, mas é bom dizê-lo no oceano de mentiras em que tentamos afogar a luta em Gaza.

Em Gaza, mexemos com foguetes, RPGs, lutamos com armas improvisadas e, ainda assim, resistimos. Nem um gemido, morremos em pé, atacamos os tanques a pé, correndo em direção a eles, e o inimigo fica com medo, e o inimigo recua. Do que ele tem medo? Toda a diferença está aí. O inimigo tem medo diante da vontade infinita, do desespero, da esperança, da coragem. Em Gaza não exigimos nada. Estamos lutando. Estamos apenas a pedir às pessoas que se manifestem em todo o mundo por Gaza, pela Palestina. Eles são convidados a orar por Gaza. Estamos na presença de uma determinação incrível.

Determinação e convicção são claramente o que falta aos líderes saciados dos estados árabes vizinhos. São como aqueles animais da selva que assistem, imóveis, assustados, fascinados e trêmulos, enquanto um dos seus é devorado por feras ferozes, na esperança de ser poupado.

Os dois conflitos, Kiev e Gaza, são diferentes militar e humanamente. Mas a sua simultaneidade temporal leva-nos a refletir, tanto sobre as suas semelhanças como sobre as suas diferenças. Certamente há heroísmo de ambos os lados. A Ucrânia não carece deles como a Rússia e eles provaram isso na sua História. As perdas humanas tanto do lado ucraniano como do lado russo são consideráveis. Mas trata-se de dois exércitos que se confrontam, se defendem. Gaza é um gueto, uma prisão a céu aberto. A população não tem para onde ir. Queremos assassiná-lo a portas fechadas. Vindo a existir, impondo o cessar-fogo, o fim do massacre já é uma vitória para os palestinos. Toda a diferença está aí.

Qual é, em última análise, o conflito na Ucrânia? E porque é que estamos a lutar assim em Gaza, porque é que há uma guerra dos pobres aqui, e ali, em Kiev, uma guerra dos ricos, no valor de dezenas de milhares de milhões de dólares? Será, em ambos os casos, em Kiev e em Gaza, uma guerra de libertação? Nas guerras de libertação, lutamos inicialmente com espingardas de caça, sabres, facões. Armas foram recuperadas do inimigo. Por que a Ucrânia não está travando uma guerra partidária, por exemplo, no Donbass. A guerra de guerrilha exige total apoio da população, estando presente como um peixe na água. Isto levanta questões sobre o apoio popular em Kiev. Estranhamente, em Kiev e nas principais cidades da Ucrânia não há manifestações de apoio aos líderes. Deveríamos ver nisto o significado dos sentimentos da opinião pública em relação à Rússia? Da mesma forma, quais são os sentimentos da opinião pública russa em relação ao povo ucraniano? Os russos e os ucranianos são realmente inimigos? Ou eles foram colocados um contra o outro?

O mundo inteiro manifesta-se por Gaza, no Leste e no Oeste, no Norte e no Sul do planeta. Não para Kiev, exceto um pouco no início do conflito. Para que ? As manifestações por Gaza são grandiosas, grandes multidões, especialmente jovens, às dezenas de milhares, criamos música, comoventes, poemas comoventes, cantamos Gaza, são momentos culturais, criativos, civilizacionais, de compaixão, de fraternidade humana. Gaza tornou-se um símbolo, concentra todo o sofrimento do mundo.

Dois pesos, duas medidas

Em Kiev e em Israel, existe o mesmo discurso nos círculos dominantes. De ambos os lados dizemos que lutamos para “defender a civilização, os valores ocidentais”, dizemos em Israel que somos “um baluarte” contra o mundo árabe, e em Kiev, um baluarte contra a Rússia. Kiev e Gaza actuam como dois lados do mesmo conflito em que o Ocidente participa.

A Rússia foi sancionada pelo “Ocidente político” por invadir a Ucrânia, por violar o direito internacional. Israel a violou centenas de vezes. Os Estados Unidos explicam “que Israel exerce o seu direito de se defender” e vetam o Conselho de Segurança sempre que queremos parar o massacre dos palestinianos ou procurar uma solução política. Tal como fazem em Kiev, os principais líderes ocidentais estão a deslocar-se a Tel Aviv e a Jerusalém, um após o outro, para apoiar Israel “incondicionalmente”.

Cada dia da guerra de Israel é um crime de guerra, um crime contra a humanidade, mas nem sequer pensamos em banir o Estado judeu dos Jogos Olímpicos. Já fizemos isso, nos 75 anos em que isso acontece? Israel participará dos Jogos Olímpicos, com as bandeiras na liderança, mas os atletas russos são convidados a esconder a sua bandeira, para se envergonharem dela. não demonstrar, e ai de um atleta que se recuse a competir com um israelense. Um lutador argelino foi suspenso por dez anos por isso. A Polónia recusou-se a defrontar a Rússia nas eliminatórias para o Mundial, mas foi a Rússia que foi suspensa da competição.

Faça o que fizer, mesmo que se oponha ao mundo inteiro, Israel nunca é sancionado. As sanções são impostas à Rússia, ao Irão, ao Iémen, à Venezuela, a Cuba, etc. e a todos aqueles que apoiam os palestinianos. Israel possui armas nucleares, mas é o Irão que está ameaçado, porque é suspeito de querer possuí-las. Onde está a lógica deste mundo? Já se fala em sancionar o Iémen do Sul, os Houthis por declararem que atacariam barcos israelitas até que Israel permitisse o fornecimento a Gaza. Os ocidentais que armam Israel, que zomba constantemente do direito internacional, clamam que este direito, essa liberdade de comércio, está ameaçado no Mar Vermelho pelos Houthis. Mas procuraremos silenciar, da opinião ocidental, a verdadeira razão das operações dos Houthis.

Lógica esplêndida de um Ocidente em pleno delírio e que anda de cabeça para baixo. Surgiu uma frase que agora resume a situação de um mundo sob a tutela cada vez menor do Ocidente: padrões duplos. Não há mais necessidade de discursos, não há mais necessidade de análises ideológicas ou políticas, a frase resume tudo. Basta dizer e tudo estará dito. Isso enfraquece o Ocidente político. Ela o deixa mudo. Ela desarma todas as suas bombas mediáticas, todas as suas mentiras. Tudo ficou claro no mundo. Mas quanto tempo demorou para chegar a essa conclusão.

Djamel Labidi

(*) https://www.bfmtv.com/economie/international/a-combien-s-eleve-le-mont...

https://www.bfmtv.com/economie/economie-social/la-banque-mondiale-veut...

Publicada por Pena Preta à(s) segunda-feira, dezembro 25, 2023

https://foicebook.blogspot.com/2023/12/neste-25-de-dezembro.html#more 


Carlos Coutinho - Divagação salvífica

`Carlos Coutinho

DÚZIA e meia de pessoas à mesa. Isto não é uma sala de jantar familiar - é um refeitório de comilões. Vou tentar preservar-me da voracidade geral e tentar ficar-me pelos queijos e queijinhos das entradas.

A bacalhauzada com batatas, couves e broa, ao gosto dos anfitriões, corre bem com um espumante rosé - um reserva talvez pensado para a classe média endinheirda.

Dois goles na altura própria, bem antes da sobremesa ultravariada em que não toquei. E ninguém viu que eu já tinha dado por cumprida a minha missão nesta consoada. Mais exatamnte, nesta comezaina desbragada.

Como raramente alguém olha para mim ou me interpela, ninguém pôde aperceber-se de que o meu pensamento andava longe, pelas faldas do Marão, com pinarras e garranos à solta, com águias e aibões no ar, com muita miséria e muita superstição na minha aldeia e nas outras todas à volta. Do que havia agora de me lembrar?

De sentidos proibidos, das palavras castiças que caíram em desuso, de estratégias pedagógicas, etc.

Chegada a troca das prendas, apareceu de tudo – do útil ao fútil, barato é que nada. E o meu pensamento voltou para o tempo quem nem sei como restaurar na memória.

Vejamos.

“Nunca as mãos lhe doam”, dizia-se antigamente à pessoa que, sem recorrer aos tribunais para meter alguém na ordem, ia às fuças desse alguém, com aparente justiça e sentido da urgência disciplinar.

Por exemplo, a mãe ou o pai que tivesse afinfado uns tabefes bem dados na cara ou um valente cascudo no cachaço de um filho malcriadão ou ratoneiro de cozinha ou de salgadeira, estaria a caminho de merecer o respeito de toda a população.

Hoje – e com alguma razão – dir-se-ia que se trata de um caso típico de violência doméstica, ou, pior ainda, de uma situação deplorável de justicialismo arcaico.

Enfim, sem perorar por conta própria, sempre direi como um certo Luís Vaz que só via de um olho: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…”

Tenho, no entanto, a certeza de que a minha avó paterna nunca aceitaria que, por exemplo, se desse o nome de Sicó a uma serra, porque no tempo dela sicó era o nome de um instrumento musical de percussão com a forma quadrada, ou, por identificação cultural, a dança ao som dessas coisas de antanho.

E muito menos aceitaria que o nome de Arganil fosse dado a uma simpática terra, já que podia confundir-se com arganel, aquele arame que se espetava e dobrava no nariz de um leitão já crescidote que se acabasse de ir comprar ao Viso, para que ele não desatasse a fossar na pocilga, então conhecida por loja do reco.

Mas é a tal coisa – mudam-se os tempos… E a forma de consoar.

 2023 12 25


António Rodrigues ENTREVISTA SALIKOKO MUFWENE

 


A língua de Darwin ou a linguagem em estado de permanente evolução

Por entre palavras mortas, germinam viçosas novas espécies. O linguista Salikoko Mufwene diz que “falar da evolução da linguagem não é metáfora”. Uma teoria geral das espécies aplicada à comunicação.

António Rodrigues (texto) e

Matilde Fieschi (fotografia)

24 de Dezembro de 2023, 8:02

  

Todos os dias morrem palavras, todos os dias nascem palavras. A forma como falávamos ontem não é a forma como falamos hoje e não será igual à maneira de falar de amanhã. “Há palavras comuns hoje que vão estar extintas no futuro.” Nesta constante evolução das espécies aplicada à linguagem, uma pessoa de 60 anos já não fala como uma de 40 e muito menos como uma de 20. “Somos parte de gerações diferentes, as nossas experiências não são idênticas e a perda de identidade vem com a perda de algumas palavras.”

Salikoko Mufwene, professor de Linguística da Universidade de Chicago, uma das grandes referências mundiais na área, escreveu em 2001 um livro fundamental para compreender a evolução natural da língua, The Ecology of Language Evolution – uma teoria geral da evolução das espécies aplicada à linguagem.


Ecology Of Language Evolution

Autoria: Salikoko S. Mufwene

Editora: Cambridge University Press

274 págs., 46,34€

Já nas livrarias


“A linguagem que usamos evolui porque nos adaptamos uns aos outros, ao mesmo tempo que nós próprios evoluímos”, explica Mufwene, que em 1979 se doutorou na Universidade de Chicago, onde ensina desde 1991. “As linguagens reflectem as formas como evoluímos socialmente. Não é evidente que as pessoas se apercebam da nossa evolução biológica, mas, de uma forma geral, com as práticas sociais, estão sempre a evoluir.”

É como se em todos os momentos tivéssemos a teoria de Darwin na ponta da língua, salvo seja.

“Falar da evolução da linguagem não é uma metáfora, porque a evolução tem lugar em qualquer espécie, em qualquer comunidade”, sublinha o professor, nascido na República Democrática do Congo há 76 anos, mas a viver nos Estados Unidos desde os anos 1970 e com nacionalidade norte-americana desde 1996.

“A linguagem que usamos evolui porque nos adaptamos uns aos outros, ao mesmo tempo que nós próprios evoluímos”, explica Mufwene

“As linguagens evoluem de uma forma muito similar aos vírus, sabe? Por exemplo, o vírus da constipação. Eu tenho-o. Alguém pode ter sido contaminado por mim e apanhá-lo. Mas esse vírus adapta-se ao novo hospedeiro e pode ser transmitido a outra pessoa e volta a adaptar-se. Esse é um dos problemas para curar uma população de uma dita epidemia, porque o vírus passa por mutações e cada mutação é uma espécie de evolução.”

Com as palavras acontece o mesmo. Por mais que as academias queiram fixar a língua, esta passa o tempo a fintar pontos finais parágrafos de dicionários.

De uma forma muito simples, a linguagem serve para comunicar, logo, ela está sempre a adaptar-se para melhor transmitir aquilo que quer comunicar e para estabelecer uma “espécie de relação especial com o outro”. Cada vez que usamos uma linguagem em particular estamos “indirectamente a estabelecer um vínculo”, a nossa forma de falar também se pode adaptar, pois, a quem nos escuta.

“Vivemos em sociedades e é aqui que entra a dimensão social, porque as pessoas com quem interagimos, mais ou menos determinam a forma como iremos comunicar com elas e como moldamos as peculiaridades das nossas línguas”, explica. É assim ao longo do tempo, porque “somos uma população migrante”. Como estamos sempre a mudar, de um lugar para outro, de um bairro para outro, “continuamos a fazer ajustamentos às nossas línguas, particularmente cruciais a outro nível” – em vez da palavra que habitualmente usamos, vemo-nos obrigados a usar outra: “O ónus de aprendermos a palavra que eles usam recai sobre nós [, mas,] se são eles a migrar para a nossa comunidade, acontece o contrário.”

“As nossas línguas entram em contacto com as outras indirectamente, através das nossas interacções e vão sendo remodeladas e é isso que vemos na história da humanidade. Tomemos o português, por exemplo – foi levado para o Brasil, mas o português falado no Brasil já não é como o português falado em Portugal.”

Evolução não é uniforme

Fazemos a linguagem que falamos e “modificamo-la de acordo com as nossas necessidades e de acordo com as pressões dos diferentes lugares onde evoluímos”. Porque a evolução não pára na interacção, porque nós próprios evoluímos e a linguagem connosco.

E a evolução da linguagem é tudo menos um processo uniforme, muito menos quando se lida com uma população, afirma Salikoko Mufwene, numa conversa na Faculdade de Letras de Lisboa. Veja-se o que aconteceu com o português em Angola.

“Os portugueses colonizaram Angola, mas não falavam português com todas as pessoas. E como o número de administradores era bastante limitado por razões financeiras, era mais prático ter funcionários coloniais indígenas que ajudavam na administração da colónia e essas pessoas aprendiam português e tornavam-se o intermediário entre a população colonizadora e a população colonizada.”

A seguir, aos poucos, as pessoas começaram a ir à escola e, se passavam um certo nível, esperava-se que falassem português. “Mas nem todos temos a mesma atitude de aprendizagem, alguns têm mais aptidão para aprender outras línguas do que outros.” E, mesmo para quem tinha as mesmas aptidões, nem sempre tinham “as mesmas oportunidades para interagir com pessoas fluentes em português”.

“Falar da evolução da linguagem não é uma metáfora, porque a evolução tem lugar em qualquer espécie, em qualquer comunidade”

O que acontece, então, é um “fenómeno a que se chama ‘interferência’”, quando elementos da linguagem que a pessoa vinha usando se intrometem na nova linguagem. A forma como um angolano fala “é influenciada pelas práticas de comunicação, o que explica porque o português de Angola não é falado da mesma maneira que o português em Portugal, nem da mesma maneira que o português do Brasil”.

É uma questão de ecologias, explica Mufwene, mas também uma questão prática. “Quem são as pessoas que precisam do português para conseguir emprego? Qual a extensão da família que ainda vive no campo e não encontra qualquer uso para o português?” As elites podem decidir cortar com a família mais extensa por razões de estatuto e “educar os filhos em português para lhes dar uma vantagem competitiva”.

“Há outras partes em África onde não se falam línguas indígenas, sim”, como acontece em Luanda. “Há uma minoria que, no entanto, pode não saber falar a sua língua ancestral, mas compreende-a. E essa é a diferença entre competência activa e competência passiva.”

Todavia, como explica, podem ser fluentes em “outra linguagem indígena, como a linguagem da cultura popular, e podem ser fluentes nessa linguagem específica”. “Não sei muito sobre Angola nesse aspecto, mas no Congo, por exemplo, se vives em Kinshasa, não podes sentir-te realmente integrado, se não falares lingala.”

Em Luanda, usam uma linguagem urbana que assume o quimbundo, que o mistura com o português urbano, eivado de corruptelas e neologismos, como uma forma de identidade, uma identidade luandense, uma linguagem que não podia ser de outro lugar.

“Exactamente, é simbólico. Têm de mostrar que ainda há valor na cultura indígena.”

O que importa saber é que “a evolução de uma linguagem ou de uma cultura em particular não é uniforme, que uma linguagem varia de acordo com a geração, de acordo com o género, de acordo com a subcultura e de acordo com o tempo”.

O importante é que as línguas estão sempre a evoluir – por exemplo, as palavras que entram na forma de falar dos portugueses vindas directamente de Angola ou do Brasil, ou passadas de Angola para o Brasil e depois arribadas a Portugal pela aculturação das telenovelas. Haverá, no entanto, algum momento em que essa contínua introdução de termos de outras línguas deixa de ser bom. Pode uma língua morrer por invasão de estrangeirismos?

Invasão do inglês

“Não vejo que seja mau para uma linguagem, porque há termos que são mais bem expressados com palavras estrangeiras do que com as nossas próprias palavras. Os europeus colonizaram, mas também aprenderam uma série de coisas novas que não conheciam, familiarizaram-se com novos alimentos e a melhor forma de os nomear foi usar as palavras indígenas. Veja-se, por exemplo, a palavra ‘piripiri’.”

Mas hoje a forma como o inglês se tornou omnipresente na linguagem urbana de muitas cidades do mundo não é por si ameaça?

Mufwene escreveu um artigo sobre o assunto, intitulado English as a lingua franca: Myths and Facts (O inglês como língua franca: mitos e factos, em tradução livre) em que refere que “o inglês se espalhou pelo mundo à custa da sua indigenização nos novos contextos de actualização, à medida que se adapta às necessidades comunicativas e aos hábitos comunicativos anteriores dos seus novos falantes”.

“Há palavras inglesas noutras línguas, porque, provavelmente, é mais fácil transmitir o significado com as palavras inglesas do que com as palavras indígenas. Mas é também uma forma de mostrar que alguém está actualizado no conhecimento do mundo. No entanto, se olharmos para o inglês em si, muito do seu vocabulário vem de outras línguas. Tem, por exemplo, palavras do francês, sobretudo, mas também de línguas africanas: a palavra ‘banana’ de onde vem?”to com as outras indirectamente, através das nossas interacções e vão sendo remodeladas e é isso que vemos na história da humanidade

Aos que temem ver o mundo todo a falar inglês, Salikoko Mufwene responde: não vai ser assim. “Não penso que o inglês vá substituir outras línguas.” E lembra como no Brasil lutou para se fazer entender; como em Belo Horizonte comeu por acaso uma refeição que não sabia nomear, porque ninguém falava inglês e ele não falava português.

“Quando fui à China, reparei numa coisa muito interessante. Fui a um mercado de artesanato e, para minha surpresa, os vendedores eram bastante fluentes no inglês, ao contrário de alguns professores universitários que o não eram. “Quando precisamos da língua, fazemos um esforço para a aprender. No mercado, precisavam do inglês para vender as suas peças, enquanto para um professor que aprendeu em chinês e dá aulas em chinês, o inglês é secundário.”

Silogismo: se o inglês é útil para comunicar e as línguas são feitas para comunicar, logo o inglês será usado para comunicar. Mas um português não vai falar inglês com um português, nem um espanhol inglês com outro espanhol.

“É certo que se pode esperar encontrar alguém que fale um pouco de inglês, mesmo em alguns dos lugares mais remotos do mundo actual, em grande parte graças ao empenho dos sistemas educativos nacionais no mundo não anglófono em ensinar inglês como língua estrangeira.” Porém, “mesmo que o inglês se tenha tornado uma língua franca útil em todo o mundo, não podemos deixar-nos enganar e contar muito com isso”, porque o seu “valor de mercado varia consoante os indivíduos, nomeadamente do local onde se vive e do que se pretende ganhar com isso”.

É comércio e não invasão, soft power e não conquista. O inglês faz-se útil, quer-se útil.

O inglês não é um império, mesmo que a superpotência que mais contribui para o exportar tenha tiques imperialistas. Aliás, para o professor americano-congolês isso de a língua ser uma pátria, como Fernando Pessoa alegava em relação ao português, só serve para países onde a hegemonia interna deixou língua e território com a mesma fronteira, como Portugal.

Para Mufwene, nascido num país como a República Democrática do Congo, que tem uma língua oficial (francês), quatro línguas nacionais (kituba, lingala, suaíli e tshiluba) e 250 línguas étnicas, a afirmação pessoana não faz qualquer sentido.

“Para quem é de um país tão diverso linguisticamente como Angola ou o Congo, não podemos realmente pôr as coisas nesses termos ou acabaríamos com pequenas nações monolingues, como existiam antes da colonização”, explica. Os Estados que saíram das lutas de autodeterminação assumiram outros critérios para se definir. Em vez de tentarem reverter o colonialismo, assumiram as fronteiras fictícias da herança, com base nas quais construíram os seus Estados plurilinguísticos.

Mesmo os Estados Unidos não têm o inglês como língua oficial a nível federal (é-o em 32 estados), apesar de volta e meia a ala mais à direita levantar essa bandeira. O ex-Presidente Donald Trump falou muito disso durante a campanha eleitoral de 2016, mas acabou por não concretizar nada em relação ao assunto durante o seu tempo na Casa Branca.

A ideia de uma língua/uma nação, diz o linguista, é uma política introduzida no século XIX na Europa que “não funciona muito bem noutras partes do mundo”. Aliás, “mesmo aqui na Europa, estamos sempre a ser lembrados de que há pessoas que não se sentem confortáveis com isso”.

tp.ocilbup@seugirdor.oinotna

tp.ocilbup@oleber.edlitam

 https://www.publico.pt/2023/12/24/mundo/entrevista/lingua-darwin-linguagem-estado-permanente-evolucao-2073527


Miguel Tamen - Plano Nocional de Leitura

* Miguel Tamen

Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa


Plano Nocional de Leitura (XV)

O que faz do livro de Oliveira Martins um livro de história não é parecer-se mais ou menos com um romance. É, como em toda a grande história, dar voz ao que pessoas achavam que se podia estar a passar

Plano Nocional de Leitura (XIV)

Bernardim Ribeiro é o autor de um poema maravilhoso onde imagina que em alturas especiais, quando alguns diriam ‘eu sou,’ é preferível dizer ‘eu estou’, apesar de a gramática recomendar o contrário.


Plano Nocional de Leitura (XIII)

Ao contrário dos anões, que acabam sempre por fazer as pazes com quem lhes mexe nas coisas, Camilo Pessanha parece ter razões para continuar a temer essa mãe morta, que insiste em aparecer-lhe em casa

***

Plano Nocional de Leitura (XII)

D. João era um animal complexo: ora vezes explica o que o move, ora esfaqueia quem lhe desagrada. O mérito de Fernão Lopes é ter sido o primeiro autor português que se interessou por animais complexos

Plano Nocional de Leitura (XI)

Pode não ser despropositado fingir sentimentos que não temos; mas que razão teríamos para fingir sentimentos que já temos? É como fingir que temos uma piscina na nossa casa com piscina.

***

Plano Nocional de Leitura (X)

Não é de excluir que o Padre António Vieira achasse que durante a hora anterior não tinha estado realmente a falar: e que por isso não tinha estado a mandar mensagens, a convencer pessoas.


Plano Nocional de Leitura (IX)

A razão por que não é possível sair de Lisboa, percebe-se no fim, é porque Lisboa é um cemitério. Poucos reparam nisso: depois de tantas coisas pitorescas e de um poema tão comprido, a atenção dormita

Plano Nocional de Leitura (VIII)

O susto desta ermida, porém, e a aflição da pessoa que lá está, são peculiares; não são preparados nem explicados; e muito menos o poeta nos comunica que já previra que tudo aquilo deveria acontecer.

Plano Nocional de Leitura (VII)

Contar a história não mostra que se prestou atenção ao romance, ao filme, à peça ou ao poema: só mostra que se tentou contar uma história; e uma certa impaciência com tudo o que não seja a história.


Plano Nocional de Leitura (VI)

Os poemas são no fundo colecções de coisas parecidas, que provêm dos armazéns de parecenças onde as vamos buscar; e nesses armazéns há artigos de toda a espécie: rimas e frases, barulhos e explicações


Plano Nocional de Leitura (V)

As frases de Camões foram escritas há muito tempo; e é normal que aqueles que acham que as devem tentar perceber não as percebam muito bem. São versos difíceis. O único remédio é prestar-lhes atenção.

Plano Nocional de Leitura (IV)

A literatura, acredita-se nos gabinetes, é como um guia turístico, um requerimento administrativo, ou um manual de história: um meio para tratar de outros assuntos embora com frases longas ou difíceis


Plano Nocional de Leitura (III)

Um contemporâneo de William Wordsworth declarou que os poetas são os “legisladores oficiosos deste mundo.” Não temos a certeza de que assim seja, ou que sempre seja assim.  

Plano Nocional de Leitura II

A inveja é uma emoção reprovável que não imaginamos poder sentir; e que imaginamos prontamente nos terceiros que haja por perto. O nosso consenso sobre a inveja é realmente sobre os outros.

Plano Nocional de Leitura I

Seria insólito que nas seis horas imediatas à leitura de um bom romance todos tivéssemos desenvolvido um impulso irresistível para praticar o bem.