Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 8 de março de 2024
Gustavo Carneiro - LEVANTADOS DO CHÃO
quinta-feira, 7 de março de 2024
Dulce Maria Cardoso - Un juguete frágil en manos toscas (excerto)
Los portugueses tendrán que pronunciarse en las elecciones del domingo sobre el lugar de la extrema derecha de Chega y sobre la herencia de la dictadura de Salazar
terça-feira, 5 de março de 2024
Carlos Coutinho - Guerra é guerra
segunda-feira, 4 de março de 2024
Fernando Pessoa e Oliveira Salazar
ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR
António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.
......
Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Pica só azar, é natural.
Oh, c'os diabos!
Parece que já choveu...
......
Coitadinho
do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...
Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado.
Coitadinho
Do tiraninho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.
Mas enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiraninho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.
Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979.
- p. 349.1ª publ. in Diário Popular , Lisboa, 30 Maio e 6 Junho 1974 . inc? CF. lello - fotoc
Salazar - Um cadáver emotivo,
Salazar
Um cadáver emotivo, artificialmente galvanizado por uma propaganda...
Duas qualidades lhe faltam — a imaginação e o entusiasmo. Para ele o país não é a gente que nele vive, mas a estatística d'essa gente.
Soma, e não segue.
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.
- 221.O Prof. Salazar é muito mais inteligente e muito mais culto,
O Prof. Salazar é muito mais inteligente e muito mais culto, ainda que a sua inteligência seja monocórdica e a sua cultura unilateral. Tem uma inteligência do tipo científico, mas sem ser céptica; tem uma cultura do tipo humanístico, mas sem ser literária. Isto lhe dá aquela unidade psíquica de onde resulta a sua formidável disciplina e energia; isto, ao mesmo tempo, o desumaniza.
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.
- 220.O Prof. Salazar tem, em altíssimo grau, as qualidades secundárias…
O Prof. Salazar tem, em altíssimo grau, as qualidades secundárias da inteligência e da vontade. É o tipo do perfeito executor da ordem de quem tenha as primárias.
O chefe do Governo tem uma inteligência lúcida e precisa; não tem uma inteligência criadora ou dominadora. Tem uma vontade firme e concentrada, não a tem irradiante e segura. É um tímido quando ousa, e um incerto quando afirma. Tudo quanto faz se ressente d'essa penumbra dos Reis malogrados.
Quando muito, na escala da governação pública, poderia ser o mordomo do país.
Faltam-lhe os contactos com todas as vidas — com a vida da inteligência, que vive de ser vária e, entre os conflitos das doutrinas, não sabe decidir-se; com a vida da emoção, que vive de ser impulsiva e incerta; com a vida da (...)
O Chefe do Governo não é um estadista: é um arrumador. Para ele o país não se compõe de homens, mas de gavetas. Os problemas do trabalho e da miséria, como há ele de entendê-los, se os pretende resolver por fichas soltas e folhas móveis?
A alma humana é irredutível a um sistema de deve e haver. É-o, acentuadamente, a alma portuguesa.
Às vezes aproxima-se do povo, de onde saiu. E traz-lhe uma ternura de guarda-livros em férias, que sente que preferiria afinal estar no escritório.
É sempre e em tudo um contabilista, mas só um contabilista. Quando vê que o país sofre, troca as rubricas e abre novas contas. Quando sente que o país se queixa, faz um estorno. A conta fica certa.
O Prof. Salazar é um contabilista. A profissão é eminentemente necessária e digna. Não é, porém, profissão que tenha implícitas directivas. Um país tem que governar-se com contabilidade, não pode governar-se por contabilidade.
Assistimos à cesarização de um contabilista.
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.
- 222.POEMA DE AMOR EM ESTADO NOVO
Tens o olhar misterioso
Com um jeito nevoento,
Indeciso, duvidoso,
Minha Marta Francisca,
Meu amor, meu orçamento!
A tua face de rosa
Tem o colorido esquivo
De uma nota oficiosa.
Quem dera ter-te em meus braços,
Ó meu saldo positivo!
E o teu cabelo — não choro
Seu regresso ao natural —Abandona o padrão-ouro
Amor, pomba, estrada, porta,
Sindicato nacional!
Não sei por que me desprezas.
Fita-me mais um instante,
Lindo corte nas despesas,
Adorada abolição
Da dívida flutuante!
Com que madrigais mostrar-te
Este amor que é chama viva?
Ouve, escuta: vou chamar-te
Assembleia Nacional
Câmara Corporativa.
Como te amo, como, como,
Meu Acto Colonial!
De amor já quase não como,
Meu Estatuto de Trabalho,
Meu Banco de Portugal!
Meu crédito no estrangeiro!
Meu encaixe — ouro adorado!
Serei sempre o teu romeiro...
Pousa a cabeça em meu ombro,
Ó meu Conselho de Estado!
Ó minha corporativa,
Minha lei de Estado Novo,
Não me sejas mais esquiva!
Meu coração quer guarida
Ó linda Casa do Povo!
União Nacional querida,
Teus olhos enchem de mágoa
A sombra da minha vida
Que passa como uma esquadra
Sobre a energia da água.
Que aristocrático ri,
O teu cabelo em cifrões — Finanças em mise-en-plis! —
Meu activo plebiscito,
Nunca desceste a eleições!
Por isso nunca me escolhes
E a minha esperança é vã.
Nem sequer por dó me acolhes,
Minha imprevidente linda
Civilização cristã!
Bem sei: por estes meus modos
Nunca me podes amar.
Olha, desculpa-mas todas.
Estou seguindo as directrizes
Do professor Salazar.
Fernando Pessoa - O Último Ano. (Catálogo da Exposição Comemorativa do Cinquentenário da Morte de Fernando Pessoa, organizada e coordenada por Teresa Sobral Cunha e João Rui de Sousa.) Lisboa: Biblioteca Nacional, 1985.
- .N. do A.: «o demoliberalismo maçónico-comunista»
[Carta ao Presidente da República - b]
Quer isto dizer, Senhor Presidente, que uma nação haja sempre de ser governada por chefes acentuadamente tais, que não haja período em que possam estar no poder os inteligentes sem aura e os patriotas sem prestígio? Não o quer dizer. O que porém quer dizer é que esse prestígio de chefe, desnecessário muitas vezes num governo de época normal, é indispensável num governo de época anormal, imprescindível num governo de autoridade. O que porém quer dizer é que o Prof[essor] Salazar, não tendo tal prestígio, nem maneira de o ter, se deixou investir da aparência d'ele. É a sua túnica de Nessus[.J
Ninguém pode legitimamente culpar o actual Presidente do Conselho de não ter qualidades que não tem; pode legitimamente fazer-se de, não tendo tais qualidades, pretender tê-las e ter-se colocado em situação de, não podendo tê-las, ser todavia necessário que as tenha.
Culpa-se o Prof[essor] Salazar d'isto: de ser incompetente para o cargo que assumiu.
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.
- 229.[Carta ao Presidente da República - d]
Destinado assim naturalmente por Deus para executor de ideias de outrem, visto que as não tem próprias, de secretário de prestígio alheio, porque o não pode conquistar seu, o Prof[essor] Salazar quis alçar-se, ou deixou que o quisessem alçar, a um pedestal onde mal se acomoda, a um trono onde não sabe como sentar-se. Não conseguiram os titãs, e eram titãs, escalar o Olimpo; como o conseguirão os anões, condenados, para que possam parecer grandes, ao desequilíbrio constante das andas que lhes ataram às pernas?
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.
- 231.Carlos Coutinho - dois textos sobre a consciência e a morte
Tiago Tavares - 15 expressões saídas da publicidade que usamos vezes sem conta
domingo, 25 de fevereiro de 2024
Carlos Coutinho - Afinidades
sábado, 24 de fevereiro de 2024
Carlos Coutinho - Folias
Atenção, atenção! A comunicação social confirma que só existem 6 jovens no país
EDITORIAL|COMUNICAÇÃO SOCIAL
AbrilAbril
23 DE FEVEREIRO DE 2024
O debate sobre a falta de representatividade dos jovens acabou. A comunicação social dominante resolveu esse problema e encontrou os únicos seis jovens que, aparentemente, existem. Repetem a cassete, mas com laivos joviais para suavizar.
Longe vão os tempos onde se falava da falta de representatividade juvenil nos espaços de comentário político. Recentemente, esse problema foi sanado e os órgãos de comunicação social conseguiram encontrar os únicos jovens que, aparentemente, existem. Andavam escondidos na camada oprimida da fina flor do comentário no Twitter, mas finalmente foi-lhes consagrado um espaço mediático à altura das suas ambições, para poder dizer tudo aquilo que a sua geração quer dizer.
Bem, talvez não seja uma geraçãoTalvez seja o que a sua classe quer dizer. Dizem apenas o que é repetido em todo o lado pela narrativa dominante, mas fazem-no de uma forma muito descontraída, desapegada e alegadamente irreverente. O ar jovial conjugado com uma boa articulação discursiva, sem deixar de lado a testa franzida para aparentar seriedade, dá aos jovens premiados com este lugar de fala um passaporte para nada de importante acrescentar.
A reboque destes elementos vem a replicação de tudo o que já é dito em todos os espaços de comentário, inclusive praticar o mesmo tipo de revisionismo histórico e desonestidade intelectual. Veja-se o exemplo do mais recente podcast do Expresso, o «Lei da Paridade». Apresentado por Adriana Cardoso, hoje jovem «apartidária», mas que nasceu no seio da Iniciativa Liberal; Maria Castelo Branco, ex-militante da Juventude Popular, agora militante da Iniciativa Liberal e ex-jovem promessa; e Leonor Rosas, militante do Bloco de Esquerda e candidata à Assembleia da República pelo círculo eleitoral de Lisboa.
O podcast que teve o seu começo na TSF, regressou agora ao jornal de Pinto Balsemão. Neste importante retorno, até às eleições legislativas serão entrevistadas mulheres do BE, IL, PS, AD. Segundo Adriana Cardoso foram excluídos «evidentemente desta conta partidos que não são feministas». Uma escolha caricata já que são jovens que são vendidas como bem informadas, mas parece que deliberadamente se esqueceram do importante e determinante papel do PCP na luta emancipatória das mulheres ao longo dos seus mais de 100 anos de história.
Nas redes sociais, quando confrontada com este facto, Adriana Cardoso usa como argumento o facto de serem «os 4 partidos com mais intenção de voto» e não haver «espaço nem episódios infinitos até às próximas eleições». Um critério nunca antes visto. Uma escolha editorial clara que visa beneficiar determinados partidos e apagar outros. A suposta jovialidade é usada para repetir as manobras de apagamento e o revisionismo histórico.
Neste ramalhete temos ainda o caso de João Maria Jonet com espaço assíduo na SIC Notícias. Habilidoso com metáforas, supostamente irreverente, vende-se como um militante de base PSD com uma voz própria. É uma espécie de jovem Pacheco Pereira que, no momento certo, não hesita em esgrimir um conjunto chavões analíticos que dão jeito à narrativa dominante. Defende a NATO, define-se «americanista» e promove a União Europeia. Invoca sempre a social-democracia para aparentar a moderação, mas no final do dia, não falta à chamada dos projectos mais reaccionários e nebulosos como os de Luís Newton e Carlos Moedas.
Surge ainda o «jovem» Gaspar Macedo. As aspas não são inocentes. É que Gaspar Macedo, passista assumido e militante do PSD, parece ter saido de um governo de Cavaco Silva, arrancado por uma máquina do tempo directamente dos anos 80. Viralizou nas redes sociais com vídeos pequenos com música de fundo épica onde "debatia" contra alguém, sendo que estava sempre a falar sozinho. Nesses vídeos, falava do orgulho nacional, dos heróis da pátria desprezados, e em todas as teses de Nostradamus aplicadas à realidade nacional. No momento da responsabilização, sem colocar quais os reais problemas, apaga a responsabilidade do PSD e só sabe falar do PS. A CNN viu nele um pequeno Tucker Carlson e, neste momento, tem espaço de comentário com a Joana Amaral Dias.
Por fim, há ainda o já renomado Sebastião Bugalho. Jornalista reformado que quase exclusivamente escrevia sobre o partido da extrema-direita em Portugal (com dezenas de artigos sobre o assunto nos dois anos em que exerceu funções), integrou as listas do CDS-PP à Assembleia da República, a convite de Assunção Cristas, e tem actualmente espaço fixo de comentário na SIC Notícias e um podcast no Expresso. Apresenta-se como uma alma velha, algo que corresponde também à visão política que transpõe para o seu comentário. Recentemente comprou a heróica batalha de defender Diogo Pacheco de Amorim e de apagar os crimes do MDLP. Nas análises que fez aos debates, talvez por defender colégios privados, inflaccionou sempre as notas dadas dos candidatos dos partidos de direita. Cada análise do jovem Bugalho parece saída de um antiquário, cumprindo o papel que lhe foi destinado no grupo Impresa.
Parece que estes são os únicos jovens que existem no país. Quem não tem lugar de comentário é o jovem que não tem professor numa disciplina, que estuda na Escola Pública e está numa turma sobrelotada. Quem não tem lugar no espaço opinativo é o jovem que tem dificuldade a pagar as propinas, alojamento e alimentação. Quem não tem direito à palavra é o jovem que recebe o salário mínimo e tem um vínculo precário. Quem não interessa ouvir é o jovem que tem actividade sindical e se assume de esquerda. Quem é ignorado é o jovem que vê um mundo que pode ser transformado e dá a sua vida por essa transformação. Esses jovens não existem. Só existem seis jovens e nenhum deles é o jovem real. São, enfim, jovens de uma outra classe.
https://www.abrilabril.pt/nacional/atencao-atencao-comunicacao-social-confirma-que-so-existem-6-jovens-no-pais
O OCIDENTE ‘OXIDANTE’ (‘L'’OXYDANT ‘) – por Alain de Benoist
O OCIDENTE ‘OXIDANTE’
(‘L'’OXYDANT ‘) – por Alain de Benoist
(*), tradução de Alfredo Barroso
Há muito tempo
que o Ocidente não se define pela sua oposição ao “Oriente”. O que hoje se
designa por “Ocidente”, é o conjunto político-tecno-económico que associa, sob
domínio anglo-saxónico, os Estados-Unidos da América e a Europa Ocidental. Ora,
os Estados-Unidos nasceram de um desejo de romper com a Europa e, após terem
substituído, quase por completo, as populações autóctones, e de terem criado
uma nova Terra Prometida, nunca deixaram de impor ao mundo, desde então, uma
americanização indissociável da extensão planetária do comércio livre, da
“sociedade aberta” e da lógica do mercado. Um prelúdio do velho sonho de um
Estado mundial.
Dum lado e
doutro do Atlântico, os interesses são necessariamente divergentes. Tomar
partido pelo Ocidente, é tomar partido pelo Mar contra a Terra, pelas potências
comerciais marítimas contra as potências políticas continentais, ou seja,
ignorar os dados mais fundamentais da geopolítica. Porque o Ocidente é, antes
de tudo o mais, isso: uma aberração histórica, ideológica e geopolítica.
O OCIDENTE,
CONTRASTE DO SUL GLOBAL
Nem por isso o
“ocidentalismo” deixa de estar mais presente do que nunca. Como é habitual, ele
reúne, em proporções variáveis, os idiotas úteis e os colaboracionistas
estipendiados. Tem-se visto a propósito do consenso mediático relativo à guerra
na Ucrânia ou ao conflito israelo-palestiniano: os grandes partidos da direita
e da esquerda estão hoje convertidos ao atlantismo, em ruptura com a tradição
de independência característica duma linha “gaullista” hoje repudiada. O
ocidentalismo, é uma espécie de inventário à Prévert: reúne atlantistas de
sempre, que endossam sem estados de alma o papel de vassalos da América;
liberais que acham que tudo o que vem de além-Atlântico é necessariamente
melhor; bravos conservadores que ainda acreditam que o Ocidente é a
“civilização”; leucodermes alucinados, pertencentes aos meios marginais da
chamada “lunatic fringe” que se atém no essencial a um “nacionalismo puro” (um
nacionalismo vazio, sem raízes sociais-históricas, portanto tipicamente
americano) totalmente impolítico.
«Aqueles que
(‘esquerda’ cosmopolita à cabeça) - escreve Panagiotis Kondylis - acreditam
numa coesão do Oeste baseada exclusivamente na comunidade dos valores, são
politicamente e historicamente ingénuos. A comunidade dos valores não cria só
por si comunidade de interesses – pode mesmo suceder o contrário». No passado,
aliás, a comunidade dos valores nunca impediu os países europeu de fazerem a
guerra uns contra os outros.
Mas, de que
valores estamos a falar? Ontem, o Ocidente era respeitado ou detestado, mas em
geral invejado. Hoje, todavia, é considerado decadente, depravado, envergonhado
da sua própria existência e, precisamente por essa razão, (justamente)
desprezado. Para uma maioria de países que se recusam a considerar que a teoria
do género e os delírios LGBT, a “cancel culture” e o “wokismo” são “valores
universais”, o Ocidente já não é um modelo. É apenas um repelente.
«A política
supremacista ocidentalista conduzida desde o fim da URSS conduziu-nos à
situação em que estamos hoje», disse recentemente Hubert Védrine. Mas Joe
Biden, esse, garante friamente que «a liderança americana é o que hoje une o
mundo» (qualificando, de passagem, a ajuda à Ucrânia como «investimento
inteligente que renderá dividendos para a segurança dos EUA por várias
gerações»!). Na Europa, o ocidentalismo só pode, por conseguinte, tender para a
direcção dos países e dos povos por um governador-geral [um ‘gauleiter’] de
além-Atlântico. Em última análise, um tal conceito de Ocidente remete para a
colonização e para a submissão. Uma Europa «ocidental» é uma Europa que já não
tem nem a vontade nem os meios de determinar a sua política em função dos seus
interesses. A adesão ao Ocidente é sinónimo de dependência e de vassalagem.
Tal como o
capitalismo predatório, também o Ocidente é o inimigo da Europa. Um inimigo
‘íntimo’ se preferirem, um inimigo interno, sinónimo da tentação de ceder ao
conforto da impotência e da vassalagem.
Trotsky passa
por ter dito que «a guerra é a locomotiva da história». Mas foi de facto Marx
que afirmou que «as revoluções são a locomotiva da história» (‘A Luta de
Classes em França’, 1850). Mas é verdade que a guerra da NATO contra a Rússia,
conduzida na Ucrânia, desempenhou o papel dum formidável acelerador dos
processos em curso. Por pouco que analisemos todas as suas consequências, vê-se
perfeitamente que ela já mudou o mundo.
Na assembleia
geral da ONU, quarenta países que representam dois terços da humanidade
recusaram-se a condenar a entrada de tropas russas na Ucrânia e a aprovar a
política americana de sanções contra a Rússia. Dezanove países já fazem hoje
fila à porta dos BRICS [Brasil, Rússia, India, China, África do Sul] que
contribuem por si sós para uma maior parte do crescimento mundial do que os
países do G7. Como então, nestas condições, continuar a falar de uma
«comunidade internacional» que só representa os países anglo-saxónicos e os
seus aliados?! Se há, doravante, uma comunidade internacional, ela tem de ser
sobretudo a dos países emergentes, que recusam considerar o Ocidente como a
encarnação do «mundo civilizado».
Uma nova
clivagem se impõe, anunciadora de um Nomos da Terra fundado na multipolaridade
(ou no ‘pluriversalismo’) e no não-alinhamento: de um lado, o «Ocidente
colectivo» e o seu núcleo anglo-saxónico; do outro lado, o «resto do mundo», a
começar pelos países que durante muito tempo foram qualificados como
«emergentes» e que surgem agora como potências de futuro. Há um Sul periférico,
assim como há uma França periférica. Este corte entre o «Ocidente colectivo» e
o «resto do mundo» só pode aprofundar-se. Há que ver nisso uma boa notícia.
Como escreve Max-Erwan Gastineau em “A era da afirmação”, é a
desocidentalização que constitui uma possibilidade para uma Europa que está em
dormência [entorpecida, sonolenta, em estado soporífero].
O futuro da
Europa não está a Oeste, do lado do estado ‘terminal’ do Poente californiano.
Está do lado do Sol nascente, do Levante.
(*) Na revista
francesa “éléments”, número 206, de Fevereiro-Março de 2024
2024 02 23 (*), tradução de Alfredo Barroso
Há muito tempo
que o Ocidente não se define pela sua oposição ao “Oriente”. O que hoje se
designa por “Ocidente”, é o conjunto político-tecno-económico que associa, sob
domínio anglo-saxónico, os Estados-Unidos da América e a Europa Ocidental. Ora,
os Estados-Unidos nasceram de um desejo de romper com a Europa e, após terem
substituído, quase por completo, as populações autóctones, e de terem criado
uma nova Terra Prometida, nunca deixaram de impor ao mundo, desde então, uma
americanização indissociável da extensão planetária do comércio livre, da
“sociedade aberta” e da lógica do mercado. Um prelúdio do velho sonho de um
Estado mundial.
Dum lado e
doutro do Atlântico, os interesses são necessariamente divergentes. Tomar
partido pelo Ocidente, é tomar partido pelo Mar contra a Terra, pelas potências
comerciais marítimas contra as potências políticas continentais, ou seja,
ignorar os dados mais fundamentais da geopolítica. Porque o Ocidente é, antes
de tudo o mais, isso: uma aberração histórica, ideológica e geopolítica.
O OCIDENTE,
CONTRASTE DO SUL GLOBAL
Nem por isso o
“ocidentalismo” deixa de estar mais presente do que nunca. Como é habitual, ele
reúne, em proporções variáveis, os idiotas úteis e os colaboracionistas
estipendiados. Tem-se visto a propósito do consenso mediático relativo à guerra
na Ucrânia ou ao conflito israelo-palestiniano: os grandes partidos da direita
e da esquerda estão hoje convertidos ao atlantismo, em ruptura com a tradição
de independência característica duma linha “gaullista” hoje repudiada. O
ocidentalismo, é uma espécie de inventário à Prévert: reúne atlantistas de
sempre, que endossam sem estados de alma o papel de vassalos da América;
liberais que acham que tudo o que vem de além-Atlântico é necessariamente
melhor; bravos conservadores que ainda acreditam que o Ocidente é a
“civilização”; leucodermes alucinados, pertencentes aos meios marginais da
chamada “lunatic fringe” que se atém no essencial a um “nacionalismo puro” (um
nacionalismo vazio, sem raízes sociais-históricas, portanto tipicamente
americano) totalmente impolítico.
«Aqueles que
(‘esquerda’ cosmopolita à cabeça) - escreve Panagiotis Kondylis - acreditam
numa coesão do Oeste baseada exclusivamente na comunidade dos valores, são
politicamente e historicamente ingénuos. A comunidade dos valores não cria só
por si comunidade de interesses – pode mesmo suceder o contrário». No passado,
aliás, a comunidade dos valores nunca impediu os países europeu de fazerem a
guerra uns contra os outros.
Mas, de que
valores estamos a falar? Ontem, o Ocidente era respeitado ou detestado, mas em
geral invejado. Hoje, todavia, é considerado decadente, depravado, envergonhado
da sua própria existência e, precisamente por essa razão, (justamente)
desprezado. Para uma maioria de países que se recusam a considerar que a teoria
do género e os delírios LGBT, a “cancel culture” e o “wokismo” são “valores
universais”, o Ocidente já não é um modelo. É apenas um repelente.
«A política
supremacista ocidentalista conduzida desde o fim da URSS conduziu-nos à
situação em que estamos hoje», disse recentemente Hubert Védrine. Mas Joe
Biden, esse, garante friamente que «a liderança americana é o que hoje une o
mundo» (qualificando, de passagem, a ajuda à Ucrânia como «investimento
inteligente que renderá dividendos para a segurança dos EUA por várias
gerações»!). Na Europa, o ocidentalismo só pode, por conseguinte, tender para a
direcção dos países e dos povos por um governador-geral [um ‘gauleiter’] de
além-Atlântico. Em última análise, um tal conceito de Ocidente remete para a
colonização e para a submissão. Uma Europa «ocidental» é uma Europa que já não
tem nem a vontade nem os meios de determinar a sua política em função dos seus
interesses. A adesão ao Ocidente é sinónimo de dependência e de vassalagem.
Tal como o
capitalismo predatório, também o Ocidente é o inimigo da Europa. Um inimigo
‘íntimo’ se preferirem, um inimigo interno, sinónimo da tentação de ceder ao
conforto da impotência e da vassalagem.
Trotsky passa
por ter dito que «a guerra é a locomotiva da história». Mas foi de facto Marx
que afirmou que «as revoluções são a locomotiva da história» (‘A Luta de
Classes em França’, 1850). Mas é verdade que a guerra da NATO contra a Rússia,
conduzida na Ucrânia, desempenhou o papel dum formidável acelerador dos
processos em curso. Por pouco que analisemos todas as suas consequências, vê-se
perfeitamente que ela já mudou o mundo.
Na assembleia
geral da ONU, quarenta países que representam dois terços da humanidade
recusaram-se a condenar a entrada de tropas russas na Ucrânia e a aprovar a
política americana de sanções contra a Rússia. Dezanove países já fazem hoje
fila à porta dos BRICS [Brasil, Rússia, India, China, África do Sul] que
contribuem por si sós para uma maior parte do crescimento mundial do que os
países do G7. Como então, nestas condições, continuar a falar de uma
«comunidade internacional» que só representa os países anglo-saxónicos e os
seus aliados?! Se há, doravante, uma comunidade internacional, ela tem de ser
sobretudo a dos países emergentes, que recusam considerar o Ocidente como a
encarnação do «mundo civilizado».
Uma nova
clivagem se impõe, anunciadora de um Nomos da Terra fundado na multipolaridade
(ou no ‘pluriversalismo’) e no não-alinhamento: de um lado, o «Ocidente
colectivo» e o seu núcleo anglo-saxónico; do outro lado, o «resto do mundo», a
começar pelos países que durante muito tempo foram qualificados como
«emergentes» e que surgem agora como potências de futuro. Há um Sul periférico,
assim como há uma França periférica. Este corte entre o «Ocidente colectivo» e
o «resto do mundo» só pode aprofundar-se. Há que ver nisso uma boa notícia.
Como escreve Max-Erwan Gastineau em “A era da afirmação”, é a
desocidentalização que constitui uma possibilidade para uma Europa que está em
dormência [entorpecida, sonolenta, em estado soporífero].
O futuro da
Europa não está a Oeste, do lado do estado ‘terminal’ do Poente californiano.
Está do lado do Sol nascente, do Levante.
(*) Na revista
francesa “éléments”, número 206, de Fevereiro-Março de 2024
2024 02 23






