sexta-feira, 8 de março de 2024

Gustavo Carneiro - LEVANTADOS DO CHÃO

* Gustavo Carneiro

Azi­nhaga, con­celho da Go­legã. Ali nasceu José Sa­ra­mago, o único es­critor de língua por­tu­guesa ga­lar­doado com o Prémio Nobel da Li­te­ra­tura. Oriundo de fa­mí­lias tra­ba­lha­doras, também ele o foi: ser­ra­lheiro me­câ­nico, pri­meiro; fun­ci­o­nário pú­blico, de­pois. Nos seus li­vros tomou par­tido pelos que nada são neste mundo, como diz A In­ter­na­ci­onal. Exemplo maior dessa opção, que foi a sua (José Sa­ra­mago foi mi­li­tante do PCP du­rante dé­cadas e até ao fim da vida), será por­ven­tura Le­van­tado do Chão, essa mag­ní­fica obra onde de­finiu um es­tilo li­te­rário in­con­fun­dível.

Nela acom­panha-se três ge­ra­ções da fa­mília Mau Tempo no la­ti­fúndio alen­te­jano e, através delas, a fome, o obs­cu­ran­tismo e a ex­plo­ração a que os ope­rá­rios agrí­colas eram su­jeitos às mãos dos agrá­rios, e a brutal vi­o­lência da po­lícia ao seu ser­viço, num lugar e num tempo pro­fun­da­mente de­si­guais e in­justos. Mas ali estão também ins­critos, e ma­gis­tral­mente des­critos, o des­pertar das cons­ci­ên­cias, a co­ra­josa e pa­ci­ente re­sis­tência, a luta por uma vida me­lhor – que de­sem­bo­caram na Re­vo­lução de Abril e na sua mais bela con­quista, a Re­forma Agrária.

Há dias, na terra que viu nascer o es­critor, a can­di­da­tura da CDU es­teve reu­nida com de­zenas de imi­grantes, mai­o­ri­ta­ri­a­mente oriundos da Índia e do Pa­quistão. Tra­ba­lham em ex­plo­ra­ções agrí­colas, so­bre­tudo, mas oca­si­o­nal­mente também na cons­trução civil, num como noutro caso a troco de muito pouco, por vezes até de quase nada. Nesta busca diária do ganha-pão, nas con­di­ções di­tadas pelo pa­trão (tantas vezes abaixo da lei e da ele­mentar hu­ma­ni­dade), é di­fícil não ver se­me­lhanças com as praças de jorna de má me­mória.

Nessa reu­nião, se­me­lhante a tantas ou­tras re­a­li­zadas em tantos ou­tros lu­gares, afirmou-se que o PCP e a CDU não fazem dis­tinção entre tra­ba­lha­dores, in­de­pen­den­te­mente da sua origem: «nós de­fen­demos a classe tra­ba­lha­dora» e todos – sem ex­cepção – devem ter sa­lá­rios dignos, con­tratos, pro­tecção so­cial, ha­bi­tação, saúde. Tudo aquilo, por­tanto, «a que um ser hu­mano deve ter di­reito».

Ali re­a­firmou-se também a de­ter­mi­nação em dar com­bate firme aos que pre­tendem res­pon­sa­bi­lizar os imi­grantes pelos pro­blemas do País, pro­cu­rando que se es­queça que também os por­tu­gueses emi­gram em busca de uma vida me­lhor e ili­bando os ver­da­deiros res­pon­sá­veis: os par­tidos que servem aqueles que en­ri­quecem com a ex­plo­ração dos tra­ba­lha­dores, sejam eles imi­grantes ou por­tu­gueses.

Pese em­bora as di­fe­renças cul­tu­rais e lin­guís­ticas, saiu re­for­çada a so­li­da­ri­e­dade que une sob uma mesma ban­deira – e uma mesma luta – os ex­plo­rados de todo o mundo e foram en­ce­tados ca­mi­nhos de or­ga­ni­zação, esse chão fértil de onde brotam todas as vi­tó­rias. Como dizia Sa­ra­mago, é pre­ci­sa­mente do chão que se le­vantam as se­aras e as ár­vores, mas também os ho­mens e as suas es­pe­ranças.

 https://www.avante.pt/pt/2623/opiniao/174875/Levantados-do-ch%C3%A3o.htm

quinta-feira, 7 de março de 2024

Dulce Maria Cardoso - Un juguete frágil en manos toscas (excerto)


*  Dulce Maria Cardoso 

Los portugueses tendrán que pronunciarse en las elecciones del domingo sobre el lugar de la extrema derecha de Chega y sobre la herencia de la dictadura de Salazar


Como nasce o populismo? O que alguém sedento por holofotes precisa fazer para chamar a atenção? Como e por que começamos a prestar atenção “aquela pessoa”?

Para começar, “aquela pessoa” fala alto, interrompe os outros e é desrespeitoso. Ela age assim porque está indignada, com raiva. Sendo um bom ator e um bom comunicador, ele dá a impressão de que não tem filtros, que é autêntico, mesmo que minta descaradamente. A competição desenfreada que a sociedade exige de nós leva-nos a recriar as nossas relações com os outros, distanciando-nos da necessidade primordial que temos de não nos sentirmos sozinhos. Portanto, somos atraídos por aqueles que parecem, mesmo sabendo que não são, genuínos. Nós os recompensamos com nossa atenção e, muitas vezes, com nosso carinho. Permitimos que “essa pessoa” desafie códigos sociais ou mesmo leis. Há também quem aprecie. A selvageria “daquela pessoa” funciona como prova de sua independência e pode ser interpretada como um sinal de bravura. Para captar a atenção dos outros e mantê-la a longo prazo, “essa pessoa” deve escolher cuidadosamente as razões da sua indignação e raiva. Assim, demoniza dois grupos: um minoritário ou desprotegido e outro poderoso. O grupo dos poderosos inclui todos os seus adversários políticos. A suposta bravura com que pretende atacar os poderosos mascara a desprezível covardia com que persegue os desprotegidos. Para os populistas de direita, o grupo desprotegido é quase sempre constituído por imigrantes que, convenientemente e na sua maioria, não são eleitores.

“Essa pessoa” afirma que os grupos demonizados são a fonte de todo o mal e que devem ser odiados e perseguidos. Portanto, “aquela pessoa” não é considerada um agressor, mas sim uma vítima que atua em legítima defesa, querendo ser porta-voz de uma multidão de vítimas que tenta recrutar para a sua “guerra santa”. A vitimização que promove, misturando vítimas reais com falsas vítimas, é uma arma muito perigosa: além de ser uma poderosa estratégia empática, torna as verdadeiras vítimas ainda mais vulneráveis.

No entanto, esta manipulação “daquela pessoa” resultaria numa farsa inútil se não houvesse um mal-estar geral na sociedade, fruto, sobretudo, de uma injustiça económica e social imperdoável. Neste contexto, é fácil capitalizar o descontentamento dos cidadãos: aqueles que se sentem abandonados estão mais dispostos a ouvir “aquela pessoa”, que insiste em dizer que não tem responsabilidade pelas causas que levam a esse descontentamento. O abandono é o terreno onde emergem os populismos incipientes. Outros partidos externos ao governo também têm à sua disposição o mesmo terreno e têm à sua disposição a mesma possibilidade de manipulação , mas não prosperam nem definham. Para evitar tal fim, “essa pessoa” deve ser um comunicador competentemente histriónico e demagógico, elogiado pelas redes sociais e explorado pelos meios de comunicação social, e não ter escrúpulos em perseguir injustamente a minoria ou os grupos desprotegidos que escolhem demonizar. Hoje, em Portugal, o populismo de direita prospera mais facilmente do que o populismo de esquerda pelas opções que ambos têm nessa escolha: mais facilmente contribui para a incitação ao ódio contra os imigrantes do que, por exemplo, contra os proprietários (apesar da valor obsceno das rendas) ou aos empregadores (apesar dos baixos salários).~

07 MAR 2024 

https://elpais.com/opinion/2024-03-07/un-juguete-fragil-en-manos-toscas.html?
 

terça-feira, 5 de março de 2024

Carlos Coutinho - Guerra é guerra

* Carlos Coutinho

   ESTE ano absolutamente inaceitável, iníquo, sangrento, com duas guerras fratricidas mesmo ao lado desta Europa zaragateira que recupera heranças milenares de conflitos armados, enquanto várias outras calamidades do mesmo género estão semeadas por todo o resto do mundo, este ano infernal, insisto, pode ter efeitos decisivos para a Humanidade, a curto, médio e longo prazos.

   Consideram alguns dos entendidos nestas matérias que estamos já mergulhados numa “guerra cognitiva que transforma a mente no campo de batalha e ameaça a integridade de sociedades e nações”, até porque “continua a redefinir-se o equilíbrio de forças entre as grandes potências”.

    O futuro do mundo – acham eles e eu tendo a concordar – decide-se numa era de capacidade tecnológica sem precedentes, na qual as novas ferramentas de inteligência artificial aperfeiçoam as estratégias de desinformação e potenciam a sua interferência na formação da opinião pública, pondo em causa o funcionamento de todo o tipo de democracias.

   Na presente era digital, de facto, a informação surge como a arma das novas operações no domínio cognitivo.    

   Mais do que nunca se torna necessário “ler o cérebro dos nossos adversários para anteciparmos a suas reações”, de modo a podermos influenciá-las “ e fazer com que atuem de acordo com os nossos desejos”. E isto “à medida que nós próprios devemos ser capazes de proteger o nosso cérebro e melhorar as nossas capacidades cognitivas de compreensão e de decisão”, explicava em junho de 2021 o general e vice-chefe da Defesa francesa, Eric Autellet, citado no “Público” de há quatro dias, na primeira reunião científica da NATO, sobre a guerra cognitiva, que é um novo domínio da guerra moderna.

   Enquanto guerra sobre a mente e o pensamento de um determinado alvo, “o seu objetivo é atacar ou até mesmo destruir a forma como constrói a sua própria realidade e visão do mundo”, em conjunto com “a sua confiança nos processos e nas abordagens necessárias para o funcionamento eficiente de grupos, sociedades ou mesmo nações”, destaca, por sua vez, Bernard Claverie, cientista cognitivo e professor no Instituto Politécnico de Bordéus. 

   Trata-se, neste caso, de um tenente-coronel reformado do Exército francês que apresentou o problema na mesma reunião da NATO. Segundo ele, a guerra cognitiva combina elementos da guerra de informação – incluindo a militarização da psicologia e das neurociências – para o cumprimento de ações militares, situando-se “entre dois domínios operacionais: as operações psicológicas e de influência, em conjunto com as operações cibernéticas”. 

   No seu potencial extremo, pode “subjugar sem recurso à força e coerção”, fragilizando-as “e mesmo fraturando-as”, segundo investigadores da Universidade Johns Hopkins e Imperial Colledge, de Londres.

   Para o português Manuel Poêjo Torres, consultor da NATO desde 2013, a gramática da guerra evolui com a introdução de novas tecnologias e práticas, “e nós próprios começamos a encontrar novos chavões para caraterizar aquilo que já existe e faz parte da natureza humana há muitos anos.” 

   Mais, “enquanto operações psicológicas operam apenas no domínio da influência política e diplomática” e constituem um sistema de informações que “se reflete num ambiente de múltiplos sistemas”, inseridos num grande espaço, uma “nuvem de informações com várias dimensões: a dimensão das informações – a coleção e análise dos dados, a dimensão física – os sistemas que correm os dados, e a dimensão cognitiva dos dados, e a dimensão cognitiva – o domínio da mente”.

   Para mim que, não sendo perito nestas questões também não sou muito ingénuo, fica a confirmação de que não estava enganado quando me punha a avaliar os critérios de escolha dos pivôs televisivos, dos repórteres enviados para a Ucrânia e para Israel, da grande maioria da canalha comentadora e até de um fulano difícil de catalogar com rigor como o penteadinho natista – muito competente em propaganda remunerada – major-general Isidro de Morais Pereira.

2024 03 05

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.71

segunda-feira, 4 de março de 2024

Fernando Pessoa e Oliveira Salazar


Cartoon - Fernando Pessoa visto por Rita Ravasco


* Fernando Pessoa

 Sim, sou situacionista. Mas vamos lá a uma coisa…
 

Há três maneiras de ser situacionista, isto é, de ser partidário de qualquer situação política. A primeira é a conformidade por doutrina; a segunda a conformidade por aceitação; a terceira a conformidade por não-oposição. Deixo de parte uma das mais vulgares — a conformidade por vantagem —, porque não é disso que se trata, pelo menos em mim.

A conformidade por doutrina quer dizer que o partidário está de acordo com o programa político da situação a que adere. A conformidade por aceitação quer dizer que o partidário, sem que adira ao todo ou a parte desse programa, confia todavia na situação e se abstém de pôr pontos doutrinários. A conformidade por indiferença vale por adesão por só não ser hostilização.

Sou situacionista por aceitação. Não discuto problemas políticos, constituições ou programas. Confio instintiva mas não irracionalmente, no General Carmona e no Professor Salazar.

Confio no General Carmona porque tem a mais segura mão de timoneiro que há muitos anos temos tido. Desde quando, no período agudo da Ditadura, apoiou a acção defensiva e patriótica do General Vicente de Freitas, até quando, havendo já calma para pensar, deu apoio à acção coordenadora do Prof[essor] Salazar, o Presidente da República tem-se mantido numa atitude que é rara em qualquer caso, e raríssima em política — a maleabilidade dentro da dignidade. É um aristocrata da adaptação.

Confio no Prof[essor] Salazar por um motivo primário e dois motivos secundários. O motivo primário é aquele de ter as duas notáveis qualidades que ordinariamente falecem no português: a clareza firme da inteligência, a firmeza clara da vontade. Dos motivos secundários, o primeiro é o que tenho notado de realmente feito e que antes se não fazia — tudo isso que vai desde os navios e as estradas até tentar dar a um país sem ideal nacional pelo menos o pedido de que pense em tê-lo. O segundo desses motivos é o acréscimo do nosso prestígio no Estrangeiro. Conheço a sua realidade por informações directas, e não por citações de jornais, susceptíveis sempre de suspeitas reais, factícias ou fictícias. E, neste esquema de adesão translata, é de meu dever dizer que junto ao nome do Prof[essor] Salazar o do Prof[essor] Armindo Monteiro.

Disse que confio porque confio. Não vou mais longe. Se me perguntarem se compreendo a obra financeira do Prof[essor] Salazar, digo que não, porque nada sei de finanças. Confio. Se os seus opositores me disserem que por estas e aquelas razões, essa obra é má, digo, com igual fundamento, que não sei. Confio.

Dito isto, compreendamo-nos melhor. Além do situacionista que sou, sou um individualista absoluto, um homem livre e um liberal. E isto faz que tenha uma perfeita tolerância pelas ideias dos outros, que seja incapaz de considerar um crime o pensar outro do modo que não penso.

Por isso, esta confiança, que tenho no Prof[essor] Salazar, me não impõe a mais pequena sombra de aversão a, por exemplo, o Prof[essor] Afonso Costa. Timbro em afirmar por ele a minha absoluta consideração. Esse homem foi o único que cumpriu integralmente, no Governo Provisório, o que prometera na propaganda. Prometeu a Lei do Divórcio: fê-la. Prometeu a Lei da Família: fê-la. Prometeu a Lei da Separação: fê-la. Se as fez bem ou mal, do ponto de vista jurídico, não sei, porque não sou jurista. Sei que prometeu e cumpriu. Não sou, evidentemente seu correligionário, mas não consigo ser seu inimigo. Nego-lhe o meu apoio; não posso negar-lhe o meu respeito. Sigo o preceito do Prof[essor] Salazar: política de verdade.

E neste critério, e com os fundamentos de que for capaz, continuarei, sempre que Deus quiser, a defender a Maçonaria.

1928
Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.  - 217.

~~~~~~~~~~

ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR

António de Oliveira Salazar.

Três nomes em sequência regular...

António é António.

Oliveira é uma árvore.

Salazar é só apelido.

Até aí está bem.

O que não faz sentido

É o sentido que tudo isto tem.

......

Este senhor Salazar

É feito de sal e azar.

Se um dia chove,

A água dissolve

O sal,

E sob o céu

Pica só azar, é natural.

Oh, c'os diabos!

Parece que já choveu...

......

Coitadinho

do tiraninho!

Não bebe vinho.

Nem sequer sozinho...

Bebe a verdade

E a liberdade.

E com tal agrado

Que já começam

A escassear no mercado.

Coitadinho

Do tiraninho!

O meu vizinho

Está na Guiné

E o meu padrinho

No Limoeiro

Aqui ao pé.

Mas ninguém sabe porquê.

Mas enfim é

Certo e certeiro

Que isto consola

E nos dá fé.

Que o coitadinho

Do tiraninho

Não bebe vinho,

Nem até

Café.

s.d.

Da República (1910 - 1935) . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. 

 - p. 349.

1ª publ. in Diário Popular , Lisboa, 30 Maio e 6 Junho 1974 . inc? CF. lello - fotoc



~~~~~~~~~~

Salazar - Um cadáver emotivo,

Salazar


Um cadáver emotivo, artificialmente galvanizado por uma propaganda...

Duas qualidades lhe faltam — a imaginação e o entusiasmo. Para ele o país não é a gente que nele vive, mas a estatística d'essa gente.


Soma, e não segue.

1932?

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

  - 221.

~~~~~~~~~~


O Prof. Salazar é muito mais inteligente e muito mais culto,

O Prof. Salazar é muito mais inteligente e muito mais culto, ainda que a sua inteligência seja monocórdica e a sua cultura unilateral. Tem uma inteligência do tipo científico, mas sem ser céptica; tem uma cultura do tipo humanístico, mas sem ser literária. Isto lhe dá aquela unidade psíquica de onde resulta a sua formidável disciplina e energia; isto, ao mesmo tempo, o desumaniza.

s.d.

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

  - 220.

~~~~~~~~~~

O Prof. Salazar tem, em altíssimo grau, as qualidades secundárias…

O Prof. Salazar tem, em altíssimo grau, as qualidades secundárias da inteligência e da vontade. É o tipo do perfeito executor da ordem de quem tenha as primárias.


O chefe do Governo tem uma inteligência lúcida e precisa; não tem uma inteligência criadora ou dominadora. Tem uma vontade firme e concentrada, não a tem irradiante e segura. É um tímido quando ousa, e um incerto quando afirma. Tudo quanto faz se ressente d'essa penumbra dos Reis malogrados.


Quando muito, na escala da governação pública, poderia ser o mordomo do país.


Faltam-lhe os contactos com todas as vidas — com a vida da inteligência, que vive de ser vária e, entre os conflitos das doutrinas, não sabe decidir-se; com a vida da emoção, que vive de ser impulsiva e incerta; com a vida da (...)

O Chefe do Governo não é um estadista: é um arrumador. Para ele o país não se compõe de homens, mas de gavetas. Os problemas do trabalho e da miséria, como há ele de entendê-los, se os pretende resolver por fichas soltas e folhas móveis?


A alma humana é irredutível a um sistema de deve e haver. É-o, acentuadamente, a alma portuguesa.


Às vezes aproxima-se do povo, de onde saiu. E traz-lhe uma ternura de guarda-livros em férias, que sente que preferiria afinal estar no escritório.


É sempre e em tudo um contabilista, mas só um contabilista. Quando vê que o país sofre, troca as rubricas e abre novas contas. Quando sente que o país se queixa, faz um estorno. A conta fica certa.


O Prof. Salazar é um contabilista. A profissão é eminentemente necessária e digna. Não é, porém, profissão que tenha implícitas directivas. Um país tem que governar-se com contabilidade, não pode governar-se por contabilidade.


Assistimos à cesarização de um contabilista.

s.d.

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

  - 222.

~~~~~~~~~~


POEMA DE AMOR EM ESTADO NOVO

Tens o olhar misterioso

Com um jeito nevoento,

Indeciso, duvidoso,

Minha Marta Francisca,

Meu amor, meu orçamento!

A tua face de rosa

Tem o colorido esquivo

De uma nota oficiosa.

Quem dera ter-te em meus braços,

Ó meu saldo positivo!

E o teu cabelo — não choro

Seu regresso ao natural —Abandona o padrão-ouro

Amor, pomba, estrada, porta,

Sindicato nacional!

Não sei por que me desprezas.

Fita-me mais um instante,

Lindo corte nas despesas,

Adorada abolição

Da dívida flutuante!

Com que madrigais mostrar-te

Este amor que é chama viva?

Ouve, escuta: vou chamar-te

Assembleia Nacional

Câmara Corporativa.

Como te amo, como, como,

Meu Acto Colonial!

De amor já quase não como,

Meu Estatuto de Trabalho,

Meu Banco de Portugal!

Meu crédito no estrangeiro!

Meu encaixe — ouro adorado!

Serei sempre o teu romeiro...

Pousa a cabeça em meu ombro,

Ó meu Conselho de Estado!

Ó minha corporativa,

Minha lei de Estado Novo,

Não me sejas mais esquiva!

Meu coração quer guarida

Ó linda Casa do Povo!

União Nacional querida,

Teus olhos enchem de mágoa

A sombra da minha vida

Que passa como uma esquadra

Sobre a energia da água.

Que aristocrático ri,

O teu cabelo em cifrões — Finanças em mise-en-plis! —

Meu activo plebiscito,

Nunca desceste a eleições!

Por isso nunca me escolhes

E a minha esperança é vã.

Nem sequer por dó me acolhes,

Minha imprevidente linda

Civilização cristã!

Bem sei: por estes meus modos

Nunca me podes amar.

Olha, desculpa-mas todas.

Estou seguindo as directrizes

Do professor Salazar.

9-9-1935

Fernando Pessoa - O Último Ano. (Catálogo da Exposição Comemorativa do Cinquentenário da Morte de Fernando Pessoa, organizada e coordenada por Teresa Sobral Cunha e João Rui de Sousa.) Lisboa: Biblioteca Nacional, 1985.

  - .

N. do A.: «o demoliberalismo maçónico-comunista»



~~~~~~~~~~

[Carta ao Presidente da República - b]

Quer isto dizer, Senhor Presidente, que uma nação haja sempre de ser governada por chefes acentuadamente tais, que não haja período em que possam estar no poder os inteligentes sem aura e os patriotas sem prestígio? Não o quer dizer. O que porém quer dizer é que esse prestígio de chefe, desnecessário muitas vezes num governo de época normal, é indispensável num governo de época anormal, imprescindível num governo de autoridade. O que porém quer dizer é que o Prof[essor] Salazar, não tendo tal prestígio, nem maneira de o ter, se deixou investir da aparência d'ele. É a sua túnica de Nessus[.J


Ninguém pode legitimamente culpar o actual Presidente do Conselho de não ter qualidades que não tem; pode legitimamente fazer-se de, não tendo tais qualidades, pretender tê-las e ter-se colocado em situação de, não podendo tê-las, ser todavia necessário que as tenha.


Culpa-se o Prof[essor] Salazar d'isto: de ser incompetente para o cargo que assumiu.

1935

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

  - 229.


~~~~~~~~~~

[Carta ao Presidente da República - d]

Destinado assim naturalmente por Deus para executor de ideias de outrem, visto que as não tem próprias, de secretário de prestígio alheio, porque o não pode conquistar seu, o Prof[essor] Salazar quis alçar-se, ou deixou que o quisessem alçar, a um pedestal onde mal se acomoda, a um trono onde não sabe como sentar-se. Não conseguiram os titãs, e eram titãs, escalar o Olimpo; como o conseguirão os anões, condenados, para que possam parecer grandes, ao desequilíbrio constante das andas que lhes ataram às pernas?

1935

Pessoa Inédito. Fernando Pessoa. (Orientação, coordenação e prefácio de Teresa Rita Lopes). Lisboa: Livros Horizonte, 1993.

  - 231.


Pesquisa porsalazar:  in Arquivo Pessoa  http://arquivopessoa.net/ 

Cartoon in https://industriacriativa.pt/projeto/3171/fernando-pessoa

Carlos Coutinho - dois textos sobre a consciência e a morte

Também eu…


DESDE Séneca, Adriano, Averróis, Afonso X, Lope de Veja, Cervantes, Goya, Ortega y Gasset, Picasso e também os seus simétricos Loyola, um biltre desejoso da Inquisição, e Escrivá, o fundador já canonizado da Opus Dei e mesmo o general franquista Millán-Astray, que, em 1936, gritou a Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, “Viva la muerte! Muera la inteligência!”, desde então, convém saber, a vida e a morte são as duas faces indescoláveis da mesma questão.

Agora há mais dois espanhóis, Juan José Millás, um escritor muito na berra, dentro fora do país nosso vizinho, e um paleoantropólogo não menos célebre, Juan Luís Arsuaga, que tropeçam na mesma questão, mas em termos mais inquietantes, ou mesmo desestabilizadores das consciências que se mantenham atentas aos maus encontros da ciência sempre inacabada.

Em conjunto, refletem ambos sobre o humano, a evolução, a morte e o envelhecimento. Vão pondo isso em livros o último dos quais é “A Morte Contada por Um Sapiens a Um Neandertal”. Ou seja, na confissão do paleoantropólogo, coescreveu um “objeto” que tem tanto de ciência como de literatura, que pode ler-se como um ensaio e como um livro de ficção.

Arsuaga é professor da Universidade Complutense de Madrid e co-diretor, desde 1991, do projeto de investigação das jazidas fósseis da serra de Atapuerca, em Burgos, Espanha, um dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo – que, deploravelmente, eu até agora desconhecia – e isto no que toca à evolução humana.

Passou os últimos 40 anos a estudar os nossos antepassados, o que o leva a reconhecer que “os nossos genes são paleolíticos” e que “as pessoas do Paleolítico comiam tudo o que conseguiam, com grandes períodos de jejum forçado”.

E pergunta se alguém consegue “imaginar um pássaro granívoro cujo nutricionista o aconselhasse a comer alguns insetos que não existem no seu ambiente”.

É que “não se pode viver num nicho e comer o que outro produz. Os peixes não comem carne de vaca”.

Isto, neste tom coloquial, para nos advertir de que “a morte é o maior problema da biologia. Há dois tipos de morte, a morte que vem de fora sob a forma de acidentes, parasitas, infeções, catástrofes naturais, ataques de animais, fome, sede, insolação, frio ou violência e a morte que vem de dentro. Mesmo que eliminássemos a morte que vem de fora, restaria sempre a morte que vem de dentro, que se chama doenças crónicas. Porque é que as doenças crónicas existem? Porque é que a evolução não as eliminou? (…) A morte é impossível de admitir, mas a verdade é que não pensamos nela durante todo o dia. A morte não é visível. A velhice é muito mais visível”.

Tudo isto parece muito simples, mas há coisas que podem não o parecer e têm enormíssima complexidade, o que Arsuaga não simplifica, como é o caso da perda de vigor sexual, um dos grandes marcos do envelhecimento, a perda de alguma rapidez do raciocínio e a progressiva decadência física.

E assevera:

“Pessoalmente não posso falar, porque ainda não me sinto limitado pela idade em nenhuma função importante”, disse ao “Público” (2.3.2024). O que mais temo, claro, é a doença de Alzheimer e qualquer outra doença neurodegenerativa.”

Também eu. Obviamente.


2024 03 02

~~~~~~~~~~




Luto ou luta?


VOLTANDO ao melancólico tema do meu apontamento de anteontem, em que cito o paleoantropólogo espanhol Juan Luís Arsuaga e o seu medo da doença de Alzheimer, há que pôr aqui algumas reticências. É que, para ser absolutamente honesto, como gosto de ser e parecer, eu devia também tê-lo citado quando assevera:

“O que o ser humano procura é ser eternamente jovem, não eternamente velho. Reverter a velhice e recuperar a juventude, ou seja, o rejuvenescimento, é impossível. Mas podemos tornar-nos centenários com uma qualidade de vida razoavelmente boa. Este é um objetivo científico que faz sentido e que é possível e aceitável.”

Por mim, tudo bem, desde que, por essa via, não se duplique a população do planeta para se morrer de fome e não de Alzheimer ou de qualquer outra doença neurodegenerativa.

Até porque, diz ele, “muitos dos nossos problemas têm origem no dualismo/mente corpo da cultura ocidental. Temos de ser felizes através do corpo, não fora do corpo. Somos corpo toda a vida, em qualquer idade, e podemos sempre desfrutar do corpo, se soubermos como o fazer. Não é preciso ser jovem para ter um corpo. (…) Os gregos pensavam que o nosso corpo era o abjeto mais belo e harmonioso da Terra. Receio que tenhamos perdido a perspetiva grega – e renascentista – e é urgente recuperá-la.”

Nem mais!

E, como tenho o ecrã da televisão à minha frente, reparo que, no Mezzo, a Orquestra Sinfónica de Londres ataca virtuosamente uma peça muito enérgica de Bruckner, a 7.ª Sinfonia.

Quem rege é um multiexpressivo e ondulante Simon Rattler, ora sorridente, ora ameaçador, de farta cabeleira branca e todo de preto vestido. Ou seja, todo em modo corvídeo, do pescoço aos pés. Ao contrário dos outros, não usa camisa, embora também não esteja de gravata e tenha bem apertada a gola do casaco talhado a rigor.

A totalidade vasta do o pessoal da orquestra, igualmente sem gravata, exibe-se também de negro vestida a tem a branquíssima camisa desabotoada. São mulheres e homens, loiros e morenos, carecas uns e detentores outros de cabeleiras volumosas, onduladas, a cobrir orelhas e, nalguns casos, até os ombros.

As notas de Bruckner são-nos entregues, uma a uma, perfeitamente definidas, nos pianíssimos e nos fortes, articuladas numa sequência cósmica, como estrelas intangíveis.

Indefeso neste assombro, agarro-me à tarefa de retratar estas luminosas figuras escuras, os seus trajes e o cristalino som que me enviam do Mezzo, mas que podia vir do Olimpo.

E, pensando em mim, pergunto-me, agora, se eles e elas estão de luto ou em luta.


2024 03 04

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

Tiago Tavares - 15 expressões saídas da publicidade que usamos vezes sem conta


1. Em Portugal, aproximam-se as eleições para a Assembleia da República, a terem lugar em 10 de março. A campanha eleitoral arranca em 25 de fevereiro, e neste contexto bem como no do rescaldo das eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, Luís Montenegro, presidente do PSD, opinou que o partido Chega terá de se submeter «[a]o teste do algodão»  quando for votado o programa de governo minoritário da coligação da Aliança Democrática nos Açores. É uma expressão curiosa, que encontra referência no Ciberdúvidas (ver "15 expressões saídas da publicidade que usamos vezes sem conta", do jornalista Tiago Tavares) e que tem origem em «o algodão não engana», frase publicitária que, em anúncios dos anos 90 do século passado, em Portugal, rematava a demonstração da eficácia de um produto de limpeza. Na verdade, a frase em português era a tradução de outra em espanhol – «el algodón no engaña» – que se tornou popular em 1984, com a publicidade de um produto de limpeza semelhante, vendido em Espanha. Na Internet, é possível recolher vários exemplos quer de «teste do algodão» quer de «o algodão não engana», que, em transposição metafórica, significará «momento decisivo ou crítico, que conduz a uma clarificação». Trata-se, portanto, de mais um caso da linguagem publicitária como fonte de renovação fraseológica no português.

Sobre o contributo da publicidade para o aparecimento de novos usos idiomáticos em Portugal, leia-se "Publicidade e expressões idiomáticas". Na imagem, o mordomo que no anúncio de 1984 da campanha publicitária espanhola fazia o «teste do algodão» depois de aplicado o detergente Tenn, um produto da Henkel.'

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/aberturas/teste-do-algodao-lagarto-naos-epicenos-lingua-materna-duvidas-gramaticais-e-o-portugues-no-senegal/2853 [consultado em 04-03-2024]

~~~~~~~~~~

* Tiago Tavares  

29 jun. 2018 

15 frases que perduraram muito para além do fim das suas campanhas em Portugal

 
1. Primeiro estranha-se, depois entranha-se

O anúncio que marcaria a entrada da Coca-Cola em Portugal foi encomendado à agência Hora, onde trabalhava Fernando Pessoa, nos finais dos anos 20. O poeta foi responsável pelo slogan, mas a campanha não saiu do papel e a bebida foi proibida por intervenção do diretor de Saúde de Lisboa, Ricardo Jorge — o médico que dá nome ao Instituto –, por um duplo motivo: se o produto continha coca, da qual se extraía a cocaína, não podia ser vendido ao público; se não tinha coca, então anunciá-lo com esse nome seria publicidade enganosa. A marca só começou a ser vendida em Portugal em 1977, mas a frase ficou para a história.

2. Há mar e mar, há ir e voltar

Outro poeta a dar cartas na publicidade foi Alexandre O’Neill. Devemos-lhe esta frase elevada a provérbio, criada para uma campanha do Instituto de Socorros a Náufragos para prevenir os afogamentos nas praias portuguesas.

3. Se conduzir, não beba

No campo das campanhas institucionais, esta foi outra frase que fixámos neste anúncio de 1986 e que continuamos a repetir. 

4. Aquela máquina

Podemos até já nem nos lembrar bem do que fazia “o Homem da Regisconta”, mas certamente que nos ecoa na memória a voz forte de Fernando Girão a cantar “Aquela máquina!”, num anúncio repetido entre 1974 e meados dos anos 80. E todos nós, seja em que tarefa for, gostamos de ser “aquela máquina”.

5. Acredita nos glutões?

Quem foi criança nos anos 80 provavelmente terá acreditado que existiam mesmo uns bonequinhos verdes que saíam da embalagem do detergente Presto para dar conta das nódoas mais difíceis. «Acreditar nos glutões» passou a ser sinónimo da ingenuidade de crer em coisas pouco razoáveis.

6. O que é Nacional é bom

Muito antes de Scolari nos encher as janelas e os carros de bandeiras portuguesas, já a secular marca de massas, farinhas, cereais e bolachas apelava ao nosso patriotismo. No léxico comum, o slogan extravasou o âmbito da marca nascida em 1849 e serve hoje para exaltar a qualidade de todo o tipo de produtos portugueses.

7. Vá para fora cá dentro

O slogan lançado pelo então Ministério do Comércio e Turismo em 1995, numa campanha que desafiava os portugueses a passear pelo seu país, tornou-se tão natural como a nossa sede — e aqui está outra frase herdada da publicidade — de escapadinhas turísticas.

8. Sensação de absorção

Num anúncio dos anos 90, designava o efeito da aplicação da pomada Clearasil nas borbulhas de uma adolescente. A expressão foi absorvida por ainda mais gente quando Herman José, criador de mil expressões, a adaptou para «sensação de absorção, mas ao contrário».

9. Apetecia-me tomar algo

O pedido feito pela madame ao motorista Ambrósio entrou para a história da publicidade orelhuda em 1995, prestando-se a algumas conotações menos ortodoxas no imaginário popular das relações patroa-motorista.

10. O algodão não engana

A visibilidade de Ambrósio é comparável à do zeloso mordomo que descobre toda a sujidade invisível a olho nu, através do infalível teste do algodão. A expressão deu nome a uma canção dos Tara Perdida e a um projeto musical de Pacman (agora Carlão), mas é usada sobretudo quando queremos desmascarar aquilo que, à primeira vista, parecia «limpinho, limpinho».

11. Sobral de Monte Agraço já tem um parque infantil

Por falar em limpeza, há uma vila no distrito de Lisboa cujo nome foi repetido à exaustão por Vítor de Sousa num anúncio do Tide (detergente igualmente responsável pelo «branco mais branco não há»). Embora a frase não dê para aplicar em muitos contextos, sabemos de fonte segura que os habitantes de Sobral de Monte Agraço ainda hoje são questionados acerca do seu parque infantil.

12. Papa a papa

Se uma frase entra no ouvido de muita gente, uma canção entra muito mais. E apostamos que em casa de muitos leitores com filhos pequenos, quando chega a hora de dar a papa, esta adaptação do Frère Jacques mantém a eficácia de 1992, quando a campanha estreou.

13. Falta-te um bocadinho assim

Ora aqui está uma expressão com gesto incorporado. Quando estamos quase a conseguir atingir um objetivo, mas ainda falta o quase, há sempre alguém que aproxima o indicador do polegar e nos manda comer um Danoninho.

14. Há uma linha que separa…

Esta expressão é mais recente, embora a marca de telecomunicações já tenha entretanto mudado de nome. Andou na boca de todos no início desta década e até o então líder do PS, António José Seguro, glosou o slogan: «Há uma linha que separa a austeridade da imoralidade», disse em 2012, em relação à proposta do Governo para descer a TSU.

15. Poder, podia, mas não era a mesma coisa

Poucos anos antes, aquando da introdução da fibra na sua oferta de serviços, a Zon teve uma campanha com figuras públicas, cujo mote foi repetido vezes sem conta, substituindo o nome da marca por aquilo que se quisesse, como por exemplo: «Podia viver sem o Lifestyle do Observador? Poder, podia, mas não era a mesma coisa.»

 
 Cf. O Teste do Algodão'

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/15-expressoes-saidas-da-publicidade-que-usamos-vezes-sem-conta/3650 [consultado em 04-03-2024]

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Carlos Coutinho - Afinidades



* Carlos Coutinho 
 
   Ao contrário do escanzelado Rocinante, o melancólico e sisudo cavalo branco de D. Quixote de la Mancha, o burro anafado do fiel escudeiro Sancho Pança não tinha nome, embora fosse um equídeo muito inteligente, sensato e introvertido. 

   Houve quem o batizasse como Rocio, porque Cervantes o pintou como ruço, mas aquele jerico era, de facto, inominável, ou simplesmente incrível, porque tinha a sageza peculiar de toda a fauna asinina e suspeita-se até que era capaz de entender o mundo e as suas lógicas muito melhor que o desvairado patrão do seu dono.

   O mesmo não direi do Rocinante, nome que alguns linguistas vão buscar ao “ross” do medieval alto-alemão que até ao português chegou, dando-nos o étimo de escaço uso “rocim” que é sinónimo de pileca, sendeiro, cavalicoque, ou seja, um pequeno animal que, no caso em apreço, era como o dono, desengonçado, magricela e de reduzida capacidade mental para a cavalgar no território da racionalidade. 

   Cervantes definiu mesmo D. Quixote como um fulano “alto e de compleição rija, seco de carnes, enxuto de rosto e grande madrugador”, enquanto o paciente, bonacheirão e sagaz Sancho era, pelo contrário, atarracado e senhor de um burro que montava com respeito, apesar de se tratar de um infeliz jerico, ou asno, isto é, um quadrúpede de parca respeitabilidade e grande importância para o comum dos mortais que sempre o utilizaram como escravo de tração e de trabalho agrícola. 

   Ou seja, nem para puxar caleches ou carroças de nómadas servia. Só muito modernamente é que já aparece em certas terapias e como afetuosa montada de crianças. Julgo que nisso ele terá muito orgulho.
   Como se vê, possui traços de caráter muito afins aos da melhor parte da espécie humana. 

   Para que conste.

https://www.facebook.com/photo/?fbid=937874864519189&set=a.128956665411017

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Carlos Coutinho - Folias

* Carlos Coutinho


   Dois dias depois do Domingo Gordo, nunca falha uma foliona terça-feira com o seu Entrudo e, pelo menos para os católicos e seus vizinhos do lado, lá vem também a Quarta-Feira de Cinzas, que sempre dá início ao mórbido percurso da Quaresma

   É tradição no Domingo Gordo, aquele que precede o Carnaval e em muitos lugares é precedido pelo Domingo Magro, sendo que este só serve para meditar e orar, enquanto que no gordo se come à fartazana iguarias pesadas, como o cozido à portuguesa, uma das diversas feijoadas que são quase nacionais, ou as papas de sarrabulho que, ao contrário da vulgaridade nortenha, sobretudo minhota, são cozinhadas com mel e miolo de noz - uma sobremesa deliciosa na minha infância duriense. 

   Geralmente, em tempos antigos, com a matança do porco por alturas do Natal, as carnes mais gordas eram cuidadosamente guardadas e salgadas pelas famílias para serem saboreadas neste dia.

   Quanto ao Entrudo, sabe-se que é coisa tão antiga que até se julga haver recebido o nome do latino introitum historicamente também designado como entroydo e ontroydo (século XIII), entruido (século XIV) e entrudo (século XV). Por cá era um folguedo galaico-português realizado nos três dias que antecedem a entrada da Quaresme e nos quais os foliões arremessavam baldes de água, limões de cheiro, ovos, tangerinas, pastelões e luvas cheias de areia, golpeavam-se com vassouras e colheres de pau e sujando-se com farinha, gesso, etc. 

   Depois vinha a Quarta-Feira de Cinzas (Feria quarta cinerum, em latim) que é, como se sabe, o primeiro dia da sorumbática Quaresma, que, no calendário católico, é quando se recebe aqueles restos de fogueira devidamente peneirados que neste dia são um símbolo da reflexão a ter sobre o dever da conversão, da mudança de vida, recordando a passageira, transitória, efémera fragilidade da vida humana, sujeita à necessária e implacável morte. O desgraçado étimo quaresma  é originário do latino ‘quadragesima dies’ (quadragésimo dia).

  Já quanto à Quinta-Feira Santa,  ou Quinta-Feira de  Endenças, ou Grande e Sagrada Quinta-Feira, é o quinto dia da Semana Santa no cristianismo ocidental o sexto no oriental (que  tem também o Sábado de Lázaro, anterior ao Domingo de Ramos. É neste dia que se comemora o lava-pés e a Última Ceia, segundo o relato dos evangelhos canónicos e a enigmática pintura de Da Vinci.

   Já a Sexta-Feira Santa ou Sexta-Feira da Paixão ou Sexta-Feira Maior é uma data religiosa cristã que relembra a crucificação do Mestre e a sua morte no Calvário enquanto o  Sábado de Aleluia (em latim: Sabbatum Sanctum), também conhecido como Sábado Santo é a véspera da Páscoa, 

   Em termos litúrgicos, o Sábado Santo vai até às 18 horas consideradas o início do crepúsculo, começando logo a Vigília Pascal  que inicia oficialmente a Época da Páscoa. 

   No mundo o ortodoxo, este dia, conhecido como Grande e Santo Sábado, é chamado também Grande Sabá  pois foi neste dia que Jesus “descansou”. Nas tradições coptas, etíopes e eritreias, este dia é conhecido como Sábado de Alegria.

   Os ramos que os fiéis levam são um desastre para muitos milhões de árvores, por esse mundo fora, mas ainda não havia ecologia ambiental quando tal tradição se estabeleceu. 

Coisas…

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

Atenção, atenção! A comunicação social confirma que só existem 6 jovens no país

 EDITORIAL|COMUNICAÇÃO SOCIAL

AbrilAbril

         

23 DE FEVEREIRO DE 2024

O debate sobre a falta de representatividade dos jovens acabou. A comunicação social dominante resolveu esse problema e encontrou os únicos seis jovens que, aparentemente, existem. Repetem a cassete, mas com laivos joviais para suavizar.

Longe vão os tempos onde se falava da falta de representatividade juvenil nos espaços de comentário político. Recentemente, esse problema foi sanado e os órgãos de comunicação social conseguiram encontrar os únicos jovens que, aparentemente, existem. Andavam escondidos na camada oprimida da fina flor do comentário no Twitter, mas finalmente foi-lhes consagrado um espaço mediático à altura das suas ambições, para poder dizer tudo aquilo que a sua geração quer dizer.

Bem, talvez não seja uma geraçãoTalvez seja o que a sua classe quer dizer. Dizem apenas o que é repetido em todo o lado pela narrativa dominante, mas fazem-no de uma forma muito descontraída, desapegada e alegadamente irreverente. O ar jovial conjugado com uma boa articulação discursiva, sem deixar de lado a testa franzida para aparentar seriedade, dá aos jovens premiados com este lugar de fala um passaporte para nada de importante acrescentar.

A reboque destes elementos vem a replicação de tudo o que já é dito em todos os espaços de comentário, inclusive praticar o mesmo tipo de revisionismo histórico e desonestidade intelectual. Veja-se o exemplo do mais recente podcast do Expresso, o «Lei da Paridade». Apresentado por Adriana Cardoso, hoje jovem «apartidária», mas que nasceu no seio da Iniciativa Liberal; Maria Castelo Branco, ex-militante da Juventude Popular, agora militante da Iniciativa Liberal e ex-jovem promessa; e Leonor Rosas, militante do Bloco de Esquerda e candidata à Assembleia da República pelo círculo eleitoral de Lisboa.

O podcast que teve o seu começo na TSF, regressou agora ao jornal de Pinto Balsemão. Neste importante retorno, até às eleições legislativas serão entrevistadas mulheres do BE, IL, PS, AD. Segundo Adriana Cardoso foram excluídos «evidentemente desta conta partidos que não são feministas». Uma escolha caricata já que são jovens que são vendidas como bem informadas, mas parece que deliberadamente se esqueceram do importante e determinante papel do PCP na luta emancipatória das mulheres ao longo dos seus mais de 100 anos de história. 

Nas redes sociais, quando confrontada com este facto, Adriana Cardoso usa como argumento o facto de serem «os 4 partidos com mais intenção de voto» e não haver «espaço nem episódios infinitos até às próximas eleições». Um critério nunca antes visto. Uma escolha editorial clara que visa beneficiar determinados partidos e apagar outros. A suposta jovialidade é usada para repetir as manobras de apagamento e o revisionismo histórico. 

Neste ramalhete temos ainda o caso de João Maria Jonet com espaço assíduo na SIC Notícias. Habilidoso com metáforas, supostamente irreverente, vende-se como um militante de base PSD com uma voz própria. É uma espécie de jovem Pacheco Pereira que, no momento certo, não hesita em esgrimir um conjunto chavões analíticos que dão jeito à narrativa dominante. Defende a NATO, define-se «americanista» e promove a União Europeia. Invoca sempre a social-democracia para aparentar a moderação, mas no final do dia, não falta à chamada dos projectos mais reaccionários e nebulosos como os de Luís Newton e Carlos Moedas. 

Surge ainda o «jovem» Gaspar Macedo. As aspas não são inocentes. É que Gaspar Macedo, passista assumido e militante do PSD, parece ter saido de um governo de Cavaco Silva, arrancado por uma máquina do tempo directamente dos anos 80. Viralizou nas redes sociais com vídeos pequenos com música de fundo épica onde "debatia" contra alguém, sendo que estava sempre a falar sozinho. Nesses vídeos, falava do orgulho nacional, dos heróis da pátria desprezados, e em todas as teses de Nostradamus aplicadas à realidade nacional. No momento da responsabilização, sem colocar quais os reais problemas, apaga a responsabilidade do PSD e só sabe falar do PS. A CNN viu nele um pequeno Tucker Carlson e, neste momento, tem espaço de comentário com a Joana Amaral Dias. 

Por fim, há ainda o já renomado Sebastião Bugalho. Jornalista reformado que quase exclusivamente escrevia sobre o partido da extrema-direita em Portugal (com dezenas de artigos sobre o assunto nos dois anos em que exerceu funções), integrou as listas do CDS-PP à Assembleia da República, a convite de Assunção Cristas, e tem actualmente espaço fixo de comentário na SIC Notícias e um podcast no Expresso. Apresenta-se como uma alma velha, algo que corresponde também à visão política que transpõe para o seu comentário. Recentemente comprou a heróica batalha de defender Diogo Pacheco de Amorim e de apagar os crimes do MDLP. Nas análises que fez aos debates, talvez por defender colégios privados, inflaccionou sempre as notas dadas dos candidatos dos partidos de direita. Cada análise do jovem Bugalho parece saída de um antiquário, cumprindo o papel que lhe foi destinado no grupo Impresa. 

Parece que estes são os únicos jovens que existem no país. Quem não tem lugar de comentário é o jovem que não tem professor numa disciplina, que estuda na Escola Pública e está numa turma sobrelotada. Quem não tem lugar no espaço opinativo é o jovem que tem dificuldade a pagar as propinas, alojamento e alimentação. Quem não tem direito à palavra é o jovem que recebe o salário mínimo e tem um vínculo precário. Quem não interessa ouvir é o jovem que tem actividade sindical e se assume de esquerda. Quem é ignorado é o jovem que vê um mundo que pode ser transformado e dá a sua vida por essa transformação. Esses jovens não existem. Só existem seis jovens e nenhum deles é o jovem real. São, enfim, jovens de uma outra classe. 

https://www.abrilabril.pt/nacional/atencao-atencao-comunicacao-social-confirma-que-so-existem-6-jovens-no-pais


O OCIDENTE ‘OXIDANTE’ (‘L'’OXYDANT ‘) – por Alain de Benoist

O OCIDENTE ‘OXIDANTE’  (‘L'’OXYDANT ‘) – por Alain de Benoist (*), tradução de Alfredo  Barroso

Há muito tempo que o Ocidente não se define pela sua oposição ao “Oriente”. O que hoje se designa por “Ocidente”, é o conjunto político-tecno-económico que associa, sob domínio anglo-saxónico, os Estados-Unidos da América e a Europa Ocidental. Ora, os Estados-Unidos nasceram de um desejo de romper com a Europa e, após terem substituído, quase por completo, as populações autóctones, e de terem criado uma nova Terra Prometida, nunca deixaram de impor ao mundo, desde então, uma americanização indissociável da extensão planetária do comércio livre, da “sociedade aberta” e da lógica do mercado. Um prelúdio do velho sonho de um Estado mundial.

Dum lado e doutro do Atlântico, os interesses são necessariamente divergentes. Tomar partido pelo Ocidente, é tomar partido pelo Mar contra a Terra, pelas potências comerciais marítimas contra as potências políticas continentais, ou seja, ignorar os dados mais fundamentais da geopolítica. Porque o Ocidente é, antes de tudo o mais, isso: uma aberração histórica, ideológica e geopolítica.

O OCIDENTE, CONTRASTE DO SUL GLOBAL

Nem por isso o “ocidentalismo” deixa de estar mais presente do que nunca. Como é habitual, ele reúne, em proporções variáveis, os idiotas úteis e os colaboracionistas estipendiados. Tem-se visto a propósito do consenso mediático relativo à guerra na Ucrânia ou ao conflito israelo-palestiniano: os grandes partidos da direita e da esquerda estão hoje convertidos ao atlantismo, em ruptura com a tradição de independência característica duma linha “gaullista” hoje repudiada. O ocidentalismo, é uma espécie de inventário à Prévert: reúne atlantistas de sempre, que endossam sem estados de alma o papel de vassalos da América; liberais que acham que tudo o que vem de além-Atlântico é necessariamente melhor; bravos conservadores que ainda acreditam que o Ocidente é a “civilização”; leucodermes alucinados, pertencentes aos meios marginais da chamada “lunatic fringe” que se atém no essencial a um “nacionalismo puro” (um nacionalismo vazio, sem raízes sociais-históricas, portanto tipicamente americano) totalmente impolítico.

«Aqueles que (‘esquerda’ cosmopolita à cabeça) - escreve Panagiotis Kondylis - acreditam numa coesão do Oeste baseada exclusivamente na comunidade dos valores, são politicamente e historicamente ingénuos. A comunidade dos valores não cria só por si comunidade de interesses – pode mesmo suceder o contrário». No passado, aliás, a comunidade dos valores nunca impediu os países europeu de fazerem a guerra uns contra os outros.

Mas, de que valores estamos a falar? Ontem, o Ocidente era respeitado ou detestado, mas em geral invejado. Hoje, todavia, é considerado decadente, depravado, envergonhado da sua própria existência e, precisamente por essa razão, (justamente) desprezado. Para uma maioria de países que se recusam a considerar que a teoria do género e os delírios LGBT, a “cancel culture” e o “wokismo” são “valores universais”, o Ocidente já não é um modelo. É apenas um repelente.

«A política supremacista ocidentalista conduzida desde o fim da URSS conduziu-nos à situação em que estamos hoje», disse recentemente Hubert Védrine. Mas Joe Biden, esse, garante friamente que «a liderança americana é o que hoje une o mundo» (qualificando, de passagem, a ajuda à Ucrânia como «investimento inteligente que renderá dividendos para a segurança dos EUA por várias gerações»!). Na Europa, o ocidentalismo só pode, por conseguinte, tender para a direcção dos países e dos povos por um governador-geral [um ‘gauleiter’] de além-Atlântico. Em última análise, um tal conceito de Ocidente remete para a colonização e para a submissão. Uma Europa «ocidental» é uma Europa que já não tem nem a vontade nem os meios de determinar a sua política em função dos seus interesses. A adesão ao Ocidente é sinónimo de dependência e de vassalagem.

Tal como o capitalismo predatório, também o Ocidente é o inimigo da Europa. Um inimigo ‘íntimo’ se preferirem, um inimigo interno, sinónimo da tentação de ceder ao conforto da impotência e da vassalagem.

Trotsky passa por ter dito que «a guerra é a locomotiva da história». Mas foi de facto Marx que afirmou que «as revoluções são a locomotiva da história» (‘A Luta de Classes em França’, 1850). Mas é verdade que a guerra da NATO contra a Rússia, conduzida na Ucrânia, desempenhou o papel dum formidável acelerador dos processos em curso. Por pouco que analisemos todas as suas consequências, vê-se perfeitamente que ela já mudou o mundo.

Na assembleia geral da ONU, quarenta países que representam dois terços da humanidade recusaram-se a condenar a entrada de tropas russas na Ucrânia e a aprovar a política americana de sanções contra a Rússia. Dezanove países já fazem hoje fila à porta dos BRICS [Brasil, Rússia, India, China, África do Sul] que contribuem por si sós para uma maior parte do crescimento mundial do que os países do G7. Como então, nestas condições, continuar a falar de uma «comunidade internacional» que só representa os países anglo-saxónicos e os seus aliados?! Se há, doravante, uma comunidade internacional, ela tem de ser sobretudo a dos países emergentes, que recusam considerar o Ocidente como a encarnação do «mundo civilizado».

Uma nova clivagem se impõe, anunciadora de um Nomos da Terra fundado na multipolaridade (ou no ‘pluriversalismo’) e no não-alinhamento: de um lado, o «Ocidente colectivo» e o seu núcleo anglo-saxónico; do outro lado, o «resto do mundo», a começar pelos países que durante muito tempo foram qualificados como «emergentes» e que surgem agora como potências de futuro. Há um Sul periférico, assim como há uma França periférica. Este corte entre o «Ocidente colectivo» e o «resto do mundo» só pode aprofundar-se. Há que ver nisso uma boa notícia. Como escreve Max-Erwan Gastineau em “A era da afirmação”, é a desocidentalização que constitui uma possibilidade para uma Europa que está em dormência [entorpecida, sonolenta, em estado soporífero].

O futuro da Europa não está a Oeste, do lado do estado ‘terminal’ do Poente californiano. Está do lado do Sol nascente, do Levante.

(*) Na revista francesa “éléments”, número 206, de Fevereiro-Março de 2024

 

2024 02 23 (*), tradução de Alfredo  Barroso

Há muito tempo que o Ocidente não se define pela sua oposição ao “Oriente”. O que hoje se designa por “Ocidente”, é o conjunto político-tecno-económico que associa, sob domínio anglo-saxónico, os Estados-Unidos da América e a Europa Ocidental. Ora, os Estados-Unidos nasceram de um desejo de romper com a Europa e, após terem substituído, quase por completo, as populações autóctones, e de terem criado uma nova Terra Prometida, nunca deixaram de impor ao mundo, desde então, uma americanização indissociável da extensão planetária do comércio livre, da “sociedade aberta” e da lógica do mercado. Um prelúdio do velho sonho de um Estado mundial.

Dum lado e doutro do Atlântico, os interesses são necessariamente divergentes. Tomar partido pelo Ocidente, é tomar partido pelo Mar contra a Terra, pelas potências comerciais marítimas contra as potências políticas continentais, ou seja, ignorar os dados mais fundamentais da geopolítica. Porque o Ocidente é, antes de tudo o mais, isso: uma aberração histórica, ideológica e geopolítica.

O OCIDENTE, CONTRASTE DO SUL GLOBAL

Nem por isso o “ocidentalismo” deixa de estar mais presente do que nunca. Como é habitual, ele reúne, em proporções variáveis, os idiotas úteis e os colaboracionistas estipendiados. Tem-se visto a propósito do consenso mediático relativo à guerra na Ucrânia ou ao conflito israelo-palestiniano: os grandes partidos da direita e da esquerda estão hoje convertidos ao atlantismo, em ruptura com a tradição de independência característica duma linha “gaullista” hoje repudiada. O ocidentalismo, é uma espécie de inventário à Prévert: reúne atlantistas de sempre, que endossam sem estados de alma o papel de vassalos da América; liberais que acham que tudo o que vem de além-Atlântico é necessariamente melhor; bravos conservadores que ainda acreditam que o Ocidente é a “civilização”; leucodermes alucinados, pertencentes aos meios marginais da chamada “lunatic fringe” que se atém no essencial a um “nacionalismo puro” (um nacionalismo vazio, sem raízes sociais-históricas, portanto tipicamente americano) totalmente impolítico.

«Aqueles que (‘esquerda’ cosmopolita à cabeça) - escreve Panagiotis Kondylis - acreditam numa coesão do Oeste baseada exclusivamente na comunidade dos valores, são politicamente e historicamente ingénuos. A comunidade dos valores não cria só por si comunidade de interesses – pode mesmo suceder o contrário». No passado, aliás, a comunidade dos valores nunca impediu os países europeu de fazerem a guerra uns contra os outros.

Mas, de que valores estamos a falar? Ontem, o Ocidente era respeitado ou detestado, mas em geral invejado. Hoje, todavia, é considerado decadente, depravado, envergonhado da sua própria existência e, precisamente por essa razão, (justamente) desprezado. Para uma maioria de países que se recusam a considerar que a teoria do género e os delírios LGBT, a “cancel culture” e o “wokismo” são “valores universais”, o Ocidente já não é um modelo. É apenas um repelente.

«A política supremacista ocidentalista conduzida desde o fim da URSS conduziu-nos à situação em que estamos hoje», disse recentemente Hubert Védrine. Mas Joe Biden, esse, garante friamente que «a liderança americana é o que hoje une o mundo» (qualificando, de passagem, a ajuda à Ucrânia como «investimento inteligente que renderá dividendos para a segurança dos EUA por várias gerações»!). Na Europa, o ocidentalismo só pode, por conseguinte, tender para a direcção dos países e dos povos por um governador-geral [um ‘gauleiter’] de além-Atlântico. Em última análise, um tal conceito de Ocidente remete para a colonização e para a submissão. Uma Europa «ocidental» é uma Europa que já não tem nem a vontade nem os meios de determinar a sua política em função dos seus interesses. A adesão ao Ocidente é sinónimo de dependência e de vassalagem.

Tal como o capitalismo predatório, também o Ocidente é o inimigo da Europa. Um inimigo ‘íntimo’ se preferirem, um inimigo interno, sinónimo da tentação de ceder ao conforto da impotência e da vassalagem.

Trotsky passa por ter dito que «a guerra é a locomotiva da história». Mas foi de facto Marx que afirmou que «as revoluções são a locomotiva da história» (‘A Luta de Classes em França’, 1850). Mas é verdade que a guerra da NATO contra a Rússia, conduzida na Ucrânia, desempenhou o papel dum formidável acelerador dos processos em curso. Por pouco que analisemos todas as suas consequências, vê-se perfeitamente que ela já mudou o mundo.

Na assembleia geral da ONU, quarenta países que representam dois terços da humanidade recusaram-se a condenar a entrada de tropas russas na Ucrânia e a aprovar a política americana de sanções contra a Rússia. Dezanove países já fazem hoje fila à porta dos BRICS [Brasil, Rússia, India, China, África do Sul] que contribuem por si sós para uma maior parte do crescimento mundial do que os países do G7. Como então, nestas condições, continuar a falar de uma «comunidade internacional» que só representa os países anglo-saxónicos e os seus aliados?! Se há, doravante, uma comunidade internacional, ela tem de ser sobretudo a dos países emergentes, que recusam considerar o Ocidente como a encarnação do «mundo civilizado».

Uma nova clivagem se impõe, anunciadora de um Nomos da Terra fundado na multipolaridade (ou no ‘pluriversalismo’) e no não-alinhamento: de um lado, o «Ocidente colectivo» e o seu núcleo anglo-saxónico; do outro lado, o «resto do mundo», a começar pelos países que durante muito tempo foram qualificados como «emergentes» e que surgem agora como potências de futuro. Há um Sul periférico, assim como há uma França periférica. Este corte entre o «Ocidente colectivo» e o «resto do mundo» só pode aprofundar-se. Há que ver nisso uma boa notícia. Como escreve Max-Erwan Gastineau em “A era da afirmação”, é a desocidentalização que constitui uma possibilidade para uma Europa que está em dormência [entorpecida, sonolenta, em estado soporífero].

O futuro da Europa não está a Oeste, do lado do estado ‘terminal’ do Poente californiano. Está do lado do Sol nascente, do Levante.

(*) Na revista francesa “éléments”, número 206, de Fevereiro-Março de 2024

 

2024 02 23