Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quinta-feira, 19 de dezembro de 2024
Manuel Bandeira - A estrela
António Gedeão - Saudades da terra
Carlos Coutinho - Auschwitz I, II e III
* Carlos Coutinho
Carlos Coutinho
10 h ·
NÃO raro, dois grandes escritores italianos, um ateu e outro judeu, um célebre com o seu “A Lua e as Fogueiras” e outro com “É Isto Um Homem?”, um nascido em 1908 e chamado Cesare Pavese e outro em 1923 para ficar com o nome Italo Calvino, mas ambos sepultados em Turim, um guerrilheiro antifascista (partigiano) que passou um ano encarcerado no Sul da Itália (em Barcaleone, Reggio Calabria), suicidando-se em 1950, depois de escrever “Ofício de Viver”, e outro nascido nos arredores de Havana, Cuba, transitando para Siena em menino com seus os pais judeus e, pouco depois, enviado para o Sul da Polónia ocupada, como prisioneiro dos nazis em Auschwitz, onde viu e sofreu todos os horrores, até ser libertado pelo Exército Vermelho, em 1945.
De Cesare é forçoso anotar que nasceu em Santo Stefano Belbo no dia 9 de setembro de 1908 e faleceu em Turim a 9 de agosto de 1950, tinha eu uns inocentes 7 anitos menos 15 dias e muita energia duriense para a brincadeira aldeã com os outros miúdos de Fornelos. Comprometeu-se de corpo e alma na luta armada antifascista, o que lhe rendeu um pavoroso ano de cárcere no Sul da península.
Nessa época, iniciou o seu diário “O Ofício de Viver” (Il Mestiere di Vivere”), uma autocrítica largamente desenvolvida em reflexões sobre a sua arte, os seus processos criativos e o sentido da existência da sua própria existência.
Há que acrescentar que Pavese já não era um desconhecido quando, em 1936, publicou “Lavorare Stanca” (Trabalhar cansa), porque já havia dado à estampa vários estudos sobre casos da literatura norte-americana clássica e contemporânea, reunidos posteriormente num volume publicado postumamente em 1951 (La letteratura americana e altri saggi), além de se notabilizar como tradutor muito fiel de Daniel Defoe, Charles Dickens, Herman Melville, James Joyce, Sinclair Lewis, John dos Passos, Gertrude Stein e William Faulkner.
Legou ao mundo uma obra valiosíssima: “A lua e as fogueiras” (1958); “Antes que o galo cante” (1959); “O ofício de viver”, diário (1935-1950); “A guitarra quebrada”, romance (1960); “Entre mulheres sós” (196?); “O diabo sobre as colinas” (1962); “Férias de Agosto” (1965); “A Praia” (1965); “O Verão” (1965); “Terras do meu país” (1969); “O camarada” (1974); “Trabalhar cansa” (1998); e “Diálogos com Leucó” (2007).
Trabalhou com Italo Calvino na Einaudi, onde desempenhou um papel fundamental, como, aliás, o judeu que amparou e guiou, quando voltou da Provinz Oberschlesien, Regierungsbezirk Kattowitz, Landkreis Bielitz, a oeste de Cracóvia onde Hiter montou o complexo de campos de concentração de Auschwitz, abrangendo uma grande área industrial rica em recursos humanos e naturais.
Havia um total de 48 campos no complexo. Os maiores eram Auschwitz I, Auschwitz II–Birkenau e Auschwitz III–Monowitz ou Buna, um campo de trabalhos forçados.
O centro administrativo do complexo ficava em Auschwitz I, onde cerca de 70 mil pessoas morreram, na sua maioria polacos étnicos e prisioneiros soviéticos.
Auschwitz II era o campo de extermínio ou Vernichtungslager, onde não menos 960 mil judeus, 75 mil polacos e 19 mil ciganos foram assassinados. Auschwitz III-Monowitz servia como campo de trabalho para a fábrica Buna-Werke, do conglomerado industrial IG.
O escritor e químico Primo Levi, sobrevivente de um ano de confinamento em Auschwitz III-Monowitz e autor de “É isto um homem?”, livro de leitura angustiante sobre o que Primo viu no campo de extermínio industrializado que tinha sobre o portão de entrada “Arbeit macht frei” ( Trabalhar liberta).
A SS selecionava alguns prisioneiros, geralmente criminosos alemães, como supervisores com privilégios (os chamados kapos, alguns deles judeus que assim pensavam safar-se e minorar o sofrimento dos outros). Judeus e prisioneiros soviéticos eram geralmente os tratados da pior maneira.
Todos os encarcerados tinham que trabalhar nas fábricas de armas associadas ao complexo, à exceção dos domingos, reservado para limpeza e banho. Dos primeiros 10 mil prisioneiros de guerra soviéticos internados, apenas algumas centenas deles sobreviveram aos cinco primeiros meses.
No porão do bloco ficavam as celas da fome", onde os presos ficavam sem receber comida ou água, até que morressem. Aí ficavam também as celas escuras", que tinham apenas um pequeno espaço na parede para respirar e portas sólidas; os prisioneiros colocados nestas celas permanentemente na escuridão iam gradualmente sufocando à medida que o oxigénio ia rareando dentro delas.
Às vezes, os guardas da SS acendiam velas para fazer o oxigénio acabar mais depressa; muitos dos ali aprisionados eram suspensos com as mãos amarradas para trás por horas ou mesmo dias, o que fazia que, com o passar do tempo, suas clavículas fossem deslocadas.
Em 3 de setembro de 1941, o subcomandante SS-auptsturmführer Karl Fritzsch fez uma primeira experiência bem-sucedida com 600 prisioneiros de guerra soviéticos e 150 polacos, trancando-os dentro de um dos porões do bloco 11 e gaseando-os com Zyklon-B um pesticida altamente letal à base de cianureto, com que a Bayer fez bom negócio.
Foi aí que finalmente começou a Solução Final para o problema judeu, o seu extermínio como povo que os israelitas agora tentam por outros meios concretizar na Palestina ocupada, especialmente na Faixa de Gaza.
A primeira câmara de gás de Auschwitz era conhecida como a Pequena Casa Vermelha, uma pequena construção de tijolos convertida em instalação de gaseamento, que intensamente matou, a partir de março de 1942. Uma segunda construção, a Pequena Casa Branca, também foi convertida em câmara de gaseamento, algumas semanas depois.
No começo de 1943, estava eu para nascer, os nazis resolveram ampliar a capacidade de gaseamento em Birkenau. O crematório II, originalmente construído como câmara mortuária, com necrotérios no porão e fornos no mesmo nível do solo, foi convertido numa fábrica de assassinatos, colocando-se uma porta à prova de gás no necrotério e adicionando entradas para o Zyklon-B e aparelhos de ventilação para remover os cadáveres.
Este sistema começou a funcionar em março. O crematório III foi construído para usar o mesmo método. Os fornos IV e V, planeados exclusivamente como centros de gaseamento, foram construídos na primavera-verão de 1943, dois meses antes do meu nascimento, já funcionavam plenamente.
Os kapos e os Sonderkommandos eram prisioneiros com privilégios: os primeiros tinham a obrigação de manter a ordem nos alojamentos e os segundos preparavam os recém-chegados imediatamente selecionados para morrer – geralmente as crianças, os anciãos e os doentes – nas câmaras de gás, seguindo depois os seus corpos para os fornos.
Os subcampos femininos foram construídos em Budy, Pławy, Zabrze, Gleiwitz I, II, III, Rajsko e Lichtenwerden. Eram chamados de Aussenlager (campo externo), Nebenlager (campo de extensão) e Arbeitslager (campo de trabalho).
No total, cerca de 7 mil membros das SS foram designados para servirem em Auschwitz durante toda a existência dos campos. A principal autoridade geral ali era o Departamento de Economia da SS, conhecido como SS-Wirtschafts-Verwaltungshauptamt ou SS-WVHA; dentro do WVHA, estava o Departamento D que comandava diretamente as atividades.
A Gestapo, que viria a dar aulas à nossa PIDE, também mantinha um grande escritório em Auschwitz, com funcionários e oficiais uniformizados. No seu corpo médico, Joseph Mengele deu cartas e fez experiências com intenção científica.
Uma orquestra de prisioneiras, a Orquestra Feminina de Auschwitz, era forçada a tocar grotescamente uma música alegre, à medida que os prisioneiros passavam pelos portões a caminho do trabalho. Esta orquestra foi criada pela supervisora-SS do campo feminino, Maria Mandel que, pelas suas atrocidades, ficou conhecida como A Besta. A Bayer, então uma subsidiária da IG Farben, comprava prisioneiros de Birkenau para servirem de cobaias nos testes de novas drogas.
Heissmeyer, que considerava os judeus como animais de laboratório, comandava experiências em crianças e fez diversas experiências hdiondas, injetando bacilos vivos da tuberculose diretamente nos pulmões dos prisioneiros, na tentativa de conseguir uma vacina para a terrível doença que tantos europeus e asiáticos matou.
No Julgamento de Nuremberga, o ex-comandante do campo entre 1940 e 1943, Rudolph Höss, declarou que Adolf Eichmann lhe tinha falado de 2,5 milhões de mortos, mas admite-se que tenham sido cerca de 4 milhões, nas contas do Museu Estatal de Auschwitz.
Os negacionistas do Holocausto dizem que isso não passa de um mito.
Várias indústrias alemãs construíram as suas fábricas na área, para aproveitarem o trabalho escravo proporcionado por Morowitz, criando os seus próprios subcampos, destacando-se, além da Bayer, a Siemens-Schuckert e a indústria de armamentos Krupp AG, dirigida por Alfried Krupp, um membro da família e carrasco SS.
Uma “filósofa” judia, Hannah Arendt, que foi secretária e amante de um reitor nazi, Heidegger, foi proibida de entrar em Israel, porque, além do mais, inventou o conceito de “banalidade de mal” que absolve todos os beleguins hitlerianos, já que eles “se limitavam a cumprir ordens dos seus superiores”.
Peço desculpa a quem foi lendo este apontamento até aqui chegar, porque talvez tenha sofrido tanto como eu a pesquisar e a reduzir ao mínimo possível o resultado das minhas irreprimíveis pesquisas.
Prisioneiros de Auschwitz libertados pelos soviéticos no dia 27 de janeiro de 1945
2024 12 19
https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896
Caitlin Johnstone - Peter Thiel revela o quanto os oligarcas têm medo do povo
* Caitlin Johnstone
17 de dezembro de 2024
Para quem não sabe, Thiel é um verdadeiro oligarca do estado profundo que deve sua vasta fortuna ao seu envolvimento na máquina de inteligência militar dos EUA. Sua empresa Palantir é uma empresa de tecnologia de vigilância e mineração de dados apoiada pela CIA com laços íntimos tanto com o cartel de inteligência dos EUA quanto com Israel , desempenhando um papel crucial tanto na rede de vigilância do império dos EUA quanto nas atrocidades israelenses contra os palestinos. Ele apoiou Trump em 2016, e o vice-presidente eleito JD Vance era um protegido dele , então esse homem está completamente entrincheirado nos corredores do poder.
A resposta agressiva de Thiel quando perguntado sobre o que ele achava do apoio público que estamos vendo à prática de assassinar CEOs de seguros de saúde revela muito sobre os tipos de coisas que tiram o sono de homens como Peter Thiel.
Plutocratas como Thiel estão constantemente pensando sobre o fato de que pessoas comuns os superam em muito e podem matá-los a qualquer momento. Eles pensam sobre isso com muito mais frequência do que pessoas comuns. É um ponto do qual eles estão agudamente cientes o tempo todo. Isso consome sua atenção. Eles estão sempre trabalhando na manipulação da consciência pública para garantir que não pensemos tanto quanto eles sobre quantos de nós há mais deles, e como não temos que aturar sua dominação de nossa sociedade se não quisermos.
Como Michael Parenti disse uma vez :
“Eu digo aos alunos quando eles dizem, 'Oh, eles não se importam com o que pensamos. Eles nos ignoram', e tudo isso, e eu digo, 'Oh, não, não. Essa é a única coisa com que eles se importam sobre você. A única coisa com que eles se importam sobre você é o que você está pensando. Eles não se importam se você come corretamente, eles não se importam com suas condições de vida, eles não se importam que eles construíram um sistema de trânsito desumano e irracional que está nos estrangulando e poluindo nosso ar, eles não se importam com nada. A única coisa com que eles se importam sobre você é o que você está pensando. De manhã, eles começam, 'Qual será a história hoje? Como manipulamos, como controlamos, como contivemos, como influenciamos, como agimos sobre o que eles têm em suas mentes?'”
Manipular a consciência pública é de importância existencial para a classe dominante, porque não importa quantos bilhões de dólares você acumule, no final do dia você ainda é um saco de pele mole de sangue e ossos como qualquer outra pessoa, e você compartilha uma sociedade com um grande número de pessoas que podem facilmente machucá-lo se quiserem. É por isso que nossas mentes estão constantemente sendo marteladas com propaganda para aceitar a política de status quo sobre a qual nossos governantes construíram seus reinos.
Mas estamos vendo a propaganda perdendo o controle sobre nossas mentes. Hollywood tentou treinar as pessoas para acreditar que os heróis parecem soldados e policiais, ou bilionários usando sua riqueza para se tornarem o Homem de Ferro e o Batman, e então as pessoas escolheram como herói um cara que foi preso por atirar em um CEO de seguro de saúde. Outro dia, um DJ jogou fotos do suposto atirador Luigi Mangione durante seu show e arrancou aplausos da multidão — e isso foi em um show temático da Disney .
É por isso que os administradores do império estão se esforçando para colocar seus robôs assassinos em funcionamento o mais rápido possível.
Israel está supostamente se preparando para implantar dezenas de sistemas de armas na Cisjordânia que são capazes de disparar tiros mortais sem intervenção humana, o que significa máquinas de matar totalmente autônomas em oposição às controladas remotamente. Esses robôs assassinos já estão em uso na fronteira de Israel com Gaza.
Vários robôs militares foram testados em Gaza desde que o ataque de Israel ao enclave começou no ano passado, e agora eles estão expandindo os testes de campo de seus robôs assassinos para a Cisjordânia também. De todas as coisas horríveis que Israel e seus apoiadores ocidentais fazem aos palestinos, entre as mais malignas está a maneira como eles os usam como ratos de laboratório para testar novos sistemas de armas para que o resto do império possa aprender o quão eficazes esses sistemas são.
Você pode ter certeza de que gerentes de impérios como Peter Thiel estão observando esses desenvolvimentos com grande interesse. Robôs militarizados são a antiguilhotina. Eles são a solução final para o antigo problema de "há muito mais de nós do que de nossos governantes". Todos com riqueza e poder têm observado sua implementação incremental com intenso interesse enquanto tentam jogar com calma.
Então, neste ponto, estamos essencialmente olhando para uma corrida para ver se o império oligárquico pode fabricar o ambiente necessário para permitir o uso de forças de segurança robóticas para fixar seu poder no lugar para sempre, antes que as massas se cansem das crescentes desigualdades e abusos do status quo e decidam forçar a existência de um sistema melhor.
Será interessante ver como isso vai acontecer.
https://www.caitlinjohnst.one/p/peter-thiel-reveals-how-scared-oligarchs
terça-feira, 17 de dezembro de 2024
Carlos Coutinho - Literatura(s)
segunda-feira, 16 de dezembro de 2024
Carlos Matos Gomes - A negação da criação
O caso contra o tecnofascismo: quando as grandes empresas de tecnologia censuram o discurso
Características legais
As plataformas de mídia social censuram de duas maneiras principais. Primeiro, as plataformas “removem[] postagens que violam [seus] termos de serviço ou padrões da comunidade”. NetChoice, LLC v. Att'y Gen. Fla., 34 F.4th 1196, 1204 (11th Cir. 2022). Segundo, as plataformas também podem “organizar[] o conteúdo disponível escolhendo como priorizar e exibir postagens — selecionando efetivamente qual discurso dos usuários o visualizador verá e em que ordem”.
Plataformas de mídia social frequentemente removeram uma variedade de postagens de usuários por motivos controversos. Algumas dessas postagens envolviam informações ou discussões científicas e médicas desfavoráveis. Outras postagens envolviam pontos de vista políticos desfavoráveis ou planos de protesto. Plataformas de mídia social também frequentemente removeram contas de usuários por motivos controversos semelhantes de expressar visões políticas ou científicas desfavoráveis.
A preocupação com essa censura baseada em pontos de vista aumenta à luz de evidências substanciais que mostram que o governo federal tentou repetidamente direcionar o conteúdo que as plataformas de mídia social censuram.
O Instituto Rutherford está pedindo à Suprema Corte dos EUA que proteja os fóruns de liberdade de expressão nas mídias sociais das tentativas de grandes empresas de tecnologia de bloquear, banir, remover, desplataformar, desmonetizar, desvalorizar, restringir, negar acesso igual ou visibilidade ou discriminar de outra forma pontos de vista que elas possam desaprovar.
Em um amicus curiae arquivado em NetChoice v. Paxton e Moody v. NetChoice , os advogados do Rutherford Institute argumentam que as leis devem ter permissão para tratar plataformas de mídia social como fóruns de liberdade de expressão e protegê-las da censura baseada em pontos de vista por grandes empresas de tecnologia para promover a liberdade de expressão para todos os americanos. Os casos conjuntos surgiram em resposta às leis no Texas e na Flórida que proíbem a censura por grandes empresas de tecnologia, como Facebook, Google, TikTok e YouTube.
“O tecnofascismo é o equivalente moderno da queima de livros, que acaba com ideias controversas e as pessoas que as defendem”, disse o advogado constitucional John W. Whitehead, presidente do The Rutherford Institute e autor de Battlefield America: The War on the American People . “Uma vez que você permite que agências governamentais e corporações determinem quais pontos de vista são 'legítimos', você já está se movendo rapidamente por uma ladeira escorregadia que termina com a censura de todos os pontos de vista completamente diferentes do governo e seus aliados corporativos.”
07 de fevereiro de 2024
https://www.rutherford.org/publications_resources/legal_features/the_case_against_technofascism_when_big_tech_companies_censor_speech
Oliver Harden - O Deserto e a Ausência de Humanidade: Uma Reflexão Saramaguiana
-Oliver Harden - A Ironia Machadiana: Uma Estratégia de Desnudamento da Condição Humana
domingo, 15 de dezembro de 2024
Rui Pereira - “ELES”
Carlos Matos Gomes - O Desafio da Tecnologia à Deontologia
Carlos Matos Gomes - Inteligência Artificial e Perversidade Natural (1)
sexta-feira, 13 de dezembro de 2024
Rodrigo Guedes de Carvalho - A vida tal como ela não é
Nasci sem telemóveis sequer no horizonte da imaginação e também lá passo mais tempo do que o saudável
Somos um planeta inteiro de turistas japoneses. Lembram-se, certamente, há muitos anos, quando só se conseguiam fotografias com máquinas para o efeito. Eram caras e conferiam estatuto. Os pais aprendiam a fotografar o melhor que conseguissem, a fim de registar a evolução da família, com as férias em lugar especial. Era preciso saber focar, ajustar a luminosidade, ter intuição, olho e velocidade para apanhar o instantâneo dentro de um movimento. Fotografava-se com fé. A cruzar os dedos, na esperança de que tivesse ficado bem, o que só se saberia semanas depois, após a revelação em casa da especialidade.
Uma boa câmara fotográfica pendurada ao pescoço provocava curiosidade e alguma inveja. Depois vieram os japoneses e democratizaram. Nasceram marcas mais acessíveis ao bolso e à aselhice. Claro que não só de um mesmo país. Lá dos orientes. A expressão turistas japoneses era um óbvio lato sensu. Designava os que apareciam pela Europa a disparar a tudo o que mexia ou imóvel permanecia há séculos. Eram molhos de turistas em frente aos históricos monumentos, a carregar nos gatilhos sem cessar. Comentávamos duas coisas, se bem se recordam. Que iam de certeza ficar com uma tralha enorme de fotografias iguais. E, acima de tudo, que pareciam mais interessados em gravar o momento do que em vivê-lo. Adiavam para o diferido. Veriam depois, quando regressassem a casa.
Algumas décadas passadas, somos todos esse turista. Já nem vou à declaração que se tornou, ela própria, um cliché: hoje está toda a gente agarrada ao telemóvel, a toda a hora. E sim, está. Deixou de ser indicativo de juventude, de modernidade, de nova geração para novos tempos. Nasci sem telemóveis sequer no horizonte da imaginação e também lá passo mais tempo do que o saudável. Tal como o meu pai. Como certamente o meu avô, se ainda andasse por cá. É uma máquina maravilhosa, pelas possibilidades cada vez mais infinitas. Cliché número dois: é o mundo na palma da mão. O que me preocupa é o hipnótico. Talvez seja coisa minha, pois que tenho sérios problemas com a sensação de falta de controlo. Não gosto de me meter num carro que não serei eu a conduzir. Tal como sempre foi o único real desconforto com os aviões.
O concerto importa-me pouco, importa-me que o concerto contou com a minha presença, e tenho aqui horas infindas de provas para exibir
Aflige-me o que não depende de mim. Por isso refiro a palavra hipnose. Há toda uma biblioteca de Alexandria com relatos de assombrosas sessões em que pacientes com traumas fundos resolvem muito assunto da cabeça e coração com uma boa hora em que foram conduzidos por um doutor que hipnotiza. Não é para mim. Não, não é por receio de deixar sair muitos segredos. Não tenho muitos, muito menos dos interessantes. É mesmo porque não acredito. E julgo saber que a hipnose tem de encontrar um mínimo de recetividade. Salvam-se, espera-se, as boas intenções terapêuticas, mas ninguém pode negar que há um manobrador e um manobrado.
É aqui, nesta curva, nesta intersecção, que coloco o telemóvel, ou as tecnologias, por atacado. Espero conseguir sempre perceber o ponto, a linha perigosa em que deixo de retirar da máquina o que me interessou para permitir-lhe que seja ela a retirar-me comando, ou mesmo vontade. Quando a máquina, depois de anos a aprender as minhas buscas, me começa a alimentar à boca saborosas coincidências. Turistas japoneses? Gente que nos espantava porque só parecia interessada em ver o mundo num ecrã? Que grava em vez de viver? Por favor. Hoje é autorretrato da Humanidade inteira. Vejam qualquer imagem do público que enche pavilhões ou estádios em concertos. Um mar de luzinhas. Em permanência. Poucos olham para o palco com os olhos de ver, olhos para absorver, para transformar mais tarde numa memória gratificante, daquelas que com o tempo se modificam, como as nuvens arrastadas pelos ventos lá em cima. E como essa sucessão de incertezas sobre o que vivemos afinal nos dava espaço para construir, moldar, remendar sentimentos. Já ninguém quer isso. Não vão aos concertos para sentir ou viver, ou para experimentar estados de alma. O estado de alma limita-se à frieza de um profissional de TV em serviço. Música após música, escolhem o filtro, a cor, as legendas sim ou não. Estão a realizar um filme que não veem. Nem no momento, nem depois. Ou alguém me quer convencer que estas filmagens infindas de concertos serão depois apreciadas com muita calma em casa? Serão esquartejadas em clips, stories, reels, fotos com efeitos, cuja finalidade (que começou logo na compra do bilhete) é dizer aos companheiros da rede social: eu estive aqui, eu estive lá. O concerto importa-me pouco, importa-me que o concerto contou com a minha presença, e tenho aqui horas infindas de provas para exibir. Também tenho centenas de fotos de pequenos-almoços de hotel. Não me lembro bem o que comi ou se me soube bem. Mas aqui está a prova. Nunca saímos do quadro de Magritte — isto não é um cachimbo. As pessoas sorriam, que parvoíce, é perfeitamente um cachimbo. Não era. Era a pintura de um cachimbo.
Expresso SEMANÁRIO#2720 - 13/12/24
Raul Luis Cunha - Como obter e tratar a informação sobre a guerra na Ucrânia?
terça-feira, 10 de dezembro de 2024
John & Nisha Whitehead -- É melhor ter cuidado: o estado de vigilância está a fazer uma lista e você está nela
É melhor você tomar cuidado, é melhor não fazer beicinho, é melhor não chorar, porque eu vou te dizer o porquê: neste Natal, é o Estado de Vigilância que está fazendo uma lista e verificando duas vezes, e não importa se você foi bom ou mau.
Você estará nesta lista, quer você goste ou não.
A vigilância em massa é a versão do Estado Profundo de um “presente” que continua dando… de volta ao Estado Profundo.
Redes de arrasto de geofencing . Centros de fusão. Dispositivos inteligentes. Avaliações de ameaças comportamentais. Listas de vigilância de terrorismo. Reconhecimento facial. Linhas de denúncias. Scanners biométricos. Pré-crime. Bancos de dados de DNA. Mineração de dados. Tecnologia precognitiva. Drones. Aplicativos de rastreamento de contato. Leitores de placas de veículos. Verificação de mídia social . Torres de vigilância .
O que tudo isso representa é um mundo em que, a qualquer dia, uma pessoa comum é monitorada, vigiada, espionada e rastreada de mais de 20 maneiras diferentes , tanto pelos olhos e ouvidos do governo quanto pelas empresas.
A Big Tech unida ao Big Government se tornou o Big Brother.
A cada segundo de cada dia, o povo americano está sendo espionado por uma vasta rede de voyeurs digitais, bisbilhoteiros eletrônicos e bisbilhoteiros robóticos.
Essa nova era assustadora de espionagem governamental/corporativa — na qual estamos sendo ouvidos, observados, rastreados, seguidos, mapeados, comprados, vendidos e visados — foi possível graças a um exército global de tecno-tiranos, centros de fusão e voyeurs.
Considere apenas uma pequena amostra das ferramentas que estão sendo usadas para rastrear nossos movimentos, monitorar nossos gastos e farejar todas as maneiras pelas quais nossos pensamentos, ações e círculos sociais podem nos colocar na lista negra do governo, independentemente de você ter feito algo errado ou não.
Rastreando você com base no seu telefone e movimentos : Os celulares se tornaram de fato informantes, oferecendo um fluxo constante de dados de localização digital sobre os movimentos e viagens dos usuários. Por exemplo, o FBI conseguiu usar dados de geofence para identificar mais de 5.000 dispositivos móveis (e seus donos) em uma área de 4 acres ao redor do Capitólio em 6 de janeiro. Essa última tática de vigilância pode levá-lo à prisão por estar no "lugar e hora errados". A polícia também está usando simuladores de sites de celular para realizar vigilância em massa de protestos sem a necessidade de um mandado. Além disso, os agentes federais agora podem empregar uma série de métodos de hacking para obter acesso às atividades do seu computador e "ver" o que você está vendo no seu monitor. Softwares maliciosos de hacking também podem ser usados para ativar remotamente câmeras e microfones, oferecendo outro meio de vislumbrar os negócios pessoais de um alvo.
Rastreando você com base no seu DNA. A tecnologia de DNA nas mãos de funcionários do governo completa nossa transição para um Estado de Vigilância . Se você tiver o azar de deixar seus rastros de DNA em qualquer lugar onde um crime foi cometido, você já tem um arquivo em algum banco de dados estadual ou federal — embora possa ser um arquivo sem nome. Ao acessar seu DNA, o governo logo saberá tudo o mais sobre você que ele ainda não sabe : seu mapa familiar, sua ancestralidade, sua aparência, seu histórico de saúde, sua inclinação para seguir ordens ou traçar seu próprio curso, etc. Afinal, uma impressão de DNA revela tudo sobre “ quem somos, de onde viemos e quem seremos ”. Também pode ser usada para prever a aparência física de possíveis suspeitos. É apenas uma questão de tempo até que a perseguição do estado policial aos criminosos se expanda para o perfil genético e uma caça preventiva aos criminosos do futuro .
Rastreando você com base no seu rosto : o software de reconhecimento facial visa criar uma sociedade na qual cada indivíduo que sai em público é rastreado e registrado enquanto realiza suas atividades diárias. Juntamente com câmeras de vigilância que cobrem o país, a tecnologia de reconhecimento facial permite que o governo e seus parceiros corporativos identifiquem e rastreiem os movimentos de alguém em tempo real. Um programa de software particularmente controverso criado pela Clearview AI foi usado pela polícia, pelo FBI e pelo Departamento de Segurança Interna para coletar fotos em sites de mídia social para inclusão em um enorme banco de dados de reconhecimento facial. Da mesma forma, o software biométrico, que depende dos identificadores exclusivos de uma pessoa (impressões digitais, íris, impressões de voz), está se tornando o padrão para navegar em filas de segurança, bem como contornar fechaduras digitais e obter acesso a telefones, computadores, prédios de escritórios , etc. Na verdade, um número maior de viajantes está optando por programas que dependem de sua biometria para evitar longas esperas na segurança do aeroporto. Os cientistas também estão desenvolvendo lasers que podem identificar e vigiar indivíduos com base em seus batimentos cardíacos, cheiro e microbioma .
Rastreando você com base em seu comportamento : Avanços rápidos na vigilância comportamental não estão apenas possibilitando que indivíduos sejam monitorados e rastreados com base em seus padrões de movimento ou comportamento, incluindo reconhecimento de marcha (a maneira como alguém anda), mas deram origem a indústrias inteiras que giram em torno da previsão do comportamento de alguém com base em dados e padrões de vigilância e também estão moldando os comportamentos de populações inteiras. Um sistema de vigilância "anti-motim" inteligente pretende prever motins em massa e eventos públicos não autorizados usando inteligência artificial para analisar mídias sociais, fontes de notícias, feeds de vídeo de vigilância e dados de transporte público.
Rastreando você com base em seus gastos e atividades de consumo : Com cada smartphone que compramos, cada dispositivo GPS que instalamos, cada conta X/Twitter, Facebook e Google que abrimos, cada cartão de comprador frequente que usamos para compras — seja no supermercado, na loja de iogurte, nas companhias aéreas ou na loja de departamentos — e cada cartão de crédito e débito que usamos para pagar nossas transações, estamos ajudando as empresas americanas a construir um dossiê para seus equivalentes governamentais sobre quem conhecemos, o que pensamos, como gastamos nosso dinheiro e como gastamos nosso tempo. A vigilância do consumidor, pela qual suas atividades e dados nos reinos físico e online são rastreados e compartilhados com anunciantes, se tornou um grande negócio, uma indústria de US$ 300 bilhões que rotineiramente coleta seus dados para obter lucro . Corporações como a Target não apenas rastreiam e avaliam o comportamento de seus clientes, particularmente seus padrões de compra, há anos, mas o varejista também financiou uma grande vigilância em cidades por todo o país e desenvolveu algoritmos de vigilância comportamental que podem determinar se os maneirismos de alguém podem se encaixar no perfil de um ladrão .
Rastreando você com base em suas atividades públicas : Corporações privadas em conjunto com agências policiais em todo o país criaram uma rede de vigilância que abrange todas as principais cidades para monitorar grandes grupos de pessoas perfeitamente, como no caso de protestos e comícios. Eles também estão se envolvendo em extensa vigilância online, procurando por quaisquer indícios de “ grandes eventos públicos, agitação social, comunicações de gangues e indivíduos criminalmente predicados ”. Os contratados de defesa estão na vanguarda desse mercado lucrativo . Os centros de fusão, US$ 330 milhões por ano, centros de compartilhamento de informações para agências federais, estaduais e de aplicação da lei, monitoram e relatam comportamentos “suspeitos”, como pessoas comprando paletes de água engarrafada , fotografando prédios governamentais e solicitando uma licença de piloto como “atividade suspeita”.
Rastreando você com base em suas atividades nas redes sociais : Cada movimento que você faz, especialmente nas redes sociais, é monitorado, minerado em busca de dados, processado e tabulado para formar uma imagem de quem você é, o que o faz funcionar e como melhor controlá-lo quando e se for necessário colocá-lo na linha. Como o The Intercept relatou , o FBI, a CIA, a NSA e outras agências governamentais estão cada vez mais investindo e confiando em tecnologias de vigilância corporativa que podem minerar discursos constitucionalmente protegidos em plataformas de mídia social como Facebook, Twitter e Instagram para identificar extremistas em potencial e prever quem pode se envolver em futuros atos de comportamento antigovernamental. Essa obsessão com as mídias sociais como uma forma de vigilância terá algumas consequências assustadoras nos próximos anos . Como Helen AS Popkin, escrevendo para a NBC News , observou: "Podemos muito bem enfrentar um futuro em que algoritmos prendem pessoas em massa por fazer referência a downloads ilegais de 'Game of Thrones' ... o novo software tem o potencial de rolar, no estilo Terminator, mirando em cada usuário de mídia social com uma confissão vergonhosa ou senso de humor questionável."
Rastreando você com base em sua rede social : Não contentes em apenas espionar indivíduos por meio de suas atividades online, agências governamentais agora estão usando tecnologia de vigilância para rastrear a rede social de alguém , as pessoas com as quais você pode se conectar por telefone, mensagem de texto, e-mail ou por mensagem social, a fim de descobrir possíveis criminosos. Um documento do FBI obtido pela Rolling Stone fala sobre a facilidade com que os agentes conseguem acessar dados da agenda de endereços do WhatsApp do Facebook e dos serviços iMessage da Apple a partir de contas de indivíduos visados e indivíduos não investigados que podem ter um indivíduo visado em sua rede. O que isso cria é uma sociedade de "culpa por associação" na qual todos somos tão culpados quanto a pessoa mais culpada em nossa agenda de endereços.
Rastreando você com base no seu carro : Leitores de placas são ferramentas de vigilância em massa que podem fotografar mais de 1.800 números de placas por minuto, tirar uma foto de cada número de placa que passa e armazenar o número da placa e a data, hora e local da foto em um banco de dados pesquisável, depois compartilhar os dados com a polícia, centros de fusão e empresas privadas para rastrear os movimentos de pessoas em seus carros. Com dezenas de milhares desses leitores de placas agora em operação em todo o país, afixados em viadutos, carros de polícia e em setores comerciais e bairros residenciais, ele permite que a polícia rastreie veículos e execute as placas em bancos de dados da polícia para crianças sequestradas, carros roubados, pessoas desaparecidas e fugitivos procurados. Claro, a tecnologia não é infalível: houve vários incidentes em que a polícia erroneamente confiou em dados de placas para capturar suspeitos apenas para acabar detendo pessoas inocentes sob a mira de uma arma.
Rastreando você com base em sua correspondência : Quase todos os ramos do governo — do Serviço Postal ao Departamento do Tesouro e todas as agências entre eles — agora têm seu próprio setor de vigilância , autorizado a espionar o povo americano. Por exemplo, o Serviço Postal dos EUA, que vem fotografando o exterior de cada pedaço de correspondência em papel nos últimos 20 anos, também está espionando textos, e-mails e postagens de mídia social dos americanos. Liderado pela divisão de aplicação da lei do Serviço Postal, o Programa de Operações Secretas da Internet (iCOP) está supostamente usando tecnologia de reconhecimento facial, combinada com identidades falsas online , para descobrir possíveis encrenqueiros com postagens "inflamatórias". A agência alega que a vigilância online, que está fora de seu escopo de trabalho convencional de processamento e entrega de correspondência em papel, é necessária para ajudar os funcionários dos correios a evitar " situações potencialmente voláteis ".
Agora o governo quer que acreditemos que não temos nada a temer desses programas de espionagem em massa, desde que não tenhamos feito nada de errado.
Não acredite.
A definição do governo de um "bandido" é extraordinariamente ampla e resulta na vigilância sem mandado de americanos inocentes e cumpridores da lei em uma escala impressionante.
Como deixo claro no meu livro Battlefield America: The War on the American People e em sua contraparte fictícia The Erik Blair Diaries , a vigilância, o stalking digital e a mineração de dados do povo americano — armas de conformidade e controle nas mãos do governo — não tornaram a América mais segura. E certamente não estão ajudando a preservar nossas liberdades.
De fato, a América nunca estará segura enquanto o governo americano tiver permissão para destruir a Constituição.
WC: 1897





