domingo, 21 de setembro de 2025

Daniel Oliveira - Vítima não é herói

* Daniel Oliveira

18 setembro 2025

O assassínio de Kirk não é encarado como mais um triste episódio de violência política nos EUA, onde 76% foram vítimas da extrema-direita. É uma oportunidade para repetir um guião: semear a violência e a desordem para, quando as sociedades se entregam a esta bebedeira, impor a ordem autoritária

Uma morte é uma morte, e a violência política é sempre um ataque à democracia, mesmo quando a vítima é inimiga da democracia. Isso não permite erguer uma estátua a Charlie Kirk. Porque uma vítima não é obrigatoriamente um herói. Kirk não era um ativista conservador, como tenho lido por aí. Defendia a teoria da “grande substituição”, que os negros viviam melhor quando eram escravos, que as execuções deveriam ser televisionadas, patrocinadas e vistas por menores, que a pena de morte devia ser aplicada a alguns opositores de Trump e que as mortes de crianças em tiroteios escolares eram um custo aceitável de “direitos dados por Deus”.

Não é todos os dias que se vê um assassínio político em direto. Em minutos, o vídeo do disparo já circulava no TikTok, no Instagram, no X, no Facebook, em grupos de WhatsApp... Sangue, morte e likes. Os algoritmos privilegiaram os ví­deos mais grotescos, as músicas mais dramáticas, as teorias da conspiração. Um deles, com milhões de visualizações no TikTok, mostrava a bala a atingir, num plano fechado e numa excruciante câmara lenta, o pescoço da vítima. O autoplay das redes disparou mais rápido do que a bala. Milhões foram apanhados desprevenidos pela violência que lhes tomou os ecrãs. Investigadores citados pela “Wired” garantem que a maior parte dos vídeos não tinha qualquer aviso sobre o seu carácter violento e, vários dias depois, continuavam a circular livremente. Controlar a emoção é controlar a reação.

Em 2020, o FBI travou um plano para raptar Gretchen Whitmer, governadora do Michigan. Em 2022, o marido de Nancy Pelosi teve o crânio fraturado por um invasor da sua casa. Em 2025, bombas caseiras foram lançadas sobre a casa do governador Josh Shapiro. Melissa Hortman, antiga presidente da Câmara dos Representantes do Minnesota, e o seu marido foram assassinados. O senador John Hoffman e a sua mulher foram alvejados. Em todos os casos, com uma fração da atenção agora dada a Charlie Kirk. 76% das vítimas de atentados cometidos por extremistas, na última década, nos EUA, foram mortas por grupos ou indivíduos ligados à extrema-direita. Mas, questionado pela Fox sobre a necessidade de unir o país quando existirão grupos radicais dos dois lados, Trump respondeu que “os radicais da direita são radicais porque não querem ver crime, os radicais da esquerda são o problema, a pior coisa que aconteceu a este país”. Anunciou que vai classificar Antifa e outros grupos de esquerda como terroristas. Como já tem acontecido em relação à imprensa, a instituições públicas, à justiça e às universidades, isto quer dizer censura, repressão e limpeza cultural.

Adam Berry/Getty Images

Em poucos dias, várias pessoas foram despedidas por terem feito publicações desagradáveis sobre Kirk, tendo sido criado um site para expor quem critique o novo mártir. A ABC suspendeu o “Jimmy Kimmel Live” por comentários bastante comedidos do humorista, porque a liberdade de expressão sem limites defendida por Kirk e Trump acaba, como é evidente, em Kirk e Trump. Em cinco dias, o congressista do Wisconsin Derrick Van Orden escreveu 550 tweets sobre uma “segunda Guerra Civil” e apelando à violência contra democratas e jornalistas. Musk passou uma semana a promover a manifestação da extrema-direita que espalhou o caos pelas ruas de Londres e, à distância, defendeu a violência como resposta e a queda de um Governo democraticamente eleito. O assassínio de Kirk não é mais um triste episódio de violência política nos EUA. É, para a extrema-direita, Trump e Musk, uma oportunidade.

Ao sair, há uns dias, do Museu do Centro de Documentação de Munique para a História do Nacional-Socialismo, mesmo ao lado da antiga sede do NSDAP, senti-me oprimido. Pela evidência de que a História não se repete, mas rima. No racismo, na xenofobia, no antifeminismo, na homofobia, na escolha de grupos vulneráveis como fonte de todos os males, no ódio à “arte degenerada”, nos de bem e nos demais, na tibieza da reação, na normalização pública, na infiltração nas instituições, na instrumentalização das forças de segurança, no financiamento de milionários para que a revolta se vire para os de baixo, na cumplicidade da direita conservadora. E é porque a História rima que acabaremos por ter o incêndio do Reichstag, provocado pelos próprios ou por crimes de outros. O guião da extrema-direita, pelo menos desde a ascensão ao poder de Mussolini ou Hitler, foi sempre o mesmo: semear a violência e a desordem para, quando as sociedades se entregam a esta bebedeira, imporem a sua ordem autoritária. Estamos a entrar na segunda fase.

 https://expresso.pt/opiniao/2025-09-18- 

"Estamos a chegar a um ponto em que a escrita parece toda igual. Antes da IA os estudantes podiam dar erros, mas escreviam com mais alma"

 

Joana Pereira Bastos (Jornalista) e Nuno Botelho (Fotojornalista)

18 setembro 2025 

Qual é a origem de alguns dos nomes e apelidos mais comuns em Portugal? De onde vem a palavra ‘azul’? Por que razão usamos o ‘h’ no início de algumas palavras se não o lemos? Estas são apenas algumas das muitas curiosidades exploradas nos vídeos partilhados por Marco Neves que têm feito sucesso nas redes sociais. Só em agosto tiveram 10 milhões de visualizações Qual é a origem de alguns dos nomes e apelidos mais comuns em Portugal? De onde vem a palavra ‘azul’? Por que razão usamos o ‘h’ no início de algumas palavras se não o lemos? Estas são apenas algumas das muitas curiosidades exploradas nos vídeos partilhados por Marco Neves que têm feito sucesso nas redes sociais. Só em agosto tiveram 10 milhões de visualizações

Marco Neves é linguista e professor na Universidade Nova de Lisboa. Mas são os vídeos que partilha nas redes sociais sobre a origem das palavras e outras curiosidades que fazem dele, atualmente, o maior divulgador de conhecimentos sobre a língua portuguesa em Portugal

Há dois anos, Marco Neves começou a partilhar nas redes sociais vídeos sobre a origem das palavras e outras curiosidades da língua. O sucesso não se fez esperar. Tem quase 380 mil seguidores e 72 milhões de visua­lizações só este ano

O que o levou a fazer estes vídeos?

 Comecei por brincadeira, mas não estava à espera de receber tantos comentários e perguntas. Percebi que, enquanto os livros que escrevo sobre a língua chegam sobretudo às pessoas que já têm interesse pelo tema, os vídeos chegam a outras que nem sequer sabiam que tinham esse interesse, e isso é fascinante.

O que explica o seu sucesso?

O discurso sobre a língua sempre esteve muito tomado por uma perspetiva de dizer o que está certo ou errado do ponto de vista da ortografia e da gramática, o que é muito limitado. Eu tentei mostrar que há outras coisas que interessam às pessoas, como a origem das palavras e dos nomes, as diferenças entre regiões ou entre os vários países que falam português. A língua também é uma maneira de nos identificarmos com os grupos a que pertencemos — a cidade, a re­gião, o conjunto de amigos ou a classe social. Pode parecer um pouco feio falar disto, mas a verdade é que as pessoas identificam-se socialmente pela forma como falam. 

Qual é a dúvida ou pergunta que lhe colocam mais vezes?

 Para surpresa minha, a que recebo mais tem a ver com a pronúncia da palavra “muito”. Porque é que a pronunciamos como se tivesse um ‘n’ ou um til? Na verdade, é a única palavra em que aquele ditongo (‘ui’) é nasal, ainda que não haja nenhuma marca gráfica que o indique. Quem sistematizou a nossa ortografia, em 1911, pôs mesmo uma nota de rodapé a dizer que a palavra ‘muito’, exce­cionalmente, lê-se de uma maneira e escreve-se de outra.

 A forma descontraída como fala destes temas ajuda a combater a ideia de que o português é difícil?

 Desafiar as pessoas para se interessarem pela língua implica mostrar que também se podem divertir com o tema.

 A seu ver, a maneira de ensinar o português nas escolas é apelativa?

Penso que há uma série de conhecimentos técnicos que talvez sejam introduzidos demasiado cedo. Se começarmos pelo telhado, não corre bem. Antes de mais, é preciso criar o gosto por ler e escrever.

Os clássicos dados na escola são bons para fomentar o gosto pela leitura?

Os clássicos fazem parte do nosso património cultural, e a escola tem de continuar a transmiti-los, ainda que possa descobrir formas novas de os abordar. Por exemplo, há muitos tiktoks sobre os clássicos da Jane Austen que fizeram sucesso nas redes, e a escola pode aprender com estas novas abordagens. Por outro lado, pode acrescentar à lista de leituras livros sugeridos pelos próprios alunos.

Muitos livros transformaram-se em fenómenos de vendas graças ao TikTok. Têm qualidade para serem dados nas escolas?

 Dizer que uns livros são bons e outros não são é discutível. Há muitos caminhos para chegar à literatura, e penso que não devemos, à partida, recusar nenhum. O importante é que as pessoas ganhem hábitos de leitura. Sem isso, por mais que saibam gramática, não conseguirão escrever bem. E, na sociedade em que vivemos, saber fazê-lo é essencial.

As pessoas recorrem cada vez mais à inteligência artificial quando têm de fazer um texto. Isso vai diminuir a capacidade de escrita?

 Há esse risco no que toca à criatividade. Estamos a chegar a um ponto em que a escrita parece toda igual. Até já digo, na brincadeira, que tenho saudades de [os meus alunos] me entregarem textos com erros ortográficos. Antes destas ferramentas, os estudantes podiam dar erros, mas escreviam com mais alma. Agora, o registo é muito uniformizado. 

A linguagem usada nos telemóveis e nas redes sociais acabará por provocar alterações no português?

Há uma parte central da língua que não muda muito. Por isso é que conseguimos ler poesia medieval e perceber grande parte dela. Mas, à superfície, está sempre a mudar, e não sabemos o que vai ficar disso. Por exemplo, nos anos 1980 ninguém sabia se o ‘bué’ ia perdurar, mas perdurou, enquanto outras palavras que dizíamos na altura não ficaram. As transformações da língua à superfície são normais e sempre aconteceram. A questão é que hoje, com a internet, são mais rápidas e mais globais. Nos anos 1970/80, se fosse preciso, cada escola tinha o seu calão. Mas agora o movimento é internacional e muitas vezes baseado em palavras inglesas. No entanto, a maior transformação provocada pela internet não é essa.

Qual é?

A internet provocou um uso muito mais intenso da escrita. Quando eu tinha 15 anos, nos anos 1990, nunca comunicava com os meus amigos pela escrita, mas apenas oralmente. Falava ao vivo ou telefonava. A escrita quase só era usada em contextos formais, de escola ou de trabalho. O único uso informal eram as cartas, mas ninguém as escrevia todos os dias. Isso mudou de forma radical. Hoje, as pessoas namoram, conversam ou insultam-se pela escrita. Nunca escreveram tanto como agora, sobretudo do ponto de vista informal. O que ajuda a explicar algumas dificuldades que sentimos ao usar a escrita de forma informal — por isso é que usamos os emojis, para compensar a falta do olhar, da expressão, dos gestos... Esta transformação levará a uma aproximação dos vários registos na escrita, e o formal terá tendência de já não o ser tanto.

“Em poucas décadas, Angola e Moçambique, juntos, terão mais população do que o Brasil, o que significa que o continente onde o português vai ser mais falado será África e não América do Sul”

O que mais o fascina nas línguas?

Perceber que cada palavra tem uma história. Por exemplo, o ‘azul’, que é a minha palavra preferida, vem do persa, por causa das rotas da seda, depois passou pelo árabe, chegou ao latim e finalmente ao português. Outra palavra interessante é ‘jaguar’, que vem de uma língua sul-americana, o tupi, e que usamos em Portugal, enquanto os brasileiros, curiosamente, usam uma palavra latina (‘onça’) para se referirem ao mesmo animal. As palavras revelam muito da história dos povos e dos seus intercâmbios, e isso é fascinante, em todas as línguas. No português, em particular, fascina-me o facto de ser um arquipélago, já que nenhum dos países que fala português faz fronteira com o outro. Isso não acontece noutras línguas e cria uma dinâmica muito própria.

Em que sentido?

O Brasil tem uma dimensão esmagadora, e isso alimenta algum receio e narrativas de superioridade no que diz respeito à língua. “Nós é que sabemos, porque somos 200 milhões”, pensam os brasileiros. “Nós é que sabemos, porque nós é que a inventámos”, dizem os portugueses. Mas, em poucas décadas, Angola e Moçambique, juntos, terão mais população do que o Brasil, o que significa que o continente onde o português vai ser mais falado será África e não América do Sul. O centro de gravidade do português vai mudar.

É verdade que a palavra ‘saudade’ só existe em português?

 Não. O romeno ou o galês, por exemplo, também têm uma palavra para ‘saudade’ e curiosamente, nesses países, também há a ideia de que a palavra só existe nessa língua. Dito isto, é verdade que ‘saudade’ tem uma presença e uma força muito grande na cultura portuguesa que não existe em mais lado nenhum.

https://expresso.pt/semanario/ideias/2025-09-18-estamos-a-chegar-a-um-ponto-em-que-a-escrita-parece-toda-igual.-antes-da-ia-os-estudantes-podiam-dar-erros-mas-escreviam-com-mais-alma-dbfc96e7

quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Patrícia Reis - O estado da Nação


* Patrícia Reis

 
Diário de Notícias 02 Set 2025 
 
Os Países Baixos têm as crianças mais felizes, dizem os estudos. Crianças que passam muito tempo na rua, com chuva ou sol, uma carga de atividades extra reduzida. E podem ficar entediadas, porque aprender a gerir a frustração faz parte da vida. Não têm satisfações imediatas, não usam as novas tecnologias como uma extensão do corpo, leem e são estimuladas a conversar, nada de jantares ao som das breaking news do mundo. Os pais estimulam a autonomia, são pouco vigilantes, menos controladores, vá.  

Por aqui a história é outra, porque as crianças acumulam quadros de ansiedade, não sabem lidar com a rejeição nem com a frustração, precisam de estar sempre em movimento (quem disse que a malta tem de estar sempre ocupada?) e se uma criança vai para a escola a pé, a um quarteirão de distância da sua casa, é um ai Jesus. Não, os pais não perderam a cabeça, talvez estejam apenas a promover autonomia, segurança.  

A história mais bizarra que ouvi, há umas semanas, prende-se com jovens adultos. Um professor universitário contou-me que é confrontado com os pais dos alunos regularmente. Interpelam-no, pedem esclarecimentos sobre notas, intervêm como fazem na escola primária. “Isto não ajuda nada. A cereja no topo do bolo é a mãe que vem falar comigo, porque chumbei o filho e eu precisei de lhe mostrar as folhas de presença e de dizer: ‘O seu filho nunca veio a uma aula que eu tivesse dado’”. Cara de urso da mãe, imagino.  

O que leva os pais a controlar tanto a vida dos filhos? Porque precisarão eles de os ter fixos no ninho, mal preparados para o mundo real? Que exemplo damos a um jovem, se não acreditamos que seja capaz de resolver as suas questões, assumir responsabilidades?  

A educação é um dos pilares da sociedade, defendemos a ideia fundadora de oportunidades e princípios, mas a nossa aposta na educação é fraca. As redes sociais aceleraram a vida. Os jovens abusam das ferramentas de IA nos seus trabalhos escolares, reduzindo o tempo de pesquisa e de leitura; abandonaram a possibilidade enriquecedora de correlacionar informações que permitem um desenvolvimento de raciocínio, outras perspetivas. Ora, se não estimularmos o cérebro, ele encolhe. 

O neurocientista francês Michel Desmurget, autor do livro A Fábrica de Cretinos Digitais (2021, Bertrand Editora), explica que o mundo digital está a prejudicar o desenvolvimento neural de crianças e jovens e que, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, o Quociente de Inteligência desceu.  

O QI é medido por um teste-padrão e é afetado por variáveis distintas, entre elas os sistemas educativos e de saúde ou as questões alimentares. A diminuição do QI foi já testada e documentada em vários estudos na Noruega, Dinamarca, França, Estados Unidos, entre outros. Michel Desmurget explica: “Vários estudos têm mostrado que quando o uso de televisão ou videogame aumenta, o QI e o desenvolvimento cognitivo diminuem” e acrescenta: “Os principais alicerces da nossa inteligência são afetados: linguagem, concentração, memória, cultura (definida como corpo de conhecimento que nos ajuda a organizar e a compreender o mundo). Em última análise, esses impactos levam a uma queda significativa no desempenho académico.”  

A super estimulação provoca uma diminuição cognitiva – pode parecer paradoxal, mas é para isso que os estudos apontam. Menos interação social e menos atividades estimulantes criativamente (música, artes, leitura) levam a perturbações do sono e têm um impacto real na forma de o cérebro processar informação. Sem alimento, certas zonas tornam-se, digamos, menos ativas, como se metessem férias. Os mais jovens precisam de estímulos, e não de tantos ecrãs e de informação proveniente apenas do universo digital. Estes alertas têm vindo a ser feitos em diferentes plataformas, de académicos a cientistas, de especialistas de educação a psicólogos. Ouvimos e não fazemos nada, o que é pouco inteligente. Entretanto os pais, hiper vigilantes, optam por sobreproteger os filhos. Como se desenrascará esta geração? Como diz o povo, o futuro a Deus pertence. 

Escritora e jornalista

 https://www.dn.pt/opiniao/o-estado-da-na%C3%A7%C3%A3o

Parícia Reis - O Estado da nação 2


* Patrícia Reis, 

Diário de Notícias, 16/09/2025)


O partido teve mais de um milhão de votos. Se todas as pessoas que votaram lerem este livro, dificilmente cometem o mesmo erro. O drama, com o qual este partido conta, é que a malta lê pouco, não é? E se provássemos o contrário? Não era incrível?

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A malta lê, lê até muito, garantem-me, e eu aposto que estamos a falar de ler o feed das redes sociais e pouco mais do que isso. Os livros parecem assustar os mais novos e os mais velhos, e mesmo fenómenos literários no Tik Tok de book influencers (só a designação me provoca desconforto) aparentam ser uma boa-prática mas, muitas vezes, são isentas de critério. Fui à livraria e preciso de vos dizer isto: existem livros maravilhosos.

A Literatura é um alimento para o cérebro e ajuda-nos a perceber temas e realidades, a mudar de ideias, a pensar. A Literatura serve para pensar. Agustina Bessa-Luís costumava dizer que escrevia para incomodar, o princípio é o mesmo. O entretenimento é, como a palavra indica, outra coisa: eu diria até que serve precisamente o fim oposto – enquanto estamos entretidos, não estamos a pensar..

Hoje temos livros publicados com a aparência da grande Literatura e que, espremidos, são apenas para isso, entreter. Temos livros com fonte de letra em tamanho grande, entrelinhas generosas, capítulos pequenos, tudo para facilitar o cérebro do leitor, mas temos também temáticas que são ondas, obedecem a tendências.

Neste momento há no mercado uma santa trindade: violência – saúde mental – autoficção. Ora, ninguém consegue viver só com desgosto e um leitor treinado sabe que, por pior que seja a história narrada, preferencialmente, deve existir sempre qualquer coisa que salve, qualquer coisa que permita uma certa redenção. É assim nos grandes clássicos, do Cem Anos de Solidão de Gabriel García Márquez a Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago; de Luzes de Leonor de Maria Teresa Horta à Ronda da Noite de Agustina Bessa-Luís.

A imaginação é o território fundador de qualquer escritor que pode, e deve, ser um observador da natureza humana – do seu tempo, caso opte por escrever sobre o que lhe é contemporâneo –; mas a imaginação, “a louca da casa”, conforme a designou Santa Teresa de Ávila (e cuja expressão Rosa Montero, a escritora espanhola, aproveitou como título de um dos seus livros, corram a ler, caso não o tenham feito já!), precisa de ser estimulada. Um escritor não faz decalques da realidade, vai muito mais longe. E sente o que as personagens sentem, vive o que elas vivem. Não é o contrário, as personagens não servem para imitar a vida real. A Literatura é mais do que isso.

O jornalismo, que tanto namora com a Literatura, é outra arte que importa cuidar. Miguel Carvalho, jornalista freelancer, publicou o livro Por Dentro do Chega (edições Objetiva) e o momento em que abri o volume foi de imensa satisfação. Por várias razões: o Miguel Carvalho é o melhor jornalista de investigação da sua geração, tem do jornalismo o mesmo entendimento que eu e que tem por base uma coisa muito simples, mas cada vez mais difícil de encontrar: a capacidade de ouvir os outros, estar com eles, tentar compreender as suas razões, mesmo que discordando. Este livro, em vésperas de eleições autárquicas e presidenciais, é um ato de correção social, chamar-lhe-ia a grande escritora e jornalista Maria Teresa Horta. Miguel Carvalho trabalhou neste volume de 752 páginas durante cinco anos, e fê-lo com a intensidade das coisas que apaixonam, porque é a única forma de fazer jornalismo. Aí concordamos novamente. O retrato do partido que hoje ocupa um lugar que era inimaginável em 2020 é, também, o retrato de um país, de uma desilusão, de um sistema. É igualmente um trabalho de uma seriedade a toda a prova, com os dados bem claros, as fontes confirmadas e reconfirmadas, os documentos lidos uma e outra vez. Como o jornalista nos leva pela mão é uma arte. E, não sendo esta uma obra de Literatura, representa outra maneira de promover pensamento, de agitar ideias e de corrigir factos. É um livro sobre a verdade de um partido, dos seus militantes, financiadores, apoiantes isolados ou até escondidos. Miguel Carvalho é um fervoroso defensor da democracia, a Liberdade talvez seja a sua palavra mais estimada. Este livro, depois de todos os que já assinou, comprova: o bom jornalismo está vivo e recomenda-se; e mostra que o medo não tem qualquer hipótese de vergar aquilo que se sabe ser certo. Conta-se a história de um partido de extrema-direita com a lisura com que se contaria outra qualquer história, porque é indiferente se este partido é hoje distinto do que era há cinco anos, quando se pensava que Marrocos poderia ser um destino para o seu líder; quando se advogava a hipótese de ser considerado um partido ilegítimo. Hoje estamos longe deste cenário, não há planos de fuga nem gente incrédula com o que acabou de ouvir, há uma dimensão de boçalidade que arrepia e que vive da grande ilusão de um discurso construído em cima da figura do líder, do seu putativo carisma, e pouco mais.

O partido teve mais de um milhão de votos. Se todas as pessoas que votaram lerem este livro, dificilmente cometem o mesmo erro. O drama, com o qual este partido conta, é que a malta lê pouco, não é? E se provássemos o contrário? Não era incrível?

Escritora e jornalista   
https://estatuadesal.com/2025/09/17/o-estado-da-nacao-2/

Alfredo Barroso - [A 3ª via ou a viragem pró-capitalista da Internacional Socialista]

 


* Alfredo Barroso
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Para se perceber porque é que o PS é hoje um partido social-liberal…

A DERIVA RUMO À DIREITA DOS PARTIDOS SOCIALISTAS, SOCIAL-DEMOCRATAS E TRABALHISTAS DA INTERNACIONAL SOCIALISTA 

- por Alfredo Barroso (impedido de publicar artigos nos jornais)

Foi a «Revolução conservadora» levada a cabo por Margaret Thatcher no Reino Unido – entre 1975 e 1990, onze anos dos quais no Governo (1979-1990), empurrando ainda mais para a direita a própria direita conservadora – o fenómeno político que influenciou, decisivamente e profundamente, a viragem à direita da social-democracia europeia, isto é, dos partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas membros da Internacional Socialista.

De facto, o regresso ao poder, em 1997, do ‘Labour Party’ comandado por Anthony Blair, não constituiu sequer uma ruptura com o legado dos anos Margaret Thatcher-John Major. Como esecreveram dois autores em 2011, «não houve contra-revolução nem vingança trabalhista, e sim adaptação do ‘New Labour’ à situação deixada pelos conservadores. E residiu aqui uma das chaves da viragem à direita do Reino Unido» (1).

Em 1981, a criação por um movimento dissidente do ‘Labour Party’ de um Partido Social-Democrata, que depois se fundiu com o Partido Liberal para ser tornar o Partido Liberal-Democrata, fez com que um 'Labour' demasiado à esquerda (defendia o desarmamento unilateral, era anti-União Europeia), fosse objecto. ainda antes da chegada de Tony Blair à liderança do partido, de uma chamada «modernização» levada a cabo, primeiro por Neil Kinnock (1983-1992) e depois por John Smith (1992-1994), apoiando-se no grupo Parlamentar do partido para contrariar a base, tradicionalmente sob o domínio dos sindicatos. 

E foi germinando cada vez mais nas cabeças dos dirigentes do ‘Labour’, como escreveu John Crowley (2), a ideia segundo a qual «os inimigos são os extremistas de esquerda». E em 1987, trata-se já de recentrar o ‘Labour’ para tentar conquistar as novas classes médias. 

Com a morte de John Smith, em 1994, foi a vez do «modernizador» Tony Blair tomar conta do partido, que irá deixar de ser ‘Old Labour’ para se tornar ‘New Labour’ (o líder actual, Keir Starmer, é um imitador de Blair, reaccionário e belicista). Mas a primeira vitória de Tony Blair foi suprimir o artigo 4º, não o do tratado da Aliança Atlântica, mas o dos Estatutos do ‘Labour’, que previa a socialização dos meios de produção. Depois reduziu significativamente o peso dos sindicatos no aparelho do partido fazendo dos militantes os seus principais interlocutores.

Ascendendo ao Governo ao vencer eleições, Tony Blair empenhou-se em estruturar o seu partido, e também o Estado, à imagem e semelhança duma empresa privada. Pôs em prática a «sociedade de mercado» submetida aos preceitos do «novo management público», e à «mercantilização», quer das práticas de Governo e de administração do Estado, quer da direcção do partido, transpondo para a política métodos do «marketing», e apoiando-se nos «especialistas em comunicação» incumbidos de «vender o produto ‘New Labour’».

Foi o teórico Anthony Giddens quem orientou intelectualmente o que se convencionou designar por «blairismo. Foi ele quem concebeu o modelo de «uma ‘Terceira Via’ entre o conservadorismo ‘thatcheriano’ e o ‘trabalhismo tradicional’», diagnosticando o «arcaísmo da esquerda face à revolução neoliberal» tal como «o carácter obsoleto do Estado britânico», e afirmando o «carácter central e incontornável da mundialização». Ousou mesmo escrever que «os governos social-democratas já não podiam usar os métodos tradicionais de estimulação da procura e do recurso ao Estado, pops os mercados financeiros não o permitiriam». Ou seja, afirmando o poder da plutocracia, da banca e, acima de tudo, da finança internacional, a que deve submeter-se e tem de sujeitar-se a política.

Esta autêntica despolitização e mercantilização da política e dos partidos marca «o triunfo da forma sobre o conteúdo», sujeitando-os às técnicas de “marketing” e, sobretudo, aos “spin doctors”, indiferentemente rotulados como «peritos em dar a volta às opiniões públicas», ou como «fabricantes de consensos», ou como «especialistas em modelar a opinião», ou como «manipuladores», ou como «eminências pardas».

O sociólogo britânico Stuart Hall (1932-2014) escreveu: «A Srª Thatcher tinha um projecto, O projecto histórico de Blair é o de nos adaptarmos a ele» [ao projecto da Thatcher]. O blarismo soube jogar um jogo duplo: aceitando no fundo a mundialização como um fenómeno quase natural, autoregulador, unidireccional, não contraditório, envernizando a política de governo com uma perpétua “modernização encantatória”. A estratégia a longo prazo do ‘New Labour’ repousou naquilo que Gramsci designava por “transformismo”, ou seja, o momento em que a social-democracia se torna numa variante da ideologia neoliberal. Se o ‘New labour’ combina neoliberalismo económico e apego a uma «governação activa», nem por isso a dimensão neoliberal deixa de ser dominante, e a dimensão social-democrata subalterna. Mais ainda, a dimensão social-democrata é afinal constantemente transformada em dimensão neo-liberal.«O percurso social-democrata rumo ao neoliberalismo poderá muito bem acabar por ser a prova daquilo a que poderíamos chamar, parafraseando Lénine, “a melhor carapaça política” do capitalismo global», resumiu Stuart Hall. 

De facto, a «Terceira Via» blairista expandiu-se, no final do século XX, num movimento geral europeu de convergência ideológica de todos os partidos social-democratas, socialistas e trabalhistas da Internacional Socialista, com base no que se convencionou designar por «social-liberalismo», na prática uma versão atenuada do liberalismo. Na Alemanha, era então o chanceler Gerhard Schröder, líder do SPD e artífice do “Novo Centro”, a réplica alemã do “blairismo” e da “Terceira Via” de Anthony Giddens. “Terceira Via” que teve. em Portugal, como adepto incondicional o então primeiro-ministro e líder do PS, António Guterres. E todos os que lhe sucederam…

A apoteose deste vibrante movimento europeu sucedeu com a assinatura do «manifesto Blair-Schröder» precisamente antes das eleições europeias de 1999, quando a União Europeia contava, na época, com onze Governos social-democratas. socialistas e trabalhistas em 11 dos seus então15 países membros. A “Terceira Via” surgia como uma espécie de reconciliação entre «liberais» e «trabalhistas», numa dupla oposição ao «velho socialismo» e ao «capitalismo neoliberal». Mas não pegou, e nem sequer, durou perante as sucessivas derrotas eleitorais na década de 2000. E, sobretudo, perante o desastre que foi a participação do Reino Unido então governado por Tony Blair, ao lado dos EUA do então presidente Bush-filho, na sinistra invasão do Iraque, com justificações completamente falsas – e falsificadas!

Mas é verdade que – qual aldeia do gauleses, neste caso lusitanos, a Oeste da Europa, e bem juntinho ao Oceano – a chama do social-liberalismo brilha, embora com pouco fulgor, no Largo do Rato em Lisboa, empunhada, qual Astérix (Viriato, se preferirem), por José Luis “Carneirix”, coadjuvado pelos  exímios defensores de alianças com a direita, o filósofo Francisco “Assistix” e o comentador Sérgio Sousa “Pintaínhonix”… 

«Mais attention, nous reviendront!», como diziam os soldados e centuriões Romanos todos esfolados e “grogues”, depois de levarem uma sova mestra do Astérix, do Obélix & “aficionados”!

https://www.facebook.com/somera.simoes

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

A Colonização da Mente pelos Estados Unidos




Pesquisadores chineses publicaram recentemente um excelente white paper sobre a colonização da mente pelos EUA. É um documento longo, com 36 páginas, então tentei resumi-lo copiando e colando alguns pontos-chave aqui.

Aqui estão três links para o artigo original em diferentes formatos:  Link 1  ,  Link 2  ,  Link 3.  Aproveite!

Trechos do artigo:   

Desde a Segunda Guerra Mundial, e especialmente após o fim da Guerra Fria, confiando em sua supremacia global em termos de poder político, econ+omico, militar e tecnológico, os Estados Unidos exportaram sua ideologia ao redor do mundo em uma tentativa de cativar as mentes das nações com valores americanos, remodelar as concepções das pessoas e criar um vício filosófico numa visão de mundo centrada nos Estados Unidos.

“ A questão crucial para os Estados Unidos não é se eles começarão o próximo século como a superpotência com a maior reserva de recursos, mas até que ponto serão capazes de controlar o ambiente político e fazer com que outros países façam o que eles querem ” — Joseph Nye.

“ Fortalecer a posição da cultura americana como um 'exemplo' para todas as nações é uma estratégia indispensável para manter a hegemonia americana ” — Zbigniew Brzezinski.

Os Estados Unidos descobriram que confiar apenas no "poder duro" na forma de domínio político, controle econômico, dissuasão militar e outros meios não poderia estabelecer ou manter um regime colonial duradouro e extenso; em vez disso, usar o "poder suave", como cultura e valores, permitiria colher maiores benefícios coloniais a custos mais baixos.

Impor conformidade e submissão "voluntárias" em escala global sob um véu sentimental: esse é o estilo americano de "colonização da mente".

As "Quatro Liberdades" propostas pelo Presidente Roosevelt tornaram-se a pedra angular teórica do sistema internacional de direitos humanos. A exportação ideológica dos Estados Unidos durante esse período lançou as bases históricas para sua vasta política de colonização da mente nas décadas seguintes.

Como um dos principais arquitetos da ordem internacional do pós-guerra, os Estados Unidos, por um lado, exportaram seus sistemas político e econômico e valores americanos como "democracia" e "liberdade", enquanto, deliberada e conscientemente, desconstruíam ideologias não americanas e suprimiam as culturas indígenas de outros países, a fim de fomentar a dependência e a obediência filosóficas globais. Ao recorrer a um fluxo interminável de estratagemas de duas caras, construção expansiva e desconstrução destrutiva, os Estados Unidos realizaram muito mais do que qualquer outro império colonial em sua tentativa de colonizar mentes.

Os Estados Unidos exploraram seu controle sobre novas plataformas tecnológicas e tecnologias cognitivas avançadas para fortalecer sua governança ideológica nas mídias sociais. Sob pretextos como "combater a desinformação" e "combater a influência estrangeira", manipulam os fluxos de informação nas plataformas sociais para dominar a percepção global.

Se o domínio hegemônico dos Estados Unidos nas arenas política, econômica e militar globais serve como uma "pré-condição rígida" para sua colonização ideológica, então condições favoráveis ​​na linguagem e na cultura, nos discursos, na mídia de massa e na pesquisa acadêmica constituem sua "base sólida".

Ao realizar suas atividades de colonização mental, os Estados Unidos usam "máscaras" pretas, brancas, cinzas e outras em momentos diferentes, misturando flexivelmente diferentes "tons" para se camuflar de acordo com as necessidades e situações contextuais.

Propaganda branca. Constitui a dimensão mais óbvia da colonização mental dos Estados Unidos, operando por meio de canais públicos, transparentes e oficialmente aprovados para disseminar informações publicamente verificáveis, com o objetivo de moldar uma imagem nacional positiva e promover seus valores. (Meu comentário: Departamento de Estado, Voz da América, bolsas de estudo como a Fulbright, etc.)

A propaganda negra representa a faceta mais secreta, enganosa e agressiva da colonização mental. Tipicamente realizada por serviços de inteligência e militares no mais absoluto sigilo, caracteriza-se principalmente por operações clandestinas, incluindo campanhas de desinformação, coleta de informações e ataques cibernéticos.

A propaganda cinzenta é conduzida indiretamente pelo governo dos EUA, por meio de entidades terceirizadas, como corporações e ONGs, para fugir da responsabilidade oficial e criar a ilusão de "espontaneidade não governamental". Seu objetivo é influenciar secretamente a opinião pública, moldar agendas políticas ou apoiar grupos específicos em países-alvo, permitindo ao mesmo tempo que os Estados Unidos mantenham uma negação plausível.

“A distribuição das línguas no mundo reflete a distribuição do poder no mundo.” — Samuel P. Huntington. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos, com seu domínio econômico, militar, tecnológico e cultural popular, promoveram vigorosamente o inglês em todo o mundo, reforçando seu status como língua franca global.

Os Estados Unidos rotineiramente se glorificam enquanto demonizam vigorosamente os outros, criando binários artificiais como "democracia versus ditadura", "liberdade versus autoritarismo", "economias de mercado versus economias sem mercado" e "Estados antiterrorismo versus Estados patrocinadores do terrorismo".

Quem controla as válvulas do fluxo de informações tem a iniciativa de moldar as percepções.

Hoje, os Estados Unidos exercem um domínio férreo sobre canais e plataformas globais de informação e radiodifusão, controlando inúmeras agências de notícias, poderosos conglomerados multinacionais de mídia, plataformas de mídia social online e uma série de novos gigantes da tecnologia. Na era digital, ao alavancar plataformas como Facebook, Twitter e YouTube, os Estados Unidos manipularam com sucesso a opinião pública, caracterizada pelo fato de que "para onde vão algoritmos e tráfego, lá vão agendas e percepções".

“A americanização do conhecimento e da educação universitária sustenta uma sociedade global americanizada, o que por sua vez reforça o domínio dos EUA na economia política global, na vida cultural e nos assuntos militares por meio de um processo de reforço mútuo” — Simon Marginson, professor da Universidade de Oxford.

O esforço dos Estados Unidos para colonizar a mente visa consolidar sua hegemonia cultural, fortalecendo assim seu domínio político e preservando seus privilégios econômicos.

Como colonizadores de mentes, os Estados Unidos se glorificam implacavelmente, vestindo seus valores com uma máscara de "universalidade" — apresentando seu caráter nacional como algo "universal" e transformando seus interesses nacionais em "moralidade internacional", disfarçando, em última análise, a colonização cultural como "liderança de valores". Os Estados Unidos se apresentam como praticantes, porta-vozes e defensores de valores nobres, tudo para consolidar sua posição central na esfera ideológico-cultural e cultivar uma "dependência cognitiva" deles.

O objetivo fundamental da manipulação ideológica e da modelagem cognitiva dos Estados Unidos é transformar as regras que atendem aos interesses americanos em um sistema e ordem internacional universalmente aceitos e, no processo, garantir seu usufruto contínuo de vários privilégios.

Os Estados Unidos têm consistentemente tentado transformar a ONU e o sistema internacional que ela representa em ferramentas para manter o domínio ocidental, particularmente a hegemonia global dos EUA.

Nos últimos anos, com a ascensão coletiva do Sul, os Estados Unidos descobriram que esse sistema restringia cada vez mais seus privilégios. Assim, favoreceram o "excepcionalismo" e se afastaram das agências internacionais para driblar as regras comuns universalmente respeitadas pela comunidade internacional.

Enquanto isso, desenvolveram a doutrina "América Primeiro" para colocar os interesses americanos diretamente à frente dos de outros países. Além disso, ao expandir sua prática de "jurisdição de braço longo", os Estados Unidos estão descaradamente colocando suas leis nacionais acima do direito internacional.

Ao longo da sua história, os Estados Unidos recorreram repetidamente à “colonização mental” para abrir caminho à sua agressão e pilhagem, ao mesmo tempo que ocultavam esses atos sob o pretexto da “legitimidade”.

No final do século XIX, o grupo de mídia Hearst ecoou as ambições expansionistas dos EUA ao destacar as "atrocidades" espanholas em Cuba e criar uma opinião pública favorável ao início da Guerra Hispano-Americana pelos EUA e sua subsequente captura dos mercados caribenhos.

Durante a década de 1970, os Estados Unidos usaram sua mídia para propagar a narrativa da "ameaça das armas petrolíferas árabes" para ajudar a estabelecer o sistema de petrodólares que vinculava a hegemonia do dólar ao comércio global de energia.

Em 2019, ONGs financiadas pelos EUA incitaram a agitação pública na Bolívia, brandindo a espada da “democracia” para derrubar um governo de esquerda — uma ação que tinha como alvo estratégico as maiores reservas de lítio do país no mundo.

Hoje, os Estados Unidos, continuando a empregar esta estratégia de “opinião pública primeiro”, estão a reprimir empresas chinesas como a Huawei e a TikTok em nome da “segurança nacional”.

Todas essas medidas nada mais são do que medidas que visam remover obstáculos que impedem as empresas americanas de conquistar mercados globais.

Das duas guerras mundiais até a década de 1960, os Estados Unidos usaram principalmente jornais e rádio para "contar a história americana ao mundo". Estabeleceram meios de comunicação externos, como a Voz da América, a Rádio Ásia Livre e a Rádio Europa Livre, para lançar uma guerra de propaganda de longo prazo contra o campo socialista liderado pela União Soviética.

O paradigma de "controle da informação e cognição" gradualmente substituiu o modelo de "propaganda e cognição" e se tornou a nova teoria dominante da comunicação. Teorias como psicologia social, teoria dos jogos e fenomenologia perceptual foram introduzidas na análise de situações estratégicas internacionais e processos de tomada de decisão política.

Modelagem cognitiva e “guerra cognitiva”

Moldar as emoções, atitudes e comportamentos do público tem sido um objetivo importante do jornalismo, da publicidade, da propaganda e de outras áreas relacionadas nos Estados Unidos. O conceito de "guerra cognitiva" surgiu já na década de 1990.

Entretanto, foi somente no início do século XXI, com os avanços na pesquisa tecnológica em áreas como ciência psicológica, neurociência, ciência do cérebro, inteligência artificial e outras tecnologias de ponta, que "moldar a cognição" se tornou um objetivo estratégico verdadeiramente relevante.

Em 2022, o relatório da Estratégia de Segurança Nacional elevou a guerra cognitiva ao mesmo nível de importância estratégica do combate físico, marcando a completa independência do domínio cognitivo. Em 2023, vários relatórios do Congresso redirecionaram a atenção para a segurança cognitiva.

Assim, a manipulação cognitiva impulsionada pela tecnologia se tornou uma nova tática de colonização da mente dos EUA.

Uma série de valores americanos, como a democracia capitalista, a liberdade, a igualdade, os direitos humanos, bem como o individualismo, o egoísmo, o materialismo e o hedonismo, constituem o núcleo do impulso americano para colonizar a mente.

Com um poder financeiro colossal, os conglomerados de mídia americanos adquiriram o controle total sobre toda a cadeia, desde a coleta de notícias até a publicidade e o marketing, incluindo a produção e distribuição de conteúdo. Seus ativos de mídia abrangem plataformas de televisão, mídia impressa, rádio, cinema, vídeo e streaming, beneficiando-se assim do acesso a um vasto conjunto de usuários em todo o mundo.

A vantagem de difusão dos Estados Unidos também se reflete em seu controle sobre mídias, plataformas e negócios online. Ao controlar recursos críticos, como servidores raiz e nomes de domínio globais, os Estados Unidos dominam o funcionamento geral da web. Por meio de medidas legislativas e outras, o governo americano mantém um controle rígido sobre os gigantes nacionais da tecnologia da internet e exerce poder absoluto sobre uma quantidade considerável de informações online. Plataformas como Facebook, X, YouTube e Instagram — as plataformas de mídia social mais populares do mundo — oferecem aos Estados Unidos um novo espaço e uma nova oportunidade para construir casulos de informação e moldar as percepções dos usuários por meio de algoritmos e mentiras.

“A maneira mais fácil de injetar uma ideia de propaganda na mente da maioria das pessoas é transmiti-la por meio do entretenimento” — Elmer Davis, diretor do Escritório de Informações de Guerra dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial.

Entre os países aliados vitoriosos, como França e Grã-Bretanha, os Estados Unidos impuseram a abertura dos mercados cinematográficos locais como condição para a obtenção de auxílio financeiro, contribuindo assim para o domínio dos filmes de Hollywood nesses mercados. Por várias décadas, os filmes americanos, que controlavam mais de 70% do mercado global, desempenharam um papel importante na colonização de mentes.

Inúmeros filmes centrados em "heroísmo" moldaram a imagem dos Estados Unidos como o "justo defensor da ordem mundial" e cultivaram o respeito pelo poderio militar americano.

Depois do 11 de setembro, Hollywood voltou a ser uma poderosa ferramenta de propaganda para a Guerra ao Terror dos EUA, com a indústria e os militares formando um complexo de entretenimento militar mutuamente benéfico, com cada lado compartilhando o que precisava.

Com o avanço da tecnologia digital, os videogames também se tornaram uma ferramenta essencial para o controle mental. A série de jogos America's Army, desenvolvida sob a direção do Exército dos EUA com mais de US$ 30 milhões em financiamento, simula combates realistas e atraiu aproximadamente 20 milhões de jogadores em todo o mundo.

Para ancorar a ideologia americana em todo o mundo, os Estados Unidos alavancam sua posição de liderança em todas as disciplinas acadêmicas para propagar sistemas de conhecimento ocidentais e valores culturais entre as elites intelectuais em vários países e regiões por meio de educação, treinamento, intercâmbios acadêmicos, financiamento de pesquisas e alocação de professores.

Seu objetivo é cultivar um grande contingente "pró-americano" disperso globalmente entre os círculos de elite ao redor do mundo.

Desde o início, os Estados Unidos posicionaram os intercâmbios culturais como a "quarta dimensão de sua política externa". Desde 1948, o governo americano investe fortemente no Programa Fulbright, considerado um "investimento exemplar nos interesses nacionais de longo prazo dos Estados Unidos", patrocinando estudantes, acadêmicos, elites culturais e grupos acadêmicos de todo o mundo para estudar, visitar e realizar pesquisas nos Estados Unidos. Até o final do século XX, o programa havia fornecido apoio financeiro a mais de 250.000 acadêmicos de mais de 140 países e regiões.

Autoengrandecimento e difamação de outros são os dois tipos de discurso mais frequentemente usados ​​nos esforços americanos para colonizar a mente.

A aplicação de "duplos padrões" na interpretação e no enfrentamento de questões internacionais representa uma das estratégias políticas americanas mais emblemáticas e constitui a lógica narrativa mais importante em seu empreendimento de colonizar a mente.

Do uso de ondas de rádio e sinais analógicos à internet digital e agora uma nova revolução nas comunicações impulsionada pela inteligência artificial, os Estados Unidos têm explorado consistentemente seu monopólio em tecnologias avançadas de comunicação para reforçar seu "poder brando" com "poder duro", usando sua hegemonia tecnológica para avançar em sua tentativa de colonizar a mente.

Aproveitando seu monopólio de infraestrutura, os Estados Unidos cortam ou interrompem seletivamente os canais de comunicação dos países-alvo com a comunidade internacional, criando um ambiente narrativo unilateral a seu favor que silencia vozes dissidentes.

Diante da competição futura, os Estados Unidos estão integrando ativamente a ciência cognitiva e tecnologias de ponta — como inteligência artificial e biotecnologia — em sua arquitetura estratégica para colonizar a mente.

Além disso, os Estados Unidos frequentemente politizam, militarizam e ideologizam questões tecnológicas, usando a "Chip Alliance", o "Clean Network Program" e assim por diante para construir "clubes" tecnológicos exclusivos e consolidar uma nova forma de hegemonia tecnológica.

Como escreve o escritor americano William Blum em Democracy: America's Deadliest Export, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos tentaram derrubar mais de 50 governos estrangeiros e interferiram descaradamente nas eleições de pelo menos 30 países.

Por razões geopolíticas e diplomáticas, os Estados Unidos frequentemente espalham mentiras políticas e criam "divisões cognitivas" entre diferentes grupos de interesse, alimentando antagonismo, incitando divisões ou planejando conflitos para obter lucro e até mesmo intervindo diretamente para "disciplinar" adversários que se recusam a cumprir suas exigências.

Afasia cultural

Colonização da mente significa incutir fé cega na cultura americana em todo o mundo, desmantelando a confiança nas culturas locais, dissolvendo as culturas subjetivas dos países-alvo, erodindo a diversidade das civilizações mundiais e exacerbando o antagonismo e o conflito entre civilizações.

Constantemente influenciados pela civilização de estilo americano, alguns países em desenvolvimento perderam sua subjetividade e orgulho nacional, sofrendo de um niilismo nacional crescente. Das elites ao público em geral, eles imitam, ou até mesmo seguem, os Estados Unidos e o Ocidente em tudo, desde pensamento e ideias até alimentação, vestuário, moradia e transporte. Este é o fenômeno da "afasia pós-colonial", descrito por muitos estudiosos.   

Conclusão  Quebrando as cadeias da colonização mental e promovendo trocas intercivilizacionais e aprendizagem mútua

SL Kanthan (14 de setembro de 2025)
(Tradução IA)

https://foicebook.blogspot.com/2025/09/documento.html#more

domingo, 14 de setembro de 2025

José Goulão - GENOCÍDIO NA TERRA SANTA


 
* José Goulão

A editora Página a Página colocou à venda o meu mais recente livro, "Genocídio na Terra Santa", um testemunho pessoal, no terreno e assente em profunda investigação, de mais de 40 anos de reportagens no Médio Oriente.

Este é o livro de uma vida de jornalista e de cidadão, grande parte dela dedicada ao acompanhamento daquilo a que chamam "o conflito israelo-palestiniano" e mais não é do que o extermínio do povo palestiniano para que se cumpra a doutrina exotérica, fundamentalista e terrorista do sionismo. O livro é uma longa viagem por guerras, levantamentos, negociações (quase sempre falsas), massacres, colonização terrorista e pelo roteiro de um "muro de separação" que materializa o carácter racista e segregacionista do regime sionista de Israel.

Ao longo de 400 e algumas páginas percebe-se que os terríveis acontecimentos de hoje eram inevitáveis para que se cumpra o objectivo de extermínio e limpeza étnica almejado pelo sionismo, estratégia adoptada pelo Ocidente ao admitir que o regime de Israel é o representante da "nossa civilização" na região "bárbara" do Médio Oriente. O sionismo é parte da "ordem internacional baseada em regras" ocidental, que repudia o Direito Internacional e torna os governos da NATO e da União Europeia, incluindo todos os executivos portugueses depois da institucionalização da "democracia liberal" desde o golpe de 25 de Novembro de 1975, cúmplices das práticas e objectivos de Israel. Nas condições actuais, e permitindo a Israel fazer tudo o que quer, na mais completa impunidade, falar na instauração de "dois Estados" é uma hipocrisia cruel.

Através do livro deixo claro que o regime de Israel representa uma minoria dos crentes judeus do mundo, porque a grande maioria, por certo, não acompanha as atrocidades do sionismo e do regime político que o aplica. E fica também demonstrado que não há qualquer antissemitismo nas críticas a Israel e ao sionismo, uma vez que a maioria dos habitantes de Israel e dos crentes judeus em todo o mudo não têm qualquer vínculo étnico à Palestina. Essa ligação é apenas religiosa, tal como acontece com os cristãos e os muçulmanos. Falar em "povo judeu" é equivalente a falar em "povo cristão" ou "povo muçulmano" Na verdade, os chefes do regime de Israel não têm origem semita e estão em plena acção de extermínio de um povo semita, os palestinianos. O regime de Israel e a corrente oficial do sionismo são antissemitas.

No livro creio ficar plenamente demonstrado que o objectivo final sionista não é a coexistência com os palestinianos mas sim a substituição do povo da Palestina por vagas de imigrantes oriundas de muitas regiões sob a invocação de que a terra lhes foi "prometida por Deus há 5000 anos. E o mundo continua a aceitar que esta ficção primária e colonial seja uma "lei". Não é por acaso que existe a "indestrutível aliança" entre o sionismo e o imperialismo norte-americano. Israel replica, afinal, a própria origem dos Estados Unidos, assente no extermínio da população autóctone e respectiva substituição por imigrantes.

"Genocídio na Terra Santa está disponível em

https://www.paginaapagina.pt/catalogo.html?store-page=Genoc%25C3%25ADdio-na-Terra-Santa-Testemunho-de-mais-de-40-anos-de-reportagens-no-M%25C3%25A9dio-Oriente-p781290581& 

e muito em breve nas plataformas livreiras digitais e nas livrarias físicas.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Chris Hedges - O Martírio de Charlie Kirk

sexta-feira, 12 de setembro de 2025



Chris Hedges

O assassinato de Charlie Kirk prenuncia uma nova e mortífera fase na desintegração de uns Estados Unidos fragmentados e altamente polarizados. Enquanto a retórica tóxica e as ameaças atravessam as divisões culturais como granadas de mão, por vezes transbordando para a violência real — incluindo o  assassinato  da presidente emérita da Câmara dos Representantes do Minnesota, Melissa Hortman, e do seu marido, e as duas tentativas de assassinato contra Donald Trump — o assassinato de Kirk é um prenúncio de uma desintegração social em larga escala.

O seu assassinato deu ao movimento que representava — baseado no nacionalismo cristão — um  mártir . Os mártires são a alma dos movimentos violentos. Qualquer hesitação quanto ao uso da violência, qualquer demonstração de compaixão ou compreensão, qualquer esforço para mediar ou discutir, é uma traição ao mártir e à causa que defendeu com a sua morte.

Os mártires sacralizam a violência. São utilizados para inverter a ordem moral. A depravação torna-se moralidade. As atrocidades tornam-se heroísmo. O crime torna-se justiça. O ódio torna-se virtude. A ganância e o nepotismo tornam-se virtudes cívicas. O assassinato torna-se bem. A guerra é a estética final. É isso que está para vir.

“Precisamos de ter uma determinação férrea”, disse o estratega político conservador Steve Bannon no seu  programa  “War Room”, acrescentando: “Charlie Kirk é uma vítima da guerra. Estamos em guerra neste país. Estamos.”

“Se não nos deixarem em paz, então a nossa escolha é lutar ou morrer”,  escreveu  Elon Musk no X.

“Toda a direita precisa de se unir. Já chega desta treta da luta interna. Estamos a enfrentar forças demoníacas vindas do inferno”,  escreveu  o comentador e autor Matt Walsh no X. “Deixem as quezílias pessoais de lado. Agora não é o momento. Isto é existencial. Uma luta pela nossa própria existência e pela existência do nosso país.”

O congressista republicano Clay Higgins  escreveu  que usará "a autoridade do Congresso e toda a influência com grandes plataformas tecnológicas para determinar o banimento imediato e vitalício de qualquer publicação ou comentário que menospreze o assassinato de Charlie Kirk..." Afirma ainda: "Também estou a atacar as suas licenças e autorizações comerciais, os seus negócios serão colocados em listas negras agressivas, devem ser expulsos de todas as escolas e as suas cartas de condução devem ser revogadas. Basicamente, vou cancelar com extremo preconceito estes animais malignos e doentes que celebraram o assassinato de Charlie Kirk."

O cofundador da Palantir, Joe Lonsdale,  aproveitou  a morte de Kirk para defender o derrube da "aliança vermelho-verde" dos "comunistas e islâmicos", que, segundo ele, se uniram para destruir a civilização ocidental. Propõe uma aplicação onde os cidadãos podem publicar fotos de crimes e sem-abrigo em troca de "reembolsos no imposto predial".

O comediante de extrema-direita Sam Hyde, que tem quase meio milhão de seguidores no X,  escreveu  em resposta ao anúncio de Trump sobre a morte de Kirk que é: "Hora de fazer o seu trabalho e tomar o poder... se quer ser mais do que uma nota de rodapé na secção 'Colapso Americano' dos livros de história do futuro, é agora ou nunca." No seu tweet, marca membros do governo e contratantes militares privados.

O ator conservador James Woods  alertou : "Caros esquerdistas: podemos ter uma conversa ou uma guerra civil. Mais um tiro da vossa parte e não voltarão a ter essa escolha." O seu tweet foi republicado por quase 20.000 pessoas, recebeu 4,9 milhões de visualizações e mais de 96.000 gostos.

Estes são alguns exemplos da série de sentimentos vitriólicos partilhados e aplaudidos por dezenas de milhões de americanos.

A desapropriação da classe trabalhadora, 30 milhões de despedidos devido à desindustrialização, gerou raiva, desespero, deslocação, alienação e fomentou o pensamento mágico. Alimentou teorias da conspiração, um desejo de vingança e uma celebração da violência como purgante para a decadência social e cultural.

Os fascistas cristãos — como Kirk e Trump — aproveitaram-se astutamente deste desespero. Eles atiçaram as brasas. A morte de Kirk vai incendiá-las.

Os dissidentes, os artistas, os gays, os intelectuais, os pobres, os vulneráveis, as pessoas de cor, os que são indocumentados ou que não repetem irreflectidamente a cantilena de um  nacionalismo cristão pervertido  , serão condenados como contaminantes humanos a extirpar do corpo político. Tornar-se-ão, como em todas as sociedades doentes, vítimas sacrificiais na vã tentativa de alcançar a renovação moral e de recuperar a glória e a prosperidade perdidas.

A canibalização da sociedade, uma tentativa fútil de recriar uma América mítica, acelerará a desintegração. A embriaguez da violência — muitos dos que reagiram à morte de Kirk pareciam eufóricos com um banho de sangue iminente — autoalimentar-se-á como uma tempestade de fogo.

O mártir é vital para a cruzada, neste caso, livrar a América daqueles a quem Trump chama "esquerda radical".

Os mártires são homenageados em cerimónias e atos de memória para lembrar os seus seguidores da retidão da causa e da perfídia daqueles que são responsabilizados pela sua morte. Foi o que Trump fez quando chamou a Kirk "um mártir da verdade e da liberdade" numa mensagem vídeo a  10 de setembro , concedeu a Kirk a Medalha Presidencial da Liberdade e ordenou que as bandeiras fossem colocadas a meia haste até domingo. É por isso que o caixão de Kirk será  levado de volta  para Phoenix, no Arizona, no Força Aérea Dois.

Kirk foi um exemplo perfeito do nosso emergente  fascismo cristão . Propagava  a Teoria da Grande Substituição, que afirma que os liberais ou "globalistas" permitem a entrada de imigrantes não brancos no país para substituir os brancos, distorcendo as tendências imigratórias e transformando-as em conspiração .  Era islamofóbico,  tweetando:  "O islamismo é a espada que a esquerda está a usar para degolar a América"  ​​​​e  que "não é compatível com a civilização ocidental".

Quando a YouTuber infantil Sra. Rachel  disse  "Jesus diz para amar a Deus e amar o próximo como a si mesmo", Kirk  respondeu  que "Satanás citou muitas escrituras" e acrescentou "a propósito, Sra. Rachel, pode querer abrir a sua Bíblia, numa parte menos referenciada da mesma parte das escrituras em Levítico 18, é que deve deitar-se com outro homem e ser apedrejada até à morte".

Exigiu a revogação da Lei dos Direitos Civis de 1964 e  menosprezou  líderes dos direitos civis, como Martin Luther King. Foi depreciativo em relação aos negros: "Se estou a lidar com uma mulher negra imbecil no atendimento ao cliente... ela está lá por causa de ações afirmativas?". Disse que "negros que rondam" estão a atacar   brancos "por diversão". Culpou o movimento Black Lives Matter por "destruir a estrutura da nossa sociedade".

Kirk insistiu que a eleição de 2020 foi  roubada  a Trump. Fundou  a Professor Watchlist  e  a School Board Watchlist  para expurgar professores e docentes com o que chamou de agendas de "esquerda radical". Defendeu  as execuções públicas televisionadas  , que, segundo ele, deveriam ser obrigatórias para as crianças.

A ideia de que defendia a liberdade de expressão e a liberdade é absurda. Era inimigo de ambas.

Kirk, que era um defensor do culto de Trump, personificava a hipermasculinidade que está no cerne dos movimentos fascistas. Esta era talvez a sua principal atração pela juventude, especialmente pelos homens brancos. Afirmava que  havia "uma guerra contra os homens", fetichizava as armas e  vendia Trump aos seus   seguidores como um verdadeiro homem.

“Há muitas formas de chamar Donald Trump”,  escreveu . “Nunca ninguém o chamou de feminino. Trump é um dedo do meio gigante para todos os monitores de corredor que atacavam os jovens por simplesmente existirem. Ele é um grande FODA-SE para o establishment feminista que nunca foi desafiado antes de descer a escada rolante dourada. A maior parte da comunicação social não percebeu isso. Os jovens, não.”

A história mostrou o que vem a seguir. Não será agradável. Kirk, elevado ao martírio, dá aos que procuram extinguir a nossa democracia a licença para matar, tal como Kirk foi morto. Isto remove as poucas restrições que ainda existem para nos proteger do abuso estatal e da violência dos justiceiros. O nome e o rosto de Kirk serão usados ​​para acelerar o caminho para a tirania, como ele teria desejado.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Imagem: Tiro ouvido em todo o mundo – por Mr. Fish (clowncrack.com)

Fonte

Postado por O BÁRBARO às 04:07 

https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2025/09/o-martirio-de-charlie-kirk.html