«As televisões estão cheias de estrategas do cinismo. Compreendem quem se indigna com o que se passa em Gaza, mas acham que é preciso “prudência” (adoram esta palavra). Referem o direito internacional, mas concluem que quem manda, pode mesmo. Acham que tudo é “complexo” (também adoram esta), mas têm muito pouca consideração pelos sinuosos trajetos da história.
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quinta-feira, 2 de outubro de 2025
Miguel Cardina - Os estrategas do cinismo
Domingos Lobo - Toda a Longa Noite, de Erskine Caldwell
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* Domingos LoboErskine Caldwell foi, entre nós, nos anos 1960-70 do século transacto, um dos mais populares escritores
A pretexto do conflito na Ucrânia, a senhora Ursula von der Leyen encetou uma campanha ideológica e persecutória contra Moscovo, criando anátemas inibidores e proibindo, democraticamente, o acesso dos europeus da UE às estações de televisão russas, ou seja, inviabilizando o contraditório e a nossa dialéctica capacidade de análise, e a tudo o que ressumasse cultura vinda do grande país do leste europeu. Tolstoi, Gorky, Gogol, Chólokhov, clássicos da literatura universal, foram ostracizados, a eles juntando músicos da dimensão de Tchaikovski, Rachmaninoff, Shostakovitch, Prokofiev ou Rimsky-Korsakov, vítimas de uma saga miserável de tentativa de banir do nosso convívio a cultura de um povo, e da humanidade em geral, modo perverso de exclusão que nem o fascismo de Salazar/Caetano ousou empreender.
Aquando da publicação entre nós do livro Alma Russa1, de Joseph Conrad, pela Livraria Civilização, em 1945, e proibido pela PIDE em 1947, ainda no rescaldo do inelutável contributo da URSS para a rendição do exército nazi e do fim da guerra, um atento censor, num primeiro impulso de rejeição, elaborou o seguinte relatório: «É um livro de propaganda revolucionária passado ainda no tempo dos Czares. Julgo que deve ser proibido porque este e muitos outros livros que pejam o nosso mercado têm o fim inconvenientíssimo de alimentarem a mística russa.» Ora, este magnífico romance de Conrad nada tem a ver com a Rússia temida pelos fascismos, saída da Revolução de Outubro, passa-se entre um grupo de Cossacos em luta contra a opressão Czarista e desenvolve-se em torno de Razunov, no fundo um rapaz vulgar, mas dotado de uma enorme capacidade de trabalho e de sensibilidade, que o leva a dizer que é russo apenas, e mais nada, a indómita vontade, a moral de Razunov e a sua luta contra as injustiças farão dele, e dos seus camaradas de jornada, a encarnação da Alma Russa.
Do escritor americano Erskine Caldwell acaba de ser publicado, numa pequena edição já praticamente esgotada, pela mão do editor Leonardo de Freitas, um dos seus títulos mais emblemáticos, o qual foi publicado em Portugal, antes do 25 de Abril, sob o título «Guerrilheiros Russos», edição que, no entanto, foi censurada pelo fascismo. Trata-se de Toda a Longa Noite (All Night Long). Erskine Claldwell foi, entre nós, nos anos 1960-70 do século transacto, um dos mais populares escritores, com títulos como A Estrada do Petróleo, A Jeira de Deus, O Pregador e Certas Mulheres, sendo uma das grandes e inquestionáveis vozes do neo-realismo norte americano.
O seu romance Toda a Longa Noite traça o retrato poderoso e realista da saga dos partisans russos, em defesa da sua Pátria contra o terror nazi. A 22 de Junho de 1941, três milhões de tropas nazis invadiram a União Soviética. Juntamente com o Exército Vermelho, milhares de patriotas, gente simples do povo, trabalhadores dos campos e das oficinas, encetaram uma luta comum contra o poderoso exército de Hitler, impedindo chacinas, violação de mulheres, fuzilamentos bárbaros (p. ex., passando com os tanques sobre os corpos da população indefesa), roubos e destruição de aldeias inteiras, fuzilando os presidentes do Soviete, exibindo nas praças as mulheres nuas depois de as violarem. Havia dúzias e dúzias de brigadas de partisans a oeste do rio Dniepre, e centenas entre o Báltico e o Mar Negro. Algumas das brigadas situadas entre Smolensk e Minsk tinham proporções de regimentos. No longo Inverno Russo, a acção conjugada dos partisans foi fundamental para impedir ou minorar a progressão das tropas hitlerianas, boicotando equipamento, destruindo camiões de abastecimento, libertando mulheres, crianças e velhos sequestrados pelos nazis.
Erskine Caldwell afirma-se neste livro como um exímio narrador e um corajoso e intenso historiador social, rendido à força e à determinação de um grupo de guerrilheiros, os quais, quase sem meios, enfrentaram a besta fascista: Sérgio, tal como Razunov, é um típico homem do povo russo, um campónio cândido, forte, obstinado, movido pelos impulsos perenes da alma russa a que os valores soviéticos deram um novo vigor. Tal como os seus companheiros de luta, Natacha, Fedor, Pavlenko ou Maria Makarova, parecem, na prosa poderosa e sagaz de Caldwell, personagens históricas arrancadas das páginas de Tolstoi, Gogol ou Gorki.
Leonardo de Freitas, com escassos meios, não quis deixar de trazer para os nossos dias este grande épico, sabendo-o imprescindível para os complexos tempos em que o ódio ao outro campeia, inexorável e sem cautelas, junto com a ignorância, mesmo que numa tradução brasileira pouco cuidada, de 1942.
João Manso Pinheiro - «E agora, José?» Centenário de Cardoso Pires
* João Manso Pinheiro
Cardoso Pires não era um escritor que servisse às lógicas ansiosas e vorazes do mercado
Cardoso Pires não era um escritor que servisse às lógicas ansiosas e vorazes do mercado (algo que, ainda em vida, muito o prejudicava1). Embora escrevesse com grande voracidade, empenhando-se dias a fio neste seu trabalho, os acessos criativos só o acometiam de tempos a tempos, abrindo longos intervalos na sua obra publicada, especialmente no que toca aos romances: entre O Delfim (1968) e a Balada da Praia dos Cães (1982) decorrem 14 anos (e uma Revolução). Era, afinal de contas, um “escritor bissexto”.
A insatisfação quase permanente com o projecto em mãos leva-o a produzir várias versões de uma mesma obra, rasurando, apagando, destruindo, desviando, perseguindo, acrescentando, de correcção em correcção até à impressão final. Este processo minucioso resultava numa «prosa muito limpa, talvez a mais limpa ou mondada que hoje temos»2 (afirmação proferida pelo professor Óscar Lopes em 1963, por ocasião da entrega do Prémio Camilo Castelo Branco a Cardoso Pires, e que não perdeu nenhuma da sua actualidade), apenas possível nas mãos de um autor que considerava um dia produtivo aquele em que apagava mais de 3 mil palavras.
Para além do romance (Alexandra Alpha, de 1987, merece também destaque), José Cardoso Pires foi ainda cronista, ensaísta e contista. A sua primeira colecção de contos, Os Caminheiros e Outros Contos, de 1949 (financiada por Alves Redol, Mário Dionísio, entre outros), denota ainda as suas primordiais influências neo-realistas, um género que nunca chega realmente a abandonar, integrando este registo no seu estilo particular. Ainda que considerasse o trabalho literário da maior parte dos livros neo-realistas «mau», por mais de uma vez afirmou que foi este movimento que, em Portugal, «promoveu a libertação da língua», limpando a prosa e os caminhos para várias gerações de novos escritores.
Após a publicação da colecção de contos Cartas de Amor, em 1952, acaba por ser detido pela PIDE, que apreende as edições dos seus dois livros publicados. A polícia política do fascismo conhece-o como «fonte de informação da política e sociologia actuante no sector intelectual do PCP; transmissor de livros proibidos, manifestos de intelectuais e de publicações públicas e particulares de órgãos de partidos comunistas estrangeiros ou de intelectuais portugueses».
O seu compromisso com a luta e resistência antifascista afirma-se antes, e depois, do 25 de Abril de 1974, no qual participa activamente. No dia seguinte à Revolução, dirige-se à prisão de Caxias como parte integrante da Comissão de Apoio aos Presos Políticos.
Nascido a 2 de Outubro de 1925, em Vila de Rei, Beira Baixa, há exactamente 100 anos, cedo Cardoso Pires torna a Lisboa, cidade que faz sua, a única que «verdadeiramente conhece» em todo o País. O «grande fascínio» que sente pela capital (com excepção da Av. Almirante Reis) está espelhado na sua última obra – Lisboa, Livro de Bordo (1997).
José Cardoso Pires morreu aos 73 anos, em 1998, na sequência de um segundo AVC. O primeiro inspirara De Profundis, Valsa Lenta (1997), em que o autor confronta as suas novas limitações impostas pelo acidente vascular. Portugal ficou, definitivamente, um país mais “mal frequentado”.
1 https://www.youtube.com/watch?v=qw198mu5Xs0&t=2550s – Grande Entrevista RTP, 1997
2 https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/EFEMERIDES/josecardosopires/Recensoes/OHospededeJob/Premio/Vertice_N248-249_MaiJun1964_0364-0367.pdf
https://www.avante.pt/pt/2705/argumentos/181201/%C2%ABE-agora-Jos%C3%A9%C2%BB-Centen%C3%A1rio-de-Cardoso-Pires.htm
hélder moura - (551) Histórias da carochinha …
Tudo agora parece uma guerra em que vale tudo. O que acontece é que parece que sempre tem sido assim, cá dentro e lá fora.
A história americana está repleta de exemplos de comportamentos presidenciais pouco sérios em relação à Constituição, Napolitano.
Deus voltou-se de costas e chorou, Zizek.
As máquinas mandam nas casas, nas fábricas, nos escritórios, nos seus escritórios, nas plantações agrícolas, nas minas e nas ruas das cidades, onde nós peões somos incómodos que perturbam o trânsito, Galeano.
Do futebol à política (não que sejam assim tão diferentes), temos vindo a assistir treinadores a utilizarem como incentivos para melhorar a atuação dos seus jogadores, expressões/conteúdos como “Força, vamo-nos a eles, vamos matá-los!”, a comentadores desportivos a relatarem “Que grande tiro!”, “Um autêntico míssil”, “Fuzilou a baliza”, a epítetos altamente injuriosos “!!!” dirigidos aos adversários/inimigos berrados pelas claques com seus filhos ao lado, talvez com a piedosa intenção para que a educação seja convenientemente passada à geração seguinte e que assim mantenha aquelas caraterísticas rácicas que tão bem nos definem tentando deste modo compensarem um esquecimento ou engano da Criação, aos inocentes e cada vez mais repetidos separadores televisivos com o hino nacional a ser cantado pelos desportistas mais reconhecidos “Contra os canhões, marchar, marchar!” transformando um simples jogo num combate que inevitavelmente conduzirá à morte, aos desvarios estudados dos políticos que não se coibindo alto e bom som querem mandar para a prisão todos os adversários que não gostam numa imitação provinciana e desajeitada do amigo americano, esse sim que pelo menos é presidente e tem forças armadas.
Tudo isto e muito mais faz com que haja quem pense que atualmente se vive num mundo muito violento, sem regras, muito “polarizado”, em que as pessoas se agridem e insultam umas às outras, sem qualquer respeito umas pelas outras.
Tudo agora parece uma guerra em que vale tudo. Acontece que parece que sempre tem sido assim, cá dentro e lá fora.
Atente-se, por exemplo, no que nos diz o juiz americano do Supremo Tribunal de New Jersey, Andrew Napolitano:
“Quando os monarcas britânicos se queriam ver livres de adversários inconvenientes, acusavam-nos frequentemente de crimes vagos, pois podiam definir o crime da forma que bem entendessem. São Tomás More, ex-Lorde Chanceler de Henrique VIII, foi executado pelo seu silêncio. O alvo do monarca recebia um julgamento rápido e, em seguida, frequentemente uma morte pública lenta e excruciante – para enviar uma mensagem.
Cientes dos impulsos tirânicos dos monarcas e familiarizados com a história britânica, e até mesmo pessoalmente conscientes de pessoas nas colónias acusadas de crimes em Londres – onde nunca tinham estado – e transportadas para lá para serem processadas, Thomas Jefferson e James Madison, os Pais Fundadores mais responsáveis por cristalizar o ethos americano dos direitos naturais e do devido processo legal, elaboraram documentos fundadores que articulavam condenações e proibições de tirania e comportamento tirânico nos Estados Unidos.
Assim, as palavras de Jefferson na Declaração de Independência caracterizam os direitos humanos como uma dádiva do Criador, que não pode ser retirada por decreto executivo ou promulgação legislativa – mas apenas por um veredicto do júri.
E as palavras de Madison na Quinta Emenda da Constituição declaram que "nenhuma pessoa será... privada da vida, da liberdade ou da propriedade sem o devido processo legal". O uso da palavra "pessoa" torna óbvio que o devido processo legal se aplica a todos os seres humanos.
O devido processo legal exige um julgamento justo por júri, com advogado e a oportunidade de confrontação de testemunhas e provas produzidas pelo governo. Exige também prova de culpa para além de qualquer dúvida razoável e com certeza moral perante um júri neutro, e não perante o acusador. E exige a condenação antes da imposição de uma pena prescrita por lei.
Isto era novo e radical em 1791, quando a Declaração dos Direitos foi ratificada, mas não é novo nem radical hoje. Hoje, o devido processo legal é a base do direito americano. É o que os advogados chamam a lei da letra preta: espera-se que aqueles que estão no governo a conheçam, a compreendam e a cumpram.”
E Napolitano continua:
“A história americana está repleta de exemplos de comportamentos presidenciais pouco sérios em relação à Constituição. John Adams processou pessoas pelos seus discursos. Abraham Lincoln prendeu os seus críticos sem julgamento. Woodrow Wilson processou estudantes por lerem a Declaração de Independência à porta dos gabinetes de recrutamento. Franklin Roosevelt encarcerou americanos com base na raça. George W. Bush iniciou a vigilância em massa sem mandado. Barack Obama assassinou americanos não violentos e sem acusação no Iémen.
Alguma coisa disto aumentou a liberdade pessoal ou a segurança pública? Claro que não. Mas aumentou o medo público de um tirano na Casa Branca.
O valor constitucional subjacente é que os indivíduos são soberanos e o governo é limitado. Esta é a presunção unânime dos Fundadores na criação da República Americana. Os indivíduos são livres de exercer direitos naturais, e o governo é limitado pelo consentimento dos governados e pela Constituição que o definiu e, seguindo Jefferson, o acorrentou.
E isto exige que aqueles em cujas mãos depositamos a Constituição para salvaguarda a leiam, a compreendam e a cumpram — e cumpram os seus juramentos de a preservar, proteger e defender.”
Atente-se também no que nos diz Slavoj Zizek, quando, de uma forma ligeira e divertida, nos vai chamar a atenção para o facto de as sociedades consideradas como as mais desenvolvidas da nossa época, serem muito idênticas no que se refere ao tipo e aos métodos de desenvolvimento que prosseguem. Todas elas seguem sistemas económicos capitalistas, cada vez mais assentes na vigilância e direção eletrónica consentida ou não dos seus cidadãos, numa construção totalitária devidamente articulada, em maior ou menor grau, entre empresas privadas e estado.
Conta-nos então uma anedota que corria nos tempos da guerra fria, passada entre Richard Nixon dos EUA, Leonid Brezhnev da URSS e Eric Honecker da RDA, quando resolveram interrogar Deus para saberem qual seria o futuro reservado para os seus respetivos países.
Em resposta, Deus disse a Nixon: “No ano 2050, os EUA serão comunistas.” Nixon voltou-se de costas e começou a chorar. A Brezhnev, Deus disse: “No ano 2050, a União Soviética será uma província da China.” Brezhnev voltou-se de costas e começou a chorar. E finalmente Honecker perguntou: “E o que acontecerá à minha amada RDA?” Deus voltou-se de costas e começou a chorar.
Zizek vai depois transportar esta anedota para a atualidade, agora com novos personagens, desta vez com Putin, o presidente chinês Xi Jinping e Donald Trump. Eis a resposta de Deus para Putin: “A Rússia estará controlada pela China”. Putin voltou-se de costas e chorou. Para Xi, Deus disse: “A China continental será dominada por Taiwan”. Xi voltou-se de costas e chorou. E quando Trump faz a mesma pergunta sobre os EUA, Deus voltou-se de costas e chorou.
E já agora, relembrar a “Brevíssima Síntese da História Contemporânea” de Galeano:
“Há já uns séculos que os súbditos se disfarçaram de cidadãos e que as monarquias se preferem chamar repúblicas.
As ditaduras locais, que se dizem democracias, abrem as portas à entrada avassaladora do mercado universal. Neste mundo, reino dos livres, somos todos um só. Mas somos um ou somos nenhum? Compradores ou comprados? Vendedores ou vendidos? Espiões ou espiados?
Vivemos presos entre garras invisíveis, atraiçoados pelas máquinas que simulam obediência e mentem, com cibernética impunidade, ao serviço dos seus patrões.
As máquinas mandam nas casas, nas fábricas, nos escritórios, nos seus escritórios, nas plantações agrícolas, nas minas e nas ruas das cidades, onde nós peões somos incómodos que perturbam o trânsito. E as máquinas mandam também nas guerras, onde matam tanto ou mais que os guerreiros fardados.”
domingo, 28 de setembro de 2025
Antonio Gnoli - Retrato de Claudia Cardinale
Postado por Fany / Raffaella Spinazzi
(Tradução automática, sem revisão do texto)
Jaime Nogueira Pinto - Claudia Cardinale (1938-2025)
O desaparecimento de Claudia
Cardinale lembra-nos o muito que nos trouxe e ao cinema e damos graças pelo dom
da vida e pelo que de bom e de belo constantemente se cruza connosco e nos toca
neste mundo
27 set. 2025
Quando comecei a ver cinema (a
“ir ao cinema”, como se dizia), o cinema italiano era um grande cinema, para
não dizer o grande cinema. A começar pelos realizadores, os Visconti, os
Fellini, os Pasolini, os Antonioni, os Monicelli, os Risi, os Rossellini, os De
Sica, criadores admiráveis em todos os géneros, da comédia mais divertida à
tragédia mais shakespeariana.
Mas para nós, miúdos, muito mais
do que os realizadores, que até à adolescência nos passavam relativamente
despercebidos, impressionavam-nos os actores – um cómico admirável, como
Antonio de Curtis, Totó, um actor genial para papéis mais sérios,
como Marcelo Mastroianni, ou alguém preparado para todos os géneros, como
Vittorio Gassman. E mais ainda que os actores, fascinavam-nos as actrizes.
Estávamos no Portugal dos anos
1960, a sair da Igreja pré-conciliar de Pio XII, e as nossas “referências
artísticas” eram americanas (como a Marilyn Monroe, a Rita Hayworth ou a Ava
Gardner, que víamos nos filmes e nas páginas do Século Ilustrado),
francesas (como a Brigitte Bardot de Et Dieu créa la
femme ou a Catherine Deneuve de Belle de Jour) e
italianas (como a Silvana Mangano, a Sofia Loren, a Gina Lollobrigida, a
Monica Vitti… e a Claudia Cardinale).
Claudia Cardinale era uma
italiana nascida na Tunísia, então um domínio francês, onde, com 19 anos,
ganhara um concurso de beleza. O primeiro prémio dava direito a uma semana em
Veneza com acompanhante. Claudia levou a mãe e voltou para a Tunísia. Estávamos
em 1957. Não passou um ano até que saísse da Tunísia para o grande écran,
com I Soliti Ignoti, de Mario Monicelli.
Era o começo. Em 1960, estava
em Rocco e i Suoi Fratelli, de Visconti, com Alain Delon, em
61 era La Ragazza con la Valigia no filme de Valerio Zurlini,
e em 63 dava corpo à Ragazza di Bube, de Luigi Comencini. No
mesmo ano, Visconti voltava a escolhê-la, desta vez para desempenhar o papel de
Angelica em Il Gattopardo. Angelica era a bela filha do
burguês Dom Calogero Sedara, parte do exercício de transição política e social
que “o Leopardo”, o príncipe de Salina (Burt Lancaster), vai protagonizar para
que a estrutura social não sofra muitos abalos com a passagem da monarquia
tradicionalista dos Bourbon-Duas Sicílias para a monarquia liberal e
revolucionária dos Saboia.
São raros os grandes filmes de
grandes livros, ou da adaptação de grandes livros, vá-se lá a saber porquê…
Talvez porque os livros falem outra linguagem, mais intimista, centrada na
palavra e deixando a imaginação visual à solta, e o cinema encontre o seu
encanto sobretudo na imagem, no movimento, na acção, num apelo mais directo aos
sentidos. Por alguma razão nem as adaptações francesas de Le
Rouge et le Noir ou de La Chartreuse de Parme, de
Stendahl, resultaram em grandes filmes, nem os livros que serviram de guião aos
geniais tratados do poder e da condição humana que são Os Padrinhos de
Coppola eram obras-primas.
Il Gattopardo, de
Lampedusa, é uma excepção. É um romance admirável que, pela mão de Visconti,
inspira um filme admirável. Livro e filme são obras diferentes e assumem essa
diferença. Visconti, ao sabor do seu tempo, da sua arte e da sua condição de
aristocrata-comunista, faz uma leitura marxista do romance de Lampedusa, a
narrativa nostálgica da viagem à Sicília do aristocrata Giuseppe Tomasi de
Lampedusa à procura de um tempo perdido.
Claudia Cardinale veste bem a
pele de Angelica, a filha de Dom Calogero (Paolo Stoppa), o burguês em ascensão
social que, nas terras feudais dos Salina, ajuda a evitar a revolução que a
sucessão dos “homens novos” aos aristocratas e o fim do Ancien Régime podia
provocar. Visconti encerra o filme com Claudia Cardinale a rodopiar no salão
dos Salina nos braços do patriarca, um Burt Lancaster que nos tínhamos
habituado a ver nas fitas americanas como trapezista, pirata, cowboy ou
até índio (no Último Apache), mas que o realizador italiano se
atreve a transformar no aristocrata nostalgicamente maquiavélico que muda o que
for preciso (o acessório) para que o essencial (a propriedade dos meios de
produção – segundo Visconti, conde de Lonate Pozzolo, com casa em Milão, cheia
de criadagem e dois chefs de cozinha, segundo o amigo e rival
Fellini) continue na mesma. E sim, o filme é diferente do livro também no
essencial.
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A versatilidade de Claudia
Cardinale não será menor do que a do trapezista, pirata, cowboy, índio e
príncipe, Burt Lancaster. Em 1968, em Hollywood, vai protagonizar entre
vaqueiros, caminhos-de-ferro, maus muito maus (Henry Fonda) e um bom com cara
de mau (Charles Bronson) Aconteceu no Oeste, um filme de Sergio
Leone, que trabalhara com mestres como Vittorio de Sica e Luigi Comencini e se
lançara nos chamados Western Spaghetti com fitas como Por um Punhado
de Dólares e O Bom, o Mau e o Vilão.
Contrastando em quase tudo com a
Angélica de O Leopardo, Claudia é, em Once Upon a Time in
the West, Jill McBain, uma mulher de vida fácil (ou difícil) de Nova
Orleães que vem para a terra onde se passa a acção porque casa com o homem que
é assassinado, com a família, logo no princípio da história. E desce, linda e
feliz, do comboio, para enfrentar o que der e vier.
Vi este Aconteceu no
Oeste num dia que é sempre inesquecível: o dia seguinte ao do último
exame da época; o dia ou a noite em que, pela primeira vez depois de um tempo
de grande azáfama e sofrimento, em pleno Verão, estamos livres, soltos e
podemos jantar bem e ir ao cinema.
Pude, por isso, apreciar mais
ainda a beleza da Cardinale, ajudado pela música de Ennio Morricone e por
aqueles desfechos típicos dos Westerns, com os maus a serem
punidos e tudo a acabar bem.
E vi-a em muitas outras fitas –
como Claudia, no 8 ½ de Fellini, como dona de uma casa de
passe, no Fitzcarraldo de Werner Herzog, como chefe de
quadrilha em Les Petroleuses, de Christian-Jacques (que
juntava na mesma quadrilha Bardot e Cardinale, BB e CC). Vi-a sempre
bela, como princesa Dala na Pantera Cor de Rosa sempre bem,
ainda na tela ou já a sair de cena e a envelhecer.
Dizem que em 1967, na Basílica de
S. Pedro (Paulo VI quisera receber um grupo de actrizes italianas), o
Papa conversou alguns minutos a sós com ela e Claudia saiu a chorar.
Especula-se que teriam falado do que lhe acontecera aos 17 anos: a violação, a
hesitação em abortar e a decisão de ter o filho, o seu Patrick, que o futuro
marido, Franco Cristaldi, iria perfilhar.
O desaparecimento de Claudia
Cardinale lembra-nos o muito que nos trouxe e ao cinema, a sua forma única de
passar pelo tempo. E lembra-nos também aquilo de que muitas vezes nos
esquecemos: de dar graças pelo dom da vida e pelo que de bom e de belo constantemente
se cruza connosco e nos toca neste mundo. Que descanse em paz.


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