quinta-feira, 2 de outubro de 2025

Miguel Cardina - Os estrategas do cinismo

* Miguel Cardina

 «As televisões estão cheias de estrategas do cinismo. Compreendem quem se indigna com o que se passa em Gaza, mas acham que é preciso “prudência” (adoram esta palavra). Referem o direito internacional, mas concluem que quem manda, pode mesmo. Acham que tudo é “complexo” (também adoram esta), mas têm muito pouca consideração pelos sinuosos trajetos da história.   


Num passado muito recente, os estrategas do cinismo contestavam a utilização do termo "genocídio", porque uma coisa é dizimar um povo e outra é *querer* dizimar um povo. Ontem ouvimo-los de novo: "a flotilha não é humanitária porque não vai resolver o problema da fome em Gaza", disse o cínico moderado. "Tudo aquilo é simbólico", determinou o cínico literal. "Pior: é um frete ao Hamas!", vociferou o cínico radical. "Ou uma estratégia para arranjar um emprego futuro", escreveu o cínico empreendedor. "É preciso não ver o mundo a preto e branco e contemplar toda a sua intrigante palete de cinzentos", afirmou o cínico ponderado.

Ontem de manhã, Luís Montenegro vestiu a pele de cínico retórico. Temendo que a palavra “missão” lhe queimasse o sorriso sibilino, falou de uma – breve pausa dramática – “intervenção”, de uma – outra micro-pausa dramática – “iniciativa”. À noite, o ministro Rangel assumiu a pose do cínico dissimulado: foi às televisões dizer que os serviços consultares estão a seguir o assunto com proximidade, polemizou com Mariana Mortágua, falou da democracia em Israel e afirmou que a flotilha “optou” por chegar na véspera do feriado religioso do Yom Kippur. Só lhe faltou mesmo dizer que os atrasos a que a flotilha foi sujeita, com ataques de drones e avarias várias, foram autoinfligidos e que toda a operação não passa, no fundo, de uma disfarçada ação antissemita.

Na Grécia Antiga, os velhos cínicos desprezavam a opinião pública, as convenções e o poder. O mundo dá voltas e as palavras mudam de significado. Hoje, os estrategas do cinismo são os apóstolos do poder realmente existente e a voz gourmetizada de muito do que se escreve nas redes sociais. Se agora o vemos melhor, devemo-lo também à ação corajosa de quem integra a flotilha humanitária. Gente que combate a resignação e a hipocrisia e que merece, por isso, toda a nossa mobilização para exigirmos a sua libertação imediata e todo o nosso empenho - mesmo em pequeníssima escala - para que se pare o genocídio e se ajude a concretizar o velho sonho de uma Palestina livre.»   

Miguel Cardina no Facebook
https://entreasbrumasdamemoria.blogspot.com/2025/10/os-estrategas-do-cinismo.htm 

Domingos Lobo - Toda a Longa Noite, de Erskine Caldwell

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* Domingos Lobo

Ers­kine Caldwell foi, entre nós, nos anos 1960-70 do sé­culo tran­sacto, um dos mais po­pu­lares es­cri­tores


A russofobia, que as direitas de todos os quadrantes exibem com alarde, sem vergonha nem memória, nesta Europa a soldo do império e navegando à bolina num barco onde os ratos já dominam a gávea e roem lentamente os porões, já vem de longe, tem mais de um século, com brevíssimos intervalos de cínico apaziguamento, depois da Pátria dos Sovietes ter vencido, a custo de 25 milhões dos seus filhos, a barbárie nazi de Hitler.

A pre­texto do con­flito na Ucrânia, a se­nhora Ur­sula von der Leyen en­cetou uma cam­panha ide­o­ló­gica e per­se­cu­tória contra Mos­covo, cri­ando aná­temas ini­bi­dores e proi­bindo, de­mo­cra­ti­ca­mente, o acesso dos eu­ro­peus da UE às es­ta­ções de te­le­visão russas, ou seja, in­vi­a­bi­li­zando o con­tra­di­tório e a nossa di­a­léc­tica ca­pa­ci­dade de aná­lise, e a tudo o que res­su­masse cul­tura vinda do grande país do leste eu­ropeu. Tolstoi, Gorky, Gogol, Chó­lokhov, clás­sicos da li­te­ra­tura uni­versal, foram os­tra­ci­zados, a eles jun­tando mú­sicos da di­mensão de Tchai­kovski, Ra­ch­ma­ni­noff, Shos­ta­ko­vitch, Pro­ko­fiev ou Rimsky-Kor­sakov, ví­timas de uma saga mi­se­rável de ten­ta­tiva de banir do nosso con­vívio a cul­tura de um povo, e da hu­ma­ni­dade em geral, modo per­verso de ex­clusão que nem o fas­cismo de Sa­lazar/​Ca­e­tano ousou em­pre­ender.

Aquando da pu­bli­cação entre nós do livro Alma Russa1, de Jo­seph Conrad, pela Li­vraria Ci­vi­li­zação, em 1945, e proi­bido pela PIDE em 1947, ainda no res­caldo do ine­lu­tável con­tri­buto da URSS para a ren­dição do exér­cito nazi e do fim da guerra, um atento censor, num pri­meiro im­pulso de re­jeição, ela­borou o se­guinte re­la­tório: «É um livro de pro­pa­ganda re­vo­lu­ci­o­nária pas­sado ainda no tempo dos Czares. Julgo que deve ser proi­bido porque este e muitos ou­tros li­vros que pejam o nosso mer­cado têm o fim in­con­ve­ni­en­tís­simo de ali­men­tarem a mís­tica russa.» Ora, este mag­ní­fico ro­mance de Conrad nada tem a ver com a Rússia te­mida pelos fas­cismos, saída da Re­vo­lução de Ou­tubro, passa-se entre um grupo de Cos­sacos em luta contra a opressão Cza­rista e de­sen­volve-se em torno de Ra­zunov, no fundo um rapaz vulgar, mas do­tado de uma enorme ca­pa­ci­dade de tra­balho e de sen­si­bi­li­dade, que o leva a dizer que é russo apenas, e mais nada, a in­dó­mita von­tade, a moral de Ra­zunov e a sua luta contra as in­jus­tiças farão dele, e dos seus ca­ma­radas de jor­nada, a en­car­nação da Alma Russa.

Do es­critor ame­ri­cano Ers­kine Caldwell acaba de ser pu­bli­cado, numa pe­quena edição já pra­ti­ca­mente es­go­tada, pela mão do editor Le­o­nardo de Freitas, um dos seus tí­tulos mais em­ble­má­ticos, o qual foi pu­bli­cado em Por­tugal, antes do 25 de Abril, sob o tí­tulo «Guer­ri­lheiros Russos», edição que, no en­tanto, foi cen­su­rada pelo fas­cismo. Trata-se de Toda a Longa Noite (All Night Long). Ers­kine Claldwell foi, entre nós, nos anos 1960-70 do sé­culo tran­sacto, um dos mais po­pu­lares es­cri­tores, com tí­tulos como A Es­trada do Pe­tróleoA Jeira de DeusO Pre­gador Certas Mu­lheres, sendo uma das grandes e in­ques­ti­o­ná­veis vozes do neo-re­a­lismo norte ame­ri­cano.

O seu ro­mance Toda a Longa Noite traça o re­trato po­de­roso e re­a­lista da saga dos par­ti­sans russos, em de­fesa da sua Pá­tria contra o terror nazi. A 22 de Junho de 1941, três mi­lhões de tropas nazis in­va­diram a União So­vié­tica. Jun­ta­mente com o Exér­cito Ver­melho, mi­lhares de pa­tri­otas, gente sim­ples do povo, tra­ba­lha­dores dos campos e das ofi­cinas, en­ce­taram uma luta comum contra o po­de­roso exér­cito de Hi­tler, im­pe­dindo cha­cinas, vi­o­lação de mu­lheres, fu­zi­la­mentos bár­baros (p. ex., pas­sando com os tan­ques sobre os corpos da po­pu­lação in­de­fesa), roubos e des­truição de al­deias in­teiras, fu­zi­lando os pre­si­dentes do So­viete, exi­bindo nas praças as mu­lheres nuas de­pois de as vi­o­larem. Havia dú­zias e dú­zias de bri­gadas de par­ti­sans a oeste do rio Dni­epre, e cen­tenas entre o Bál­tico e o Mar Negro. Al­gumas das bri­gadas si­tu­adas entre Smo­lensk e Minsk ti­nham pro­por­ções de re­gi­mentos. No longo In­verno Russo, a acção con­ju­gada dos par­ti­sans foi fun­da­mental para im­pedir ou mi­norar a pro­gressão das tropas hi­tle­ri­anas, boi­co­tando equi­pa­mento, des­truindo ca­miões de abas­te­ci­mento, li­ber­tando mu­lheres, cri­anças e ve­lhos se­ques­trados pelos nazis.

Ers­kine Caldwell afirma-se neste livro como um exímio nar­rador e um co­ra­joso e in­tenso his­to­ri­ador so­cial, ren­dido à força e à de­ter­mi­nação de um grupo de guer­ri­lheiros, os quais, quase sem meios, en­fren­taram a besta fas­cista: Sérgio, tal como Ra­zunov, é um tí­pico homem do povo russo, um cam­pónio cân­dido, forte, obs­ti­nado, mo­vido pelos im­pulsos pe­renes da alma russa a que os va­lores so­vié­ticos deram um novo vigor. Tal como os seus com­pa­nheiros de luta, Na­tacha, Fedor, Pa­vlenko ou Maria Ma­ka­rova, pa­recem, na prosa po­de­rosa e sagaz de Caldwell, per­so­na­gens his­tó­ricas ar­ran­cadas das pá­ginas de Tolstoi, Gogol ou Gorki.

Le­o­nardo de Freitas, com es­cassos meios, não quis deixar de trazer para os nossos dias este grande épico, sa­bendo-o im­pres­cin­dível para os com­plexos tempos em que o ódio ao outro cam­peia, ine­xo­rável e sem cau­telas, junto com a ig­no­rância, mesmo que numa tra­dução bra­si­leira pouco cui­dada, de 1942.

 

1E­dição fac-si­mi­lada, a partir da 1ª. edição. Co­lecção Bi­bli­o­teca da Cen­sura, Jornal “Pú­blico” /A Bela e o Monstro

https://www.avante.pt/pt/2705/argumentos/181200/Toda-a-Longa-Noite-de-Erskine-Caldwell.htm


João Manso Pinheiro - «E agora, José?» Centenário de Cardoso Pires


* João Manso Pinheiro  

Car­doso Pires não era um es­critor que ser­visse às ló­gicas an­si­osas e vo­razes do mer­cado


José Cardoso Pires foi um dos maiores romancistas da língua portuguesa do século XX (uma generalização a que se recorre de modo a não comprar qualquer guerra literária). Apesar disso, como outros tantos (José Rodrigues Miguéis é um bom exemplo), por largos anos, era mais fácil encontrá-lo nas estantes de bibliotecas municipais e alfarrabistas (foi definitivamente republicado apenas em 2015), espaços de silêncio que, bem vistas as coisas, até eram os mais apropriados para um homem que procurava a “solidão”.

Car­doso Pires não era um es­critor que ser­visse às ló­gicas an­si­osas e vo­razes do mer­cado (algo que, ainda em vida, muito o pre­ju­di­cava1). Em­bora es­cre­vesse com grande vo­ra­ci­dade, em­pe­nhando-se dias a fio neste seu tra­balho, os acessos cri­a­tivos só o aco­me­tiam de tempos a tempos, abrindo longos in­ter­valos na sua obra pu­bli­cada, es­pe­ci­al­mente no que toca aos ro­mances: entre O Delfim (1968) e a Ba­lada da Praia dos Cães (1982) de­correm 14 anos (e uma Re­vo­lução). Era, afinal de contas, um “es­critor bis­sexto”.

A in­sa­tis­fação quase per­ma­nente com o pro­jecto em mãos leva-o a pro­duzir vá­rias ver­sões de uma mesma obra, ra­su­rando, apa­gando, des­truindo, des­vi­ando, per­se­guindo, acres­cen­tando, de cor­recção em cor­recção até à im­pressão final. Este pro­cesso mi­nu­cioso re­sul­tava numa «prosa muito limpa, talvez a mais limpa ou mon­dada que hoje temos»2 (afir­mação pro­fe­rida pelo pro­fessor Óscar Lopes em 1963, por oca­sião da en­trega do Prémio Ca­milo Cas­telo Branco a Car­doso Pires, e que não perdeu ne­nhuma da sua ac­tu­a­li­dade), apenas pos­sível nas mãos de um autor que con­si­de­rava um dia pro­du­tivo aquele em que apa­gava mais de 3 mil pa­la­vras.

Para além do ro­mance (Ale­xandra Alpha, de 1987, me­rece também des­taque), José Car­doso Pires foi ainda cro­nista, en­saísta e con­tista. A sua pri­meira co­lecção de contos, Os Ca­mi­nheiros e Ou­tros Contos, de 1949 (fi­nan­ciada por Alves Redol, Mário Di­o­nísio, entre ou­tros), de­nota ainda as suas pri­mor­diais in­fluên­cias neo-re­a­listas, um gé­nero que nunca chega re­al­mente a aban­donar, in­te­grando este re­gisto no seu es­tilo par­ti­cular. Ainda que con­si­de­rasse o tra­balho li­te­rário da maior parte dos li­vros neo-re­a­listas «mau», por mais de uma vez afirmou que foi este mo­vi­mento que, em Por­tugal, «pro­moveu a li­ber­tação da língua», lim­pando a prosa e os ca­mi­nhos para vá­rias ge­ra­ções de novos es­cri­tores.

Após a pu­bli­cação da co­lecção de contos Cartas de Amor, em 1952, acaba por ser de­tido pela PIDE, que apre­ende as edi­ções dos seus dois li­vros pu­bli­cados. A po­lícia po­lí­tica do fas­cismo co­nhece-o como «fonte de in­for­mação da po­lí­tica e so­ci­o­logia ac­tu­ante no sector in­te­lec­tual do PCP; trans­missor de li­vros proi­bidos, ma­ni­festos de in­te­lec­tuais e de pu­bli­ca­ções pú­blicas e par­ti­cu­lares de ór­gãos de par­tidos co­mu­nistas es­tran­geiros ou de in­te­lec­tuais por­tu­gueses».

O seu com­pro­misso com a luta e re­sis­tência an­ti­fas­cista afirma-se antes, e de­pois, do 25 de Abril de 1974, no qual par­ti­cipa ac­ti­va­mente. No dia se­guinte à Re­vo­lução, di­rige-se à prisão de Ca­xias como parte in­te­grante da Co­missão de Apoio aos Presos Po­lí­ticos.

Nas­cido a 2 de Ou­tubro de 1925, em Vila de Rei, Beira Baixa, há exac­ta­mente 100 anos, cedo Car­doso Pires torna a Lisboa, ci­dade que faz sua, a única que «ver­da­dei­ra­mente co­nhece» em todo o País. O «grande fas­cínio» que sente pela ca­pital (com ex­cepção da Av. Al­mi­rante Reis) está es­pe­lhado na sua úl­tima obra – Lisboa, Livro de Bordo (1997).

José Car­doso Pires morreu aos 73 anos, em 1998, na sequência de um se­gundo AVC. O pri­meiro ins­pi­rara De Pro­fundis, Valsa Lenta (1997), em que o autor con­fronta as suas novas li­mi­ta­ções im­postas pelo aci­dente vas­cular. Por­tugal ficou, de­fi­ni­ti­va­mente, um país mais “mal fre­quen­tado”.     

 

hélder moura - (551) Histórias da carochinha …


* hélder moura 

Tudo agora parece uma guerra em que vale tudo. O que acontece é que parece que sempre tem sido assim, cá dentro e lá fora.

 

A história americana está repleta de exemplos de comportamentos presidenciais pouco sérios em relação à Constituição, Napolitano.

 

Deus voltou-se de costas e chorou, Zizek.

 

As máquinas mandam nas casas, nas fábricas, nos escritórios, nos seus escritórios, nas plantações agrícolas, nas minas e nas ruas das cidades, onde nós peões somos incómodos que perturbam o trânsito, Galeano.

 

 

 

Do futebol à política (não que sejam assim tão diferentes), temos vindo a assistir treinadores a utilizarem como incentivos para melhorar a atuação dos seus jogadores, expressões/conteúdos como  “Força, vamo-nos a eles, vamos matá-los!”, a comentadores desportivos a relatarem “Que grande tiro!”, “Um autêntico míssil”, “Fuzilou a baliza”, a epítetos altamente injuriosos  “!!!” dirigidos aos adversários/inimigos berrados pelas claques com seus filhos  ao lado, talvez com a piedosa intenção para que a educação seja convenientemente passada à geração seguinte e que assim mantenha aquelas caraterísticas rácicas que tão bem nos definem tentando deste modo compensarem um esquecimento ou engano da Criação, aos inocentes e cada vez mais repetidos separadores televisivos com o hino nacional a ser cantado pelos desportistas mais reconhecidos “Contra os canhões, marchar, marchar!” transformando um simples jogo num combate que inevitavelmente conduzirá à morte, aos desvarios estudados dos políticos que não se coibindo alto e bom som querem mandar para a prisão todos os adversários que não gostam numa imitação provinciana e desajeitada do amigo americano, esse sim que pelo menos é presidente e tem forças armadas.

Tudo isto e muito mais faz com que haja quem pense que atualmente se vive num mundo muito violento, sem regras, muito “polarizado”, em que as pessoas se agridem e insultam umas às outras, sem qualquer respeito umas pelas outras.

Tudo agora parece uma guerra em que vale tudo. Acontece que parece que sempre tem sido assim, cá dentro e lá fora.

 

Atente-se, por exemplo, no que nos diz o juiz americano do Supremo Tribunal de New Jersey, Andrew Napolitano:

 

Quando os monarcas britânicos se queriam ver livres de adversários inconvenientes, acusavam-nos frequentemente de crimes vagos, pois podiam definir o crime da forma que bem entendessem. São Tomás More, ex-Lorde Chanceler de Henrique VIII, foi executado pelo seu silêncio. O alvo do monarca recebia um julgamento rápido e, em seguida, frequentemente uma morte pública lenta e excruciante – para enviar uma mensagem.

Cientes dos impulsos tirânicos dos monarcas e familiarizados com a história britânica, e até mesmo pessoalmente conscientes de pessoas nas colónias acusadas de crimes em Londres – onde nunca tinham estado – e transportadas para lá para serem processadas, Thomas Jefferson e James Madison, os Pais Fundadores mais responsáveis ​​por cristalizar o ethos americano dos direitos naturais e do devido processo legal, elaboraram documentos fundadores que articulavam condenações e proibições de tirania e comportamento tirânico nos Estados Unidos.

Assim, as palavras de Jefferson na Declaração de Independência caracterizam os direitos humanos como uma dádiva do Criador, que não pode ser retirada por decreto executivo ou promulgação legislativa – mas apenas por um veredicto do júri.

E as palavras de Madison na Quinta Emenda da Constituição declaram que "nenhuma pessoa será... privada da vida, da liberdade ou da propriedade sem o devido processo legal". O uso da palavra "pessoa" torna óbvio que o devido processo legal se aplica a todos os seres humanos.

O devido processo legal exige um julgamento justo por júri, com advogado e a oportunidade de confrontação de testemunhas e provas produzidas pelo governo. Exige também prova de culpa para além de qualquer dúvida razoável e com certeza moral perante um júri neutro, e não perante o acusador. E exige a condenação antes da imposição de uma pena prescrita por lei.

Isto era novo e radical em 1791, quando a Declaração dos Direitos foi ratificada, mas não é novo nem radical hoje. Hoje, o devido processo legal é a base do direito americano. É o que os advogados chamam a lei da letra preta: espera-se que aqueles que estão no governo a conheçam, a compreendam e a cumpram.”

 

E Napolitano continua:

 

A história americana está repleta de exemplos de comportamentos presidenciais pouco sérios em relação à ConstituiçãoJohn Adams processou pessoas pelos seus discursos. Abraham Lincoln prendeu os seus críticos sem julgamento. Woodrow Wilson processou estudantes por lerem a Declaração de Independência à porta dos gabinetes de recrutamento. Franklin Roosevelt encarcerou americanos com base na raça. George W. Bush iniciou a vigilância em massa sem mandado. Barack Obama assassinou americanos não violentos e sem acusação no Iémen.

 

Alguma coisa disto aumentou a liberdade pessoal ou a segurança pública? Claro que não. Mas aumentou o medo público de um tirano na Casa Branca.

O valor constitucional subjacente é que os indivíduos são soberanos e o governo é limitado. Esta é a presunção unânime dos Fundadores na criação da República Americana. Os indivíduos são livres de exercer direitos naturais, e o governo é limitado pelo consentimento dos governados e pela Constituição que o definiu e, seguindo Jefferson, o acorrentou.

E isto exige que aqueles em cujas mãos depositamos a Constituição para salvaguarda a leiam, a compreendam e a cumpram — e cumpram os seus juramentos de a preservar, proteger e defender.

 

 

 

Atente-se também no que nos diz Slavoj Zizek, quando, de uma forma ligeira e divertida, nos vai chamar a atenção para o facto de as sociedades consideradas como as mais desenvolvidas da nossa época, serem muito idênticas no que se refere ao tipo e aos métodos de desenvolvimento que prosseguem. Todas elas seguem sistemas económicos capitalistas, cada vez mais assentes na vigilância e direção eletrónica consentida ou não dos seus cidadãos, numa construção totalitária devidamente articulada, em maior ou menor grau, entre empresas privadas e estado. 

Conta-nos então uma anedota que corria nos tempos da guerra fria, passada entre Richard Nixon dos EUA, Leonid Brezhnev da URSS e Eric Honecker da RDA, quando resolveram interrogar Deus para saberem qual seria o futuro reservado para os seus respetivos países.

Em resposta, Deus disse a Nixon: “No ano 2050, os EUA serão comunistas.” Nixon voltou-se de costas e começou a chorar. A Brezhnev, Deus disse: “No ano 2050, a União Soviética será uma província da China.” Brezhnev voltou-se de costas e começou a chorar. E finalmente Honecker perguntou: “E o que acontecerá à minha amada RDA?” Deus voltou-se de costas e começou a chorar.

Zizek vai depois transportar esta anedota para a atualidade, agora com novos personagens, desta vez com Putin, o presidente chinês Xi Jinping e Donald Trump. Eis a resposta de Deus para Putin: “A Rússia estará controlada pela China”. Putin voltou-se de costas e chorou. Para Xi, Deus disse: “A China continental será dominada por Taiwan”. Xi voltou-se de costas e chorou. E quando Trump faz a mesma pergunta sobre os EUA, Deus voltou-se de costas e chorou.

 

 

E já agora,  relembrar a “Brevíssima Síntese da História Contemporânea” de Galeano:

 

“Há já uns séculos que os súbditos se disfarçaram de cidadãos e que as monarquias se preferem chamar repúblicas.

As ditaduras locais, que se dizem democracias, abrem as portas à entrada avassaladora do mercado universal. Neste mundo, reino dos livres, somos todos um só. Mas somos um ou somos nenhum? Compradores ou comprados? Vendedores ou vendidos? Espiões ou espiados?

Vivemos presos entre garras invisíveis, atraiçoados pelas máquinas que simulam obediência e mentem, com cibernética impunidade, ao serviço dos seus patrões.

As máquinas mandam nas casas, nas fábricas, nos escritórios, nos seus escritórios, nas plantações agrícolas, nas minas e nas ruas das cidades, onde nós peões somos incómodos que perturbam o trânsito. E as máquinas mandam também nas guerras, onde matam tanto ou mais que os guerreiros fardados.”

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01.10.25

https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/

domingo, 28 de setembro de 2025

Antonio Gnoli - Retrato de Claudia Cardinale

 



Domingo, 31 de agosto de 2014

No dia 21 de julho, La Repubblica publicou um grande retrato de Riccardo Mannelli e uma entrevista com Claudia Cardinale de Antonio Gnoli.

Claudia Cardinale: "Nunca quis ser diva, descobri tarde que sou bonita."

Sua infância em Túnis, o primeiro diretor que se encantou com ela, sua estreia com Monicelli. E depois Visconti, Fellini, Germi. Memórias de uma atriz que escolheu se defender do sucesso: "Tive sorte, guiei bem meu destino seguindo apenas uma regra: viver como se fosse o primeiro dia, não o último."


As faculdades menos óbvias de uma grande atriz são a timidez, a solidão, um corpo que muda impiedosamente, mas que continua a conservar um senso de mistério. Ao assistir a uma grande atriz, nos sentimos solidários com a imagem que ela transmitiu em seus muitos filmes. Alguns nós amamos. Outros nós esquecemos. Mas é como se através deles descobríssemos não apenas sua metamorfose, mas também uma parte de nossa história, nossos gostos, nossos desejos mais ou menos remotos. É cinema. Com seu poder imaginativo. E a comunhão latente que sentimos nos enche de espanto.

"Nunca me considerei uma grande atriz. Sinto-me desconfortável diante da imagem de alguém que me faz falar alto. Nunca pensei em me tornar como Greta Garbo ou Marlene Dietrich. Acho...

que atuar ainda é a mais humilde e gratificante das profissões. Fiz 141 filmes. Cada vez era como descer para dentro de mim mesma, para a escuridão daquele pequeno mundo interior que, quando revelado, equivale a um nascimento. Quantas vezes nasci na minha vida?" Enquanto Claudia Cardinale acende seu primeiro cigarro, ela deixa a pergunta cair como uma carta de tarô jogada na mesa: "Não sou supersticiosa, gosto de brincar com os signos do zodíaco, sou de Áries, afinal, mas no fundo acho que o destino está apenas em nossas mãos. " 

Ela já sentiu que estava perdendo o controle?
"Quando você está em uma crise, pode sentir que está perdendo o controle sobre as coisas. É desconcertante aprender nesses momentos o quão fraca ou frágil você pode ser. Mas, afinal, fui uma mulher de sorte que guiou bem seu destino. E acho que não vale a pena se atormentar com perguntas que não têm saída. Sempre me impus uma regra básica: Claudia, viva não como se fosse o último dia da sua vida, mas o primeiro.

Toda vez, a primeira vez?
"Para quem faz cinema, muitas vezes é assim. Se eu não tivesse essa paixão, essa necessidade de me surpreender com o que faço, dificilmente teria durado muito. E isso parece ainda mais surpreendente quanto mais penso no meu começo, que foi completamente por acaso."

Você não era uma dessas garotas determinadas a trilhar seu caminho?
"Eu tinha 16 anos, morava em Túnis, onde nasci. Dois diretores me viram em frente à escola. Eles estavam procurando uma adolescente para um pequeno papel. Convenceram meu pai, apesar da minha resistência. E assim estreei no papel de uma árabe completamente velada."

Você gostou?
"Não sei. Senti uma sensação de intolerância. Então, na última cena, uma rajada de vento rasgou meu véu. Um close incrível foi criado, encantando o diretor. Ele me ofereceu um novo papel em um filme estrelado por Omar Sharif.

E ela aceitou?
"Relutantemente. Por um lado, era um mundo que me intrigava, por outro, me entediava. Eu pensava no set como uma gaiola."

Como era Sharif?
"Bonito, com olhos doces e irônicos. Mais tarde, nos tornamos amigos. Ele tinha uma mania de jogo. Se eu ligasse para ele, ele frequentemente estava sentado em uma mesa de cassino tentando a sorte."

Falando em beleza, ela tinha consciência da sua?
"Nem um pouco. Eu me achava feia. Então, aconteceu de eu ganhar um concurso de beleza e o prêmio era uma viagem a Veneza. Fui convidada para o festival de cinema, onde uma das seções era dedicada ao cinema tunisiano. Inesperadamente, começou o cerco de fotógrafos e produtores.Todos queriam que eu fizesse filmes. Não resisti e voltei para Túnis no primeiro avião. Eu tinha 18 anos.

Ele descobriu o pior lado do cinema.
"Como em todas as coisas, há um lado menos agradável. Muitas pessoas, que tinham começado a cercar minha família, tentaram convencer meu pai de que o cinema era um ótimo caminho a seguir. E, finalmente, meu pai me mostrou as muitas cartas e telegramas sobre mim. Ele timidamente disse: talvez valesse a pena tentar. Foi assim que vim para Roma e entrei no centro de cinema experimental."

Onde ele morava em Roma?
"Com uma tia que morava fora da cidade. Peguei o ônibus para casa. Eles me alertaram sobre o risco da 'mão morta'. Perguntei: 'O que é essa 'mão morta'?' E minha tia riu: 'Você vai entender imediatamente quando sentir alguém apalpando furtivamente seu traseiro.'

E aconteceu?
"Infelizmente, sim. Virei-me com raiva para um homem que fugiu."

De que anos estamos falando?
"Era 1956. Depois da experiência no 'Centro', voltei para Túnis, determinado a deixar tudo para trás novamente. Resumindo, levei um tempo para me convencer de que este seria o meu mundo."

Seu primeiro filme de verdade, ou melhor, um grande filme, foi um papel em I Soliti Ignoti. O que você lembra dessa estreia?
"Era 1958, e aquele foi o início da comédia italiana. No filme, eu estava flertando com Renato Salvadori, que fingia ser meu irmão: 'Sou Michele, esqueci minhas chaves'. E eu, virtuosamente, bati a porta na cara dele. Fiz isso com tanta violência que Renato machucou o olho. Monicelli, depois da cena, gritou para mim: 'Claudia, no cinema, você finge. Lembre-se, nada é real, embora tudo seja real!'"

Que lembranças você tem de Monicelli?
"Um homem aparentemente rude. Penso nele com infinita gratidão. Alguns anos antes de morrer, nos encontramos em Paris para uma homenagem que o cinema francês lhe prestou. Ele subiu no palco, eu estava na primeira fila. E quando ele me viu, disse: "Olha aquela garota, a Claudia, ela começou comigo." Foi comovente. Apesar das diferenças, ele me lembrou, em alguns aspectos, o Pietro Germi."

Outro diretor incomum.
"Muito talentoso e subestimado. Ele era fechado, introvertido como eu. Bastava olhar nos olhos um do outro para nos entendermos."

Você não dá a impressão de ser introvertido.
"Não gosto de multidões. Gosto de ficar sozinho. "

O sucesso não te envolve?
"Faço de tudo para não me deixar abater por ele."

O auge foi alcançado em 1963, quando você filmou "O Leopardo" e "8 1/2" ao mesmo tempo.
"Tive que me dividir entre dois 'monstros' governados por impulsos opostos. Com Luchino era como estar no teatro. Com Federico, o set era uma espécie de happening.Tudo aconteceu sob o signo da improvisação."

Com quem você se deu melhor?
Visconti era obcecado por detalhes. Tudo tinha que ser perfeito. Fellini não tinha roteiro. Ele frequentemente improvisava. Luchino e eu nos tornamos amigos. Assistimos ao Festival de Música de Sanremo, fomos ao teatro. Eu me senti adotada. Fizemos nossa última viagem a Londres juntos, para um show da Marlene Dietrich. Descobri que eles eram amigos. E foi uma surpresa. Quando se encontraram para jantar, ela caiu no choro."

E ele?
"Ele gostava de confortá-la. Ele sabia como sentir o lado oculto das pessoas. O que era útil na preparação de um filme. Lembro-me de quando Burt Lancaster chegou ao set de O Leopardo, Alain Delon olhou para ele e disse: 'O quê, eles escolheram um caubói para interpretar o príncipe?' E, em vez disso, ele foi extraordinário. Pobre Alain."

Vocês eram amigos?
"Ainda somos. Profundamente. Ele teve alguns problemas com um filho e com a parceira que o deixou. Mas conversamos com frequência."

Falando em filhos, ela disse que, ao retornar a Túnis, descobriu que estava grávida.
"Não quero falar sobre isso."

Não é crime.
"É um assunto privado. Enfim, se decidi fazer filmes, foi para aquela criança, para me sentir independente."

Não deve ter sido fácil.
"Não foi. O agravante foi que Franco Cristaldi, meu produtor, me aconselhou, por questões de carreira, a manter segredo. Para evitar escândalos."

E ela concordou?
"Por um tempo, sim. No fim, decidi contar a eles. No fundo, eu me sentia uma mulher livre. Posso acender um cigarro?" De nada.
"Aprendi a fumar depois que Visconti me obrigou em Vaghe stelle dell'orsa."

Depois do sucesso com Visconti, ela atuou em Hollywood.
"Meu primeiro filme americano, dirigido por Henry Hathaway, foi com John Wayne e Rita Hayworth. Uma noite, Rita entrou no meu camarim e disse algo que me fez chorar: Eu também já fui bonita como você. Ela disse isso com infinita dor em suas palavras. Ela estava claramente chateada. Havia uma sensação insuperável de decadência nela, mas para mim ela continuava sendo Gilda."

O que é beleza para uma mulher bonita?
"Não é um objetivo, mas uma ferramenta. Pasolini escreveu um dos primeiros artigos sobre mim. Ele disse que minha beleza estava contida no meu olhar."

Você o conheceu?
"Que bom. Porque nessa época comecei a namorar Alberto Moravia."

Eu sei que ele dedicou um livro a você.
"Um livro que nasceu depois de uma longa entrevista."

O que o grande escritor fez você sentir?
"Eu não o conhecia. Fui à casa dele pela primeira vez para aquela famosa entrevista. Encontrei-o sentado à máquina de escrever.Um pouco rígido. Fiquei envergonhado."

Por quê?
"Ele me disse que se interessava pelo corpo de uma atriz. As sensações que esse corpo proporcionava. Ele me fez perguntas desconcertantemente simples. Qual é a primeira coisa que ele faz ao acordar de manhã? Quando está no banheiro, na banheira, em que pensa? E assim por diante."

O que a impressionou naquele encontro?
"A total falta de pretensão intelectual. Eu não estava me exibindo, e ele também não."

Você já se sentiu uma diva?
"Nunca. Eu sempre disse: me julguem pelos filmes que fiz, não pela minha vida privada. O estrelato confunde os dois níveis."

Mas sua vida privada se entrelaçou com seu trabalho.
"Sobre o que você pensa?"

Gostaria de retornar por um momento a Cristaldi. Tem-se a sensação de que a presença dele a afetou.
"Certas imposições, certas durezas, me amarguraram. Nosso relacionamento nunca foi verdadeiramente único."

Você frequentemente compartilhou sua vida com homens particularmente durões.
"Gosto deles fortes, mas justos. Como Pasquale Squitieri."

Qual o papel que ele desempenhou?
"Ele era o homem da minha vida."

Por quê?
"Faz um tempo que não estamos juntos. Mas ainda conversamos com frequência. Entre outras coisas, temos uma filha juntos."

Doeu quando terminou?
"Não, tive o mesmo problema quando decidi me mudar para Paris. Agora moro lá. Sozinha. Silenciosa. Numa linda casa às margens do Sena."

Sinto uma leve melancolia.
"É a tristeza de tudo que nunca mais volta. Como você era e como seus amigos eram. Revi O Leopardo há algum tempo, na versão restaurada por Martin Scorsese. Foi uma noite estranha. Eu tinha Delon ao meu lado, e ele segurou minha mão durante todo o filme. Parecia estar tentando arrancá-la. Então eu o ouvi chorar. E perguntei a ele o que estava acontecendo, Alain. Somos os únicos que restam vivos, ele disse. Essa é a grande tristeza. Steve McQueen, que recebi em Roma; Cary Grant, com quem fui a um show dos Beatles em Los Angeles; Marcello e Vittorio, com quem fiz minha estreia. Pessoas que eu amava, ou talvez odiava, e que não estão mais entre nós. O que resta?" O que resta?
"Algumas lembranças e um pouco de fé. "

Quanto?
"O suficiente para entrar em uma igreja. O importante é que ela esteja vazia. Me incomoda ser reconhecido."

O sucesso pesa sobre você?
"Eu não acreditava no sucesso. Parecia absurdo. Então aconteceu."

Moravia perguntou a ela sobre seu corpo. Como você se sente em relação a ele hoje?
"Não gosto de atrizes que fazem cirurgia plástica. Você se olha no espelho e não sabe mais quem é. Não dá para parar o tempo. Não dou muita importância a isso."O que transparece através da tela é, acima de tudo, a capacidade de comunicar emoções."

A tela não mente?
"Ou mente demais. Às vezes, faz você sonhar."

Você sonha?
"Sim, eu vou para a cama tarde. Fecho os olhos e anseio por ver os rostos dos meus entes queridos. "

Sonhos são involuntários.
"Eu costumo esquecê-los. Quando criança, sonhava com frequência que me jogava de uma janela. Sempre penso nisso quando olho da sacada da minha casa em Paris. Penso naquele sonho e na minha África."

Quais são seus sentimentos?
"Sinto vontade de chorar quando penso no que está acontecendo naquele continente. Estou envolvida com várias organizações humanitárias. Há mulheres para defender, crianças para proteger, natureza para preservar, doenças para erradicar. As pessoas quase nunca têm a chance de falar. Ou são tratadas apenas com demagogismo. Gostaria que pudéssemos recomeçar daqui."

Postado por Fany / Raffaella Spinazzi 

(Tradução automática, sem revisão do texto)

 https://fany-blog.blogspot.com/2014/08/ritratto-di-claudia-cardinale.html

Jaime Nogueira Pinto - Claudia Cardinale (1938-2025)



* Jaime Nogueira Pinto

O desaparecimento de Claudia Cardinale lembra-nos o muito que nos trouxe e ao cinema e damos graças pelo dom da vida e pelo que de bom e de belo constantemente se cruza connosco e nos toca neste mundo

27 set. 2025

Quando comecei a ver cinema (a “ir ao cinema”, como se dizia), o cinema italiano era um grande cinema, para não dizer o grande cinema. A começar pelos realizadores, os Visconti, os Fellini, os Pasolini, os Antonioni, os Monicelli, os Risi, os Rossellini, os De Sica, criadores admiráveis em todos os géneros, da comédia mais divertida à tragédia mais shakespeariana.

Mas para nós, miúdos, muito mais do que os realizadores, que até à adolescência nos passavam relativamente despercebidos, impressionavam-nos os actores – um cómico admirável, como Antonio de Curtis, Totó, um actor genial para papéis mais sérios, como Marcelo Mastroianni, ou alguém preparado para todos os géneros, como Vittorio Gassman. E mais ainda que os actores, fascinavam-nos as actrizes.

Estávamos no Portugal dos anos 1960, a sair da Igreja pré-conciliar de Pio XII, e as nossas “referências artísticas” eram americanas (como a Marilyn Monroe, a Rita Hayworth ou a Ava Gardner, que víamos nos filmes e nas páginas do Século Ilustrado),  francesas (como a Brigitte Bardot de Et Dieu créa la femme ou a Catherine Deneuve de Belle de Jour)  e italianas  (como a Silvana Mangano, a Sofia Loren, a Gina Lollobrigida, a  Monica Vitti… e a Claudia Cardinale).

Claudia Cardinale era uma italiana nascida na Tunísia, então um domínio francês, onde, com 19 anos, ganhara um concurso de beleza. O primeiro prémio dava direito a uma semana em Veneza com acompanhante. Claudia levou a mãe e voltou para a Tunísia.  Estávamos em 1957. Não passou um ano até que saísse da Tunísia para o grande écran, com I Soliti Ignoti, de Mario Monicelli.

Era o começo. Em 1960, estava em Rocco e i Suoi Fratelli, de Visconti, com Alain Delon, em 61 era La Ragazza con la Valigia no filme de Valerio Zurlini, e em 63 dava corpo à Ragazza di Bube, de Luigi Comencini. No mesmo ano, Visconti voltava a escolhê-la, desta vez para desempenhar o papel de Angelica em Il Gattopardo.  Angelica era a bela filha do burguês Dom Calogero Sedara, parte do exercício de transição política e social que “o Leopardo”, o príncipe de Salina (Burt Lancaster), vai protagonizar para que a estrutura social não sofra muitos abalos com a passagem da monarquia tradicionalista dos Bourbon-Duas Sicílias para a monarquia liberal e revolucionária dos Saboia.

São raros os grandes filmes de grandes livros, ou da adaptação de grandes livros, vá-se lá a saber porquê… Talvez porque os livros falem outra linguagem, mais intimista, centrada na palavra e deixando a imaginação visual à solta, e o cinema encontre o seu encanto sobretudo na imagem, no movimento, na acção, num apelo mais directo aos sentidos.  Por alguma razão nem as adaptações francesas de Le Rouge et le Noir ou de La Chartreuse de Parme, de Stendahl, resultaram em grandes filmes, nem os livros que serviram de guião aos geniais tratados do poder e da condição humana que são Os Padrinhos de Coppola eram obras-primas.

Il Gattopardo, de Lampedusa, é uma excepção. É um romance admirável que, pela mão de Visconti, inspira um filme admirável. Livro e filme são obras diferentes e assumem essa diferença. Visconti, ao sabor do seu tempo, da sua arte e da sua condição de aristocrata-comunista, faz uma leitura marxista do romance de Lampedusa, a narrativa nostálgica da viagem à Sicília do aristocrata Giuseppe Tomasi de Lampedusa à procura de um tempo perdido.

Claudia Cardinale veste bem a pele de Angelica, a filha de Dom Calogero (Paolo Stoppa), o burguês em ascensão social que, nas terras feudais dos Salina, ajuda a evitar a revolução que a sucessão dos “homens novos” aos aristocratas e o fim do Ancien Régime podia provocar. Visconti encerra o filme com Claudia Cardinale a rodopiar no salão dos Salina nos braços do patriarca,  um Burt Lancaster que nos tínhamos habituado a ver nas fitas americanas como trapezista, pirata, cowboy  ou até índio (no Último Apache), mas que o realizador italiano se atreve a transformar no aristocrata nostalgicamente maquiavélico que muda o que for preciso (o acessório) para que o essencial (a propriedade dos meios de produção – segundo Visconti, conde de Lonate Pozzolo, com casa em Milão, cheia de criadagem e dois chefs de cozinha, segundo o amigo e rival Fellini) continue na mesma. E sim, o filme é diferente do livro também no essencial.

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A versatilidade de Claudia Cardinale não será menor do que a do trapezista, pirata, cowboy, índio e príncipe, Burt Lancaster. Em 1968, em Hollywood, vai protagonizar entre vaqueiros, caminhos-de-ferro, maus muito maus (Henry Fonda) e um bom com cara de mau (Charles Bronson) Aconteceu no Oeste, um filme de Sergio Leone, que trabalhara com mestres como Vittorio de Sica e Luigi Comencini e se lançara nos chamados Western Spaghetti com fitas como Por um Punhado de Dólares O Bom, o Mau e o Vilão.

Contrastando em quase tudo com a Angélica de O Leopardo, Claudia é, em Once Upon a Time in the West, Jill McBain, uma mulher de vida fácil (ou difícil) de Nova Orleães que vem para a terra onde se passa a acção porque casa com o homem que é assassinado, com a família, logo no princípio da história. E desce, linda e feliz, do comboio, para enfrentar o que der e vier.

Vi este Aconteceu no Oeste num dia que é sempre inesquecível: o dia seguinte ao do último exame da época; o dia ou a noite em que, pela primeira vez depois de um tempo de grande azáfama e sofrimento, em pleno Verão, estamos livres, soltos e podemos jantar bem e ir ao cinema.

Pude, por isso, apreciar mais ainda a beleza da Cardinale, ajudado pela música de Ennio Morricone e por aqueles desfechos típicos dos Westerns, com os maus a serem punidos e tudo a acabar bem.

E vi-a em muitas outras fitas – como Claudia, no 8 ½ de Fellini, como dona de uma casa de passe, no Fitzcarraldo de Werner Herzog, como chefe de quadrilha em Les Petroleuses, de Christian-Jacques (que  juntava na mesma quadrilha Bardot e Cardinale, BB e CC). Vi-a sempre bela, como princesa Dala na Pantera Cor de Rosa sempre bem, ainda na tela ou já a sair de cena e a envelhecer.

Dizem que em 1967, na Basílica de S. Pedro  (Paulo VI quisera receber um grupo de actrizes italianas), o Papa conversou alguns minutos a sós com ela e Claudia saiu a chorar. Especula-se que teriam falado do que lhe acontecera aos 17 anos: a violação, a hesitação em abortar e a decisão de ter o filho, o seu Patrick, que o futuro marido, Franco Cristaldi, iria perfilhar.

O desaparecimento de Claudia Cardinale lembra-nos o muito que nos trouxe e ao cinema, a sua forma única de passar pelo tempo. E lembra-nos também aquilo de que muitas vezes nos esquecemos: de dar graças pelo dom da vida e pelo que de bom e de belo constantemente se cruza connosco e nos toca neste mundo. Que descanse em paz.

https://observador.pt/opiniao/claudia-cardinale-1938-2025/?