sábado, 13 de junho de 2026

Inês Chaíça - Suíça vota em referendo medida sem precedentes: limitar a população a dez milhões

 


Um grafitti onde se lê "nazis" por cima de um cartaz de campanha do SVP a favor do limite de população REUTERS/DENIS BALIBOUSE 

As sondagens mostram que a medida está longe de ser consensual. Gera preocupação pela possível falta de mão-de-obra estrangeira e pela perspectiva de um “Brexit à suíça”, pondo fim a acordos com a UE.

Inês Chaíça

13 de Junho de 2026

 A Suíça vai votar, este domingo, um referendo que quer limitar o crescimento da população a dez milhões até 2050 e inscrever esse objectivo na Constituição. O partido que está a apoiar esta iniciativa, o Partido Popular Suíço (SVP), diz que é uma forma de lidar com a imigração excessiva, de contornar a falta de oferta de habitação e de aliviar a sobrecarga das infra-estruturas e dos transportes públicos. Mas há quem antecipe outras dores de cabeça.

 A proposta — a que o SVP chama “Iniciativa de Sustentabilidade”, quase como um eufemismo — assenta no facto de a população na Suíça ter aumentado de forma exponencial desde que foram assinados os acordos de livre circulação de pessoas e bens com a União Europeia, em 2002.

 A população cresceu 1,7 milhões desde então, para os actuais 9,1 milhões, um aumento explicado quase exclusivamente pela imigração vinda de outros países europeus: “As empresas, assim como as instituições públicas, muitas vezes contratam os trabalhadores qualificados de que precisam na União Europeia”, lê-se no texto da proposta.

É precisamente isso que pretendem contornar. A proposta, explicada em termos simples, funcionará a dois tempos: primeiro, quando o país chegar aos 9,5 milhões, o Conselho Federal e o Parlamento terão de tomar medidas “na área do asilo e da reunificação familiar”, afectando maioritariamente os refugiados. Depois, se o limite de dez milhões for ultrapassado por dois anos consecutivos até 2050, a Suíça será obrigada a terminar com os acordos que permitem a livre circulação de pessoas “incluindo o que tem com a União Europeia”, frisa a proposta.


Um cartaz de campanha a favor do "sim" onde se lê "preservar o que amamos" REUTERS/Stefan Wermuth

Uma medida inédita

O SVP, a maior força política do país, acredita que a Suíça chegou a um “ponto de ruptura” e cumpre, assim, uma promessa de campanha que, em 2023, se focou sobretudo na demografia e na imigração. De acordo com os últimos dados, de 2024, a população estrangeira na Suíça era 32,5%, um dos números mais elevados do continente. Desses, apenas uma fracção (menos de 220 mil pessoas) são refugiados. A larga maioria, 73%, são imigrantes europeus.

Não é a primeira vez que o partido tenta aprovar uma medida do género. Há pouco mais de uma década, em 2014, foi a votos uma iniciativa muito mais clara nos seus propósitos: chamava-se “Acabar com a imigração em massa”; foi aprovada por uma margem mínima, mas nunca foi totalmente aplicada. Agora, a nova iniciativa foi desenhada de modo a que isso não volte a acontecer.

Na sua essência, esta medida é inédita. A ser aprovada, será a única no mundo. As comparações são escassas: medidas de conservação que limitam a presença de humanos em ecossistemas frágeis, como nas ilhas Galápagos, ou políticas específicas para conter o aumento da população, como as da China. Mas nenhum desses exemplos se pode comparar, porque nenhum deles é resultado da vontade da própria população.


A proposta divide o país REUTERS/Denis Balibouse

 “A experiência internacional sugere que é difícil limitar o crescimento populacional através de metas quantitativas ou restrições migratórias quando a economia continua a necessitar de mão-de-obra estrangeira”, explica Inês Vidigal, coordenadora executiva do Observatório da Emigração do Iscte, por e-mail, ao PÚBLICO. “Em países envelhecidos e com baixos níveis de fecundidade, como a Suíça, a imigração desempenha um papel importante na renovação da população activa e no funcionamento de diversos sectores económicos”. Por isso, defende, esta proposta é muito mais política do que puramente demográfica.

Uma sociedade dividida

Os suíços estão habituados a decidir directamente sobre as medidas que os vão afectar: referendos como este acontecem, normalmente, quatro vezes por ano. Mas, neste caso, nem as sondagens conseguem prever o que vai acontecer.

As últimas, publicadas no fim de Maio, mostram uma curta vitória do “não” (com 52% dos votos), um aumento de cinco pontos percentuais desde as anteriores sondagens. Mostram os números disponíveis que a proposta é rejeitada pelos jovens, pelas mulheres e pelos residentes urbanos. Os homens, eleitores de meia-idade em zonas rurais, estão receptivos à proposta: “Muita gente aqui não fala inglês e sente-se deslocada. A geração mais velha pensa que antes estava em casa”, resume Dolfi Müller, político e residente em Zug, uma das cidades mais ricas do país, ao Wall Street Journal. Agora, “sente que ficaram para trás”.

Neste momento, só os eleitores do SVP mostram apoio abertamente à iniciativa, com 96% das intenções de voto. À esquerda, a oposição à medida excede os 80%.

Além do SVP, a medida não reúne o apoio nem do Governo, nem dos empregadores, nem dos sindicatos. O Conselho Federal assumiu, numa comunicação ao Parlamento, que a iniciativa iria “pôr em perigo a prosperidade suíça, prejudicar o funcionamento da sociedade e comprometer o caminho bilateral com a União Europeia”. O ministro da Justiça, Beat Jans, chamou-lhe um “risco enorme num mundo incerto”.

Num país onde as multinacionais são a coluna vertebral da economia (da Nestlé à Novartis, passando pela Roche, que rejeitou directamente a proposta) que, por sua vez, depende da mão-de-obra imigrante para suprir necessidades (quer se trate de trabalhadores qualificados, quer não), a conversa assusta. Também assusta a perspectiva de uma espécie de “Brexit à suíça”, porque o bloco dos 27 é o principal mercado de exportação do país: mais de metade das exportações da Suíça vão para a UE, o que corresponde a cerca de 160 mil milhões de euros.


Empregadores temem que, se a proposta for aprovada, tenha impacto na mão-de-obra disponível REUTERS/Denis Balibouse

Por tudo isso, a associação empresarial Economiesuisse classificou-a como “a iniciativa do caos”.

O país tornou-se “vítima do seu próprio sucesso”, admite Reto Föllmi, professor de economia internacional da Universidade de St. Gallen, no norte do país, à Associated Press. “Será que a Suíça está farta da sua prosperidade?”, questionava-se Joseph de Weck, investigador no German Council on Foreign Relations, num artigo de opinião publicado no The Guardian. Se não for isso, assinala, é um lembrete para os democratas de todo o continente: “Nem uma economia saudável é capaz de conter a extrema-direita.”

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