segunda-feira, 27 de maio de 2019

Bertold Brecht - Ouvimos dizer que estás cansado

* Bertold Brecht

Ouvimos dizer que estás arrasado.
Que já não podes andar de cá para lá.
Que estás muito cansado.
Que já não és capaz de aprender.
Que estás liquidado.
Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo: nós exigimo-lo.
Se estiveres cansado e adormeceres
ninguém te acordará,
nem dirá:
levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?

Se não podes andar de cá para lá, ficarás estendido.
Ninguém te irá buscar e dizer:
houve uma Revolução. As fábricas esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto virão
enterrar-te, quer tu sejas ou não culpado
da tua morte.

Tu dizes: que já lutaste muito tempo
que já não podes lutar mais.
Se já não podes lutar mais, serás
destruído.

Dizes tu: que esperaste muito tempo.
Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu? Que a luta fosse fácil?
Não é esse o caso: a nossa situação é pior que tu julgavas.

É assim: se não levarmos a cabo o sobre-humano,
estamos perdidos.
Se não podermos fazer o que ninguém de nós pode
exigir, afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada é que os lutadores
estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados de mais,
perdem a batalha.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Alexandre O'Neill - Sigamos o cherne!

* Alexandre O'Neill

(Depois de ver o filme O Mundo do Silêncio de Jacques-Yves Cousteau)

Sigamos o cherne,minha amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos,até,do cherne um beijo,
Senão já com amor,com alegria...

Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne:traído
Peixe recalcado...

Sigamos,pois,o cherne,antes que venha,
Já morto,boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando,mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa...

quinta-feira, 23 de maio de 2019

José Gomes Ferreira - Chove

* José Gomes Ferreira

 Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.


Jorge de Sena - Sinais de fogo

* Jorge de Sena 


Sinais de fogo, os homens se despedem.
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é quem reacende
outros sinais ardendo na distância
um breve instante, gestos e palavras.
ansiosas brasas que se apagam logo.
Jorge de Sena
in Visão Perpétua
Julho/Agosto 1967 

Manuel Veiga- Argila do Sonho ...

* Manuel Veiga

Neste arfar dos homens um destino mudo.
Suspenso. Como as labaredas de um incêndio.
Pressentido apenas no voo inesperado
Dos insectos. E no delírio do restolho.

Somos o sopro que fecunda o fogo. Elos de um percurso
Que os ventos traçam. E de que os deuses zombam...

E, no entanto, nesta ardência da vontade (que se expande)
Perdura uma febre e uma surda espera.
Como se a Festa de outrora
Mais que festa fosse aurora...

Ou uma palavra nova. A despontar no léxico
E na gramática do Mundo...
Manuel Veiga, in Perfil dos Dias

quarta-feira, 22 de maio de 2019

poesia de filipe chinita


perguntas sem respostas.
só para pensarmos
um pouco
entre...
nós
amigos e camaradas
de verdade!
.
1.
não
nos basta
nem bastou...
a extrema-direita
fascista e
nazi
.
nem
nos basta! a besta... actual...
.
quanto mais...
toda a direita.outra...
dita democrática
a
de todo o capital
corrupto.financeiro.e especulativo.de uns poucos...

que em não mais de duas mãos
dominam o todo o mundo
o mundo
todo!

que
são estes!
os nossos reais inimigos...

que não o povo! ignorante... que ainda neles vota

2.
mui.to menos... nos bastam
os que se dizem... de socialistas
que nunca! o foram... sequer...
sociais-democratas... sendo
que nem isso!
sabem...
o que
seja...
foi
é

3.
tivemos ainda sempre
a extrema-esquerda...

que agora se passou
para a nossa
direita

e
ainda assim...
sempre a combatemos
e continuamos a combater...

ñunca saciados de novos combates.pela verdade...

quando são (eles)
os que sempre.... mais perto... (de nós) estiveram...
no combate contra os capitalistas e o capital...
e no projecto de sociedade socialista e comunista
______________________________________
4.
e
quando não...

combatemo-nos
dentro de nós.próprios
como se inimigos.figadais

já que não bastam... (todos) os demais
______________________________________
que raio de doença.intestina é esta
que loucura.insana é esta
que nos consome.
rói e destrói
tudo!

por dentro!

em ditos 'desvios'
de esquerda e de direita

o que
paciente
denodada...
heroica.mente e vida... erguemos

em incógnitos sofrimentos e dádivas mil.hentas

____________________________________
5.
face
a tudo isto
qual é então... e com quem
a nossa política...
de alianças

e
revolução...
?!

- e
nem
já falo
dos verdes...
dos crentes...
e dos 'partidos' ditos dos animais -
.
e
note-se...
que eu sou! por todas
as quotidianas
revoluções...
de em tudo!
no mundo
na morte
e
na vida

mas...
se
(nos) são todos! inimigos...
com quem então faremos
as revoluções que
nos esperam
_____________________________________
6.
e
ainda assim...
entre tantos inúmeros e humanos erros

eu.comunista
- desde que (de mim) me lembro -

solidamente marxista-leninista
materialista dialéctico
e histórico

ateu.por natureza e por filosofia
.
(eu) só em nós! posso votar

e só de nós posso ser
pertença...

mesmo
sem
tença...

alguma
.
que só por mente
por sangue.
por pele!
e por amor aos
humanos...
e
aos meus/nossos
ideais.comuns

aqui estou
fj
..

Gabriel García Márquez revela o 'Escândalo do Século'



Entre 1950 e 1984 a componente jornalista de Gabriel García Márquez era uma parte muito importante do autor de Cem Anos de Solidão. A prova está na reunião de 50 textos do Nobel colombiano em O Escândalo do Século.
21 Maio 2019 — 15:54

Nenhum leitor fica indiferente à prosa do escritor Gabriel García Márquez e ainda mais quando se trata da escrita enquanto jornalista, a profissão que o colombiano mais gostava e que o volume que chega às livrarias na próxima semana mostra em 50 exemplos de todo o género.

Intitulado O Escândalo do Século, reflete uma grande parte da vida profissional de Gabo, o diminutivo que os mais próximos lhe chamavam, e resulta de uma seleção feita pelo seu editor Cristóbal Pera. Diga-se que Gabriel García Márquez disse uma vez que desejava ser lembrado pelo jornalismo: «Não quero que me recordem por Cem Anos de Solidão, nem por aquilo do Prémio Nobel, mas sim pelo jornal.»
Apesar de se poder colocar em dúvida a questão da (des)importância do Nobel e do valor da literatura para si, é preciso não esquecer que García Márquez só se tornou conhecido no mundo inteiro devido ao romance extraordinário Cem Anos de Solidão e ao Prémio da Academia Sueca em 1982. E aí a produção jornalística ganhou outro valor ainda maior.
Nascido em Aracataca em 1927, Márquez foi batizado "pai do realismo mágico latino-americano", o responsável pelo grande boom da literatura daquele continente em todo o mundo. Aliás, nesta recolha surge um texto, A Casa dos Buendía, que fornece pistas para a escrita desse romance. Que começa assim: "Quando Aureliano Buendía regressou à povoação, a guerra civil tinha terminado. Talvez ao velho coronel nada restasse da áspera peregrinação. Restava‑lhe apenas o título militar e uma vaga inconsciência do seu desastre."
Quanto aos outros 49 textos, há de tudo para mostrar a capacidade narrativa do escritor colombiano. Uma importante introdução de Jon Lee Anderson, esclarece o propósito da maior parte dos artigos reunidos em O Escândalo do Século, reafirmando o prazer de García Márquez no jornalismo: "Afora tudo isto, Gabo foi jornalista; o jornalismo foi de certa maneira o seu primeiro amor e, como todos os primeiros amores, o mais duradouro. Esta profissão proporcionou ‑lhe o primeiro sustento como escritor, coisa que ele recordou sempre; a sua admiração pelo jornalismo chegou ao ponto de proclamar em certa ocasião, com a sua generosidade característica, que era 'o melhor ofício do mundo'".
Na introdução do editor, encontram-se também testemunhos desse amor: "Sou um jornalista, fundamentalmente. Toda a vida fui jornalista. Os meus livros são livros de jornalista, embora se veja pouco." Explica Cristóbal Pera que a seleção de cinquenta textos de Gabriel García Márquez, publicados em jornais e revistas entre 1950 e 1984, são "escolhidos entre a monumental Obra Periodística em cinco volumes compilados por Jacques Gilard e tem o propósito de levar aos leitores da sua ficção uma amostra do seu trabalho na imprensa e em revistas, fruto do ofício que sempre considerou a fundação da sua obra."
Para Pera, os leitores da sua ficção "encontrarão em muitos destes textos uma voz reconhecível", bem como a "formação dessa voz narrativa através do seu trabalho jornalístico". Como afirma Gilard, refere o editor, "o jornalismo de García Márquez foi principalmente uma escola de estilo e constituiu a aprendizagem de uma retórica original". Não deixa de referir que "alguns dos seus primeiros contos precedem as suas crónicas na imprensa, mas o jornalismo foi o ofício que permitiu a Gabriel García Márquez deixar os seus estudos de Direito, começar a escrever em El Universal de Cartagena e em El Heraldo de Barranquilla, e viajar até à Europa como correspondente de El Espectador de Bogotá. No seu regresso, e graças ao seu amigo e colega jornalista Plinio Apuleyo Mendoza, prosseguiu o seu trabalho jornalístico na Venezuela em revistas como Élite ou Momento, até se instalar em Nova Iorque, como correspondente da agência cubana Prensa Latina."
A partir daí abandona temporariamente o ofício para escrever Cem Anos de Solidão e o resto é história:
O DN faz hoje a pré-publicação de um dos textos incluídos emO Escândalo do Século.
PRECISA‑SE DE UM ESCRITOR
Por Gabriel García Márquez

"Perguntam ‑me com frequência o que é que me faz mais falta na vida, e eu respondo sempre a verdade: «Um escritor.» A piada não é tão parva como parece. Se alguma vez me deparasse com o compromisso inevitável de escrever um conto de quinze páginas para esta noite, recorreria às minhas incontáveis notas atrasadas e tenho a certeza de que chegaria a tempo à tipografia. Talvez fosse um conto muito mau, mas o compromisso seria cumprido, que ao fim e ao cabo é a única coisa que quis dizer com este exemplo de pesadelo. Em contrapartida, não seria capaz de escrever um telegrama de parabéns nem uma carta de pêsames sem dar cabo do fígado durante uma semana.

Para estes deveres indesejáveis, como para tantos outros da vida social, a maioria dos escritores que conheço quis apelar aos bons ofícios de outros escritores. Uma boa prova do sentido quase bárbaro da honra profissional é sem dúvida esta nota que escrevo todas as semanas, e que por estes dias de outubro vai fazer os seus primeiros dois anos de solidão. Só uma vez faltou neste canto, e não foi por culpa minha: por uma falha de última hora nos sistemas de transmissão. Escrevo‑a todas as sextas‑feiras, das nove da manhã até às três da tarde, com a mesma vontade, a mesma consciência, a mesma alegria e muitas vezes com a mesma inspiração com que teria de escrever uma obra‑prima.
Quando não tenho o assunto bem definido deito‑me mal na noite de quinta‑feira, mas a experiência ensinou‑me que o drama se resolverá por si só durante o sono e que começará a fluir de manhã, a partir do instante em que me sente diante da máquina de escrever. Não obstante, tenho quase sempre vários assuntos pensados antecipadamente, e pouco a pouco vou recolhendo e ordenando os dados de diferentes fontes e verificando‑os com muito rigor, pois tenho a impressão de que os leitores não são tão indulgentes com as minhas argoladas como talvez o fossem com o outro escritor de que preciso.
O meu primeiro propósito com estas crónicas é que todas as semanas ensinem alguma coisa aos leitores comuns e correntes, que são os que me interessam, embora esses ensinamentos pareçam óbvios e talvez pueris aos sábios doutores que tudo sabem. O outro propósito - o mais difícil - é que estejam sempre tão bem escritas como eu seja capaz de fazer sem a ajuda do outro, porque sempre achei que a boa escrita é a única felicidade que se basta a si própria. Impus‑me esta servidão porque sentia que entre um romance e outro me restava muito tempo sem escrever, e pouco a pouco - como os jogadores de beisebol - ia perdendo o aquecimento do braço. Mais tarde, essa decisão artesanal converteu‑se num compromisso com os leitores, e hoje é um labirinto de espelhos do qual não consigo sair. A não ser que encontrasse, claro está, o escritor providencial que saísse por mim. Mas receio que já seja demasiado tarde, visto que as únicas três vezes que tomei a determinação de não escrever mais estas crónicas mo impediu, com o seu autoritarismo implacável, o pequeno argentino que também eu tenho dentro.
A primeira vez que o decidi foi quando tentei escrever a pri‑ meira, depois de mais de vinte anos de não o fazer, e precisei de uma semana de galeote para a terminar. A segunda vez foi há mais de um ano, quando estava a passar uns dias de descanso com o general Omar Torrijos na base militar de Farallón, e o dia estava tão diáfano que apetecia mais navegar do que escrever. «Mando um telegrama ao diretor a dizer que hoje não há crónica, e pronto», pensei, com um suspiro de alívio. Mas não consegui almoçar por causa do peso da má consciência e, às seis da tarde, fechei‑me no quarto, escrevi numa hora e meia a primeira coisa que me ocorreu e entreguei a crónica a um ajudante de campo do general Torrijos para que a enviasse por telex a Bogotá, com o pedido de que a mandassem de lá para Madrid e para o México. Só no dia seguinte soube que o general Torrijos tivera de ordenar o envio de um avião militar ao aeroporto do Panamá, e dali, de helicóptero, ao palácio presidencial, de onde me fizeram o favor de distribuir o texto por algum canal oficial.
A última vez, faz agora seis meses, que descobri ao acordar que já tinha maduro no coração o romance de amor que tanto tinha ansiado escrever desde há tantos anos e que não tinha outra alternativa senão nunca o escrever ou submergir‑me nele de imediato e a tempo inteiro. Não obstante, na hora da verdade, não tive tomates suficientes para renunciar ao meu cativeiro semanal, e pela primeira vez estou a fazer uma coisa que me pareceu sempre impossível: escrevo o romance todos os dias, letra por letra, com a mesma paciência, e oxalá com a mesma sorte, com que as galinhas debicam nos pátios, e ouvindo cada dia mais perto os passos temíveis do animal grande da próxima sexta‑feira. Mas aqui estamos outra vez, como sempre, e oxalá para sempre.
Eu já suspeitava que nunca escaparia desta jaula desde a tarde em que comecei a escrever esta crónica na minha casa de Bogotá e a terminei no dia seguinte sob a proteção diplomática da Embaixada do México; continuei a suspeitá‑lo na estação de telégrafos da ilha de Creta, uma sexta‑feira do passado mês de julho, quando consegui entender‑me com o funcionário de turno para que transmitisse o texto em castelhano. Continuei a suspeitá‑lo em Montreal, quando tive de comprar uma máquina de escrever de emergência porque a voltagem da minha não era a mesma do hotel. Acabei de suspeitá‑lo para sempre faz apenas dois meses, em Cuba, quando tive de trocar duas vezes as máquinas de escrever porque se negavam a entender‑se comigo. Por último, levaram‑me uma eletrónica de costumes tão avançados que acabei por escrever à mão num caderno de folhas quadriculadas, como nos tempos remotos e felizes da escola primária de Aracataca.
Todas as vezes que acontecia um destes percalços apelava com mais ansiedade aos meus desejos de ter alguém que se encarregasse da minha boa sorte: um escritor. Contudo, nunca senti essa necessidade de um modo tão intenso como um dia de há muitos anos em que cheguei à casa de Luis Alcoriza, no México, para trabalhar com ele no guião de um filme. Encontrei‑o, consternado, às dez da manhã, porque a cozinheira lhe tinha pedido o favor de escrever uma carta ao diretor da Segurança Social. Alcoriza, que é um escritor excelente, com uma prática quotidiana de caixa de banco, que tinha sido o escritor mais inteligente dos primeiros guiões para Luis Buñuel e, mais tarde, para os seus próprios filmes, tinha pensado que a carta seria um assunto de meia hora. Mas encontrei‑o, louco de fúria, no meio de um montão de papéis rasgados, nos quais não havia muito mais que todas as variantes concebidas da fórmula inicial: pela presente tenho o prazer de me dirigir a V. Ex.a para...
Tentei ajudá ‑lo, e três horas depois continuávamos a fazer rascunhos e a rasgar papel, já meio bêbedos de genebra com vermute e empanturrados de chouriços espanhóis, mas sem ter conseguido passar além das primeiras letras convencionais. Nunca esquecerei a cara de misericórdia da boa cozinheira quando voltou para vir buscar a sua carta às três da tarde e lhe dissemos sem pudor que não tínhamos conseguido escrevê‑la. «Mas é muito fácil - disse ‑nos ela, com toda a sua humildade. - Olhe lá.» Nessa altura começou a improvisar a carta com tanta precisão e tanto domínio que Luis Alcoriza se viu em apuros para a copiar na máquina com a mesma fluidez com que ela a ditava. Naquele dia - como ainda hoje - fiquei a pensar que talvez aquela mulher, que envelhecia sem glória no limbo da cozinha, fosse o escritor secreto que me fazia falta na vida para ser um homem feliz."
O Escândalo do Século
Gabriel García Márquez

Editora D. QuixoteGabriel García Márquez revela o 'Escândalo do Século'

terça-feira, 21 de maio de 2019

Alexandre O'Neill - Gaivota



* Alexandre O'Neill

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Chico Buarque - Pedro Pedreiro



* Chico Buarque

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Manhã parece, carece de esperar também Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém Pedro pedreiro fica assim pensando Assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando prá trás Esperando, esperando, esperando Esperando o sol, esperando o trem Esperando aumento desde o ano passado para o mês que vem Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Manhã parece, carece de esperar também Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém Pedro pedreiro espera o carnaval E a sorte grande do bilhete pela federal todo mês Esperando, esperando, esperando, esperando o sol Esperando o trem, esperando aumento para o mês que vem Esperando a festa, esperando a sorte E a mulher de Pedro, esperando um filho prá esperar também Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Manhã parece, carece de esperar também Para o bem de quem tem bem de quem não tem vintém Pedro pedreiro tá esperando a morte Ou esperando o dia de voltar pro Norte Pedro não sabe mas talvez no fundo Espere alguma coisa mais linda que o mundo Maior do que o mar, mas prá que sonhar se dá O desespero de esperar demais Pedro pedreiro quer voltar atrás Quer ser pedreiro pobre e nada mais, sem ficar Esperando, esperando, esperando Esperando o sol, esperando o trem Esperando aumento para o mês que vem Esperando um filho prá esperar também Esperando a festa, esperando a sorte Esperando a morte, esperando o Norte Esperando o dia de esperar ninguém Esperando enfim, nada mais além Da esperança aflita, bendita, infinita do apito de um trem Pedro pedreiro pedreiro esperando Pedro pedreiro pedreiro esperando Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem Que já vem Que já vem Que já vem Que já vem Que já vem Que já vem

sobre o comunismo

 * Filipe Chinita

comunista
comum.
igual.
entre iguais.
tão diferente
e único
sendo.
pobre.
entre os pobres.
humilde.
entre os humildes.
humilhado
entre os humilhados
explorado.
entre os explorados.
amante.
de todos os (meus) proletários
e amadas mulheres
de uma inteira
vida.
amante.
da paz.
de solidões silêncios e palavras.
mesmo que entre multidões...
marxista-leninista.
materialista
dialéctico
e
histórico.
ateu.
luxurioso
eros.
pecador.
de todos os pecados.
do amor ao.s outro.s
a guiar-me
a vida.
alentejano.
cidadão.da ibéria e
do vasto mundo
benfiquista.
vermelho.
amante de bmw.
e de todo o belo
e sublime...
efémero e
mortal
qual
um (breve) campo
de papoilas.
vermelhas
.
daqui
não moverei
um.só posso...

nem um
passo.

.
revolucionário
a
tempo inteiro...

de a toda
vida
.
daqui
só a morte

última etapa.da vida
- antes de ser pó e
cousa nenhuma -

me levará...

com
uma vermelha
bandeira
sobre

não tarda

feito


entre o


igual
diferente
e
único
___________________
quanto ao comunismo...
lá chegaremos!
tal como aqui
chegámos
.
fj
a
este momento.
não in.diferente
e único


sábado, 18 de maio de 2019

Lídia Borges - Coisa

* Lídia Borges


Havia um linguista consagrado,
na rua onde morava,
que abominava a palavra “coisa”.
Dizia cada coisa da palavra coisa!
Dizia, por exemplo, que “coisa”
designa substância e como tal tem nome:
pedra, nuvem, árvore…
Logo a pedra, revoltada…
que, também ela, tem nome:
granito, xisto, ardósia…
e logo o granito ameaçador:
pois que seu apelido, 
e nomes próprios:
amarelo capri, giallo antico, arabesco…
e a nuvem… cirro, cúmulos, nimbus...
e a árvore…

E tão convincente foi a argumentação
que nunca mais a coisa foi coisa,
e passou a ser, quase sempre,
a nomeação exata
do inominável.
Que coisa!...


Lídia Borges
in "Seara de Versos"

Filipe Chinita - Clepsidra

 clepsidra.s.
des.contando (o) tempo.
de vertiginosas.raras.e sempre escassas madrugadas
.
clepsidra.s.
in.vertendo (o) tempo.
desde sempre parte dos (nossos) nocturnos cenários
de sedução.desejo.
e amor
.
clepsidra.s
inventando (o) tempo
por entre...
o vermelho o negro e o branco
.
o
vermelho

rastejante...
do chão

do sofá

ou
dos corpos
como bandeiras.drapeando.de sangue
.
o
negro

de em pé!
de estantes.(d)e levantadas lombadas
de livros.sem fim.

livros.
corpos
nosso.s amor.es maior.es.
mas sempre! com a revolução à cabeça.de todos.eles.
.
que nunca mulher alguma (me) foi revolução
como me o foste.tu
em tudo! do amor
da vida
e da morte.
final revolução!
sobre nós.mesmos indivíduos
que só no colectivo.humano
recuperamos...
sentido
.
e
ainda o negro

de mesa.s e cadeiras.de costas altas.
que para tudo da imaginação
e do concreto
serviam...

bancas
e banquetas
por entre co(r)pos caídos
e morrões de cigarros já extinto
ou ainda ardendo... em pontas
quais sexos quebrados
mas ainda insistentes
de sanguíneo
querer

enquanto... o tempo
nas clepsidras
escorria
e
se esgotava (no)
sem tempo
no nosso físico esgotamento
e
contínuo
re.temperar de forças
e desejo...

por entre
tudo...

que
de tudo falavámos

como se fossemos
e.ternos dono
do tempo

seguros
que a revolução viria

na lâmina.das nossas línguas
e nas espetadas.palavras
de em pontas.de
sangue
.
e
velhos mapas ardendo
entre velas.vermelhas
que
filtravam a obscuridade
iluminada dos
rostos

sobre
um branco... - já de tudo!
de.lido...

de tudo!
o que ali em odor.es
se evaporava...
no.s ar.es -

enquanto tu... a sublime
(me/nos) abrias todo
o vasto repertório

do imaginário
e concreto
livro

das artes

do erotismo.humano!
__________________________
a
vários momentos
de aproximação
ao real

mas
tudo.tudo
começava.nos olhares!
ainda no subir das escadas
de saudade.s...

ao 3º andar.jardim suspenso
.
ele
mesmo
uma enorme
e e.terna clepsidra...

sem tempo.no tempo
.
tempo.e corpo.s
a que sempre demos o todo o uso
mesmo quando... perdulário

pois...
em contínua.revolução.de nós.mesmos
sempre vivíamos...

até porque de outra forma
nunca soubemos...
nem queríamos!
viver
.
fj
11:39

a
'página a página'
acaba de me comunicar

que
a sessão de lançamento
de 'a mulher em saltos altos'

11º livro de poesia.de filipe chinita

ficou marcada para dia 30 de Maio
5ª feira, pelas 18 horas
na Praça Verde

da
Feira do Livro
de Lisboa
.
fj

quinta-feira, 16 de maio de 2019

um poema de Miguel Torga

* Miguel Torga


Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos

quinta-feira, 25 de abril de 2019

3 poemas - 2 autores

* Daniel Filipe

III
este é o local, o dia, o mês e a hora
o jornal ilustrado aberto em vão.
No flanco esquerdo, o medo é uma espora,
fincada, firme, imperiosa não
espero mais. Porquê esta demora?
Porquê temores, suores? Que vultos são
aqueles além? Quem vive ali? Quem mora
nesta casa sombria? Onde estão
os olhos que espiavam ainda agora?
O medo, a espora, o ansiado coração,
a noite, a longa noite sedutora,
o conchego do amor, a tua mão ...
Era o local, o dia, o mês, a hora .
Cerraram sobre ti os muros da prisão

O Viajante Clandestino

-----------------------------------------
* Egito Gonçalves 

A mentira que fingem
é verdade.
A submissão
corrompe
Não nasceram
ainda
Poderão nascer
mais tarde
tão adultos de aspecto?

-----------------------------------------
* Egito Gonçalves

Como se mantém
este deserto?

Praças sem vida,
sombras nos passeios,
estores corridos
nas janelas…

Poderiam só palavras
convencer,
abrir varandas,
pálpebras,
descerrar os dentes?

Existe algum segredo
neste magma
capaz de o erguer à dor
de um coração?


egito gonçalves
o fósforo na palha
1970

José Afonso - Arcebispíada


* José Afonso

Pregais o Cristo de Braga
Fazeis a guerra na rua
Sempre virados prò céu
Sempre virados prà Virgem
A Santa Cruzada manda
Matar o chivo vermelho
Contra a foice e o martelo
Contra a alfabetização
Curai de ganhar agora
Os vossos novos clientes
Além do pide e do bufo
Amigos do usurário
Além do latifundiário
Amigo do Capelão
"Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação"
"A medicina é ateia
Não cuida da salvação"
Que o diga o facultativo
Que o diga o cirurgião
Que o digam as criancinhas
"Rezas sim, parteiras não"
Se o Pinochet concordasse
Já em Fátima haveria
Mais de trinta mil vermelhos
A arder de noite e de dia
Caridade, a quanto obrigas
Só trinta mil voluntários
"Cristo reina Cristo vinga"
Nos vossos santos ovários
E também nos lampadários
E também nos trintanários
Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação
Ó Carnaval da capela
Ó liturgia do altar
Já lá vem Camilo Torres
Com o seu fusil a sangrar
Igreja dos privilégios
Mataste o Cristo a galope
Também Franco, o assassino
Mandou benzer o garrote

José Afonso - "Arcebispíada" do álbum "Enquanto Há Força" (LP 1978)

Nuno Pacheco - No Dia da Liberdade ainda há uma ditadura que mexe: a dos idiotas


* Nuno Pacheco
O acordo ortográfico é bastante estúpido, mas quem decide aplicá-lo às cegas ainda é pior. Exemplo: um Baptista registado há décadas, agora passa compulsivamente a “Batista”.

25 de Abril de 2019, 7:30

O 25 de Abril, que hoje faz precisamente 45 anos, tem andado a subir e descer “escadas” contra vontade. Ora surge com minúscula, ora com maiúscula. Há gente muito abrilesca a rebaixar-lhe o A e gente menos dada a cravos a deixá-lo com a dimensão original. Não se entende nem se entendem. Porquê? Porque, sendo o acordo ortográfico (que está na origem da tais hesitações e trapalhadas) bastante estúpido, quem decide aplicá-lo às cegas ainda é pior.

Expliquemo-nos. Na Base XIX do dito, intitulada “Das Minúsculas e Maiúsculas”, diz-se textualmente que: “1º) A letra minúscula inicial é usada (…) b) Nos nomes dos dias, meses, estações do ano: segunda-feira; outubro; primavera.” Logo, abril. Porém, mais adiante, também se diz isto: “2º) A letra maiúscula inicial é usada: (…) e) Nos nomes de festas e festividades: Natal, Páscoa, Ramadão, Todos os Santos.” Ora considerando o dia de hoje como uma festa ou festividade, que o é, tal como o 1.º de Maio, grafemo-lo Abril. O que dá esta bela coisa: hoje, dia 25 de abril, festeja-se o 25 de Abril. Daqui a uma semana, no dia 1 de maio, festeja-se o 1.º de Maio. Por mais disparatado que isto pareça, e é, trata-se do que dispõe o malfadado acordo. Portanto, senhores: é 25 de Abril e 1.º de Maio, combinado?

Despachado o primeiro tema, vamos ao segundo, bem mais grave. Segundo uma notícia recentíssima do jornal digital ECO – Economia Online, parece que andam por aí a mexer nos nomes das pessoas a pretexto do acordo ortográfico. Imagine-se que alguém tem agora um filho e lhe quer dar o nome de Victor. Não pode, tem de ser Vítor, mesmo que bata o pé. Porquê? Por causa de uns idiotas. Mas o caso nem sequer é esse, é bem pior. Leia-se a notícia do ECO, assinada por Filipe Paiva Cardoso e datada de 21 de Abril: “Aquando da renovação do cartão cidadão (CC), ‘um número apreciável’ de cidadãos viram-se obrigados a trocar a grafia do seu nome para ficar em conformidade com o acordo ortográfico de 1990 pelo Instituto dos Registos e do Notariado (IRN). Se era Victor, passou Vítor. E se tinha Baptista no nome, passou a Batista. Num ápice, um Victor Baptista ficou Vítor Batista.” Claro que houve queixas. Cidadãos indignados recorreram à Assembleia da República, porque houve Baptistas, Victores e Lourdes que passaram, num ápice, a Batistas, Vítores e Lurdes. Que sucederia a Alçada Baptista se fosse vivo? Ou a Baptista-Bastos, que além do P ainda lhe levavam o hífen? Ou a Maria de Lourdes Pintasilgo, que perderia um U e ganharia um S?

Perante tamanha parvoíce, o grupo parlamentar do PSD quis indagar o que se passava; e recorreu ao Ministério da Justiça (que ainda tem cedilha, valha-nos isso). Que resposta teve? Ainda segundo o ECO, esta: “O IRN está vinculado a inscrever no Cartão do Cidadão o nome do interessado de acordo com a grafia que se encontra registada no Assento de Nascimento.” Então porque sucede o contrário? Aí, a tutela explica que na lei anterior a 2007 (ou seja, anterior ao malfadado acordo) “a atualização da grafia era obrigatória.” Era? Não se deu por isso. Nunca soube de nenhum caso. E nem os Baptista que conheço passaram a Batistas por via burocrática nem Sophia de Mello Breyner passou a Sofia de Melo Breiner. Que se saiba. Em “compensação”, a pobre Capela de São João Baptista, ao Chiado, foi pressurosamente “atualizada” para “São João Batista”. E muitos Baptistas ou Víctores, até em legendas de museu, perderam consoantes. Isto apesar de um dos papas do acordo, o brasileiro Evanildo Bechara, ter escrito no jornal O Dia (em 13/11/2011) que “essas exceções [referia-se a Assumpção ou Drummond] constituem nomes próprios, cuja fidelidade ao registro oficial sempre foi garantida pelos projetos ortográficos. Supõe-se que continuaria a ser garantida neste, não?

E continua mesmo. Porque na Base XXI do “acordo ortográfico” de 1990 (“Das assinaturas e firmas”) diz-se claramente: “Para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume ou registo legal, adote [sic] na assinatura do seu nome.” O que dizem a isto os serviços? Nada, continuam a chacina. As consoantes são para abater, até ordem em contrário. Como as ordens são inexistentes ou flácidas, e clareza é coisa que nesta área não há nem se pretende que exista, vence a lei dos idiotas. Imagina-se o diálogo: “O senhor era Victor? Era, já não é, não pode ser, a lei não permite, agora passa a Vítor.” E se o infeliz tem o azar de ter apelidos de aparência antiga como D’Orey, Mont’Alverne, Torquato, Uchoa, Felgueiras ou até Queiroz (que o diga Eça, que já foi “traduzido” para Queirós), há-de ser bem pior.

Porque mesmo 45 anos passados sobre o 25 de Abril (com maiúscula, como já se provou) no Dia da Liberdade ainda há uma ditadura que mexe: a dos idiotas. Vai ser o cabo dos trabalhos livrarmo-nos dela. Coisa que será bem difícil enquanto não nos livrarmos do “acordo ortográfico”, esse incentivo ao disparate que alguns (por erro?) “batizaram” de lei.



quinta-feira, 18 de abril de 2019

Pedro Tadeu - Ai "Notre Dame"!... o trabalho está a matar-nos?



17.4.19

«Ao longo de mais de um século um grande estaleiro juntou, seis vezes por semana, uma média diária de 300 homens. Alguns começaram, ainda crianças, a trabalhar ali. Muitos deles também morreram naquele local, sem conhecerem mais nada deste mundo.

Eles eram artífices especializados num ofício, ensinado em segredo por um mestre. Eles foram exclusivos toda a vida, dedicada, apenas, a um monumento ao segredo da conceção divina do filho de Deus.

Lentamente, penosamente, ergueram pedra a pedra, fundiram ferro a ferro, juntaram tábua a tábua, chumbaram vidro a vidro, "toc toc!", "tac tac!", "tic tic!" e construíram, penosamente, sabiamente, à mão, com ferramentas de artesão, os gigantescos corpos principais da Catedral de
Notre Dame de Paris.

Há 850 anos trabalhava-se enquanto houvesse luz, do nascer ao pôr-do-sol. Tal como a catequese cristã afirma ter sido um direito do Criador do mundo, os criadores da Catedral de Notre Dame descansaram aos domingos. E, ao longo de cada ano, aproveitaram uma quarentena de feriados para honrar santos, reverenciar Jesus ou Maria e armazenar no coração algum descanso retemperador.

Durante um dia de trabalho cada homem tinha direito a parar uma hora para almoçar e, a meio da tarde, a outros 15 minutos para beber... de preferência vinho, a bebida da falsa força.

O pagamento do salário, para quem tinha direito a ele, era diário e ninguém concebia remunerações por feriados, folgas ou férias.

A vida de um construtor de Notre Dame, no século XII ou no século XIII, era, para qualquer um de nós, cidadãos ocidentais deste mundo do século XXI, insuportável.

Mas ser trabalhador na construção de Notre Dame nos séculos XII ou XIII era, simultaneamente, uma das melhores vidas possíveis dos homens que Deus teve a graça de não fazer nascer como filhos das classes superiores da sociedade feudal e cristã.

Foram milhares os trabalhadores que ergueram a Catedral de Notre Dame de Paris. Um incêndio, talvez atiçado por um fósforo, um cigarro, uma faísca, algo milésimo, mínimo, minúsculo, arriscou esta segunda-feira destruir uma enorme obra da Humanidade.

A vitória dos bombeiros que salvaram a estrutura principal de Notre Dame salvou a memória de um enorme sacrifício de vidas, que a ignorância sobre o real número de mortos sucumbidos às falhas da construção ou a ausência de contagem de almas condenadas a uma existência confinada à pequena Île de la Cité, nos anos de 1163 a 1267, escamoteia da maior parte dos livros de História.

Todos os grandes edifícios construídos pela Humanidade, das pirâmides do Antigo Egipto aos arranha-céus de Nova Iorque, do Mosteiro dos Jerónimos ao Convento de Mafra, resultaram da imposição do sacrifício, da dedicação da vida, da inaceitável morte, do glorioso compromisso de milhões e milhões de trabalhadores.

Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, não morre apenas a memória da arte ou da engenharia que a germinaram. Sempre que uma grande obra da humanidade desaparece, falece também a memória do trabalho e desvanece um registo das etapas de progresso social que nos trouxeram até aqui.

E o que é o trabalho, hoje, aqui? É o trabalho com direitos, com horários, com pausas, com folgas, com salários, com férias pagas? Ou é um tempo em que as coisas parecem andar séculos para trás, até à época do trabalho quase escravo que ergueu Notre Dame?

Que tempo é este, que leva os jornais do século XXI a alertar: "O trabalho está a matar pessoas e ninguém se importa"?»

Gravura - Uma ilustração da Catedral de Notre Dame, no século XIX - litogravura de Nicolas Chapuy
Cartoon -  "Sadness", por Antonio Rodriguez 

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Mário de Sá Carneiro - Nossa Senhora de Paris

* Mário de Sá Carneiro

Todo a vibrar, quero fugir.. Onde acoitar-me?
Os braços duma cruz.
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar…

Um cheiro a maresia
Vem-me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa a Mar…
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos…
Mas o Oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais…
Fico sepulto sob círios —
Escureço-me em delírios,
Mas ressurjo de Ideais…

– Os meus sentidos a escoarem-se…
Altares e velas…
Orgulho… Estrelas…
Vitrais! Vitrais!

Flores de liz…

Manchas de côr a ogivarem-se…
As grandes naves a sangrarem-se…
– Nossa Senhora de Paris!…

sábado, 13 de abril de 2019

Ruy Belo: - As grandes insubmissões

* Ruy Belo:

As grandes insubmissões sempre foram para mim as pequenas. Na minha vida, lembro duas.

Começava um ano lectivo. Andaria no segundo ano do liceu. Era a época da feira da piedade. Cheguei de férias na minha terra e vi o vítor a andar de carrocel. Esperava que a volta acabasse para o abraçar. Fui esperando, ele nunca mais descia. Uma volta, mais outra, outra ainda. Fui contando: vinte. O vítor tinha vinte escudos. Eu já o respeitava, porque era muito alto. Passei a respeitá-lo mais. O Vítor era capaz de gastar vinte escudos no carrocel.

Outra grande insubmissão foi a do maurício, também nos primeiros anos do liceu.
Um dia o maurício faltou à aula das nove. Até aí, nada de particular. Saímos para o pátio e o maurício estava no campo de basket, perfeitamente equipado, sozinho, a lançar a bola ao cesto.

– Ó maurício, faltaste à aula das nove.

E o maurício, sem responder, imperturbável, continuava a lançar a bola ao cesto.
Tocou para a aula das dez.

-Ó maurício, não vens à aula?

O maurício não respondia. Continuava, imperturbável, a lançar a bola ao cesto.

Faltou à aula das dez, faltou toda a manhã. Nos intervalos saíamos e logo ouvíamos a bola contra a tabela. O maurício, sozinho, continuava a lançar a bola ao cesto.

Só se foi vestir quando tocou para a saída da última aula dessa manhã. Esperámos todos por ele. Não lhe perguntámos nada. E seguimo-lo cheios de admiração. O maurício, apesar dos professores, apesar dos contínuos, apesar da campainha, faltara a todas as aulas.

Toda a manhã jogara basket. Sozinho. Contra professores, contra contínuos, contra a campainha.

Ruy Belo
in Todos os Poemas, Círculo de Leitores

quarta-feira, 10 de abril de 2019

João Ramos de Almeida - O carácter de Cavaco



QUARTA-FEIRA, 10 DE ABRIL DE 2019

Estive vai-não vai para escrever um post parecido com aquele que o Diogo Martins escreveu sobre o eleitoralismo de Cavaco. Mas depois achei que me bastava ver a pasta de dentes na boca do Ricardo Araújo Pereira (7'30'').

Acrescento só três coisas. Duas curtas e uma longa.

1. Nas suas memórias, Cavaco Silva omite a sua própria participação, como ministro das Finanças de Sá Carneiro, na adopção das medidas eleitoralistas previstas para as eleições de 5 de Outubro de 1980 e descritas no post do Diogo Martins. Pior: dá a entender que a responsabilidade foi, sim, do finado - e portanto incomunicável - primeiro-ministro e do igualmente morto João Morais Leitão (ministro dos Assuntos Sociais), que o tentaram convencer.

"Recordo-me de ele ter organizado  um almoço no Restaurante Tavares, comigo e com o ministro dos Assuntos Sociais, João Morais Leitão, para me convencer a aceitar um aumento extraordinário das pensões de reforma"

E - malvados! - conseguiram. Conseguiram desviar um pobre técnico ingénuo. E isso diz alguma coisa do carácter de Cavaco Silva. Estranhamente, Cavaco Silva esquece-se do rol de medidas que foram aprovadas então, nomeadamente a revalorização do escudo, num contexto de arrefecimento da procura externa, o que iria agravar o défice externo, numa conjuntura já negativa.

2. A prazo, os efeitos desastrosos das medidas eficazes do ponto de vista eleitoral contribuíram para justificar a intervenção externa do FMI. Mas quando o Banco de Portugal se apresentou para negociar a carta de intenções com os técnicos do FMI, Cavaco Silva - já à frente do Departamento de Estudos e Estatísticas - esquivou-se e mandou seguir a directora Teodora Cardoso, evitando assim  ser confrontado com os disparates que fizera enquanto ministro. Outra boa prova do seu elevado carácter.

3. E finalmente a mais longa. Mas é apenas para os mais resistentes.

Ler citações, artigos e memórias do então primeiro-ministro sobre o seu passado na década de 80, quando Cavaco Silva decidiu ser um político, é assistir a uma remontarem de um filme. Faltam imagens, foram apagadas. Há silêncios e omissões.

Em Setembro de 1978, com 39 anos, Cavaco afirma que assistiu ao 34º Congresso do Instituto de Finanças Públicas  e que o debate o entusiasmou. A tal ponto, que tentou sistematizar "as razões do falhanço da escolha pública que se podem considerar associadas à actuação dos políticos".
"A ideia do político como criatura dedicada à prossecução dos interesses da sociedade como um todo é hoje considerada um mito pela generalidade dos economistas", escreveu ele citando uma intervenção de James Buchanan em Lisboa, nesse mesmo ano (Políticos, burocratas e economistas, Revista Economia).   

Toda a sua vida, ele seria isso: a execução prática de uma linha de pensamento contra a ideia política dos políticos se assumirem como políticos, em defesa de um interesse colectivo. Um manipulador que finge não o ser, afirmando-se apenas como um espírito puro, ingénuo. Cavaco seria apenas mais um a executar a linha política de um combate fortemente marcado pelo anticomunismo da  Guerra Fria, baseado na ideia estúpida de que, egoistamente, se cada um pensar apenas em si, conseguirá defender melhor a sua comunidade...

Veja-se o documentário The Trap

O estranho é que, na altura em que escreveu este paper, Cavaco Silva está já embrenhado na vida política aos mais alto nível. Conhecia os políticos, ouvia-os, falava com eles, discutia com eles pontos de vista, encontrava-se mesmo à beira de ser nomeado ministro das Finanças do Governo de Sá Carneiro. Estava, ele próprio, à beira de se tornar um político profissional.

Cavaco conta na sua autobiografia (1) que, em Maio de 1974, pouco depois do 25 de Abril foi convidado por Alfredo de Sousa "para participar numa reunião de economistas e outros profissionais ligados ao PPD que acabara use de ser fundado por Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota". O objectivo era "discutir a situação económica portuguesa e as políticas que deviam ser adoptadas". Cavaco Silva foi. "Aceitei o convite pela vontade de dizer o que pensava sobre o tema, mas também por uma certa curiosidade em relação ao novo partido". Claro que sim.

Mas a sua curiosidade e entusiasmo tornam-se em militância política. "Fui ao Pavilhão dos Desportos, em Outubro de 1974, assistir ao primeiro comício do PPD em Lisboa e deixei-me contagiar pelo entusiasmo que envolveu os oradores. Participei em várias reuniões do gabinete de estudos do partido dirigido por Alfredo de Sousa e António Pinto Barbosa, ajudando a preparar os documentos sobre política económica, inclusivé textos para o programa do partido, que foi aprovado em Novembro de 1974 que teve lugar em, Lisboa. Fui designado para participar no congresso, em representação do gabinete de estudos, mas acabei por não estar presente devido à morte do pai da minha mulher, cujo funeral foi no Algarve". E foi se entrosando ainda mais. "Assisti a várias reuniões em que os ministros do PPD ou dirigentes do partido faziam a análise da situação política".

E tanto participa em reuniões, mesmo de militantes, que é - pasme-se! - convidado para ser deputado nas eleições para a Assembleia Constituinte em Abril de 1975. Mas recusa - "nem pensar nisso" - porque queria continuar a sua carreira académica.

Em Setembro de 1976, Cavaco Silva filia-se no PPD "com alguns colegas da Universidade". Porquê? "A motivação fundamental era ajudar a construir uma força partidária que pudesse travar a onda de loucura em que o país parecia mergulhado e defender ideias políticas do tipo das que dominavam nos países da Europa democrática, adaptadas à realidade portuguesa".

Recorde-se que nessa altura, já pós- 25 de Novembro, era Mário Soares primeiro-ministro, embora Carlos Mota Pinto participasse no governo.

Cavaco Silva estava, pois, muito activo. Cruza-se várias vezes  "nas escadas e salas da sede do PSD, primeiro no Largo do Rato e depois da Duque de Loulé", com Sá Carneiro e outros dirigentes. Cruza-se nas escadas, mas não passa despercebido. "Eles foram tomando conhecimento da minha existência pelas qualidades de economista e, também, pelas minhas análises que fazia em sessões de esclarecimento partidário". Tanto assim que Sá Carneiro, depois do seu regresso à presidência do PSD, no congresso de Julho de 1978, passou a chamá-lo "de vez em quando". "Penso que, por sugestão, do Dr. Loureiro Borges, administrador do Banco de Portugal, para me ouvir sobre as questões económicas nacionais".

No verão de 1979, o PSD começou a tornar-se um partido com possibilidade de chegar ao poder. Cria-se a Aliança Democrática com o CDS e o PPM. Em Outubro desse ano, Sá Carneiro chama-o ao seu gabinete e, depois de uma prelecção sobre a situação política, convidou-o para ministro das Finanças, caso a AD ganhasse as eleições. Cavaco diz que foi "apanhado de surpresa" e recusa. Mas não o deve ter feito de forma muito peremptória porque Sá Carneiro "não ficou muito convencido" e disse-lhe que depois se falaria nisso. E assim foi. A AD ganha e uma semana depois já estava Sá Carneiro a ligar-lhe, sabendo Cavaco ao que ele vinha. "Convidou-me para ministro das Finanças e, brilhante como era na argumentação, foi contrariando as minhas objecções". Que objecções eram essas? Nada se diz. "Embora com algumas hesitações, a minha inclinação era para não aceitar o convite". Apesar disso, pediu mais tempo para pensar. Não lhe apetecia mesma nada... E "foi com este estado de espírito que cheguei a casa de Sá Carneiro às 18h do dia 11 de Dezembro de 1979 para uma segunda conversa". Cavaco nada conta sobre o que se passou naquele final de tarde, mas sabe-se o que aconteceu depois.

A sua experiência como ministro dá a entender que ele era muito rígido para os seus colegas e que os restantes políticos apenas queriam ganhar as eleições, inclusivamente o primeiro-ministro.

"Beneficiei sempre de um apoio inequívoco da parte do primeiro-ministro, mas algumas vezes ele deve ter pensado que eu era demasiado exigente e pouco flexível e que não tinha em devida conta a importância das eleições de Outubro de 1980 para a concretização do projecto da AD e até para as orientações que eu defendia pudessem ser levadas à prática
".

Mas claro a culpa foi de Sá Carneiro com aquela ideia de aplicar medidas eleitoralistas. "Recordo-me de ele ter organizado  um almoço no Restaurante Tavares, comigo e com o ministro dos Assuntos Sociaia, João Morais Leitão, para me convencer a aceitar um aumento extraordinário das pensões de reforma". Ora aí está!

Mas qual foi a conclusão do almoço? Cavaco omite esse pormenor nas suas memórias. Numa entrevista que deu ao seminário Tempo, a 31/12/1980, Cavaco afirmou: "Eu tenho um estilo próprio de exercer o cargo de ministro, estilo esse que se caracteriza mais ou menos pelo seguinte: uma grande preocupação com o rigor e de fundamentação nas decisões; uma exigência para comigo próprio e com os outros; e renitência em deixar-me influenciar por pressões, quando penso que essas pressões não se situam na linha mais adequada para o país".

Cavaco deve, pois, ter sido obrigado, porque a medida foi aprovada, como todas as outras: aumento de salários da Função Pública, melhoria das prestações sociais, estímulos à procura interna, também através do alargamento do crédito, revalorização do escudo facilitando a importação e dificultando as exportações (numa altura de contracção da procura externa). Teria ele pensado que poderia manipular a economia e depois compensar as medidas de forma inversa? E que teria tempo para isso?  Se foi isso, a ideia correu mal.

A AD ganha as eleições e cinco dias depois Cavaco Silva, segundo ele, impôs fortes condições para aceitar ser ministro. A política económica não podia ser aprovada contra o seu parecer. "Passarão a ser assinados pelo ministro das Finanças (para além do primeiro-ministro) nos termos da letra e do espírito do artigo 11º do DL 49-B/76 todos os diplomas que envolvam aumento de despesas. Como corolário, tais diplomas não deverão ser agendados para Conselho de Ministros antes de obtida a concordância do ministro das Finanças (...) Independentemente dessas condições, quero ainda deixar claro que não permanecerei no governo se se vier a desenvolver uma atitude de hostilidade para comigo da parte da maioria dos membros do Conselho de Ministros".

A negociação é interrompida com a morte de Sá Carneiro em Dezembro de 1980. "Fiquei surpreendido, mas também lisonjeado quando verifiquei que o meu nome também era mencionado, embora com pouca consistência" para a sucessão de Sá Carneiro.

E deve ter ficado de alguma forma desiludido quando o governo seguinte passa a ser coordenado por Pinto Balsemão, que prefere para ministro das Finanças, primeiro João Morais Leitão e, desde Setembro de 1981, João Salgueiro. E todos viram-se a braços com as consequências das medidas adoptadas. Sobre si próprio, Cavaco afirmou - sem explicar - que, no princípio de 1981, tinha uma boa imagem política porque "os resultados conseguidos tinham contribuído muito para a vitória da AD" (2).

O próprio Cavaco sai, desejoso de voltar: "Ao sair da pasta das Finanças, trouxe comigo um interesse pela política maior do que aquele que tinha quando entrei para o Governo de Sá Carneiro, nos primeiros dias de Janeiro de 1980", ou seja, um ano antes.

E não se ficou pelo desejo. Quis à viva força recuperar o palco perdido. Balsemão não deve ter enobrecido as posições de Cavaco Silva e Cavaco Silva fez-lhe a vida negra.

"No período de 1981/82, deixei-me envolver na vida partidária, mundo que eu conhecia mal e acumulei erros e desilusões". Ah o político mal amado. Detesta esse mundo, mas sente por ele uma rara atracção. Em 1990, pintou esse período de outra forma. Diz que fez uma "travessia do deserto político de 1981 a 1985" e que "remete-se por iniciativa própria a uma acção política o mais discreta possível" (3). As suas memórias pormenorizam essa discreta travessia.

"Aceitei ser delegado ao primeiro congresso nacional do PSD depois da morte de Sá Carneiro" que se desenrolou em Lisboa, no Pavilhão dos Desportos, em Fevereiro de 1981. Entra na lista de Eurico de Melo contra o governo Balsemão. "Foi aí que fiz o meu primeiro discurso em congresso do partido""O meu envolvimento partidário foi ainda reforçado pela eleição em Abril de 1981 para presidente da Assembleia Distrital da Área metropolitana de Lisboa""O facto de ter apresentado ao congresso do PSD uma lista para o conselho nacional fez com que, no ano de 1981, me envolvesse bastante na vida partidária, não que tivesse descoberto uma vocação nesse sentido, mas porque, face à degradação da situação política, sentia uma certa responsabilidade perante os muitos militantes que expressavam, confiança em mim e Son haviam com uma alternativa à liderança do partido". Claro que sim!

Cavaco nega que tenha conspirado contra Balsemão ou feito jogos bizantinos de corredor. O que havia era "militantes que comigo trocavam impressões". Era o caso de Eurico de Melo, Montalvão Machado, Amândio de Azevedo, Rui Amaral, Rui Almeida Mendes, António Maria Pereira, Fernando Correia Afonso, Apolinário Vaz Portugal, Helena Roseta, Manuela Aguiar, Pedro Santana Lopes, Dinah Alhandra e outros. "Eram os chamados críticos que foram objecto de ataques violentos dos apoiantes de Pinto Balsemão". Mas não havia facção, nem acção organizada, assegura Cavaco.

Só que no conselho nacional de 8 e 9 de Agosto de 1981, Pinto Balsemão apresentou demissão de primeiro-ministro e a comissão distrital de Lisboa propôs o nome de Cavaco Silva. Cavaco diz ter recusado, "apesar das pressões a que fui sujeito". E Pinto Balsemão é de novo reconduzido a 16/8/1981. Aproximava-se uma bernarda económica e aquele não era ainda o momento. Cavaco volta a assegurar que não conspirou. Só que nas suas memórias lá está a sua ida ao Congresso de Dezembro de 1981: "Antes tive duas conversas com Pinto Balsemão, a seu pedido. Falou-me da composição dos órgãos a serem eleitos, procurando evitar que eu apresentasse uma lista própria para o conselho nacional, o que ele considerava uma atitude de confronto". Estavam bem um para o outro: um a querer derrubar o adversário, e este a não querer concorrentes...

Cavaco não apresenta listas, o que - apesar de não estar a conspirar - "frustrou muitos militantes que viam em mim uma alternativa". Mas por que não queria intervir se a correlação de forças até lhe era favorável? "Não queria servir de alibi para as dificuldades que o Governo e o partido enfrentavam e" - atenção a um argumento recorrente em muitos baixos do ciclo económico - "desejava afastar-mãe da vida partidária activa. Estava cada vez mais absorvido na minha actividade profissional no Banco de Portugal, na Universidade e também no conselho nacional do plano".

Apesar disso, não parou. "Discretamente, eu trocava impressões com algumas pessoas, em particular com Eurico de Melo e fazia algumas intervenções, umas mais tºecnicas e outras mais políticas, em reuniões e jantares de militantes, procurando ser cuidadoso nas críticas em relação ao Governo"."Dois dos meus colaboradores - o chefe de gabinete, José Veiga de Macedo, e lo adjunto, Rui Carp - eram entusiastas da política e sonhavam com uma intervenção mais activa da minha parte". Ele tudo geria. Em 1982, segundo a comunicação social, Cavaco estava a liderar a oposição interna ao Governo. Num jantar em Vila Nova de Gaia, Cavaco fez um discurso, uma conferência política, em que defendeu que as eleições autárquicas eram um sinal claro para a gestão governamental e serviu para mais umas alfinetadas a Balsemão.

Face à figura fraca do PM e a sua tibieza, com a sua dificuldade em respirar, Cavaco fez um retrato oposto, parecido consigo mesmo: "Para que um governo tenha êxito (são coisas amplamente conhecidas) é preciso preencher várias condições e uma delas é conseguir uma imagem de força, de coerência e de capacidade para resolver os problemas do país, É preciso coordenação entre os vários departamentos ministeriais para fazer emergir o governo como um todo e não como uma federação de ministros e secretários de Estado""Eu, como ministro, nunca iria à televisão falar de aumentos de preços. Eu, como ministro e como economista, só posso ir à televisão dizer que os preços vão subir menos. É óbvio que um ministro não pode dizer que os preços vão subir. Tem de dizer que vão baixar (...) Um ministro não pode dar uma conferência de imprensa dizendo hoje que os preços dos transportes aumentam e que se preparem porque em Setembro vão aumentar outros preços (...) Isso é a mesma coisa que dar duas bofetadas a um miúdo e dizer-lhe 'Não te esqueças que daqui a uma semana levas mais duas'"Ou ainda, revelando ser a pessoa que conhece a altura certa: "É preciso imprimir um ritmo e uma dinâmica apropriada à governação. É preciso saber qual é o tempo adequado para cada coisa no Governo. É o chamado timing. Uma das coisas mais importantes em governação é o tempo" (4).    

Nada destes momentos surgem na autobiografia. O seu texto perde o colorido cru do momento. Apenas revelam uma calma que não existia na altura. "Em Julho de 1982, convicto de que a vida político-partidária e a situação económica continuavam a degradar-se perigosamente" - ou seja, ano e meio de ter deixado o governo -"publiquei uma carta aberta com Eurico de Melo". E assim continuará até Maio de 1985, quando já se pressentem as melhorias económicas, pós intervenção do FMI. E o timing chegara.

"Aceitei no entanto o convite de alguns militantes da minha secção para integrar uma lista de delegados ai congresso nacional que fora convocado para meados de Maio de 1985, no Casino da Figueira da Foz (...). Fui eleito como número dois de uma lista encabeçada pelo presidente da secção D da área de Lisboa, mas mantive-me afastado das discussões". Quem acredita nisso? Faz contactos com Freitas do Amaral para preparar a sua proposta de candidatura à Presidência da República, a apresentar no congresso. "Muitos foram militantes que tentaram falar comigo para ouvir a minha opinião ou convencer-me a candidatar-me a presidente do partido". E para "surpresa geral, incluindo a minha acabei por ser eu a ganhar o congresso".

É esta sonsice política, esta constante preocupação de reconstrução da sua personagem e da História, que o caracteriza. Hoje, Cavaco é apenas uma sombra do que foi. Sem o viço da juventude, ficou apenas a procura crónica por uma lenda coxa.

Notas:  
(1) Autobiografia Política, Temas e Debates
(2) As revelações de Cavaco Silva, entrevista a Cavaco Silva, Público, 28/3/1995
(3) Família Cavaco Silva condena prendas materiais, Gente, 5/12/1990
(4) Aníbal contra Cavaco, Carlos Magno, Expresso, 18/10/1993