* Henrique Raposo
Os doutores do partido, como Cunhal e Urbano, estavam numa situação de conforto, nas praias do mar Negro, enquanto que os comunistas do interior apanhavam da GNR e da PIDE
A tortura é um momento que nos deixa desarmados, dilui as ideologias, humaniza inimigos. Um fascista não deixa de ser fascista só porque foi torturado, mas o seu sofrimento humaniza-o aos nossos olhos e ouvidos: o grito de dor de um fascista é igual ao grito de dor de um democrata. Passa-se o mesmo com um comunista: ele não deixa de ser um inimigo da democracia, mas a tortura que sofreu humaniza-o e até cria um manto acrítico à sua volta, porque na verdade somos todos praticantes de uma vulgata cristã que adora mártires e que assume — erradamente — que o sofrimento santifica, no máximo, ou que cria carácter, no mínimo. Não, não. A tortura ou qualquer outro episódio deste calibre não dá razão nem moral a ninguém. O sofrimento não purifica, nem é livro de autoajuda. Trump não deixa de ser um perigoso quase-fascista só porque já sofreu duas tentativas de assassínio; o rosto rasgado pela bala não lhe dá razão; pensar o contrário é entrar no campo do culto irracional. E, sim, os fiéis trumpistas veem na cicatriz um sinal de superioridade moral de Trump. O comunismo dependia da mesma irracionalidade. Basta olhar para a experiência comunista portuguesa. Como alguns tinham sido torturados pela PIDE, nós sentíamos quase uma obrigação moral de lhes dar razão e até superioridade moral à partida, mesmo antes de qualquer discussão, mesmo quando eles defendiam absurdos antidemocráticos e antidireitos humanos. Aliás, a III República foi fundada neste pressuposto sobretudo a partir do 25 de Novembro: eles, os comunistas, não ficaram com a organização política, mas ficaram com a superioridade moral. E de facto era muito difícil contrariar, por exemplo, um velho comunista alentejano que se imortalizou da seguinte forma: é apanhado pela PIDE com um saco de jornais clandestinos; é levado para os calabouços, vai ser torturado para denunciar os colegas; antes mesmo de qualquer palavra ou ação do pide, ele coloca a mão em cima da mesa e diz: “Vá, podes parti-la à vontadinha que eu não vou falar!” Eu odiava o que ele, o velho comunista, defendia politicamente, mas moralmente era impossível não sentir um certo temor perante este porte. Ou seja, a montante, a parte emocional do meu cérebro respeitava o seu sofrimento crístico, mas a jusante a parte racional não podia aceitar o que ele defendia para a democracia, porque na verdade não queria uma democracia.
Carlos Brito (1933-2026)António Pedro Ferreira
É por isso que eu via em Carlos Brito (1933-2026) alguém especial. Enquanto operacional comunista, Carlos Brito foi torturado pela PIDE, mas — pelo menos no que li e ouvi — Brito não usava esse episódio para criar uma presunção de superioridade moral sobre os outros. O que ele dizia não devia ser aceite no presente com base nesse sofrimento passado; a tortura não é uma carta-branca. O que ele dizia devia ser avaliado pela validade ou invalidade dos seus argumentos, que eram ditos em pé de igualdade com os outros. É por isso, de resto, que Carlos Brito, com o tempo, democratizou o seu pensamento. Sem nunca deixar de ser comunista no sentido mais lato, Brito abandonou a seita irracional que se chama PCP. A essência do PCP e da extrema-esquerda é a ideia da superioridade moral dos comunistas — tese, aliás, defendida em livro por Cunhal; tese, aliás, incompatível com a democracia e por isso contestada por todos os dissidentes comunistas como Brito ou Zita Seabra.
A forma abjeta com que o PCP despreza agora Carlos Brito na hora da sua morte diz tudo sobre a amoralidade leninista da agremiação. É uma enorme ironia do destino: Carlos Brito é mais respeitado da hora da sua morte por democratas de direita do que pelo PCP e pela extrema-esquerda. E saliente-se que Carlos Brito não passou a ser persona non grata na extrema-esquerda só porque passou a acreditar de facto na democracia e — muito antes da ‘geringonça’ — numa aliança de esquerdas dentro da democracia. Não, não. O PCP passou a desprezar Carlos Brito por causa do que ele defendia para o futuro, sim, mas o motivo fundamental do repúdio está naquilo que Brito dizia sobre o passado de Cunhal.
14 maio 2026
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