segunda-feira, 25 de maio de 2026

Pablo Neruda - Ode ao gato



«Este belo e melancólico mural em Orgosolo afasta-se um pouco do tom puramente político ou de protesto militar para mergulhar numa profunda reflexão existencial e poética sobre a insatisfação humana, utilizando as palavras de um dos maiores escritores da literatura mundial: o chileno Pablo Neruda. O texto pintado na parede acima das personagens é um poema em prosa (com pequenas adaptações na quebra dos versos) retirado da obra do Nobel da Literatura:

"...l'uomo vuol essere pesce e uccello, il serpente vorrebbe avere le ali, il cane è un leone spaesato, l'ingegnere vuol essere poeta, la mosca studia per rondine, il poeta cerca d'imitare la mosca, ma il gatto vuole essere solo gatto..." — Pablo Neruda



Esse texto poético faz parte de um dos poemas mais célebres e divertidos de Pablo Neruda, chamado "Oda al gato" (Ode ao gato), publicado em 1954 no seu livro Odas elementales.

Como se trata de uma ode longa, o trecho pintado no mural corresponde à secção central e final do poema, onde Neruda faz justamente essa brilhante transição entre a crise de identidade dos outros seres e a perfeição absoluta do gato.

"Oda al gato" (Original em Espanhol)

Los animales fueron
imperfectos,
largos de cola, tristes
de cabeza.
Poco a poco se fueron
componiendo,
haciéndose paisaje,
adquiriendo lunares, gracia, vuelo.
El gato,
sólo el gato
apareció completo
y orgulloso:
nació completamente terminado,
camina solo y sabe lo que quiere.  

El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde el lomo a la cola,
desde la premonición hasta el ratón vivo,
desde la noche hasta sus ojos de oro.  

No hay unidad como él,
no tienen
la luna ni la flor tal contextura:
es una sola cosa
como el sol o el topacio,
y la elástica línea de su contorno
es firme y sutil como
la línea de la proa de un navío.
Sus ojos amarillos
dejaron una sola
ranura
para echar las monedas de la noche.

Oh pequeño emperador sin orbe,
conquistador sin patria,
mínimo tigre de salón, nupcial
sultán del cielo
de las tejas eróticas,
el viento de la amor
reclamas
en la intemperie
cuando pasas
y posas
cuatro pies calzados
con sutiles
calzados de plata,
husmeando
la sospechosa
soledad del mundo.

Oh fiera independiente
de la casa, arrogante
vestigio de la noche,
perezoso, gimnasta
y detectivesco,
hondísimo
gato,
policía secreto
de las habitaciones,
insignia
de una
desaparecida terciopelo,
seguramente no hay
enigma
en tu manera,
tal vez no eres misterio,
todo el mundo te conoce y perteneces
al habitante menos elegante,
tal vez todos se creen
tus dueños,
tus propietarios, tíos
o compañeros,
de gatos, compadres
de su destino,
pero yo
no confieso.
Yo no me rindo al gato.

Él no me pide nada,
camina
y es en su noche su destino.

"Ode ao Gato" (Tradução em Português)

Os animais foram
imperfeitos,
longos de cauda, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco foram-se
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo manchas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
camina sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e ave,
a serpente gostaria de ter asas,
o cão é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta tenta imitar a mosca,
mas o gato
quer ser apenas gato
e todo o gato é gato
do lombo à cauda,
da premonição até ao rato vivo,
desde a noite até aos seus olhos de ouro.

Não há unidade como ele,
não têm
a lua nem a flor tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha do seu contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de um navio.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para deitar as moedas da noite.

Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
dos telhados eróticos,
o vento do amor
reclamas
na intempérie
quando passas
e pousas
quatro pés calçados
com subtis
sapatos de prata,
farejando
a suspeita
solidão do mundo.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginasta
e detetivesco,
profundíssimo
gato,
polícia secreto
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
toda a gente te conhece e pertences
ao habitante menos elegante,
talvez todos se creiam
teus donos,
teus proprietários, tios
ou companheiros
de gatos, compadres
do seu destino,
mas eu
não confesso.
Eu não me rendo ao gato.

Ele não me pede nada,
caminha
e é na sua noite o seu destino.»

(Google Gemini)
 

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