terça-feira, 23 de outubro de 2007

Nuno Júdice - poemas


* Nuno Júdice
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Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.





Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
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Para saber mais visitar:

A a Z Blog de Nuno Júdice

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Últimas Publicações (2)


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A visão global da guerra - RTP1: Série documental ...
18 cantos nahuatl
Pequeno Dicionário Luso-Brasileiro ...
Arte de Furtar
O mundo literário de José Saramago
Guerra Colonial: série estreia dia 16 - A Guerra c...
Economista Acidental
Coisas do Circo - Emídio Rangel
A Relíquia - Eça de Queirós (introdução)

A visão global da guerra - RTP1: Série documental estreia hoje à noite


* João C. Rodrigues


O realizador e autor da série documental ‘A Guerra’, Joaquim Furtado, acredita que o trabalho que estreia esta noite na RTP 1 vai suscitar controvérsia.

Em antecipação ao primeiro de 18 episódios do documentário sobre o período da guerra colonial, Joaquim Furtado afirmou ao CM que “a própria série já é controversa em certos momentos”, uma vez que apresenta “muita informação nova sobre factos que até agora eram dados como certos”.

“Não me surpreendia se o assunto voltar a ser discutido pelas pessoas. É uma questão sensível na história de Portugal e, apesar de já se terem passado quase 40 anos, nunca foi tratada e esclarecida como deveria.”

Furtado sustenta que os depoimentos recolhidos e as imagens contextualizadas, “por mostrarem novas visões sobre as verdades oficiais da época, vão, pelo menos, levantar alguma discussão”. O realizador dá como exemplo os primeiros momentos da guerra e o episódio que ficou conhecido como o ‘Massacre de Mueda’, em Moçambique, onde terão morrido centenas de pessoas.

“São 13 anos de história que quis contar de forma integrada e simultânea, isto é, mostrar como existiam dois pólos que condicionavam a guerra: o português e o internacional.”

Para mostrar as diferentes visões da mesma guerra, o jornalista deslocou-se por diversas vezes aos locais que marcaram aquele momento no sentido de obter depoimentos daqueles que estavam no outro lado da barricada. Como exemplo das diferentes perspectivas como os protagonistas viam o conflito, Joaquim Furtado diz que logo no ‘nome’ da guerra se vê o modo como a mesma era encarada: “Dependendo do lado, há quem lhe chame guerra colonial, guerra no Ultramar ou guerra da libertação.”

Mas não será só em Portugal que a série documental pode provocar reacções. O realizador explicou ao CM que ‘A Guerra’ também será exibida na RTP África – em simultâneo –, pelo que também poderá causar controvérsia nas antigas colónias portuguesas.

Consciente da sensibilidade do tema e do impacto que pode vir a ter, o realizador confessa que planeou a série “a pensar em diferentes públicos”. “Tanto naqueles que viveram o conflito directa ou indirectamente, como nas camadas mais jovens, que têm muita curiosidade em saber o que se passou com os pais ou outros familiares neste período, mas que partem com ideias feitas, distorcidas ou incompletas sobre o mesmo.”

DOCUMENTÁRIO EM HORÁRIO NOBRE FAZ FALTA À TELEVISÃO

Joaquim Furtado está satisfeito por ver o seu trabalho exibido no horário nobre da RTP 1, razão que ajuda a ter expectativas altas em relação às audiências. “Não acompanho o fenómeno desde que deixei a direcção da RTP, mas parto do princípio que é um assunto que diz respeito a muitos portugueses e que, nesse horário, poderá ter bons resultados. Por isso, julgo que haverá um grande número de pessoas a seguir a série.” O jornalista sustenta ainda que devia haver mais documentários na televisão portuguesa: “Claramente falta espaço para este tipo de formatos nos canais nacionais. E isso faz falta.”

IDENTIFICAÇÃO DE ARQUIVOS PROBLEMÁTICA

“A maior dificuldade na produção de ‘A Guerra’ foi a identificação dos filmes dos Arquivos da RTP e do Exército”, diz Joaquim Furtado. “Em muitos casos a identificação estava errada ou incompleta. Havia imagens em que a informação dizia que tinham sido recolhidas em determinado local de Angola, mas, na verdade, foram captadas no extremo oposto do país. Conseguir identificar e contextualizar todos os documentos foi um processo muito moroso”, confessa o realizador. Para produzir os 18 episódios de uma hora, Joaquim Furtado recorreu a cerca de 500 horas de gravações que estavam arquivadas e registou 200 depoimentos de entre as mais de 400 entrevistas que fez no processo. “É natural que muito material tenha ficado de fora, mas há aspectos que podem voltar a ser recuperados no futuro”.

SAIBA MAIS

- 1961 Ano em que estala a guerra em Angola. Em 15 de Março, a União dos Povos de Angola, sob as ordens de Holden Roberto, massacra colonos e negros bailundos trabalhadores nas fazendas.

- 1963 Ano em que a guerra alastra à Guiné – quando, em Setembro, o PAIGC, conduzido por Amílcar Cabral, ataca o quartelamento português de Tite, na margem esquerda do Rio Geba, a Sul de Bissau.

- 1964 A guerra estende-se a Moçambique. Guerrilheiros da Frelimo lançam, a partir da Tanzânia, um ataque ao posto administrativo de Chai, no Norte da colónia.

MORTOS

A guerra durou até 1974. O número exacto de mortos ainda não está apurado: ronda 10 mil, segundo a Liga dos Combatentes.

MILITARES

Milhão e meio de portugueses foram mobilizados para a guerra em África.
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in Correio da Manhã 2007.10.16
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foto - A RTP possui em arquivo milhares de imagens avulsas que agora foram identificadas e colocadas em contexto. Cenas inéditas também prometem surpreender muitos telespectadores.
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» Comentários no CM on line
Quinta-feira, 18 Outubro
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- João Costa Foi desmascarada a classe política pela falta de vergonha evidenciada em 33 anos de democracia. Em certa medida, até os fazedores do 25 de Abril se deixaram enrolar por ela. Todos foram abandonados à sua sorte, os políticos enrolaram a bandeira portuguesa e fugiram a toda a brida. Ainda hoje os generosos combatentes portugueses (que inclui africanos) continuam à espera que olhem para eles.
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Quarta-feira, 17 Outubro
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- jose neves Fui mobilizado para Angola no ano de 1969 como Furriel de infantaria para a zona militar leste. Os dois anos passaram-se e finalmente chegou o dia do desejado regresso.O comandante do batalhao mandou toda a tropa formar no campo do Grafanil. O seu discurso de despedida comecou assim: "Agora a maioria de vocês vão para vida civil, não vão contar o que viram ou não viram. Não sejam JAVARDOS!!!"
- Dúlio Silva Coelho Parabéns ao autor do documentário pois faz falta não só aos ex-colonos saberem mais sobre a guerra que marcou a história mais recente do nosso país mas também aos mais novos saberem tudo o que levou à revolução desde o seu principio, dado isto ser um assunto tabu no nosso ensino e fundamental para compreender melhor a politica e estrategia seguidas pelo nosso governo desde a ditadura. Parabéns.
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Terça-feira, 16 Outubro
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- peregrino O representante da Frelimo disse lá na plateia que 'eles' queriam era apenas a LIBERTAÇÃO do JUGO DOS DE FORA. Ora, os Macondes não são Xanganas e estes não são Macúas. Existem pelo menos 13 POVOS diferentes em Moçambique. QUANDO É QUE A FRELIMO VAI DAR-LHES LIBERTAÇÃO PARA QUE ELES TAMBÉM POSSAM DECIDIR DO SEU PRÓPRIO DESTINO?
- Helder Gerardo Acabei de ver o documentário de Joaquim Furtado e está fantástico. Aliás existe um livro que aconselho vivamente, que relata estes factos todos desde 1849 até 2000 e que mistura ficção e factos históricos duma forma surpreendente: "Os verdes do mato não acabam", de João Coutinho, Ed. Ausência. A não perder!
- Carlos Alberto Guimaraes Dou os meus parabens a Joaquim Furtado pelo trabalho realizado, mas a guerra começou em 11/01/61 na Baixa de Cassange, no Posto Administrativo do Milando- na sanzala de Ganga -Mexica. O 1º oficial que entrou em acçao foi o tenente Portugal com 2 Jipes e e dez homens, que chegou ao Milando na noite de ll/01/61. O Chefe de Posto encontra-se vivo e tem todo este acontecimento escrito, para a historia
- Gentleman Já tardava! Parabéns Sr Joaquim Furtado. Estou ansioso por vêr os culpados dos milhares de portugueses brancos que morreram nas ex-províncias ultramarinas, depois da indepêndencia, sem conseguirem saír das colónias. Estive em Angola em 1996/97 e um alto dirigente do MPLA indentificou-os sem qualquer dúvida. Vamos lá ver se fogem à responsabilidade.
- spirou Dsejava ver, e ouvir dirigentes da frelimo dizer o que eu ouvi em Moçambique,na celebração do dia da independência, 7/09/1998, passou na televisão um documentario sobre a guerra, mais ou menos esplanado do que aconteceu e quais os principais intervenientes da "venda" das ex colonias,as reuniões secretas na Argelia e França, e o que o Sr Savimbi disse ao telefone a um lider politico Português.
- vitor silva Saudosos tempos em k Portugal era um Pais, hj é uma quinta onde cada um rouba o que pode.
- Marília Guimarães Quero informar que a guerra em Angola começou na Baixa do Cassange (Distrito de Malange) em 11.1.1961. Quem deu alerta a Angola inteira foi o Chefe do Posto do Milando o meu pai Alberto Pinto Guimarães. Em Março, o meu pai já estava farto da guerra.
- weisswurst - braga Espero que falem dos 9,000 portugueses brutalmente assassinados em Angola. Espero que falem das manobras da CIA e KGB, incitando ao ódio racial contra Portugueses. Espero que falem que as zonas "libertadas" continuam hoje colonizadas por americanos, russos e chineses. É melhor esperar sentado.
- JBrito Espero que mostrem as imagens e texto constantes no livro, se a memória não me atraiçoa, "Angola, nos dias do desespero".Em 04/02/61 eu tinha 9 anos e assisti a muitas atrocidades que me marcaram até aos dias de hoje.Lisboa
- Leandro Coutinho País rural, pobre, analfabeto.. suportou uma guerra nas décadas de 60 e 70 devido á teimosia de um regime que nenhum outro país da Europa aceitaria.. A Guerra ficou cravada na História de Portugal e de África.. Para já ainda é polémica..Estão vivos milhares e milhares de combatentes..Serão precisos mais 20 anos para poder haver análise desapaixonada..
- Maquiavel Antes de mais é preciso ter isso em mente: O Império Português NUNCA foi como os outros. Falar de 'guerra ultramarina' ou 'guerra de libertação' ou 'guerra colonial' é uma TRAIÇÃO ao ESPÍRITO LUSITANO eternalizado pelos versos de Camões.
- fernanda gaspar Nascida em Angola e me lembrando bem dos masssacres do Norte de Angola, estou morrendo de curiosidade p/ver o documentário. Porque à frente dos guerilheiros havia sempre um feiticeiro de capote preto dizendo que as balas dos brancos não matavam... Ver para crer.Oeiras

18 cantos nahuatl

Pérolas aos poucos / XXIV / CANTOS NAHUATL




Os cantos foram compilados por frades espanhóis e perfazem uma instigante amostra da cultura do império azteca pré-colombiano. Os textos abaixo foram recolhidos de 18 cantos nahuatl, antologia da Editora da UFSC. O tradutor Marcos Caroli Rezende baseou-se em códices do século XVI depositados na Biblioteca da Universidade do Texas e na Biblioteca Nacional do México. A ilustração é de Antonio Roseno de Lima.


POEMA 3

Ressoam os guizos
No meio da planície:
Aí jaz abandonado
Tlacahuepantzin.
Com flores amarelas
Derrama seu perfume
No Lugar do Mistério.

Tu te escondeste sozinho
em Chicomoztoc,
onde se levanta a acácia.
A águia gritava, o jaguar rugia.
E tu, ave de fogo, alçaste vôo
No meio da planície
No Lugar do Mistério.

POEMA 4

Com flores, com cantos
Nos vestimos e somos ricos.
Estas são as flores da primavera,
Com elas nos cobrimos sobre a terra.

Sabe-o meu coração:
Ouço este canto
Vejo uma flor.
Que nunca se murchem sobre a terra.

POEMA 7

Escutem, pois, amigos
Um discurso de sonho:

A cada primavera nos dá vida
A espiga dourada,
E nos sustenta
O milho avermelhado.

Colares preciosos nos adornam:
É porque sabemos
Que nos são fiéis os corações dos amigos.

POEMA 11

Eu, por minha parte, digo:
Como a efêmera flor desabrochamos sobre a terra:
Para secar-nos um dia, amigos.

- Que desapareça toda amargura,
Todo sinal de angústia!

Mas de que modo comer
E como haveremos de festejar?

Nossos cantos são engendrados
Lá onde nascem nossos tambores.
Sofro sobre a terra.
Lá onde eles vivem se há de tecer a amizade,
A sociedade dos poetas, em meio aos tambores.

Por acaso eu verei de novo a luz do sol
E poderei entoar novamente o meu canto?
Sozinho aqui, todos ausentes já,
Um dia eu também serei oferecido
À névoa e às sombras.

Escutemos o nosso coração:
É nossa casa esta terra?
Ou vivemos apenas em meio à miséria e à angústia?

Por isso, solitário, eu vou cantando e implorando:
Como flor me esparzirão em sementes de novo?
Como o grão de milho me enterrarão,
Ou brotarão meus pais, e eu deles,
Espiga de espigas sobre a terra?

Por isso eu choro. Não há ninguém aí,
Deixaram-nos órfãos sobre a terra.


POEMA 12

Elevamos nossos cantos, nossas flores:
São os cantos do deus.
Com eles nos abraçamos,
Gozamos da amizade
E juntos conhecemos a fraternidade.

Assim dizia Tochihuitzin,
Assim deixou dito Coyolchiuhqui:

Como quem apenas desperta de um sono,
Como se fôssemos apenas um sonho do deus:
Não é real, não é real a nossa vida sobre a terra.
A cada primavera nos fazemos como a erva:
Como ela brota fresco,
Se agita viçoso o nosso coração,
É uma flor a nossa carne:
Abre umas quantas corolas,
E então se seca.


POEMA 16

Com flores
Pintas as coisas,
Senhor da Vida.
Com cantos
colores tudo
O que há de caminhar sobre a terra.
Por isso é frágil
A irmandade das águias e jaguares:
Porque nós vivemos somente
Nas tuas pinturas
Aqui na terra.

Assim delineias
A irmandade, a confraria,
A união dos príncipes,
E cobres de cores
O que há de caminhar sobre a terra.
Por isso é frágil
A irmandade das águias e jaguares:
Porque nós vivemos somente
Nas tuas pinturas
Aqui na terra.

Que se escondam os príncipes
Com suas esteiras preciosas
Ou em cofres de jade -
Todos somos mortais,
Todos e cada um, miseráveis
Nos iremos,
Todos morreremos
Nesta terra.

Ninguém será preservado sobre a terra,
Ninguém, transformado em ouro ou esmeralda,
Será preservado.
Todos nos iremos
Da mesma forma para lá.
Ninguém há de ficar
E todos desapareceremos,
Da mesma forma nos iremos
Todos para a sua casa.

Como uma pintura
Desapareceremos,
Como uma flor
Nos secaremos
Sobre a terra.
Como as plumas do quetzal, do zacuan,
Como as plumas preciosas do xiuhquechol, do tlauhquechol,
Desapareceremos
E iremos para a sua casa.

Chegou até nós,
Aqui se acumula a saudade
Dos que vivem na nossa tristeza.
É inútil chorá-los,
As águias e jaguares:
Aqui desapareceremos
E ninguém ficará.

Meditai sobre isso, oh príncipes,
Águias e jaguares:
Ainda que seja esmeralda,
Ainda que seja ouro,
Também há de ir para lá,
Para o Lugar dos Descarnados.
Desapareceremos
E ninguém ficará.
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in Blog de Adrianno

domingo, 21 de outubro de 2007

Pequeno Dicionário Luso-Brasileiro ...


(para entender bem, convém ler com pronuncia brasileira)


Testículo..................: Texto pequeno.

Abismado................: Pessoa que caiu de um abismo

Pressupor................: Pôr preço em alguma coisa.

Biscoito...................: Fazer sexo duas vezes.

Missão....................: Culto religioso com mais de três horas de duração.

Padrão....................: Padre muito alto.

Estouro...................: Boi que sofreu operação de mudança de sexo.

Democracia............: Sistema de governo do inferno.

Barracão.................: Proíbe a entrada de caninos.

Homossexual..........: Sabão em pó para lavar as partes íntimas.

Ministério................: Aparelho de som de dimensões muito reduzidas.

Edifício....................: Antónimo de "é fácil ".

Detergente..............: Acto de prender seres humanos.

Armarinho...............: Vento proveniente do mar.

Eficiência................: Estudo das propriedades da letra F.

Conversão..............: Conversa prolongada.

Barganhar..............: Receber um bar de herança.

Fluxograma............: Direcção em que cresce o capim.

Halogéneo..............: Forma de cumprimentar pessoas muito inteligentes.

Unção.....................: Erro de concordância verbal. O certo seria "um é".

Expedidor...............: Mendigo que mudou de classe social.

Luz solar.................: Sapato que emite luz por baixo.

Cleptomaníaco.......: Mania por Eric Clapton.

Tripulante...............: Especialista em salto triplo.

Contribuir................: Ir para algum sítio com vários índios.

Aspirado.................: Carta de baralho completamente maluca.

Coitado...................: Pessoa vítima de coito.

Regime Militar........: Rotina de dieta e exercícios feitos pelo exército.

Bimestre.................: Mestre em duas artes marciais.

Caçador..................: Indivíduo que procura sentir dor.

Suburbano..............: Habitante dos túneis do metro.

Volátil.....................: Avisares o tio que vais lá.

Assaltante..............: Um "A" que salta.

Determine..............: Prender a namorada de Mickey Mouse.

Pornográfico...........: O mesmo que colocar no desenho.

Coordenada...........: Que não tem cor.

Presidiário..............: Aquele que é preso diariamente.

Ratificar..................: Tornar-se um rato.

Violentamente........: Viu com lentidão.

Diabetes.................: As dançarinas do diabo

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in A verdade da mentira

Arte de Furtar


Arte de Furtar

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Monumento da prosa barroca, a Arte de Furtar, hoje dominantemente atribuída ao jesuíta Padre Manuel da Costa (1601-1667), é uma das obras emblemáticas do período da Restauração e o ponto mais alto da literatura portuguesa de costumes dos séculos XVI a XVIII. A sua redacção ocorreu, como se depreende do texto, em 1652, ou seja, ainda em vida de D. João IV, ao qual foi oferecida pelo autor, embora só quase um século depois tenha sido impressa
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Objecto da obra


O título da obra inscreve-se ironicamente numa linhagem de Artes de propósito didático publicadas em Portugal na primeira metade do século XVII, sob os Filipes ou já sob D. João IV, como a Arte de Navegar (1606), a Arte de Canto-chão (1618), a Arte de Orar (1630) e sobretudo, pela maior proximidade cronológica e temática, a Arte de Reinar de António Carvalho de Parada (1643). Mas não ensina a Arte de Furtar a roubar, antes inventaria as numerosas formas de roubo e desmascara as múltiplas espécies de ladrões, para que os leitores deles se acautelem e o rei lhes dê "o castigo que merecem". A roubalheira e a corrupção eram tão gerais, segundo o autor, que ele não aceitava que ninguém lhe arguisse a obra, à excepção do rei e do príncipe herdeiro (D. Teodósio, que morrerá em 1653 com 19 anos), já que todos os restantes lhe eram suspeitos. Assim, do clero à burguesia, passando pelos militares e pela nobreza, a todos vai o autor descobrindo as "unhas" e as "traças de ladrões", exceptuando convenientemente "os ministros que assistem a El-Rei" (ver excerto abaixo).
Na verdade, a Arte de Furtar fala de algo mais do que o seu título sugere. Fala de política, da qual o autor finge ter "poucos conhecimentos", mas de que traça uma genealogia diabólica (ver excerto). A crítica moralizante da "razão de Estado" denuncia o típico anti-maquiavelismo jesuíta na análise do fenómeno político. Decorria então a Guerra da Restauração, pelo que o assunto das relações de Portugal com Castela é igualmente tratado com todo o relevo. Ocupa-se ainda Manuel da Costa, pregador de ofício, da cobiça universal, da ganância desenfreada e insaciável que, segundo ele, começava nos indivíduos, que nunca se cansavam de perseguir riquezas, mercês, benesses e títulos, e acabava nas potências conquistadoras que, na ânsia de ouro e prata, por todo o mundo oprimiam, saqueavam e massacravam populações indefesas (visava Espanha, claramente, não tanto Portugal). É inevitável fazer o paralelo deste discurso moral com a verve do contemporâneo e confrade António Vieira, grande defensor dos índios e, como Manuel da Costa, opositor da escravatura e da pena de morte.

Publicação e autoria

Aquela que é considerada a "edição princeps" da obra apresenta o seguinte título: Arte de Furtar,/ Espelho de Enganos,/ Theatro de Verdades,/ Mostrador de Horas Minguadas,/ Gazua Geral/ Dos Reynos de Portugal./ Offerecida a Elrey/ Nosso Senhor/ D. João IV./ Para Que A Emende. Indica seguidamente ter sido «Composta pelo/ Padre António Vieira,/ Zeloso da Patria» e impressa em «Amsterdam,/ na Officina Elvizeriana 1652». Todavia, a autoria da obra, o local e o ano de impressão, bem como o impressor aí indicados são falsos (a oficina tipográfia é duplamente falsa, pois o seu nome deveria escrever-se "Elzeviriana"). De facto, o manuscrito, composto em 1652, manteve-se inédito durante mais de noventa anos, não sendo de excluir que durante esse período possam ter sido feitas algumas cópias. A obra teve, enfim, a sua primeira impressão em 1743 ou 1744, em Lisboa, pelo livreiro genovês João Baptista Lerzo, dono de uma tipografia no sítio do Loreto, actual Largo de Camões [1].

O facto de a Arte de Furtar ter aparecido sob os ditos disfarces e de ter sido, segundo um testemunho coevo, "subrepticiamente" impressa (isto é, ocultamente e sem as licenças necessárias), dá uma ideia do choque ainda causado pelo seu conteúdo um século depois de escrito, bem como dos obstáculos que o impressor teve que contornar para levar avante a sua publicação. Não que o conteúdo fosse ofensivo para D. João IV ou os seus sucessores (reinava D. João V quando a obra foi publicada). Os monarcas eram praticamente a única categoria de portugueses que o livro não acusava de roubo, antes os colocava nos píncaros. O tom da crítica e da denúncia era, porém, demasiado livre e ousado, arriscando-se a criar um precedente, se não mesmo a promover o género do libelo ou panfleto.

Foi tal o êxito da obra que pouco depois se seguiriam, ostentando já a data verdadeira de 1744, várias novas edições "emendadas de muitos erros", alegadamente impressas em Amsterdão, mas, na verdade, provenientes da mesma oficina lisboeta do genovês Lerzo[2]. A autoria do Padre Manuel da Costa só em meados do século XX foi documentalmente estabelecida, embora continuassem a surgir, ocasionalmente, reticências a seu respeito.



Pouco tempo decorrido sobre a primeira edição da Arte de Furtar, foram publicados vários escritos, ora recusando a autoria de António Vieira, como a Carta apologética de Cândido Lusitano, pseudónimo do Padre Francisco José Freire (1744), ora reafirmando-a, como a Dissertação apologética e dialogística atribuída a Francisco Xavier dos Serafins Pitarra (1746). Ao segundo autor replicou ainda Francisco José Freire com Vieira defendido (1746). Refira-se como curiosidade que a Arte de Furtar foi proibida em Espanha por édito da Inquisição de Janeiro de 1755, onde se declara ser falsamente atribuída ao padre António Vieira, aliás morto há meio século quando o livro entrou em circulação. «Passou depois para o corpo dos Índices Expurgatórios do mesmo Tribunal» [3]. A denúncia das "unhas" castelhanas teve certamente a ver com essa proibição. Não há notícia de que a Arte de Furtar tenha sido condenada pela Inquisição em Portugal, o que é muito significativo.

Admitia-se já no século XVIII poder ser Tomé Pinheiro da Veiga o autor de Arte de Furtar, embora o impressor Lerzo não tenha aparentemente hesitado em publicá-la como sendo do Padre António Vieira. Instalou-se depois a polémica, com sucessivas atribuições e contestações, mas continuou até ao século XX a prevalecer o nome de António Vieira, o mais susceptível de garantir o êxito editorial. Além dos citados, foram sugeridos como possíveis autores João Pinto Ribeiro, Duarte Ribeiro de Macedo, António da Silva e Sousa, António de Sousa de Macedo e D. Francisco Manuel de Melo.

Finalmente, em 1940, foi avançado o nome, até então desconhecido no mundo das letras, do jesuíta Padre Manuel da Costa, natural do Alentejo. O autor da descoberta foi o investigador jesuíta Francisco Rodrigues, que em Julho de 1940 apresentou uma memória ao Congresso do Mundo Português, dada à estampa sob o título O Autor da Arte de Furtar. Resolução de um antigo problema (1941). Francisco Rodrigues encontrara em Roma, no arquivo central da Companhia de Jesus, uma informação enviada de Lisboa, coeva da feitura da Arte de Furtar (então ainda em manuscrito, mas já alegadamente "célebre"), em que a autoria do jesuíta Manuel da Costa era expressamente desvendada: «Compôs o P. Manuel da Costa uma Arte de Furtar, que deu a el-rei e foi coisa célebre neste reino...» Essa informação, só parcialmente transcrita por Francisco Rodrigues em 1941, encerrava outras informações pessoais sobre o pouco ortodoxo Padre Manuel da Costa, cujo comportamento era denunciado pelo informador jesuíta de Lisboa ao jesuíta destinatário de Roma. Segundo o remetente, o Padre Manuel da Costa beneficiava de uma grande condescendência, tanto na Companhia como fora dela, por força de influentes relações e da aceitação de que usufruía junto do próprio D. João IV. Veja-se o estudo de J. Pereira Gomes (1965), que revelou os trechos inéditos do mesmo documento.

Não pararam na década de 1940 as especulações sobre a autoria da Arte de Furtar, devido à inicial má recepção do nome do Padre Manuel da Costa pelos estudiosos da questão. A revelação incompleta do documento de Roma por Francisco Rodrigues (1941), bem como a impossibilidade de outros investigadores a ele acederem, explica em parte essa má aceitação.[4] Por outro lado, autores como o português Joaquim Ferreira (1942, 1945) e o brasileiro Afonso Pena Júnior (1944) não reconheciam ao obscuro jesuíta alentejano a qualidade literária, a veia polémica e satírica, bem como os conhecimentos necessários (militares, administrativos, económicos, jurídicos, etc) para escrever obra crítica de tão grande vulto, preferindo-lhe as autorias de, respectivamente, Francisco Manuel de Melo e António de Sousa de Macedo. Estas autorias, porém, não eram sustentadas por nenhum documento coevo ou fidedigno e deixavam sem solução mais questões do que as que pareciam resolver. Em compensação, as provas apresentadas pelo historiador Francisco Rodrigues foram consideradas credíveis, compatíveis e praticamente inatacáveis, sobretudo depois de completadas e reforçadas por J. Pereira Gomes (1965). As referências do autor da Arte de Furtar a factos por ele presenciados em Espanha, em Évora, no Algarve e na Madeira ficaram cabalmente explicadas com a atribuição da obra a Manuel da Costa, que comprovadamente residiu nesses locais nas datas indicadas no livro [5].


Apreciações da Arte de Furtar

Obra "valiosíssima da literatura portuguesa, de cunho original, de estilo ameno e desenfastiado, instrutiva, clássica" — assim a qualificou o historiador jesuíta Francisco Rodrigues, que descobriu a sua verdadeira autoria. E acrescentava: "O autor, na sua veia satírica, umas vezes jocosa, outras acerada e cáustica, enquanto parece que expõe e ensina os processos e arte de furtar, informa elegante e adequadamente o leitor sobre a maneira de atalhar furtos e desarmar ladrões" [6]. Rodrigues não duvida de colocar o Padre Manuel da Costa, autor desta "obra patriótica", em lugar de honra entre os escritores da Restauração de Portugal [7].

Na sua História da Literatura Portuguesa, António José Saraiva e Óscar Lopes destacam na Arte de Furtar a "graça literária" e o alto "valor informativo", de que, segundo eles, só a Fastigímia de Tomé Pinheiro da Veiga se aproximaria no século XVII. A obra de Manuel da Costa, cuja autoria aceitam e corroboram, é para Saraiva e Lopes um depoimento literário muito completo da realidade social do tempo de D. João IV, em que "se espelham ao vivo todos os principais problemas em que se debatia a administração interna e todo o jogo das forças sociais" (idem). Destacam, ao lado da dimensão panfletária e crítica da obra, o "aspecto apologético, de claro apoio ao rei". Segundo eles, o livro conteria capítulos que "são autênticas súmulas para uso régio" (idem). Ao nível da descrição dos factos isolados e dos comportamentos sociais típicos, Saraiva e Lopes acham que o realismo da Arte de Furtar é imbatível, superando de muito o melhor dos Apólogos Dialogais (de Francisco Manuel de Melo), e acrescentam: "Possívelmente, nenhum panfleto da nossa literatura o iguala" (idem).



Excertos da obra


.........SOBRE A HONRADEZ DOS MINISTROS DE D. JOÃO IV:


    «Grande louvor merecem [...] todos os ministros que assistem El-Rei nosso Senhor, porque vemos que tudo o que possuem, com não ser muito, é mais para o servirem, que para o lograrem. Nem se pode dizer de Sua Magestade, que Deus guarde, que tem validos mais que dois, que se chamam Verdade e Merecimento.» [8]


.........SOBRE A POLÍTICA:


«Todos falam na política, muitos compõem livros dela, e no cabo nenhum a viu, nem sabe de que cor é. E atrevo-me a afirmar isto assim, porque, com eu ter poucos conhecimento dela, sei que é uma má peça, e que a estimam e aplaudem, como se fora boa; o que não fariam bons entendimentos, se a conheceram de pais e avós, tais, que quem lhos souber, mal poderá ter por bom o fruto que nasceu de tão más plantas. E para que não nos detenhamos em coisa trilhada, é de saber que no tempo em que Herodes matou os inocentes, deu um catarro tão grande no Diabo, que o fez vomitar peçonha; e desta se gerou um monstro, assim como nascem ratos ex materia putridi, ao qual chamaram os críticos Razão de Estado. E esta senhora saiu tão presumida, que tratou de casar, e seu pai a desposou com um mancebo robusto e de más manhas, que havia por nome Amor Próprio, filho bastardo da primeira desobediência. De ambos nasceu uma filha a que chamaram Dona Política. Dotaram-na de sagacidade hereditária e modéstia postiça. Criou-se nas cortes de grandes príncipes, embrulhou-os a todos. Teve por aios o Maquiavelo, Pelágio, Calvino, Lutero e outros doutores desta qualidade, com cuja doutrina se fez tão viciosa, que dela nasceram todas as seitas e heresias que hoje abrasam o mundo. E eis aqui quem é a senhora Dona Política». [9]


Notas



  1. Ver a "Introdução" da Arte de Furtar na edição crítica de Roger Bismut, de 1991.

  2. Vd. Roger Bismut, 1991.

  3. Inocêncio, t. I, p. 307

  4. Mais recentemente, o documento foi novamente publicado na íntegra por Maria Luisa Cusati (1996).

  5. Ver também Roger Bismut, op. cit., "Introdução".

  6. F. Rodrigues, 1941.

  7. Idem.

  8. Arte de Furtar. Edição crítica..., Lisboa, 1991, p. 327.

  9. Idem, pp 331-332.



Bibliografia



  • Arte de Furtar. Edição crítica, com introdução e notas de Roger Bismut, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1991 (Bismut apoia a autoria do Padre Manuel da Costa.)

  • Manuel da Costa, Arte de Furtar, Clássicos de Bolso, Ed. Estampa, Lisboa, 2001

  • Francisco Rodrigues SJ, O Autor da Arte de Furtar. Resolução de um Antigo Problema, Liv.ª Apostolado da Imprensa, Porto, 1941.

  • J. Pereira Gomes SJ, "Manuel da Costa, autor da Arte de Furtar", revista Colóquio, n.º 34, Junho de 1965, pp. 42-45.

  • Francisco José Freire (pseud. Cândido Lusitano), Carta apologetica, em que se mostra, que não he author do livro, intitulado Arte de Furtar o insigne P. António Vieira da Companhia de Jesus, escrita por hum zeloso da illustre memoria deste grande escritor, Régia Officina Sylviana, Lisboa, 1744.

  • Francisco José Freire (atrib.), Vieira defendido: diálogo apologético em que se mostra, que não he o verdadeiro author do livro intitulado Arte de Furtar o Padre António Vieira da Companhia de Jesus, Régia Officina Sylviana, Lisboa, 1746.

  • Francisco Xavier dos Serafins Pitarra (atrib.), Dissertação apologetica, e dialogistica, que mostra ser o author do livro Arte de Furtar digno disvelo do engenho illustre do padre Antonio Vieyra, em resposta de huma carta, escrita por hum ignorado zeloso da memoria do dito Padre, Régia Officina Sylviana, Lisboa, 1746.

  • Joaquim Ferreira, Dom Francisco Manuel Escreveu a Arte de Furtar, sep. do Instituto, Coimbra Ed., Coimbra, 1942.

  • Joaquim Ferreira, Dom Francisco Manuel de Melo Escreveu a Arte de Furtar, Domingos Barreira, Porto, 1945.

  • Afonso Pena Júnior, A Arte de Furtar e o seu Autor, Livr. José Olympio, São Paulo, 1946.

  • António José Saraiva e Óscar Lopes, História da Literatura Portuguesa, 17.ª edição, Porto Editora, Porto, 1996.

  • Inocêncio F. da Silva (e Brito Aranha), Dicionário Bibliográfico, Lisboa, 1858-1923.

  • Maria Luisa Cusati, "Introduzione bibliografica all'Arte de Furtar", AION-SR (Annali Istituto Universitario Orientale, Napoli, Sezione Romanza), 1983-1, pp. 215-251.

  • Maria Luisa Cusati, "O apógrafo eborense da Arte de Furtar", AION-SR, XXV, 2, (1983), pp. 605-634.

  • Maria Luisa Cusati, "A propósito da Arte de Furtar e da sua primeira tradução", in Actas do I Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas, Poitiers, 1988, pp. 275-283.

  • Maria Luisa Cusati, "Un problema di bibliografia testuale: l'Arte de Furtar e l'ultima volontà dell'Autore", Studi in memoria di Erilde Melillo Reali Napoli, IUO, 1989, pp. 63-75.

  • Maria Luisa Cusati, "L'edizione di un testo anonimo portoghese del XVII secolo: tra 'bibliografia e materiale' e informatica", in I moderni ausili all'ecdotica, Napoli, Edizioni Scientifiche Italiane, 1994, pp. 371-383.

  • Maria Luisa Cusati, "Padre Manuel da Costa in 'Historia et Acta' (Lus. 55): a proposito dell'Arte de Furtar", AION-SR, XXXVIII, 1, (1996), pp. 89-105.

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Obtido em " Arte_de_Furtar - Wikipedia

Afrodite: Arte de Furtar, Anónimo do Séc. XVII

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Extractos

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Arte de Furtar- Espelho de Enganos, Teatro de Verdades, Mostrador de Horas Minguadas, Gazua Geral dos Reinos de Portugal, Oferecida a El-Rei Nosso Senhor D. João IV Para Que a Emende.



“Não perde a arte seu ser por fazer mal, quando faz bem e a propósito esse mesmo mal que professa, para tirar dele para outrem algum bem, ainda que seja ilícito.” (Do capítulo I, COMO PARA FURTAR HÁ ARTE, QUE É CIÊNCIA VERDADEIRA)

“Se há reis ladrões é questão muito arriscada. Certo é que os há e que não furtam ninharias. Quando empolgam são como as águias reais, que só em coisas vivas e grandes fazem presa. Milhafres há que se contentam com sevandijas, mas a rainha das aves com coisas maiores tem sua ralé.”
(Do capítulo XIV, DOS QUE FURTAM COM UNHAS REAIS)

“Toda a unha que arranha é aguda, e toda a unha que furta arranha até o vivo – logo todas as unhas que furtam são agudas. (...) E destas há milhares que na fazenda de el-rei fazem grandes estragos, com alvitres e conselhos que despontam de agudos e levam a mira em encherem as bolsas (...) E destes há alguns tão destros que provêm todos os ofícios em seus criados, para lhes pagarem serviços próprios com salários alheios: e são os piores; porque com as costas quentes em seus amos, procedem afoitos nas rapinas”.
(Do capítulo XXXIII, DOS QUE FURTAM COM UNHAS AGUDAS)

“Unhas dobradas são as que se armam de vários modos e invenções para furtar, com tal arte, que nunca lhes escapa a presa. Há na dialética um argumento, que chamamos dilema, porque joga com duas proposições, como com pau de dois bicos, que necessariamente vos haveis de espetar em um deles. Tais são os ladrões que chamo de unhas dobradas, porque as aguçam de sorte que, por uma via ou outra, lhes haveis de cair nelas.” (
Do capítulo XXXV, DOS QUE FURTAM COM UNHAS DOBRADAS)

“Vê-los-ei andar no Paço, fazendo mesuras a cada passo e tirando a gorra à légua – chapéu, queria dizer, que já não se usam gorras. Não lhes taxo a cortesia, que é virtude muito própria da corte; mas noto a intenção e as palavrinhas com que a acompanham, as quais, examinadas na pedra de toque da experiência são unhas de aço que não só arranham créditos alheios, mas empolgam para si, que é o principal intento, em tudo o precioso, que cuidam se poderá dar aos outros.” (Do capítulo XXXVI, COMO HÁ LADRÕES QUE TÊM AS UNHAS NA LÍNGUA)

“Ladrões há dos quais podemos dizer que têm mais mãos que o gigante Briareu, porque lhes não escapa conjunção, lugar, nem tempo. Como se tiveram mil mãos, à dextris e à sinistris, não erram lanço. E isso vem a ser furtar com mãos próprias, que não é muito; mas furtar até com mãos alheias é destreza própria desta arte, que vence na malícia e sutileza de todas as artes.”
(Do capítulo XXXVII, DOS QUE FURTAM COM A MÃO DO GATO)

“Assim como há unhas fartas, também as há mimosas, que são suas filhas e por isso piores, por mal disciplinadas porque, para regalarem a seus donos, furtam mais do necessário. Furtar o necessário, quando a necessidade é extrema, dizem os teólogos que não é pecado porque, então, tudo é comum e não há nem meu nem teu, quando se trata da conservação das vidas, que perecem por falta do que hão mister para se sustentarem; mas furtar o supérfluo, para animar o corpo e regalar a alma, é caso digno de repreensão e ainda mal que sucede muitas vezes.”
(Do capítulo XLIII, DOS QUE FURTAM COM UNHAS MIMOSAS)

“Dos áspides escrevem os naturais que mordem e matam com tanta suavidade que não se sente (...) Tais são as unhas insensíveis. Tiram a vida aos remos mais robustos e esgotam a alma aos tesouros mais opulentos com tanta suavidade que não se sente o dano senão quanto tudo está morto. Estas são as unhas dos estadistas, alvitristas, áspides do inferno que persuadem aos reis, com razões suaves e sofisticadas, que lancem fintas, que ponham tributos, que peçam donativos aos povos, sem mais necessidade que a de sua cobiça. Digo que são suaves as razões que dão, porque não há coisa mais suave que o recolher dinheiro, e digo que são sofísticas, porque as vestem de aparências do zelo do bem comum – e na realidade são cutelos que degolam as repúblicas” (Do capítulo LI, DOS QUE FURTAM COM UNHAS INSENSÍVEIS)

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in blog de adriano: Pérolas aos poucos / XXIII / Arte de Furtar

O mundo literário de José Saramago

Literatura y Lingüítica N° 17, págs: 65-82







Literatura: artículos y monografías











O mundo literário de José Saramago











Rosemary Conceição dos Santos
Brasileira,
Universidade de São Paulo, Brasil
rcs@netsite.com.br

















Resumen:






Este trabajo aborda características de la escritura de José Saramago. Discute la presencia de la historia, de elementos maravillosos, nuevo lenguaje, metáforas y alegorías en su narración.






Palabras clave: Saramago, metáfora, alegoría, maravilloso, narración






Abstract:






This work analyses characteristics of the Saramago’s narrative. To reach this purpose were used concepts such as metaphor, allegory, wonderful and new speech.






Keywords: Saramago, metaphor, allegory, wonderful, narrative.

















1. Introducción




No Memorial do Convento, o mundo literário de José Saramago é constituído, entre outros, por quatro elementos que consideramos fundamentais, os quais são: a interrogação do passado a partir do presente, a introdução de elementos maravilhosos na narrativa, a tentativa de uma linguagem que altera sua expressão gráfica e pontual e a construção de excertos metafóricos que nos permitem vislumbrar possíveis significados alegóricos.




2. A interrogação do passado a partir do presente




Considerando Aristóteles (Aristóteles, 2000), sabemos que o poeta, ao construir o seu texto literário, não narra, necessariamente, o quê aconteceu e sim busca representar o que poderia ter acontecido, valendo-se da verossimilhança e da necessidade do que ele quer narrar. Por sua vez, no contexto da História Tradicional, o historiador se difere do poeta por narrar as coisas como elas aconteceram e não como ele imagina que elas aconteceram. Para tanto esse historiador se vale de documentos escritos oficialmente, os quais, espera-se, reproduzam exatamente a situação social que se procura conhecer.




A obra Memorial do Convento, mesclando ficção e história, busca reconstruir, de forma imaginativa, figuras e fatos importantes da cultura portuguesa. No decurso dessa reconstrução, a combinação ficção e história permite ao autor abordar valores acerca da raça, língua, costumes, religião e folclore que, entre outros elementos, constituíam a sociedade portuguesa do século XVIII.




Relendo, imaginariamente, fatos e situações acontecidos, de modo a cobrir lacunas deixadas pelos documentos históricos oficiais, o autor, através da revisão do passado, questiona o presente. Isto ressalta uma das qualidades mais luminosas da obra, ou seja, a presentificação do relato.




Saramago recria o real, até onde este é possível de ser conhecido, através do filtro da subjectividade. O produto filtrado, ou seja, a obra final, podendo ser entendida como uma leitura crítica e inventiva da realidade oitocentista, mostra uma mente do século XX, consciente do que o século XX considera como erros e acertos oitocentistas, interrogando os fatos que deixaram de ser contados, consciente ou inconscientemente, pelos historiadores da época em estudo.




Com o Memorial do Convento, o autor propõe uma nova dimensão para a narrativa histórica, reconstituindo um vasto quadro de Portugal durante a primeira metade do século XVIII e revelando este período remoto através do olho, magicamente crítico, da atualidade.




Logo nas primeiras linhas, um relato do ambiente da corte portuguesa no reinado de D. João V, no século XVIII. Neste, o rei, preocupado com a continuidade de sua dinastia, ameaçada pela possível esterilidade da rainha Maria Josefa, e influenciado pela profecia dita pelos religiosos que o cercavam, ordena que seja construído um convento para que Deus lhe permita a sucessão.




Segundo o autor, a construção desse convento, tramada pelo astuto e ardiloso personagem frei António de São José que, por ser confessor da rainha, tomara conhecimento antecipadamente de que ela já estaria grávida, era, na verdade, a concretização de um antigo desejo dos franciscanos, alimentado desde quando Portugal estivera dominado pela Espanha (1580-1640).




Através do relato da construção desse convento, o leitor toma conhecimento do farto calendário de festas religiosas da época que, muitas vezes, por estimular a luxúria e a liberação dos instintos carnais, assumiam aspecto profano, distanciando-se, na realidade, das abstinências e penitências preconizadas pela igreja para estas ocasiões.




Até mesmo as procissões, com suas cenas de autoflagelação, transformavam-se em rituais do diabo, visto a narrativa dos penitentes carregando pesados grilhões como crucifixos ou açoitando-se com chicotes adornados com cacos de vidro, sem falar nas mulheres, muitas delas freiras, deliciando-se com o sofrimento alheio.




Desta forma o cotidiano da vida religiosa no século XVIII era pontuado pela degradação moral, ressaltando a perseguição aos hereges ( judeus, cristãos-novos, bruxas, feiticeiros, alquimistas e sodomitas ) que, aos domingos, eram processados e condenados pela Inquisição a morrer nas fogueiras armadas no Terreiro do Paço. Para completar este "lazer dominical", cumpre lembrar que existiam, também, as touradas.




Por outro lado, ao passo que reconstrói o Real, Saramago, valendo-se de sua leitura pessoal do Barroco Português e dos registros oficiais da construção de Mafra, confere forma e identidade à minoria esquecida dos registros consultados, os "sem-história", os pequenos, humilhados, banidos, condenados:






Daqueles homens que conhecemos no outro dia, vão na viagem José Pequeno e Baltasar, conduzindo cada qual sua junta, e entre o pessoal peão, só para as forças chamado...vão outros Josés, e Franciscos, e Manuéis, serão menos Baltasares, e haverá Joões, Álvaros, Antónios e Joaquins...todos representados...enquanto não se acabar quem trabalhe, não se acabarão os trabalhos... (Saramago, 1999, p. 233)




Valendo-se da memória dos fatos históricos lidos e associando a essa memória sua própria imaginação, o autor infere possíveis inquietações que teriam atormentado personagens históricas como Padre Bartolomeu, por exemplo:






Tenho sido a risada da corte e dos poetas, um deles, Tomás Pinto Brandão, chamou ao meu invento coisa de vento que se há-de acabar cedo, se não fosse a protecção de el-rei não sei o que seria de mim, mal el-rei acreditou na minha máquina e tem consentido que, na Quinta do duque de Aveiro, a S. Sebastião da Pedreira, eu faça os meus experimentos, enfim já me deixam respirar um pouco os maldizentes, que chegaram ao ponto de desejar que eu partisse as pernas quando me lançasse do castelo, sendo certo que nunca eu tal coisa prometera, e que a minha arte tinha mais que ver com a jurisdição do Santo Ofício que com a geometria." (Saramago, 1999, p.61)




Ou, valendo-se de digressões, presentificando seu relato ao discutir a imagem que o referido padre projetava nos meios em que vivia:






Três, se não quatro, vidas diferentes tem o padre Bartolomeu Lourenço, e uma só apenas quando dorme, que mesmo no sonho foi o padre que sobe ao altar e diz canonicamente a missa, se o académico tão estimado que vai incógnito el-rei ouvir-lhe a oração por trás do reposteiro, no vão da porta, se o inventor da máquina de voar ou dos vários modos esgotar sem gente as naus que fazem água, se esse outro homem conjunto, mordido de sustos e dúvidas, que é pregador na igreja, erudito na academia, cortesão no paço, visionário e irmão de gente mecânica e plebeia em S. Sebastião da Pedreira, e que torna ansiosamente ao sonho para reconstruir uma frágil, precária unidade, estilhaçada mal os olhos se lhe abrem, nem precisa estar em jejum como Blimunda. (Saramago, 1999, p.163)




Reinventando as almas dos antigos, nota-se o empenho do autor em reviver determinados acontecimentos, inseridos e discutidos em sua narrativa. Sua intervenção literária, com a inserção de episódios ficcionais em contextos históricos efetivos, ao mesmo tempo que resgata a memória do passado, viabiliza a discussão desse mesmo passado no espaço narrativo, coloca o leitor diante de um acontecimento dinâmico, que lhe permite vivenciar intensamente o dramático cotidiano das personagens.




Logo, o projeto literário de Saramago nos parece consistir em fornecer uma visão do passado sob uma nova perspectiva, iluminada por um realismo crítico e social, que se fundamenta na ideologia marxista. Este processo de dessacralização do passado torna-se literário pela expressão de recursos expressivos como a ironia e a paródia, que, associados a elementos míticos e oníricos, conferem à obra uma dimensão artística que ultrapassa os limites da história e da ideologia. Fundamentalmente, a ironia dá ao romance a possibilidade de questionar o passado, enfim, a história real.




Um exemplo da dessacralização do passado, através do recurso da ironia pode ser evidenciado quando, na obra, Saramago, coloca D. João V brincando de armar uma miniatura de São Pedro de Roma, sem nenhum esforço físico, " El-rei tem na sua tribuna uma cópia da Basílica de São Pedro de Roma que ontem armou na minha presença". Com esta imagem, o autor ironiza a figura do rei e questiona o fato de D. João V ter entrado para a História como o construtor do convento de Mafra.




Além disso, Saramago ridiculariza a figura da rainha D. Maria Ana ao apresentá-la ocupante de uma cama infestada por percevejos, "Em noites que vem el-rei, os percevejos começam a atormentar mais tarde por via da agitação dos colchões...lá na cama do rei estão outros à espera do seu quinhão de sangue...".




Logo, é a combinação de todos estes elementos que permite a Saramago instaurar esse modelo de romance histórico na Literatura Portuguesa.




Tematicamente, o romance recupera um traço fundamental do espírito barroco, ou seja, a noção de dualidade, que se estabelece no contraste entre os corruptos universos da Corte e da Igreja e o sofrido povo português. É possível encontrar, no Memorial, a elevada consciência com que o povo percebe as injustiças sociais que sofre.




A tensão entre os conteúdos, resultado da dualidade barroca, é uma característica passível de ser encontrada em confrontos como o da passarola e a pedra gigantesca que centenas de homens arrastam para a construção do convento, orientando oposições de leveza, vôo, sonho, liberdade, transcendência, humanização, êxtase, música e revolução, respectivamente, a peso, imobilidade, realidade, escravidão, materialismo, embrutecimento, sofrimento, doença e repressão que caracterizam os bastidores da construção do convento.




Assim consideradas as oposições, da leitura do Memorial nos fica a impressão de que a estória relatada pelo romance seja mais digna que a história de Portugal do século XVIII, ou seja, que as oposições eufóricas funcionem como uma tentativa de vitória, ou seja, de superação dos conceitos e valores das oposições disfóricas.




Aos romances contemporâneos em que a presença e a elaboração do tema histórico ocupam o centro da narrativa, como é o caso do Memorial do Convento, Linda Hutcheon (Hutcheon, 1991) convencionou chamar de metaficção historiográfica.




Sob a perspectiva da metaficção historiográfica o romance pós-moderno não se afasta, nem nega ou destrói a história, e sim a revisita de uma maneira consciente e, às vezes, irônica.




Em Memorial do Convento, trabalhando a auto-referencialidade, ou seja, o constante referir-se à situação discursiva, Saramago expõe sua ficção a uma leitura atenta e subjetiva. Aliado a isso, o caráter reflexivo que o autor confere à abordagem temática da história, implicando um distanciamento crítico, e não somente um simples reviver sentimental e pitoresco de certos momentos da história, justificam a aproximação do Memorial da metaficção historiográfica.




Reformulando o padrão tradicional do romance histórico com a valorização do homem e da sua obra, com a introdução de elementos maravilhosos e com a paródia de textos considerados "sagrados" ou ideologicamente comprometidos, Saramago, no Memorial, propõe uma recriação histórica num nível desconhecido ao romance histórico tradicional. E nesse nível a estrutura de sua narrativa não se resume a descrever e evocar o passado e sim a trabalhar cuidadosamente o ponto de vista narrativo, problematizando, discutindo e questionando os próprios elementos descritivos.




Por sua vez, a construção realista de ambientes e acontecimentos históricos pode ser entendida como outra característica que evoca a questão do romance histórico na metaficção historiográfica de José Saramago. No Memorial essa reconstrução realista, de exatidão histórica e valorização de pormenores, assim como os quadros de costumes, a suntuosidade e o excesso barroco, presente na adjetivação rebuscada e nas longas enumerações, são um exemplo disso.




Logo, ao lado dos elementos tradicionais que remetem ao modelo clássico dos romances históricos, os quais apresentam uma realista descrição histórico-social, o Memorial apresenta elementos inovadores que contestam esse modelo, como, por exemplo, a explícita consciência do uso da linguagem barroca e a auto-referencialidade da narrativa:






Como se mostram variadas as obras das mãos do homem, são de som as minhas, Fala das mãos, Falo das obras, tão cedo nascem logo morrem, Fala das obras, Falo das mãos, que seria delas se lhes faltasse a memória e o papel em que as escrevo, Fala das mãos, falo das obras ... Parece apenas um gracioso jogo de palavras, um brincar com os sentidos que elas têm, como nesta época se usa, sem que extremamente importe o entendimento ou propositadamente o escurecendo."(Saramago, 1999, p. 160)




trabalhando a História como um discurso, um texto, uma narrativa.




Sendo a auto-referencialidade um dos elementos da narrativa em que a metaficção historiográfica difere mais explicitamente do romance histórico, dois outros desses mesmos elementos a serem considerados em nosso estudo do Memorial são a personagem e a adoção do maravilhoso na construção textual saramaguiana.




3. A introdução de elementos maravilhosos na narrativa




De acordo com Kaufman (1991, p. 129), o romance histórico tradicional introduz em sua narrativa dois tipos de protagonistas, a saber, protagonistas-tipo e figuras de autenticidade histórica.




A presença dos protagonistas-tipo se justificaria pela necessidade de existir representantes de um dado meio ou classe social em cujos destinos ficcionais se refletiriam tendências importantes e mudanças históricas. Por outro lado, as figuras históricas tanto confeririam autoridade histórica quanto encarnariam os aspectos do movimento social ou da mudança histórica em que se encontram inseridas.




Um corpus de personagens do Memorial, composto por Blimunda, Baltasar, Padre Gusmão, Domênico Scarlatti, a passarola e o Convento de Mafra, se considerado, em um primeiro momento, composto por protagonistas-tipo, vincular-se-ia aos tipos sociais da bruxa, soldado, cientista e artista barrocos que Rosário Villari (Villari, 1991) tão bem explicitou em seu O homem barroco, consideradas as devidas semelhanças e variações. Por outro lado, se considerados enquanto figuras históricas, teríamos Padre Bartolomeu e Domênico Scarlatti entrando diretamente na ação e inter-relacionando-se com os personagens inventados Blimunda e Baltasar, dentro dos limites do possível, combinando o realismo de um protagonista histórico com o maravilhoso de um personagem ficcional.




Padre Bartolomeu, figura histórica, é um dos vértices do triângulo formado pelos personagens centrais do romance. Orador sacro de raro talento, "ao ponto de o terem comparado ao padre Vieira, que Deus haja e o Santo Ofício houve", o Padre Bartolomeu destacou-se também como um grande lingüista. Lente de Matemática em Coimbra, este brasileiro de Santos muito se destacou na corte de D. João V. Graças à proteção do rei, o padre Bartolomeu pôde dedicar-se com entusiasmo à construção da passarola, ou, no seu dizer, sua "máquina aerostática". Com explicações extremamente pedagógicas, o padre convence Baltasar a participar do projeto de confecção da passarola e dá à Blimunda condições para aplicar o dom de magia de que ela era possuidora na construção da mesma. Por ser liberal, o padre foi perseguido pela Inquisição, sob a alegação de que nutria simpatia por cristãos-novos. Para não ser preso, apressou a estréia de seu invento, provando sua eficácia ao voar até as proximidades de Mafra; a seguir fugiu para a Espanha, onde teria morrido num asilo de loucos.




Com Padre Bartolomeu introduzimos os personagens históricos, representados no romance, também, pelo rei D. João V, a rainha e Domênico Scarlatti.




Domênico Scarlatti, outra figura histórica, foi compositor italiano, considerado um "estrangeirado" que circulava na corte portuguesa do século XVIII, foi contratado para ensinar música à infanta Maria Bárbara, cujo nascimento se transformara em voto para a construção do convento de Mafra. Com a música de seu doce cravo, Scarlatti, pelas mãos de Saramago, consegue curar Blimunda de uma enigmática doença, possibilitando que ela continuasse a dar sua imprescindível contribuição ao projeto da passarola.




Assim considerados, entendemos que, no Memorial, Padre Bartolomeu e Domênico Scarlatti configuram um diálogo de elementos do romance histórico tradicional com um novo modelo da ficção histórica, ou seja, a metaficção historiográfica, que contém elementos desses dois modelos.




Por sua vez, o termo maravilhoso utilizado neste estudo pode ser definido como a presença de fatos, personagens, objetos e ações constituídos por elementos que não se enquadram no padrão do real em que estamos habituados a conviver e considerar normais.




De acordo com o glossário preparado por Augusto Magne (Magne, 1994), "maravilha" quer dizer "cousa de causar pasmo ou espanto" porque são as "grandes puridades que Nosso Senhor nom quis outorgar que homem as achasse que houvesse em pecado mortal". Quanto a "puridades", diz o glossário que, "no plural, são cousas ocultas e misteriosas".




Uma vez que no Memorial a personagem Blimunda é dotada da virtude insólita da vidência, "Eu posso olhar por dentro das pessoas", assim como a personagem Baltasar dá mostras de rápidas referências a seres incomuns, presentes em crendices populares, como, por exemplo, nos seguintes excertos, extraídos do Memorial, "podiam aparecer avantesmas e lobisomens, almas penadas e luzeiros, com o espigão os arredaria"; "Pensou em lobisomens, em avantesmas de feitio e porte vário, se andariam por ali almas penadas, acreditou firmemente que o padre tinha sido levado pelo demónio em pessoa", entendemos que a obra saramaguiana aqui estudada faz uso do maravilhoso na confecção narrativa.




Além das características físicas de Blimunda, de seus pensamentos e dos de Baltasar, considerando o maravilhoso imaginário medieval proposto por Le Goff (Lê Goff, 1989), os portadores de defeitos físicos, assim como os desprezados e perseguidos, ainda que integrados à sociedade, são considerados como criaturas excluídas da sociedade, alvo de desprezo e vistas como "diferentes" e "estranhas". Nestes casos entendemos enquadrarem-se, respectivamente, Baltasar, pela perda da mão esquerda, e Padre Bartolomeu por muitos outros motivos, como, por exemplo, ter nascido no Brasil e continuar sua família vivendo no mesmo, ter voado, quando "só o podem fazer os anjos e o Diabo", ser amigo da mãe de Blimunda, condenada pelo Santo Ofício etc.




Mutilado na guerra pela sucessão do trono espanhol, em um conflito que não tinha nada a ver com Portugal, Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, é um camponês que encarna o protótipo do pária social. Participa da sociedade apenas enquanto serve como instrumento de manipulação de uma elite inconseqüente. Sua marginalidade manifesta-se tanto na condição de ex-soldado como na de "boeiro", único ofício que sua limitação física permitia desempenhar, conduzindo carros-de-boi durante a construção do convento de Mafra. Nos intervalos, Baltasar integrava o grupo que construiu a passarola, desempenhando com habilidade e competência a função que lhe fora atribuída pelo padre Bartolomeu.




O fato de ser maneta confere-lhe uma outra dimensão, pois coloca-o fora do tempo. Uma vez que o verbete "maneta" indica a falta de um braço ou de uma mão, Chevalier (Chevalier, 1989) nos esclarece que tal caracterização o "faz participar de uma outra ordem, que é a da imparidade ou do sagrado, seja essa imparidade esquerda, feitiçaria, ou direita, vidência.




Sob nosso ponto de vista, Baltasar, por não possuir a mão esquerda, tem sua deficiência anulada com a aproximação de Blimunda, que vê além do que todos comumente vêem.




O gancho, ao permitir que Baltasar ate as velas e os arames da passarola, nos remete novamente a Chevalier que, no mesmo verbete, nos informa que o maneta não está fora do tempo definitivamente, podendo ser reintegrado ao mesmo "através de uma nova utilização de suas mãos e de seus braços".




A condição de maneta também é discutida por Padre Bartolomeu que, no Memorial, iguala, hereticamente, Baltasar a Deus, quando argumenta que:






...maneta é Deus, e fez o universo ... que está a dizer, padre Bartolomeu Lourenço, onde é que se escreveu que Deus é maneta, Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua direita, à sua mão direita, que se sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem as Sagradas Escrituras, nem os Doutores da Igreja, à esquerda de Deus não se senta ninguém , é o vazio, o nada, a ausência, portanto Deus é maneta. Respirou fundo o padre, e concluiu, da mão esquerda. (Saramago, 1999, p.65)




Além disso, ter uma única mão significa também "poder", pois, é assim que se representa a Justiça. O trabalho de Baltasar na construção da passarola permite que ele resgate plena e profundamente sua condição de homem. Seu martírio na fogueira da Inquisição conota uma espécie de sagração, de verdadeira elevação espiritual, bem diferente da festa profana que simultaneamente se realiza com a inauguração da basílica de Mafra. O sofrimento e a dor de sua morte física são como um estágio necessário para consolidar a ascensão espiritual de um homem assinalado.




Sendo assim, fazendo dos elementos extraordinários, ou seja, maravilhosos, protagonistas de seus romances, Saramago contrapõe esses mesmos elementos aos ditos seres normais, espelhando em sua ficção um equilíbrio instável, que pode se alterar a qualquer instante, conferindo a imprevisibilidade da vida real à vida virtual. Com a introdução do maravilhoso em sua narrativa, Saramago garante uma coexistência harmoniosa entre o insólito e o real, conseguindo que a passagem de um estado para o outro ocorra quase que imperceptivelmente.




Por sua vez, considerados os elementos maravilhosos na narrativa, o Memorial do Convento também apresenta uma tentativa de "revolucionar" o português contemporâneo, aproximando a linguagem coloquial de expressões seiscentistas. A esta tentativa chamaremos, em nosso trabalho, a elaboração de uma novo estilo lingüístico.




4. A elaboração de uma nova linguagem




A leitura primeira do Memorial nos insere em uma narrativa de ritmo caudaloso, cadenciado por frases longas, repletas de ditos populares e de expressões que concentram uma sabedoria que nos parece adquirida na experiência de vida cotidiana, a saber, "Pela casca não se conhece o fruto, se lhe não tivermos metido o dente"; "Se o pão fosse comido pelos que o semeiam, o mundo seria outro"; "Quando Deus fez os coelhos, foi para divertimento e panela dos senhores"; "Um homem precisa fazer sua provisão de sonhos"; "O mundo de cada um é os olhos que tem"; "Um homem, se tem filhos, também se alimenta de ver a cara deles", ou então "Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas".




Causando a falsa impressão de discurso aparentemente desorganizado, suas frases, assim trabalhadas, produzem um efeito de circularidade, ou seja, iniciando-se com um registro de oralidade, próprio do português contemporâneo, incorpora, a seguir, vocábulos arcaicos e, no final, retoma o tom coloquial.




Essa frase circular vem, muitas vezes, recheada de arcaísmos, os quais, entendemos, pretendem revitalizar a língua, dotando-as de uma oralidade que lembra as antigas epopéias.




Outro aspecto relevante na escrita de Saramago é o (des)uso da pontuação normativa, ou seja, substituindo pela vírgula e ponto-final todos os outros sinais de pontuação, o autor consegue "destravar" o texto e permitir ao leitor uma maior participação na leitura à medida que este se vê, a todo momento, colocando travessões, pontos de interrogação e de exclamação, aspas e todo o mais que incorra a uma melhor intelecção do que está sendo lido.




Intercalando no relato digressões sobre o comportamento dos personagens, Saramago também comenta o próprio texto, utilizando-se de metalinguagem e humor:






Dizem que o reino anda mal governado, que nele está de menos a justiça, e não reparam que ela está como deve estar, com sua venda nos olhos, sua balança e sua espada, que mais queríamos nós, era o que faltava, sermos os tecelões da faixa, os aferidores dos pesos e os alfagemes do cutelo, constantemente remendando os buracos, restituindo as quebras, amolando os fios, e enfim perguntando ao justiçado se vai contente com a justiça que se lhe faz, ganhado ou perdido o pleito.(Saramago, 1999, p. 182)




Logo, é possível verificar no Memorial que o trabalho conferido à linguagem é utilizado não para alcançar simplesmente efeitos ornamentais, mas sim para comprometer o romance com a estética que o orienta.




Aliado a isso temos que, em meio aos fatos narrados, filtrados pela subjetividade do autor, subjetividade esta expressa através de uma linguagem poética, com forte carga metafórica, transcendental e universalizante, muitas das passagens, caracterizações, diálogos e digressões do Memorial nos remetem a excertos fartos de simbologia e segundos ditos, os quais nos condicionam, enquanto leitores, a um processo de decifração das palavras e informações que o autor nos quer delegar. A essas possibilidades de leitura do texto saramaguiano, consideramos aqui chamar de metafóricas e alegorizantes, as quais passamos a discutir a seguir.




5. Os excertos metafóricos e as possibilidades alegóricas




No Memorial do Convento, o narrador, valendo-se de sucessivas comparações e metáforas, invade, poeticamente, o pensamento, a voz e a mente tanto do leitor quanto das personagens. Misturando-se a estas personagens, antecipando ações, rememorando fatos passados, esse narrador consegue estimular a imaginação do leitor e provocar, até mesmo, a visualização das cenas descritas na narrativa:




... o mundo é ele uma nora e são os homens que, andando em cima dele, o puxam e fazem andar. Mesmo já cá não estando Sebastiana Maria de Jesus para ajudar com as suas revelações, é fácil ver que, faltando os homens, o mundo pára. (Saramago, 1999, p.65)




Partindo de uma metáfora generalizada e simbólica, " o mundo é uma nora", e valendo-se da personagem Sebastiana Maria de Jesus para exemplificar um dos "homens" que fazem girar esse mundo, Saramago entrelaça o real no ficcional, concluindo com um silogismo dialético. Neste silogismo dialético, enunciando uma verdade maior, mais abrangente, guardada nas entrelinhas, que envolve a trama, o leitor e o mundo, entendemos estar o autor efetuando uma leitura oblíqua da realidade.




Aliados a estes excertos metafóricos, determinados conteúdos semânticos significativos podem ser depreendidos se considerarmos as possibilidades alegóricas apresentadas pelos mesmos.




Fundamentando nosso conceito de alegoria segundo a definição que Walter Benjamin tem da mesma (Benjamin, 1984, p.184), "...a alegoria não é frívola técnica de ilustração por imagens, mas expressão, como a linguagem e como a escrita, elegemos, para tanto, alguns excertos que consideramos significativos para exemplificarem como o Memorial pode ser entendido como produto final das seqüências de metáforas que estes mesmos excertos encerram.




Partindo desse tipo de apreciação crítica, a alegoria, que encontramos vinculada ao Memorial, se nos apresentou como uma verdade maior, à qual convencionamos chamar de leitura oblíqua do mundo, podendo ser revelada no final da análise da ação narrativa do mesmo.




Como auxílio à leitura, interpretação e aplicação da teoria da alegoria benjaminiana, os estudos de Clifford (Clifford, 1974) acerca das transformações que a alegoria, enquanto expressão, pode sofrer no decurso das várias formas narrativas às quais ela é aplicada, assim como de Fletcher ( Fletcher, 1964), que a entende como um modo simbólico e de Whitman (Whitman, 1987) que, ainda que a considere uma técnica antiga e medieval, concorda com o seu caráter dinâmico e esclarece sua capacidade de personificação de abstrações, mostraram-se adequados para discutirmos as possibilidades alegóricas dos excertos metafóricos em estudo.




No entanto, ainda que não se trate de um estudo sobre o histórico da alegoria, é fundamental esclarecermos, desde o princípio, a origem etimológica do termo, assim como a diferenciação que a alegoria benjaminiana apresenta do conceito de símbolo defendido, entre outros, na filosofia realista empreendida por Lukács.




Etimologicamente, o termo alegoria origina-se do grego allos, que significa "outro" e agourein, que significa "falar". Logo, o termo alegoria significa " falar o outro".




Este "outro" de que fala a alegoria é o sentido. Um sentido não imediatamente compreensível, diverso do sentido literal. Sem o sentido do outro, a caracterização que se quer dar a algo permanece como um aglomerado de coisas separadas e desconexas.




Como exemplo disto podemos citar a alegoria da justiça, concretizada na imagem de uma mulher com os olhos vendados, uma espada em uma mão e uma balança na outra. Recorrendo aos significados universais que a venda, a espada e a balança adquirem no contexto, é possível compreender a mensagem universal que tal alegoria quer expressar. Caso contrário, a venda poderia ser interpretada como cegueira, a espada como guerra e a balança como comércio, enfim, como elementos separados e desconexos.




Portanto, a representação alegórica revela em si o caráter da arbitrariedade, ou seja, de seu poder de montar algo a partir de diversos fragmentos, cuja totalização não se faz a partir dos elementos dados, e sim por meio da referência a um universal, a um elemento transcendente que remete para fora daquilo que é apresentado. No exemplo citado, a idéia de justiça é o que confere sentido às partes venda, balança e espada apresentadas.




Trabalhando artisticamente com a arbitrariedade alegórica, o alegorista benjaminiano retira os objetos de sua localização histórica habitual e lhes confere, no novo contexto, um significado material diverso do originário. O objeto é extraído do seu contexto e esvaziado de sua significação habitual, morrendo para poder renascer.




Através da alegoria benjaminiana, a realidade é desmontada e reduzida a fragmentos e cada um destes fragmentos pode receber uma nova significação.




Essa disjunção entre o significado e o significante, ou seja, entre o conteúdo que se expressa e a forma como se apresenta, é característica do procedimento alegórico.




No século XX, o mundo, mostrando-se cada vez mais dilacerado pelo capitalismo, tornou difícil a visão de conjunto da realidade. O artista, por sua vez, sentiu necessidade de elaborar uma obra tão fragmentária quanto esse mundo para compreender a sua própria realidade. Neste contexto, a alegoria, por recusar a totalização e o fechamento de sentido, por permitir múltiplas significações, polissemias e ambigüidades, por jogar com montagens e remontagens do sentido, mostra-se como o procedimento ideal para se construir uma obra aberta.




Com isso o alegorista retoma temas e obras do passado, desloca-os para a sua realidade, explora ângulos até então desprezados e emite juízos de valor através de digressões oblíquas, procedendo à uma nova leitura de seu mundo.




Ao efetuar essa leitura oblíqua do mundo, o alegorista procede à leitura hermenêutica do mundo, à divulgação de um conhecimento aproximativo do real, que nunca esgota as verdades possíveis.




Walter Benjamin, ao proceder à leitura hermenêutica do drama barroco alemão, fala da morte para designar a vida, descreve a vida como caducidade para expressar a certeza da morte, descreve a miserabilidade do homem para louvar a grandeza de Deus. Com isso, decompõe o elemento humano a uma imagem diminuída e estilhaçada, mostrando que:






"Cada pessoa, cada coisa, cada relação pode significar qualquer outra. Essa possibilidade profere contra o mundo profano um veredicto devastador, mas justo: ele é visto como um mundo no qual o pormenor não tem importância." (Benjamin, 1984, p.196-7)




Com isso, Benjamin confina o homem a um plano inferior e dá às coisas o papel principal; intercambia os detalhes e pormenores, tendo como medida a arbitrariedade do artista.




Para a crítica, discutir a questão da alegoria e do símbolo é discutir o confronto entre duas formas de representação artística.




Se a alegoria encontrou em Walter Benjamin um de seus principais defensores, encontrou também em Lukács um de seus principais opositores.




Se a alegoria fala do "outro", o símbolo, do grego sym, significando "conjunto" e balleim, significando "colocar dentro", procede à junção entre o significado e o significante, integrando-os numa unidade harmoniosa, procurando expressar o significado imediatamente, de maneira definitiva e completa e sem a necessidade de um "outro" elemento representativo da idéia que se quer expressar.




O argumento que os adeptos do símbolo defendem é que na alegoria o significante não está unido ao significado, não está a seu serviço para expressá-lo de maneira definitiva e completa. Se retomarmos o exemplo da justiça, as partes justapostas só ganham sentido quando referidas à idéia abstrata. Já no símbolo, estes mesmos adeptos vêem, contrariamente, uma integração, uma imanência, uma fixação de sentido que se contrapõe diretamente à sucessão alegórica. Nele, o conceito de idéia abstrata não está separado em partes, o universal e o particular estão unidos em perfeita harmonia, formando uma unidade coesa, realizando-se de forma imediata, sensível e harmoniosa de construção de sentido.




Pelas razões acima apresentadas, considerando a visão da alegoria benjaminiana e do símbolo lukácsiano, temos, objetivamente, que a alegoria exprime o particular no universal, enquanto que o símbolo exprime o universal no particular e que é nestes termos que reside a oposição de um ao outro.




Com isso, alegoria e símbolo permanecem na história da arte como duas maneiras contrapostas de expressão.




No Memorial, Saramago trabalha com metáforas continuadas e, assim sendo, ordena os elementos narrativos a uma figuração seqüencial, a uma representação que nunca se fecha, nunca se totaliza e que trabalha com fragmentos de uma estilhaçada realidade barroca. Nestas circunstâncias, uma vez serial, pluralista, polissêmico e aberto, dizendo uma coisa para exprimir outra, o procedimento alegórico utilizado por Saramago na construção do Memorial faz desta obra, ao nosso ver, um enigma aberto a infinitas significações. Retira os objetos de sua localização histórica habitual, no caso, o presente do leitor e lhes confere, no novo contexto, o Barroco, um significado material diverso do originário. O objeto é extraído do seu contexto e esvaziado de sua significação habitual, morrendo para poder renascer. E renasce para uma leitura crítica e oblíqua da realidade autoral.




6. Conclução




Ler o Memorial, as digressões do autor e as inquietações de suas personagens é, muitas vezes, ler os dias atuais e as nossas inquietações.




Logo, Saramago vale-se do outro, o Barroco, para dizer o este, ou seja, o presente.




Através de um texto plurissignificativo, com traços construtivos de procedimento alegórico benjaminiano, a realidade, no Memorial, é desmontada e reduzida a fragmentos e cada um destes fragmentos pode receber uma nova significação.




Esta disjunção entre o significado e o significante, entre o conteúdo que se expressa e a forma como se apresenta, é característica do procedimento alegórico. Para Benjamin, este procedimento poder ser entendido, e para Saramago ele pode ser utilizado, como expressão semelhante à linguagem e à escrita.




Em virtude desse procedimento é possível entender o Memorial como uma multifacetada representação do que é opressão e do que é busca da liberdade. Uma liberdade material e espiritual que se encontra idealizada em todas as épocas e que, em particular, no Memorial, permeia a vida de um corpus que, tipologicamente escolhido, representa toda uma sociedade, toda uma época.




Com o encontro de Baltasar e Blimunda o autor finaliza a narração. Porém, é então que, no íntimo do leitor, a história começa.







Referências Bibliográficas




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BENJAMIN, Walter, (1963). Origem do drama barroco alemão. São Paulo: Brasiliense.




CHEVALIER, Jean, (1989). Dicionário de símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio Editora.




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KAUFMAN, Helena, "A metaficção historiográfica de José Saramago". Colóquio/Letras, n. 120 (1991), p.124-136.




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SARAMAGO, José, (1999). Memorial do Convento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.




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WHITMAN, Jon, (1987). Allegory: the dynamics of na ancient and medieval technique. Massachussets: Harvard University Press.








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