sábado, 15 de agosto de 2026

(76) A dialética, o SØNHA e a Liberdade nos muros da Polis

 


SØNHA - Setúbal (adro da Igreja de N. Sra da Anunciada)  Foto victor nogueira GEDC0573

* Victor Nogueira / Gemini

«A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.»Eduardo Galeano

«Eles não sabem que o sonho / é uma constante da vida / tão concreta e definida / como outra coisa qualquer (...) - António Gedeão (Pedra filosofal)

Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
- Sérgio Godinho (Liberdade)
 

Há intervenções urbanas que se esgotam no primeiro olhar e na facilidade do slogan. Outras, porém, com escassos traços e poucas palavras, conseguem convocar séculos de reflexão. É o caso deste mural numa parede em Setúbal.

À primeira vista, o olhar é capturado pela composição central: uma nuvem azul desenhada em traço negro, semelhante a uma nave es+acial, atravessada por uma escada que parece dar acesso a um alçapão escuro no meio do céu, e, logo abaixo, o imperativo categórico — SØNHA.

Mas o detalhe que rompe com a leitura imediata começa na própria grafia: o ‘Ø’ riscado, rasurado ou nórdico, que desassossega a palavra e impede uma apropriação ingénua do verbo. Não se trata apenas do "sonha" doce da publicidade ou das frases de autoajuda comercial. A este detalhe somam-se as pequenas inscrições secundárias no canto inferior da parede — frases e estênceis discretos que descentram a atenção e exigem do transeunte uma aproximação atenta, menos apressada e mais reflexiva.

É justamente no diálogo entre esses elementos que se instala a dialética do muro:

  • O Muro como Prisão e Suporte de Liberdade: Na sua essência, o muro é um limite físico, uma barreira, a encarnação da divisão e até da própria prisão. Contudo, pela via da arte urbana, essa mesma estrutura opressora subverte-se e transforma-se na folha em branco onde se inscreve a liberdade. A parede que veda torna-se a superfície onde se rasga e afirma o direito de pensar, contestar e sonhar.

  • O Vetor Vertical (O Sonho e a Utopia): A nuvem e a escada remetem-nos para o imperativo poético e libertário. É o eco de António Gedeão — para quem o sonho é o constante motor da vida — e de Eduardo Galeano, quando nos lembra que a Utopia serve precisamente para isso: para nos fazer caminhar. O SØNHA aponta para cima, para o ar, para o desejo de transcender a alvenaria e o quotidiano.

  • A Ancoragem no Chão (As Condições Materials): Todavia, a escada assenta numa parede concreta e o grafito inscreve-se na textura física da cidade. Duas frases pontuam o mural «A liberdade é um crime que contém todos os crimes» e «A utopia é um horozonte» As frases contradizem-se, abrindo caminho a leituras mais complexas e menos lineares.  Aqui surgem os advertências de Saint-Just. em 1789,(Só não há liberdade para os inimigos da liberdade) e o realismo do materialismo histórico e da canção de Sérgio Godinho (— a lembrança inequívoca de que não há liberdade nem sonho sem paz, pão, habitação, sem emancipação real sobre o chão que pisamos. 


Vila do Conde, Avenida Atlântico / Rotunda dos Fundadores  - Sonhe alto! - Lucky Luke. criação de Morris e  Goscinny (Foto victor nogueira 2022 12 28 IMG_1707)

Esta reflexão sobre a dialética do sonho nos muros da polis ganha um fôlego complementar com um grafito estilisticamente distinto, mas tematicamente convergente,  em Vila do Conde.

Neste outro mural, a abordagem é figurativa e pop. Uma figura caricata, de traços estilizados e olhos arregalados, com um boné para trás e um lenço vermelho ao pescoço, emerge de uma amálgama de grafitos e tags de cores vivas. Trata-se de  Lucky Luke, o famoso "cowboy que dispara mais rápido que a sua própria sombra," criação genial do artista belga Morris.e de opscinny

A sua presença aqui é duplamente subversiva. O herói do Velho Oeste, conhecido pela sua frieza e precisão no gatilho, aparece reestilizado e como porta-voz de uma mensagem de esperança. Da sua boca sai um balão de fala perfeitamente delimitado que, de forma inequívoca, nos lança o desafio: "Sonhe alto!".

Embora este grafito de Vila do Conde pareça mais directo e lúdico do que o "SØNHA", de Setúbal, a essência do incentivo é a mesma. Ele reitera o vetor vertical — o imperativo de não se contentar com o raso. A figura do Lucky Luke, com o seu ar de espanto e determinação, parece ter acabado de receber essa epifania. A própria disposição das letras no balão de fala conferem-lhe uma energia vibrante.

Assim, os muros da polis, de forma mais poética e dialectica ou mais vibrante e directa, afirmam-se como espaço onde a liberdade se pode  manifestar, Eles mostram que o sonho e as condições materiais para o realizar não se anulam; encontram-se ali, ao alcance de quem passa e se dispõe a ler o que as letras da cidade nos gritam em silêncio.

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