sábado, 26 de setembro de 2026

José Pacheco Pereira - Onde aprendeu George Orwell

* José Pacheco Pereira

No Portugal de hoje, como um pouco por toda a Europa e, em particular, nos EUA, esta “polícia do pensamento” funciona 24 horas por dia.

A  palavra propaganda é hoje uma palavra maldita, em parte pela sua história passada, em parte por hipocrisia. Hoje, chama-se marketing, que é, no essencial, a mesma coisa. É encomendada, paga, difundida por empresas especializadas em manipular a informação, por serviços secretos, por agentes políticos, por aquilo a que se chama "agências de comunicação". Não há nada que chegue às paredes das ruas, aos sites de classificação de restaurantes, aos comentários das redes sociais pagos e não pagos, por clubismo ou proselitismo, aos influencers, que não exija uma rigorosa verificação. Sítios no YouTube com pequenos filmes e comentários políticos, gritos e saltos no TikTok, roupa, maquilhagem, venda de casas com fotografias magníficas de casas sem janelas, apostas desportivas que vivem da adicção como as drogas duras.


Este é o nosso mundo e não vale a pena dizer que foi sempre assim, porque foi e não foi. A parte do "não foi" tem que ver com vários fenómenos sociais dos nossos dias: a equiparação entre mentira e verdade, o incremento da ignorância agressiva, a crise das relações interpessoais, de vizinhança, associativas, de grupo de interesses, a favor de uma nova forma de solidão dependurada num ecrã numa educação pela confrontação, pela redução do vocabulário circulante que torna a expressão um ruído gutural, tudo isso resulta de um upgrade tecnológico que potencia um mundo de individualismo pobre e de fácil manipulação. Fragmentos disto sempre existiram, estão na origem de muita violência, subjugação e pobreza, mas nunca tiveram a dimensão que as novas tecnologias lhes trazem.

O primeiro a perceber este caminho foi George Orwell. Tinha duas fontes na sua aprendizagem. Primeiro, como combatente num grupo trotskista na Guerra de Espanha, viu o estalinismo em acto na sua dimensão "total", totalitária. Mas o que acrescentou a essa experiência foi mais longe e mais relevante para os nossos dias: a sua experiência na BBC durante a guerra com a propaganda "negra" e "cinzenta". No 1984 percebeu várias técnicas associadas ao Big Brother, uma delas o valor da televisão que via dos dois lados, o que remete para a omnipresença da vigilância nos dias de hoje.

Nos dias em que Trump proíbe jornalistas de aceder à Casa Branca e inicia um canal de televisão, a "Trump TV", encontramos o equivalente às proclamações do Big Brother e à sua mais eficaz "polícia do pensamento". Essa "polícia do pensamento" ligada a partidos responde de imediato com centenas de comentários e insultos a qualquer desvio da norma nas matérias sensíveis, como imigração, segurança, questões de género, LGBTI+, etc. O seu funcionamento entre amador e profissional transforma em "casos" essas fugas ao pensamento tido como o do "povo", e imediatamente pede retaliação e resposta, livros a proibir em bibliotecas escolares, perseguição a professores, denúncia de opiniões, cancelamentos. Comportamentos deste tipo, que existiam com força no mundo woke, estão hoje debilitados pela eficácia das guerras culturais, mas estão pujantes na extrema-direita. No Portugal de hoje, como um pouco por toda a Europa e, em particular, nos EUA, esta "polícia do pensamento" funciona 24 horas por dia.

Orwell tirou a figura do Big Brother e o papel do "partido" da experiência estalinista, assim como vários exemplos daquilo a que chamou doublethink, em que paz significava guerra, mas o apogeu desta duplicidade está nos dias de hoje. É a "operação militar especial" russa para encobrir a invasão da Ucrânia, são as "operações de combate no Irão" de Trump para não ter de pedir autorização ao Congresso, e é, de modo mais comezinho, aquilo que vendem as agências e assessores de comunicação aos governos e às empresas. Exemplos portugueses há muitos: por exemplo, quando o Governo de Passos Coelho anunciou "cortes" num dia e no dia seguinte passaram a "poupanças", ou quando a Câmara de Lisboa colocou cartazes com uma pura sugestão de falsidade, "Obrigado, Lisboa", que na realidade o Papa nunca tinha dito e pretendia significar que era Lisboa que agradecia.


 Um exemplar genuíno da revista Neptuno da Marinha inglesa em guerra; um exemplar falso feito pelos alemães – quando se abre é só navios ingleses afundados Arquivo Ephemera 

O exemplo do Neptuno falso é o modelo de centenas de filmes feitos por inteligência artificial que pululam nas redes, consumidos por um público que hoje não tem outra forma de "informação" e que se acha vítima daquilo que os trumpistas chamam "legacy press", a "bolha". 

As redes de Trump, como as de Ventura e de outros grupos menores, estão cheias destes memes e filmes falsos, que aliam a força da imagem à passagem de falsidades. São o espelho dos filmes iranianos em que navios americanos ardem sob os ataques de drones. As técnicas são as mesmas.

O que é preciso é agressividade na defesa da verdade, dizendo cara a cara "isso é falso", ou "isso é aldrabice". Fica tudo a tremer unilateralmente pela ousadia da resposta, mas, com as ruas cheias de mentiras, a gente encolhe os ombros.

Esta é a selva em que vivemos, com as democracias a responderem debilmente a estas ameaças. Políticos de plástico feitos já dentro deste contínuo político-mediático pensam que combatem estas tendências pagando a assessores e a agências para produzirem "conteúdo positivo", coisa que não sei o que é — ou melhor, sei: propaganda.

2026 Setembro 26

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