Não existe uma única fábula clássica intitulada universalmente "A Raposa no Galinheiro", mas sim diversas variações de Esopo e La Fontaine em que a raposa tenta enganar as aves de capoeira através da falsidade (como no conto A Raposa e o Galo).
1. Esopo: O Galo e a Raposa
Esta é a fábula clássica de Esopo que fundamenta a dinâmica de astúcia e prudência entre as aves e a raposa:
Um galo e várias galinhas estavam empoleirados no alto de um ramo de uma árvore alta, seguros de qualquer perigo.
A raposa, aproximando-se do tronco e vendo que não os conseguia alcançar, decidiu usar de astúcia e disse em tom amável:
— Irmãos, venho trazer-vos uma grande e feliz notícia! Foi decretada uma paz geral e universal entre todos os animais do mundo. A partir de hoje, as raposas já não comem galinhas, os cães não perseguem as raposas e os lobos vivem em harmonia com as ovelhas. Descei do poleiro sem receio e venham dar-me um abraço de fraternidade!
O velho galo, desconfiado e conhecedor da natureza do predador, respondeu do alto da árvore:
— Que excelente notícia nos trazes! Acalenta-me o coração saber que o mundo mudou tanto. Vou já descer para nos abraçarmos... Mas espera, vejo ao longe dois cães de caça a correr a toda a velocidade em nossa direção. Certamente vêm também festejar a notícia da paz universal. Esperemos por eles para celebrarmos todos juntos!
Ao ouvir mencionar os cães de caça, a raposa empalideceu e deu meia-volta, prestes a fugir.
— Então já vais embora? — perguntou o galo. — Não dizes que agora há paz entre todos os animais?
— Pois é, — respondeu a raposa enquanto corria — mas temo que esses cães ainda não tenham lido o decreto da paz!
Moral: A quem usa de falsa perspicácia para enganar os outros, responde-se com igual esperteza.
2. Jean de La Fontaine: O Galo e a Raposa (Livro II, Fábula 15)
La Fontaine versificou esta fábula de Esopo no século XVII, adaptando a lição moral à sociedade de corte e às aparências do poder:
Um galo velho e matreiro
Fazia a sua guarda em cima de um ramo.
— Irmão, disse-lhe uma raposa, abrandando o tom,
— Já não estamos em guerra;
Declarou-se a paz geral.
Venho trazer-te essa novidade.
Desce, para que eu te dê vinte abraços de fraternidade.
Não adies, peço-te;
Tenho hoje de fazer quatro léguas sem demora.
As tuas galinhas e tu podem a partir de agora
Fazer os vossos negócios sem temor;
Nós seremos os vossos irmãos.
Fazei acender fogos de alegria desde esta noite.
Entretanto, desce para receber o meu beijo.
— Amigo, respondeu o galo,
— Nunca poderia ouvir notícia mais doce
Do que esta da paz;
E ser por ti que a recebo
É para mim uma dupla satisfação.
Vejo dois cães de caça que vêm vindo,
Acho que são correios que nos enviam para este assunto.
Vão depressa, estão perto; vou descer,
Para que nos possamos todos abraçar.
— Adeus, disse a raposa, a minha viagem é longa;
Celebraremos noutro dia o sucesso deste tratado.
E a velhaca mete-se a caminho,
Muito descontente com o seu plano;
E o nosso velho galo riu-se do seu pavor,
Pois é um duplo prazer enganar o enganador.
A Ligação à Inscrição Urbana
Ambas as fábulas assentam numa premissa biológica e social imutável: a hierarquia entre a raposa (predador) e as galinhas (presas).
A frase do caixote de eletricidade em Setúbal - «As galinhas não comem raposas - funciona como a síntese realista dessa tradição fabulística: lembra que a natureza das coisas e as relações de poder não se alteram por meras palavras, exigindo sempre prudência perante as aparências.
3, Excerto de "O Romance da Raposa" (Aquilino Ribeiro)
Neste excerto do Capítulo II, a raposa Salpico (Salgada) usa da sua astúcia habitual para enganar ovelhas e pastores, demonstrando a vivacidade do texto de Aquilino:
«A raposa é o bicho mais manhoso que Deus deitou ao mundo. Não há trampa que não invente, nem velhacaria que lhe não lembre para se encher à custa alheia.
Pois a Salgada, vendo-se com a barriga a dar ao dente e sem tutano nas canelas, pós-se a filosofar à porta da toca:
— Se eu for pela força, apanho na cabeça; se for pela astúcia, almoço frango assado e ainda me rio do cozinheiro. O mundo é dos espertos, e os parvos estão cá para nos dar de comer.
E lá foi ela, pé ante pé, encolhendo as orelhas, com olhos de virgem tonta e modos de quem não parte um prato, direitinha ao plano onde sabia que o perigo e o farto repasto andavam de braço dado.»
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